domingo, 16 de janeiro de 2011

Palestina: Caça a bruxas imaginárias



A semana termina com o Brasil de luto pelas dezenas de mortes provocadas por desmoronamentos, ainda mais graves do que os do ano passado. É triste. Lamentável.
Na semana passada, enquanto o mundo estava distraído com Alexandria, ameaças de ataques terroristas e questões econômicas, sociais e políticas domésticas, o Knesset (Congresso de Israel) aprovou uma medida que aproximou o país dos EUA dos anos 50, quando um certo senador Joseph McCarthy tentou destruir a consciência ética nacional perseguindo toda e qualquer cabeça pensante e toda e qualquer voz que emitisse palavras que contradissessem suas ideias ultra-reacionárias.
O químico duas vezes nobelizado Linus Pauling e os cineastas imortalizados Orson Welles e Charles Chaplin foram alguns dos nomes entres as centenas que constavam da Lista Negra que privou o país da vanguarda artística, científica e literária da época. A lista foi ficando tão longa com a sede insaciável de que a ignorância predominasse que atingiu até o pai da bomba atômica, o herói nacional Robert Oppenheimer.
Como todo movimento de controle ideológico ou/e racista, o macarthismo não nasceu desvairado. Começou como quem não quer nada, ou melhor, como uma comissão patriota obcecada com a defesa nacional no período da guerra fria contra o comunismo soviético. Acabou como uma caça às bruxas ideológica que rivalizou em compulsão aleatória à vergonhosa Inquisição espanhola. E é a página mais negra da história da América do Norte. Não houve assassinatos diretos, como na nossa América, mas vários perseguidos se suicidaram e a evasão de cérebros e a queda da criatividade causaram muito estrago.
Daí o grito de alerta dos artistas, jornalistas e intelectuais liberais israelenses ao Knesset (congresso israelense) contra a comissão de inquérito “Kirshenbaum”, sobrenome de sua mentora membro do Ysrael Beitenu, partido de extrema direita cujo expoente é o Ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman – cujas ideias fascistas e discursos de incitação ao ódio e ao racismo são frequentes e incontrolados.
Esta comissão parlamentar, contestada inclusive por alguns membros do partido de direita Likud, anuncia um anódino inquérito das contas das ONGs mais atuantes na área de direitos humanos e de oposição à política de ocupação e colonização das terras invadidas por Israel em 1967 e sua expansão bulímica na Cisjordânia, assim como do sítio de Gaza e dos bombardeios intermitentes que a Faixa sofre do exército, IDF (Israeli Defense Forces) http://www.youtube.com/watch?v=5irjxfVCNV4.
A extrema direita ataca porque no fundo se sente acuada. A insatisfação da população jovem e progressista israelense é clara. Algumas das ONGs que a Comissão visa, como B’Tselem, Gosh Shalom, Bat Shalom, Yesh Din, Machsom Watch e outras organizações engajadas na paz nunca foram tão populares. Os sites Machsom Watch http://www.machsomwatch.org/ de vigilância dos check points e de Breaking the Silence http://www.shovrimshtika.org/index_e.asp em que reservistas contam sua experiência militar na Palestina, são constantemente acessados, e o Global BDS Movement http://www.bdsmovement.net/, de boicote ao “Made in Israel” está atingindo cada vez mais consumidores locais em relação aos produtos procedentes das colônias ilegais.
Sem contar que os adeptos ao movimento dos objetores de consciência – “Schiministim” (alunos do terceiro ano do segundo grau) tem aumentado bastante. Sobretudo depois que em 2008 Omer Goldman, filha de Meir Dagan, então chefe do Mossad (serviço secreto israelense) ter se distanciado do pai, se recusado a servir exército – presa duas vezes por isto, e suas palavras de Objeção terem inspirado muitos outros jovens nos dois últimos anos: “Acredito no serviço à sociedade da qual faço parte e é precisamente por isto que me recuso a participar de crimes de guerra cometidos pelo meu país. A violência não vai levar a nenhum tipo de solução e eu não vou cometer violência. Aconteça o que tiver de acontecer”.
Quem vai a Israel fazer negócio e lida com empresários em hotéis internacionais ou em locais reservados, não se dá conta que a sociedade move. Como no Brasil na época da ditadura que esmagava ideias e ideais enquanto sorria aos negócios e ao capital.
A extrema direita lá ameaça a democracia que é tão cara aos judeus liberais e estes temem que como o Macarthismo, a comissão Kirshenbaum seja a primeira de outras medidas de restrição da liberdade de ação e de palavra.
Desta primeira invectiva as ONGs não temem nada. “Que verifiquem nossas contas!” diz B’Tselem, “elas estão todas publicadas”.
O que elas temem é que a caça às bruxas que está começando com o pretexto de verificação de contas já públicas, seja apenas uma plataforma para ataques mais graves às ONGs, que da Esquerda engajada o ataque se estenda a toda voz de oposição e que Israel perca a alma.
Em julho do ano passado o jornalista Uri Avnery já tinha alertado: Hoje eles expulsam membros do Hamas, amanhã do Fatah, depois os palestinos de Jerusalém, e no fim eles tirarão a cidadania de todos os ativistas pacifistas de Israel e você também!
Hoje Uri lamenta em um artigo recente contra a prisão iminente do pacifista Jonathan Pollak o perigo de que Israel se transforme em um lugar ruim para viver, cuja face racista repila os judeus do mundo, em que a frase “a única democracia do Oriente Médio” que lhes é tão cara, acabe provocando risadas. “O verdadeiro perigo não é que Pollak e seus companheiros exprimam suas ideias em passeatas de protesto, mas sim que eles parem de se manifestar e vão procurar outro lugar no mundo em que o termo de liberdade de expressão não seja uma pretensão vaga.”
Aliás, nestes últimos 30 anos a guinada para a direita em Israel tem sido uma constante irrefutável. Inclusive de personagens da “esquerda” moderada tradicional, como é o caso de Shimon Peres, cúmplice ativo do programa militar, no qual se inclui o proibido fósforo branco (http://www.youtube.com/watch?v=MKgph9PV3SA), e da colonização ilegal, entre outros crimes de guerra ocorridos durante seu mandato presidencial.
O Partido Trabalhista reinou até 1977 e quando voltou ao poder no fim da década de 90 com Ehmud Barak, Ariel Sharon provocou uma intifada dos palestinos e manipulou sua ascensão meteórica à cabeça do Estado. Desde então, a política de ocupação da Palestina tem encabeçado as pautas e o Likud, que era a extrema direita fundamentalista que todos execravam, foi ultrapassado pelo Ysrael Beitenu (Israel nossa casa), uma direita mais racista, mais expansionista, mais violenta da que inspirou o assassinato de Ytzhak Rabin em 1995 por este buscar a paz. Lieberman e seus comparsas representam a antítese do que Rabin representava. Eles veiculam ódio, violência, opressão e nos últimos meses, repressão inclusive de seus concidadãos engajados.
Apesar deste saudosista do nazismo ganhar terreno – mais ainda entre os colonos, já que também vive em uma bela casa em terreno ocupado na Cisjordânia – ainda confio na força e na determinação de Jonathan Pollak – que não baixa os braços, de seus companheiros, de Omer Goldman e dos demais shciministim, e dos incansáveis israelenses que se juntam aos palestinos para denunciar pacificamente os horrores da ocupação, do muro, da colonização e para chamar o mundo ao boicote dos produtos das colônias – aliás, o último em data é contra os da exportadora Camel-Agrexco http://www.agrexco.co.il/en/home.asp.
Israel tem muita gente boa, de valor, humanistas, democratas que realmente acreditam que a única saída é a paz e ela só vai chegar com o respeito aos direitos dos palestinos. O cinema geralmente espelha a sociedade, seus males, suas idiossincrasias, suas vontades. O de Israel tem os alienados comuns a todos os países, mas tem cada vez mais cineastas e documentaristas engajados: Yoav Shamir http://www.yoavshamir.com/bio.asp, Eytan Fox http://www.imdb.com/name/nm0297202/, Hagai Levi, Eran Riklis http://www.imdb.com/name/nm0726954/, David Benchetrit entre tantos que junto com outros cidadãos do mundo vão conseguir que o lobby da violência se sufoque no boicote solidário – como contra a África do Sul na época do apartheid.
Artistas como Elvis Costelo, Santana, Massive Attack, Roger Walters, Brian Eno, Annie Lennox, Gil Scott-Heron, Gorillaz, The Pixies, Ken Loach, Mike Leigh, Jean-Luc Goddard, Meg Ryan e Dustin Hoffman já se recusaram a se apresentar em Israel. A lista tende a aumentar e se o esporte aderir, maior será o impacto.
Aliás, não seria nada mal que a participação de Israel na fase classificatória da “nossa” Copa do Mundo em 2014 fosse condicionada à permissão dos jogadores palestinos apátridas formarem um time e treinar como qualquer dos nossos jogadores que nascem em terra própria, têm direitos, passaporte e família que dorme em paz todos os dias sem temer que a casa seja derrubada ou, sem mais nem menos, bombardeada e que teto e vida desabem.
http://www.youtube.com/watch?v=fOHmk75F9bA

O calvário da jornalista Helen Thomas por criticar a ocupação 



PS. Falando em boicote lá no alto, fui comprar frutas e vi umas tâmaras lindas e apetitosas, mas estava escrito: origem, Jordão. Quando disse que não as compraria porque vinham das colônias israelenses nos territórios ocupados, a vendedora abriu um sorriso e disse que, naquele dia, eu era a quarta pessoa que recusava as tâmaras com as mesmas palavras! O boicote é mesmo uma arma pacífica eficaz. Pergunte a origem do que compra e não se deixe enganar: Jordão = Territórios Ocupados. Embora o rio fique na Cisjordânia, os palestinos não têm acesso a ele nem à sua água.



B’Tselem: http://www.youtube.com/watch?v=HlALXWV7eok
http://www.youtube.com/watch?v=8HgWGZbk1vA

Breaking the silence:
http://www.youtube.com/watch?v=LY7zi2E-x2Y
http://www.youtube.com/watch?v=HjjWU6ZRyLQ

Schiministim: http://www.youtube.com/watch?v=pNjggLhQo6w
Omer Goldman: http://www.youtube.com/watch?v=dpC6n98bQCw

2 comentários:

  1. Cara Mariângela, li seu"caça a bruxas imaginárias" com grande contentamento e simpatia. Estou testando a recepção, porque ontem e hoje tentei interagir em dois blogs e findo a redação, o contacto não aconteceu. Desculpe-me, obrigado e até logo, ou nunca.

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  2. Ôi, olha eu aqui, de novo. Certo que se eu estivesse ai, por ideologia e vocação estaria congregando com os Shciministim. Muitas das marcas da sua explanação são identificadas por mim, tal a afinidade que nos une.
    Vi muito, na internet e nas notícias, a tal frase,é a única Democracia naquela região, com uma pompa e distinção, como se fosse uma virtude divinal, capaz de ensombrecer a hediondez de todos os atos nefandos impingidos aos palestinos. Vejo uma replicância da Democracia padrão americana, para uso exclusivo intra-fronteiras, onde êles comem, e descomem dentro das fronteiras vizinhas. Na década de 50, que você destacou, em pleno McCarthysmo, a Guatemala, suserana como todas as repúblicas bananeiras do Caribe, bem servido de ditadores, foi laboratório inocente com inoculação de sífilis e blenorragia em prisioneiros, negros americanos levados ao palco, e meretrizes com acesso aos presos, alastrando essas doenças miseráveis, com alto índice de contágio por toda a cidade, para médicos-cientistas desenvolverem vacinas para seus cidadãos classe A. Assim. Além da moralidade, além da legalidade, além da religiosidade.
    Parabéns a Yeuda, a Omer e a Ytzhak, e pêsames por terem Ariel, shimon, Ehmud e Avigdor.
    Temo que mesmo com o apôio dessa juventude, os palestinos espoliados, só tenham de volta seus perdidos, por mêio de uma guerra enviezada, contra o Irã, com toda a empolgação de atores, de cada lado, e almejando que não haja armas nucleares. A ver.

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