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domingo, 25 de maio de 2014

A Índia e o galope do extremismo


Esta semana foi de campanhas e eleições por todo lado. A principal, que tem influência direta sobre os destinos de todo um continente, é a europeia. O Parlamento tende a guinar para a direita direita, se não for exrema. Perigo à vista. Os fascistas estão ativos em seu discurso populista e prontos pra dar o bote nas liberdades alheias.
A eleição na Ucrânia também é importante, bastante. Entretanto a garantia de Putin respeitar o resultado é um balde de água fria na fogueira gringa de briga. Portanto, o problema internacional tende a se normalizar, contanto que a União Europeia e os Estados Unidos respeitem a vontade das províncias de Luhansk e Donetsk e a independência já consumada da Crimeia. Depois o presidente eleito terá de administrar a crise, mas deve ser interna, como deveria ter sido desde o início; e não geopolítica.
No mesmo assunto, mas em outra frente de batalha entre Barack Obama e Vladimir Putin, houve a moção relativamente absurda apresentada ao Conselho de Segurança da ONU contra o governo da Síria e a óbvia reprovação da Rússia e da China. Questão relevante no absoluto, mas apenas no absoluto do xadrez geopolítico entre o Kremlin e a Casa Branca. Era claro que Obama usaria a Síria para atingir Putin e ele fez o previsível. Depois condenou o apoio do Presidente da Rússia aos crimes de Bashar el-Assad e a mídia caiu como um patinho no poço habitual dos dois pesos e duas medidas - Se não fossem os vetos sistemáticos dos EUA a todas as Resoluções da ONU contra os crimes de Israel na Palestina, o problema já estaria resolvido há décadas em vez da IDF (forças israelenses de ocupaçã) continuar a matar impunemente como acabou de acontecer durante as manifestações pacíficas no 66° aniversário da Naqba no dia 15 de maio. Pois é, 66 anos, já! E os abusos e a colonização prosseguem sem nenhuma intervenção contundente das Nações Unidas.
A Líbia, o Yêmen e o Egito também mereceriam consideração especial esta semana por causa de eleição e do ditador Sissi que vai se eleger com as cadeias cheias de presos políticos e de jornalistas.
Estou ocupada com o Papa em sua viagem menos diplomática e mais engajada do que a do Bento pelo Oriente Médio. Da Jordânia direto para a Palestina sem passar pelo aeroporto Ben Gurion de Tel Aviv! Jamais visto. De Amman para Belém e o reconhecimento do Estado da Palestina pelo Vaticano é feito em uma travessia de fronteira.
Estou preocupada com a Índia e o fascismo que anda à espreita na Europa e que acabou de sair vitorioso no maior paí da Ásia.

Um dos meus livros de cabeceira é o Der Mann ohne Eigenschaften - O Homem sem Qualidades, de Robert Musil. Livro que explica as circunstâncias em que o nazismo nasceu em 1865 páginas sem explicação didática e sim através de descrição das ocupações e preocupações da elite socio-intelectual europeia após a Primeira Guerra Mundial.
A obra magistral de Musil se distingue pela inteligência. Uma inteligência intrínseca, como na obra prima Der Zauberberg - A Montanha Mágica de Thomas Mann - que por sinal, já famoso com a Morte em Veneza e outros livros de sucesso recomendou por escrito o do colega austríaco quando soube que o editor não queria publicar o segundo volume do Homem sem Qualidades apesar dos elogios da crítica especializada. Ora, o público alemão que leu o primeiro volume de 818 páginas ficara chocado com o cinismo, a crueldade e a lucidez intelectual que emerge de página a página e fastidiado com a reflexão que exige cada parágrafo. Ainda bem que a editora acabou publicando a obra prima sem cortar nem uma linha.
O homem sem qualidades é Ulrich, alter-ego de Musil que é encarregado de pensar e pensa, pensa, pensa sem parar no contexto da época e na inteligência propriamente dita, da vida, da Áustria, do mundo e dos fatos, constatando com amargura que tanta elucubração mental sem ação só pode levar ao desastre, que no caso, foi Hitler.
(Em linguagem contemporânea, mudar o mundo em mesa de boteco em vez de agir para melhorá-lo com ações concretas individuais e coletivas só faz piorar).
A estória se desenrola entre 1913 e meados da década de 30, quando Viena reunia os maiores cérebros da Europa. Um dos assuntos discutidos e dissecados nas rodas sociais é um homem, Moosbrugger. Um prisioneiro que cometeu vários crimes atrozes e que mesmo assim suscita sentimentos ambíguos nesta elite intelectual estranhamente condescendente.
Tenho sentido na Europa e alhures uma alienação parecida quando não uma atração pelo extremismo de direita e suas teorias. Cá, de rigor incorruptível (Hitler vivia como nababo e também Mussolini!); acolá de ultra-nacionalismo exclusivista (que deu no genocídio fascho-nazista de milhões de ciganos, deficientes, judeus, oposicionistas).
E é aqui é que entra a Índia e seu novo Primeiro Ministro.

A filósofa alemã-estadunidense Hannah Arendt disse um dia que Even in the darkest of times we have the right to expect some illumination."  Na Índia está difícil.
A campanha eleitoral que levou Narendra Modi ao cargo de Primeiro Ministro foi a mais vergonhosa que o país viveu desde a primeira eleição nacional organizada em 1951.
Nada a ver com aquela primeira campanha esperançosa e entusiasmada de 1951 que levou ao poder Jawaharlal Nehru, descrita na pérola literária A Suitable Boy de Vikram Seth. O escritor indiano apresenta Nehru como um homem de consenso religioso e social: "The thought of India as a Hindu state, with its minorities treated as second-class citizens, sickened him." O país que Nehru queria construir era homogêneo em sua heterogeneidade socio-religosa. Um país em que todos, dos Dalits (intocáveis) aos muçulmanos aos hindus de classe média e alta tivessem lugar e fossem respeitados.
Mas isto foi a geração que se libertou da colonização britânica após a Segunda Guerra Mundial, recém-dividida e com um futuro nacional. 
A Índia de hoje é a dos arranha-céus, dos negócios milionários e do trem bala. Está classificada em 10° lugar entre as maiores economias do mundo (o Brasil é 7°) e é o segundo país mais populoso do planeta (1 bilhão e 200 milhões de habitantes) depois da China. Por isso era considerada, até a semana passada, a maior democracia per capita do planeta. Digo "era" considerada porque  Narendra Modi não é graça.
Nada a ver com Ghandi, cujo assassino disse que o matou porque ele era bonzinho demais com os compatriotas muçulmanos.
Nada a ver com Nehru que achava seu país flexível o suficiente para acomodar diferenças sem desavenças.
Modi acredita que os hindus são os "arianos" de seu continente.
Seres superiores de nascença e crença. A despeito do atraso de mentalidade que impede que a classe baixa usufrua da riqueza nacional e suba pelo menos um degrau da escada socio-econômica.  
Pois a corrupção que no Brasil nos revolta (embora muitos dos que criticam os políticos participem dela direta ou indiretamente corrompendo sem acharem grave o que fazem e sim uma condição sine qua non para levarem alguma vantagem), mas ela é fichinha perto dos nossos parceiros dos BRICs.
(Deve ser uma das doenças de novo rico, além da ignorância.)
Na Índia a corrupção é endêmica. Um pouco como na China, apesar dos chineses culturalmente já serem propensos a sempre levar vantagem. (Um colega maldoso que cobre a China diz que a primeira frase que os chineses aprendem a falar é "o que eu ganho com isso?" antes de dizer mamãe e papai.)
O indiano é diferente. É amável e prestativo com os turistas. É boa gente. Mas entre eles não se obtém nada sem propina e se entreajudam conforme a região de origem e o clã do qual descendem. As classes sociais são imóveis, portanto, a elite social é a elite econômica, tirando quem faz fortuna no banditismo explícito ou implícito - como por exemplo o de vender água "mineral" tirada direto dos rios imundos, fervida e "engarrafada" em garrafas recolhidas cá e acolá.
O Estado existe em seus poderes executivo, legislativo e judiciário, mas o exercício deste poder é relativo e discriminado. O país é governado em um desgoverno de economia informal e troca de favores.
A violência no país é imensa, com batalhas inter-gangues e inter-religiosas. Tantas que a imprensa internacional prefere falar sobre os narco-traficantes nas nossas favelas e nossos assaltos em vez de falar dos crimes cometidos em Mumbai e Delhi, frequentes demais. E talvez por acontecerem fora do circuito turístico-religioso e dos centros de negócio, devidamente lacrados e policiados para proteger a imagem.

Como se sabe, o próprio Primeiro Ministro recém-empossado é co-responsável por um derramamento de sangue terrível em fevereiro de 2002 em seu estado. Só pra lembrar. Saiu uma notícia que muçulmanos haviam incendiado um trem e matado 58 peregrinos hindus em Gujarat. A caça às bruxas começou em seguida. No estado inteiro hindus saíram pelas ruas à caça de muçulmanos e até o dia 15 de março mataram, estupraram e pilharam famílias apavoradas. As presas foram fáceis; mais de 2000 terminaram enterrados e centenas de famílias ficaram desabrigadas durante o ataque coordenado. Ficou confirmado que pelo menos dois secretários de governo entraram em contato com a polícia para que esta não agisse e o próprio Modi ordenou que os policiais deixassem o caminho dos assassinos livre.
A selvageria foi pública e assumida. Lembrou-me uma outra que havia testemunhado em 2004, em Ruanda, quando os Utus saíram à caça dos Tutsis em um processo de exterminação instigado pela rádio.
A barbárie foi a mesma. Vizinho contra vizinho e até dentro de famílias com casamentos mistos.
Apesar da distância geográfica e histórica, as características do ódio visceral e da represália bestial aproximou bastante os dois povos, o africano e o asiático. No Gujarat, hindus mataram crianças esmagando cabeças contra a parede como se fossem melancias e outras atrocidades captadas por repórteres e câmeras de televisão que chocaram o país inteiro.
Narendra Modi e seu secretariado foram investigados e é claro que negaram qualquer participação no evento macabro. Desde então as ONGs de Direitos Humanos, sentindo o perigo crescente, começaram a marcar Modi sob pressão. Denúncias e denúncias foram feitas e formalizadas judicialmente. Ele nunca foi condenado. Nem depois da revista Tehelka entrevistar políticos, empresários, funcionários públicos que lembraram, com vozes entusiasmadas, como eles mesmos mataram e estupraram muçulmanas com autorização de seus superiores hierárquicos.
Modi seguiu firme e forte. Apesar do programa fascista do RSS (Rashtriya Swayamsevak Sangh), e de Modi ter costume de retirar-se de entrevistas individuais e coletivas quando uma pergunta não lhe agrada, querendo ou não, ele agora é o capitão do navio Índia e pronto, está acabado. Perigo à vista em uma sociedade estratificada e compartimentada.


Por causa do trabalho, aprendi a gostar de filmes de Bollywood - tenho até ator preferido (Shahrukh Khan, que por sinal é muçulmano e não hindu e fez um filme ocidentalizado imperdível até para quem não aprecia a "breguice" bollywoodiana, My name is Khan), e leio com frequência livros indianos e aprecio muitos autores de lá, além do célebre Salman Rushdie.
Ambos prazeres começaram por obrigação.
O primeiro, para estar em fase com a população sobre a qual tinha de escrever e melhor conhecê-la através de suas distrações - indiano com cinema é igual brasileiro com novela das nove...
O segundo, a literatura, para entender o funcionamento da sociedade por uma ótica socio-político-quotidiano-familiar que para um estrangeiro é difícilmente acessível só com contatos pontuais até quando se entra nas casas, se entende as castas e se participa de eventos familiares.
Há vários autores e livros que descrevem bem a Índia e seus costumes, mas aqui só vou citar outro, além do Suitable Boy de Vikram Seth citado acima.
The God of Small Things, da grande Arundhati Roy, é uma jóia literária rara. Destas que já nascem clássicas. Além do esmero em relevar a importância das "coisinhas" que parecem sem importância e que podem mudar o curso da vida, a ativista indiana mostra muito bem o caldeirão de diferenças profundas que emprisionam e limitam os horizontes dos indianos.
A mentalidade dos indianos das grandes cidades evoluiu bastante nos últimos trinta anos, mas a modernidade física e econômica dos grandes centros urbanos empresariais e financeiros não se estende ao território nacional. Cada um conserva sua rixas sociais e religiosas ancestrais e há uma defasagem enorme entre o interior e as capitais. E apesar dos filmes bolywoodianos, não há uma cultura comum como a nossa.
Modi tinha um ano quando Nehru foi eleito. A eleição de 2014 que o levou ao poder é a décima sexta da história da Índia e a juventude que votou nele é desmemoriada, como parte da nossa "saudosista" de um período ditatorial tão letal ao Brasil em aspectos humanos e sociais.
As redes sociais foram preponderantes no voto desta juventude que aposta na teoria desintregrante de ideais fascistas como locomotiva de desenvolvimento e abundância.

Já falei por alto sobre a Índia em um blog sobre hidropolítica (26/09/2010) que aborda suas relações com os países vizinhos. E os jornais já cansaram de falar sobre as facetas negativas (o absolutismo religioso visceral) e positivas (a incorruptibilidade, passada, de Modi, apesar da campanha milionária financiada por... - o futuro dirá se fará a limpeza necessária na sociedade gangrenada).
Mas eu fiz questão de marcar a data deste evento inusitado - um fascista confirmado e declarado, porém escolhido para governar a maior democracia do mundo civilizado - porque acho que de tirando a questão Palestina, a curto, médio e longo prazo, geopoliticamente, a ascensão de Modi é uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento.
Modi começou a se interessar pelo RSS quando tinha 8 anos, quando entrou em um shakhas em Vadnagar. Foi lá que conheceu seu guru Lakshmanrao Inamdar, conhecido como Vakil Saheb. Modi não é fascista improvisado nem cooptado. É um fascista criado no fascismo, literalmente. Ele chegou ao alto da escada porque seu guru, Inamdar, o apresentou a Vasant Gajendragadkar e Nathalal Jaghda do BJP, líderes políticos proeminentes em Gujarat, responsáveis pela União do estado em 1980.
Seu casamento, como é de praxe na Índia, foi combinado cedo, quando ele tinha 13 anos, com uma menina da mesma casta Ghanchi. O casamento durou pouco por causa de seu espírito andarilho. O casal separou-se, mas o casamento não foi desfeito. Sem mulher e sem filhos, não "precisava" corromper-se (pois os corruptos e corruptores da Índia, como alhures, gostam de usar a família para "justificar" sua desonestidade).
Após a guerra com o Paquistão em 1971, a então primeira ministra Indira Ghandi fez um limpa na política em 1975 declarando Estado de Emergência e perseguindo seus oponentes. Aos 25 anos Modi entrou na clandestinidade e expandiu sua rede de relacionamentos.
Apesar de ter "infiltrado" o BGP por determinação do RSS em 1985 e ocupar o cargo de organizador do partido já em 1988, ele só chamou minha atenção mesmo em 1991. É de lá para cá que tenho seguido sua carreira porque vi quão envolvente e perigoso ele era para a Índia e para os países vizinhos.
Isto ficou claro que ele preparou a Ekta yatra (Jornada da Unidade) com uma eficiência meticulosa e tentacular. Daí por diante foi figura de proa na vitória do partido nas eleições estaduais em 1995, quando foi empossado na direção do partido e sua carreira estadual e nacional deslanchou rapidinho por ter sido enviado a Haryana e Himachal Pradesh, onde aumentou seus horizontes regionais e diminuiu ainda mais sua mentalidade.
Daí para virar Secretário Geral do BJP em maio de 1998 foi um pulo.
Eu raramente concordo com os diplomatas estadunidenses, mas sou obrigada a concordar com um deles que descreveu Modi como "insular, distrustful person who reigns by fear and intimidation".
Se tivesse de descrever a carreira de Modi só acrescentaria que ele não tem nada a perder. Nunca teve. E isto faz dele uma pessoa sem freios.
Ele é temerário e temido. Teceu sua rede de influência com linhas de pesca mistas incolores, de filamentos resistentes, firmes, invisíveis, da qual desvencilhar-se é missão quase impossível.
Ele lembra o primeiro ministro israelense Binyamin Netanyahu. A mesma dissimulação. A mesma ideia inabalável de ser de uma religião superior às demais. O mesmo desprezo por quem pensa diferente. O mesmo descaso pela opinião alheira. A mesma certeza de ter razão qualquer que seja seu erro. A mesma arrogância. O mesmo sorriso sarcástico quando os holofotes estão apagados.
Hitler inspira as ações execráveis de Netanyahu na ocupação e limpeza étnica da Palestina.
Hitler é o ídolo de Modi.
Mein Kampf é um livro reverenciado por indianos influentes e por muitos estudantes com futuro brilhante. Um escândalo.
Modi não foi eleito pela massa ignorante majoritária de classe baixa. Enfim, foi em termos. De voto induzido por promessas de investimento em estrutura básica, ensino, enfim, de melhora das condições de vida dos miseráveis que inundam a nação.
Modi foi eleito pelo capital dos 1%. Pela elite empresarial hindu tradicionalista.
Sua eleição substitui no imaginário indiano a figura pacifista humilde de Mahatma Gandhi pela figura altiva de Vivekanand. Hindu do século XIX obcecado em transformar seu país em uma "manly nation". Modi adotou até seu estilo vestimentário, que os ingleses chamam de dandyish pastel waistcoats.
Porte ilustre quando quando está na companhia da elite que o ajudou a chegar ao cime. Diante das massas, muda de pele como os camaleões e representa o papel convincente do comerciante de chá simples que "desafia as dinastias socio-políticas tradicionais que exploram os pobres".
Disfarces. Populismo nacionalista tacanha.
Ele está mais para Vivekanand e a ideologia do super-homem do Nietszche que inspirou Hitler do que para Madre Thereza que na miséria de Calcutta acudiu hindus, muçulmanos e siks indiscriminadamente.
Modi é dissimulado em todos os planos, até em sua relação com a imprensa. Basta ler os jornais indianos para ver o controle dos patrões (do círculo fechado dos 1%) sobre os artigos publicados. Vozes de jornalistas dissidentes têm sido caladas com ameaças de desemprego e coisas mais ou simplesmente removidas de cara. Ora, democracia tem limite! Neste caso de Modi, curtíssimos.
Embora Arun Jaitley, um dos líderes do BJP e ministro potencial de Modi, tenha mandado um recado para Obama "to see his party's anti-Muslim rhetoric as "opportunistic", a mere "talking point" and to take more seriously his own professional and emotional links with the US".
Palaras. Palavras. Os atos já foram comprovados e virar a casaca não é mudá-la.
Pela pirmeira vez na História o Primeiro Ministro do Paquistão estará presente à posse de um Primeiro Ministro da Índia. E depois os dois homens vão conversar de portas fechadas.
Portanto, saber-se-á logo se Modi pretende enfrentar ou conciliar com o vizinho.
Quanto às oligarquias milionárias que controlam as finanças indianas, são todas estreitamente ligadas a Wall Street e consideram Nova York sua segunda  e às vezes primeira casa.
Com o apoio delas Modi já ganhou e só tem a ganhar ainda mais se continuar servindo seus interesses. A Índia, só Deus sabe. As minorias devem ser prejudicadas.
Enquanto a elite hindu estiver de braços dados com Washington, os cristãos vão estar ao abrigo de ataques extremistas, pelo menos os organizados. Mas a caça às bruxas quando começa vira bola de neve, como se sabe.
Resta esperar que Narendra Modi troque de casaca para uma mais tolerante e moderna. Não custa sonhar.


Retrato de Modi por Phoebe Greenwood, The Guardian: Link to video: Who is Narendra Modi?

Arundhati Roy define Narendra Modi (6')
Arundhati Roy explains why India is a corporate Hindu State (10')

Documentário indiano de Sanjay Kak
Mati Ke Laal - Red and Dream (1h60') 

Documentário indiano de Rakesh Sharma
Final Solution (2h30)



domingo, 10 de outubro de 2010

Mausoléus e Edificações


À massa, tão numerosa e tão necessária de tantos aquedutos, como comparar as pirâmides egípcias que não servem para nada ou as obras dos gregos, inúteis, porém célebres!
Esta frase que diferencia o mausoléu de um monumento notável poderia ser minha, mas se fosse não teria a mesma autoridade de quem a escreveu no fim do primeiro século. Sextus Julius Frontinus, Curator Aquarum imperial do ano 97 até 104, um tipo de senhor das águas na Roma antiga, a teria repetido várias vezes com a mesma indignação antes de escrevê-la para as gerações futuras.
Das Sete Maravilhas do Mundo conhecido na antiguidade – Pirâmide de Keops, Jardins suspensos da Babilônia, estátua de Zeus, templo de Artêmis, mausoléu de Halicarnasso, Colosso de Rodes e Farol de Alexandria, a única que sobreviveu às catástrofes naturais foi a Pirâmide de Giza. E esta ficou fora das Sete Novas Maravilhas. Frontinus deve ter sorrido desta ironia da história, embora seu critério de utilidade continue fora das pautas.
Neste espírito utilitário que Frontinus inspira, das Sete Novas Maravilhas, o Taj Mahal, em Agra, é uma obra faraônica que em vez de me extasiar arrepia. No estado em que está situado, o Uttar Pradesh com seus 175 milhões de almas, o que sempre me tocou foi a política racista e reacionária que inspirou atos de violência intercomunitária e que levou à organização gradual dos sem casta até a ascensão da advogada Mayawati, candidata do partido Dalit (os intocáveis) à chefia do ministério de um estado em que 57% das mulheres são totalmente analfabetas. As que só desenham o nome não são contadas.
Aliás, a espiritualidade que atrai os turistas à Índia (como ao Brasil são atraídos por nossa cordialidade), embora intrínseca, do ponto de vista jornalístico parece um mito distante da realidade deste país recordista de conflitos inter-religioso-raciais e inter-estados. Estes últimos, além das rixas anteriores à unificação do país, também por causa da distribuição desigual da água.
O nosso Cristo Redentor faz parte do clube restrito e vela pelo Brasil inteiro do litoral do Rio de Janeiro desde 1922. Imponente e apaziguador com seus braços abertos em um abraço protetor.
Na Ásia tem outra Nova Maravilha que é a Grande Muralha da China. Construída, destruída e reconstruída entre os séculos III AC e II DC e chamada wàn lǐ chángchéng, o que significa literalmente Grande Muralha de Dez Mil lǐ – uma medida infinita. A parte mais turística data da dinastia Ming, já que com a mobilidade fronteiriça o país ergueu e desmantelou várias ao ritmo das guerras expansionistas bem e mal sucedidas.
Na Muralha, a jornalista em mim rememora estas batalhas consecutivas que constituem a história do que a China é e que revelam bastante o temperamento que vigora. Ela me impressiona tanto quanto qualquer outra fortificação, mas o que me emociona ao vê-la é a lembrança dos dez milhões de homens mortos em gerações consecutivas por senhores de guerra que nem conheciam. Talvez tenha sido por isto que durante a Revolução Cultural Maoísta (1965-1969) seus oratórios e monumentos foram desmantelados e as pedras usadas em chiqueiros. Uma desforra póstuma aos dinastas ambiciosos que não deixa de ser um desacato à memória do sacrifício humano que as pedras cobriam.
O Oriente Médio, dominado por conflitos intermináveis, ocupações ilícitas e águas desviadas, contaminadas e confiscadas, também tem sua Nova Maravilha na Jordânia. Entre as três, para mim a única que vale a viagem é esta - Petra, a cidade de pedra, viva. Tudo nela é admirável. Da história ao sítio magistral entrevisto passo a passo pelo Siq, a longa fresta que encaminha a magia a nossos sentidos e olhos.
Sua história merecia um artigo, mas neste a restrinjo à época em que a Cidade Rosa foi capital nabatéia durante dois séculos faustosos (os primeiros AC e DC) e após enfraquecer devido a repetidos ataques foi esquecida até ser redescoberta em 1812 por um explorador suíço. No Antigo Testamento, Moisés, na travessia do Egito, ao passar por Petra bateu o cajado e do rochedo saiu uma fonte que matou a sede dos israelitas a caminho da tomada da Palestina.
Mas o oásis da cidade não tinha nada de místico e o que me impressiona no sítio é a proeza técnica dos nabateus contra a erosão e seu sistema hidráulico. Atualmente as camadas freáticas de água salgada ameaçam a cidade, mas no período nabateu, ela era doce, pluvial e recuperada com facilidade graças à impermeabilidade das rochas. Os habitantes dispunham de água à vontade, fornecida pelo sistema de recuperação e estocagem ainda visível, assim como as barragens hidráulicas e os preciosos aquedutos cujo sistema avançado só tinha um rival, e qual!
Era este o calcanhar de Aquiles da jóia árabe. Foi aí que os romanos, especialistas no assunto, a dominaram. Após um sítio interminável, cortaram os aquedutos e a rendição não tardou a chegar. É o famoso poder bélico da água enaltecido por Frontinus no livro III de sua obra Estratagemas (Maquiavel a leu e releu várias vezes...) em que um capítulo inteiro é dedicado aos desvios dos rios e à contaminação da água para subjugar um adversário irredutível - como os israelenses fazem com os palestinos nos territórios ocupados.
Este é o mesmo Frontinus revoltado com a subestimação dos aquedutos e sua real contribuição à humanidade. Como dizia o poeta lusitano, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Apesar de suas contradições, o cônsul romano deve ter ficado indignado com a quarta Maravilha, escolhida na cidade dos onze aquedutos e do complexo hidráulico até hoje admirado. Como se sabe, nossos contemporâneos escolheram o Coliseu, palco de inúmeras crueldades, em vez de uma das 286 ruínas - Argélia, Alemanha, Espanha, França, Grã-Bretanha, Grécia, Israel, Itália, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, Turquia e Tunísia - das centenas de aquedutos de superfície que os romanos construíram.
Portanto, espero que não se importem que eu conclua as Novas Maravilhas sem falar nas duas últimas situadas na nossa América Latina - Chichén Itzá, no Iucatã mexicano, e o peruano Machu Pitcchu admirável. Preciso de espaço para celebrar a água e a inventividade que ela suscita.
A Maravilha que me maravilha é a mesma que maravilhava Frontinus. Os aquedutos romanos que nem concorreram ao título, embora tenham sido construídos pela mão do homem para lhe ser fonte de vida.
Edificados em profusão em Roma e nos territórios anexados para que as populações locais usufruíssem plenamente de seu potencial hídrico, tinham importância ímpar no encaminhamento de água pública. A história conta que durante a administração de Frontinus, as pestilências foram totalmente removidas, Roma ficou mais limpa, o ar ficou respirável e a água potável. Embora fosse matemático, seus escritos demonstram um bom conhecimento hidrológico e este foi bem utilizado.
Como é impossível citar todos os aquedutos localizados dentro e fora da Itália, ou seja, no vast Império Romano, é melhor nos atermos a Roma e resumirmos o sistema simples e sofisticado.
Ao longo do império e com o crescimento da população, onze aquedutos foram construídos na capital a fim de alimentar os banhos públicos, as fontes e as residências. A água de melhor qualidade era reservada ao consumo humano e a de segunda qualidade aos banhos, conectados diretamente à rede de esgoto subterrânea na qual a água corria continuamente, evitando a obstrução dos canos. Parece que as casas, inclusive dos ricos, não eram conectadas à rede e tinham de se virar para evacuar seus detritos.
Com a história e a promoção de impérios com outras prioridades, os aquedutos foram sendo abandonados ou destruídos por conquistadores de passagem que elevavam monumentos sem trazer melhoramentos para os povos dominados, quando não apenas devastavam. Mas o que resta dos aquedutos continua às vistas de quem viaja pelo império extinto.
Para os curiosos, o fim da Cloaca Maxima, rede de esgotos romana, ainda é visível no rio Tibre, na altura das pontes Rotto e Palatino. Foi sob uma delas que São Sebastião foi despejado pelas águas do esgoto em que tinha sido jogado após ser executado duas vezes pelo imperador Diocleciano em 288. Seu corpo foi resgatado do rio e está enterrado na Basílica Apostolorum em Roma.
Mas se antes de virar flecha ao alvo São Sebastião tivesse tido tempo de ditar testamento, talvez tivesse proibido seu enterro, como Frontinus proibiu o seu com uma frase que golpeia muito narcisista inseguro que confunde mausoléu com edificação de vulto: O gasto com um monumento é supérfluo. A memória do meu nome durará, se minha vida tiver sido digna.
Aquedutos

Taj Mahal

Grande Muralha

Petra

Cristo Redentor

domingo, 3 de outubro de 2010

O Indo e o Ganges no olho do furacão indiano



No fim do Império Britânico das Índias, o líder da Liga Muçulmana negociou com a Inglaterra a criação do Pakistão, um acrônimo das províncias que o compõem – Punjab, Kashmir, Sindh, Baluchistão – e que também significa País dos Puros.
Sem atropelos até então, a independência deu a luz em 1947 à Índia laica e ao Paquistão dividido em duas partes distanciadas, com línguas distintas (urdu e bengali) e a mesma base religiosa. A Ocidental é o país de agora. A Oriental adquiriu autonomia em 1971 com o nome de Bangladesh.

A outra coisa que os “Pakistão” tinham em comum era e é a dependência dos grandes rios que nascem no Himalaia e passam pela Índia antes de os alcançarem.
A criação da SAARC (South Asian Association for Regional Cooperation www.saarc-sec.org/) não resolveu nada, pois esta privilegia ações comerciais e exclui os problemas controvertidos de partilha da água.
No caso do Paquistão, o problema é o Indo que, como já disse, passa pela Caxemira a caminho da foz no Mar da Arábia. Mas omiti o papel do rio neste país rasgado entre a Índia que tem uma sede insaciável de hegemonia regional e o Paquistão, sobre o qual pesa uma ameaça de desastres provocados pelo aquecimento global.

Ontem recebi um email pedindo esclarecimento sobre a situação hidropolítica da região e resolvi retomar o fio a partir das dezessete províncias que constituíam a Índia britânica.
Doze delas ficaram na Índia, três delas ficaram no Paquistão, duas (Punjab e Bengala) foram repartidas entre ambos, e a parte paquistanesa da Bengala, ficou no Bangladesh. A Birmânia já voava com suas próprias asas.
Vou poupar-lhes as quatro guerras e os conflitos que perduram entre os três países para focar nos problemas que o Indo e o Ganges geram. Ou melhor, protagonizam por intermédio alheio.

Comecemos pela Caxemira onde eclodem. Paradoxalmente, esta é uma das regiões mais bonitas e tranquilas que conheço. A mistura de árvores, montanhas, rios e lagos é uma celebração da natureza no que ela tem de mais rico e perfeito. Na superfície.
Com intermitência, ela continua sendo palco de disputas Indo-paquistanesas que nos últimos sessenta anos têm separado violentamente famílias e amigos. Como acontece em todo país rasgado e ocupado.
O retrato dos dramas humanos que a disputa Indo-paquistanesa encadeia está dentro das casas, nas fotografias cortadas e nas histórias contadas quando os corações partidos se abrem.
Sua capital Srinaga está na área indiana.
Seus lagos que lhe valem o apelido de Veneza oriental são de uma beleza tensa e calma. Abriga ruínas de grande riqueza cultural que valem a pena ser visitadas - apesar da incerteza política em que o país está atolado, é preciso que o destino esteja traçado para sucumbir a um atentado.
Ao contrário do que Hollywood veicula, nenhuma guerra é contínua. Só bombardeios, já que o bombardeador é revezado e só a vítima é atacada.
Na Caxemira não é o caso. Os conflitos armados são pontuais e o país almeja a paz.
Por que então esta disputa desenfreada?
Por que não cumprir a resolução da ONU de 1949 e retomar o processo de referendum há poucos anos relançado e interrompido?
Pois os nativos querem a liberdade de circular por todos os lados sem medo de bombas explodirem e de balas ricochetearem em suas portas e em suas caras.
A resposta (como no Tibete em relação ao outro gigante asiático) é simples e complicada: seus recursos naturais. A região parece um oásis com a natureza quase intacta e a água brotando, potável. E a água volta à pauta... Aqui é a que rola no Indo e os afluentes que abastecem os dois beligerantes que cobiçam o país dos lagos.
Como a China, a Índia tem a supremacia e o Paquistão, apesar de sua bomba atômica, sabe que a curto e longo prazo corre dois riscos letais. Ou morre afogado por inundações causadas pela natureza revoltada ou morre de fome e de sede... caso a Índia resolva por um ato de guerra, de provocação ou de mero desprezo, bloquear os rios que regam o Punjab, o Sindh, e o Paquistão inteiro.

Os paquistaneses ainda não esqueceram o dia 1° de abril de 1948. Neste dia se encontraram com rios esvaziados pelo gigante zangado. À míngua de água, protestaram e acabaram conseguindo um acordo provisório mediado pelo Banco Mundial. Em 1960 o Indus Water Treaty (http://go.worldbank.org/WHGZVDDCB0) foi assinado entre os dois países, mas as construções de barragens e desvios de água continuam provocando atritos. São assuntos que não saem das pautas dos ministérios das relações exteriores de Delhi e Islamabad. E na dos jornalistas, a eventualidade de um sério conflito armado caso o fluxo do Indo realmente seja reduzido (previsões de 50%) pelo aquecimento global.
Por sorte os Estados Unidos mantêm boas relações com ambos os lados. Aliás, o Paquistão é a bola da vez desde 2001 e a caça a Ben Laden.
A Índia desfruta do respeito ganho com o selo de potência econômica emergente (embora seu crescimento lembre o tal “bolo” que o Delfim Neto cozinhava na década de 70 acompanhado do “Ame-o ou deixe-o” dos nossos generais enquanto o povo brasileiro só salivava) e o Paquistão leva a vantagem da vizinhança com o Afeganistão ocupado. Caso contrário, talvez a água por lá já estivesse toda avermelhada.
O outro vizinho que paga caro o inchamento econômico indiano é o Bangladesh, cujo presidente reuniu-se ainda este ano com seu homólogo indiano para encontrar uma solução para o seu estrangulamento.
Mas deste lado o Indo cede o protagonismo ao Ganges.
Outra lenda de 2.510 km que também nasce no Himalaia e tem um delta comum com o Brahmaputra que serve 300 milhões de pessoas.
Delta tombado como patrimônio da humanidade – seus mangues, compostos de várias ilhas de rara biodiversidade, resguardam espécies vegetais e animais únicas, como os famosos golfinhos e o tigre de Bengala.
Lirismo à parte, se não bastasse a subida paulatina das águas que devoram o litoral bangladeshiano, o interior do país vive à mercê das necessidades do vizinho ilustre com seus açudes que o privam de água.
O primeiro foi construído pelos britânicos em 1854 para a irrigação.
O maior é uma hidrelétrica que é fonte de conflito desde sua construção em 1975. Próxima da entrada principal do rio no Bangladesh, ela desvia uma boa parte das águas para Calcutá.

Mas o problema maior do Ganges é sua poluição desde a nascente que aumenta rio abaixo e quando chega ao Bangladesh está cheio de bactérias acumuladas nas diversas províncias indianas que atravessa. O rio é conhecido como o maior esgoto da Terra. Diz-se que recebe diariamente cerca de 475 cadáveres humanos, 1.800 toneladas de madeira usada nas cremações e dez mil carcaças de animais abandonados.
Em Vârânasî e nas imediações de suas centenas de templos, a água é tão poluída que parece uma sopa escurecida por excrementos, restos humanos apodrecidos e detritos industriais e vegetais.
Várias formas de despoluição já foram tentadas. De estações depuradoras de água ligadas a quilômetros de esgoto, privadas e crematórios públicos à última tentativa de soltar tartarugas necrófagas para consumirem os cadáveres. As primeiras foram vãs. Os répteis “sanitários” foram capturados e devorados.
A história do Ganges, e dos seis outros rios sagrados do hinduísmo, é estreitamente ligada à da Índia e seus costumes religiosos e seu conceito higiênico particular.
Sem julgamento de valor de um ou outro, as análises em laboratório afirmam que as águas do rio sagrado contêm sessenta mil bactérias fecais por 100 ml – 120 vezes superior ao limite aceitável.
O que não impede os indianos de imergirem nele pelo menos uma vez na vida em sua cerimônia de purificação espiritual. E nem os meninos de se banharem como se água fosse segura e clara.

Rio abaixo, ou seja, no Bangladesh, noventa por cento da população passaram a ser abastecidas em água potável por canos-cisternas instalados em uma campanha vitoriosa contra a diarréia. Mas no Bangladesh, quando um problema desaparece é para dar lugar a outro mais grave.
A seca provocada pelo desvio do Ganges no Bengali indiano obrigou os bangladeshianos a cavar poços em profundidade. Encontraram água, mas qual não foi a surpresa ao constatarem anos mais tarde, através de feridas e deformações crescentes na população, que estes aquíferos contêm arsênico... cuja fonte parece ser geológica e cuja descontaminação é lenta e complicada.
Enquanto os cientistas não encontrarem antídoto a esta fatalidade, uma das medidas urgentes lógicas seria o retorno às fontes de superfície... se estas não estivessem poluídas com todas as bactérias conhecidas na biologia.
Minha avó diria para ferver a água. Um método caseiro eficiente e simples. Mas não no Bangladesh.
Lá, a simpatia dos nativos no interior e na capital Daca somada à beleza de suas praias convivem com uma miséria de proporções inimagináveis. Até para quem pensa já tê-la vislumbrado em outras paragens.
Lá, até o fogo é inaccessível a uma população que o alto grau de analfabetismo aliena de gestos tidos como primários.
A alternativa em longo prazo poderia ser a descontaminação solar, testada pelo professor Acra e seus colegas da Universidade de Beirute - Puseram no sol um copo transparente com água contaminada três horas antes de tomá-la e redescobriram o milagre da salubridade.
Contanto que a água convertida contenha oxigênio suficiente para que a química seja bem sucedida. (Favor não fazer a experiência em casa!)

Talvez esta seja a resposta científica à poluição desenfreada do Ganges que pela lógica deveria contaminar milhões de hindus que banham em suas águas infestadas de excrementos e restos de cadáveres. Mas não. Pelo menos não a maioria. Ou eles nascem com algum gene que os imuniza ou se há de acreditar na crença hinduísta de que o rio tem poder auto-regenerativo.
O Beatle George Harrison certamente acreditava nisso. Suas cinzas foram despejadas em uma cerimônia discreta na água amarronzada. As cinzas, pois misticismo em mente ocidental não rima com temeridade. Oxalá a natureza e sua química perfeita de sol e oxigênio continuem a proteger os demais que mergulham vivos.

Poluição no Ganges

George Harrison: Bangladesh