domingo, 1 de dezembro de 2013

Israel vs Palestina: História de um conflito XLV (08-09 2004)



No dia 05 de agosto de 2004 o ataque da IDF ao norte da Faixa de Gaza foi tão brutal que a UNRWA (ONU Refugiados) evacuou todo o pessoal estrangeiro deixando só os gazauís padecendo dos mísseis dos Apaches e dos tiros dos soldados.  
Foi só o começo. Agosto inteiro seria carregado de operações militares intermitentes nos territórios ocupados causando várias mortes e deixando dezenas de feridos de todas as idades.
Além de atacar os palestinos militarmente, no dia 17 Ariel Sharon atacou-os moralmente autorizando a construção de mais mil invasões em colônias na Cisjordânia.
No mesmo dia a IDF voltou a ocupar a parte antiga de Nablus invadindo as casas com violência. Na operação feriram alguns adultos, muitas crianças e mataram Khaled al-Astta, de oito anos.
As operações militares continuaram no mês inteiro e no dia 30 um colono judeu atropelou uma senhora de 61 anos. Passou em cima de Hassna Abu Faradh, pisou no acelerador e a deixou morrer sem socorro nas imediações de Qalquylia.
No dia seguinte no sul da Faixa os soldados atiravam em tudo o que viam com aparência humana e em veículos. Inclusive nas ambulâncias que socorriam os feridos.
Após serem agredidos durante o mês inteiro pelos colonos e pela IDF, nesse dia 31, dois bombas-suicidas explodiram em dois ônibus em Beersheba no Neguev.

Beersheba fica a 120 quilômetros ao sul de Jerusalém, no deserto Negev. Era exclusivamente árabe até 1947. Quando a ONU tirou um pedaço da Palestina para a criação do Estado de Israel, deixou Beersheba dentro da Palestina por causa de sua herança cultural e localização geográfica.
Contudo, ao ficar sabendo do traçado, David Ben Gurion desobedeceu a ONU e ordenou a conquista da cidade.
A operação para-militar foi um sucesso.
As centenas de famílias que habitavam a cidade há séculos passando casas e lavouras de pai para filho foram despojadas de tudo o que possuiam. As residências dos antepassados foram derrubadas, a cidade histórica foi em parte posta abaixo, e no final do assalto homens, mulheres e crianças enchiam as estradas engrossando a diáspora.

Hoje em dia ainda existem ruinas arqueológicas do império Otomano e da Palestina histórica (à direita) inacessíveis aos palestinos.
A cidade foi repopulada majoritariamente por judeus indianos que imigraram para lá no início da década de cinquenta. A partir da década de 90 foram os russos brancos que chegaram em massa.
Esta cidade faz parte dos sapos que ficaram entalados na garganta dos palestinos. 
A população inteira foi "extinta" por assassinato ou êxodo forçado. Seus ex-habitantes e descendentes, atualmente refugiados em campos do norte da Faixa de Gaza, fazem parte dos milhares de palestinos que continuam a carregar no pescoço a chave da casa perdida na Naqba.
Por ironia do destino ou por deliberado "acidente", Beersheba é hoje um centro militar israelense importante. Tanto na formação de soldados quanto na fabricação de armas regulares e químicas, como o famigerado fósforo branco que os israelenses despejaram à vontade no Líbano e na Faixa de Gaza.
A IDF (Forças Armadas israelenses) é o maior empregador do município.
No dia 31 de agosto de 2004, os bombas-suicidas (quem duvida que fossem filhos de vítimas da Naqba?) do Hamas levaram consigo dezesseis israelenses.
Mas mesmo assim, o mês terminou com a balança de mortos pendendo para a Palestina.
Além destes 16 habitantes de Beersheba, Israel perdeu um soldado. A Palestina perdeu 39 cidadãos, apátridas desde 1948.
Nablus, la ciudad fantasma
No dia 02 de setembro Hisham Abdel-Razek, Ministro das Relações Exteriores da Palestina, anunciou que os prisioneiros palestinos haviam parado a greve de fome no 18° dia por terem obtido satisfação a demandas básicas como condições minimas de detenção e acusação formal.
A "boa" notícia foi logo abafada no dia 04 pelo estrago causado por mísseis em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Dois gazauís pereceram e vários foram feridos.
Mas a dança dos Apaches continuaira animada.
Logo depois, no dia em que nós brasileiros celebramos nossa independência, a IDF orquestrou uma carnificina em Gaza. Um Apache lançou vários mísseis em um campo de futebol da cidade e matou 14 torcedores.
Diante da condenação internacional do ataque gratuito, a IDF "explicou" que visava um campo de treinamento do Hamas. Inexistente, segundo os chefes do partido.
No mesmo dia Israel libertou 137 palestinos que haviam sido detidos arbitrariamente, como é a maioria. Mas a festa foi estragada de novo pelo assassinato  de uma menina de nove anos, por uma bala "perdida" do fusil de um soldado "distraído".

No dia 13 os Apaches voltaram ao ar para prosseguir a campanha de assassinatos. O alvo do dia foi um líder do Fatah, membro das Brigadas al-Aqsa de Jenin, Mahmud Abu Khalifa.
Dois dias depois foi a vez de outro resistente do Fatah de Nablus.
No efeito colateral habitual, uma menina de 11 anos também perdeu a vida. E mais três passageiros do carro.
No dia 19 foi a vez do Hamas ser atingido na pessoa de Khalid Abu Silmiyya. Mísseis que mataram também dois outros palestinos.

IDF reprime protesto em Budrus no dia 22/09, como todos os dias...

O dia 20 foi uma repetição da véspera; os dias seguintes foram uma sucessão de assassinatos previamente planejados até o dia 26, quando a IDF concluiu essa leva com um atentado fora dos territórios ocupados.
O Mossad ( a "CIA" israelense) desafiou Bashar el-Assad (no poder "só" desde 2000) assassinando Izz El-Deen al-Sheikh Khalil, um dos líderes do Hamas, em plena capital da Síria.
A sede de vingança de Ariel sharon era insasiável. Dobraria de intensidade quando dois foguetes das Brigadas Qassan atingiram dois meninos em Sderot. Por acaso, disse o Hamas, já que os foguetes artesanais eram usados mais para assustar devido à sua potência fraca.
Sderot é outro sapo que sobreviventes da Naqba, atualmente refugiados na Faixa de Gaza, engolem com dificuldade. A cidade foi construída quase sobre os escombros de Nadj, situada a 14 quilômetros de Gaza.
No dia 13 de maio de 1948, Nadj foi invadida pela Brigada Negev, grupo para-militar judeu como parte da Operação Barak e a população toda foi expulsa com o que conseguisse carregar. Suas casas foram destruídas, seus pertences soterrados, e os sobreviventes e seus descendentes fugiram para campos de refugiado na Faixa de Gaza, do lado.

Um parêntese sobre a Operação Barak.
Esta Operação de "limpeza" foi uma ofensiva da organização judia para-militar Haganah (A Defesa) um pouco antes do fim do Mandato Britânico na Palestina.
O objetivo do grupo armado era "capturar" o máximo de cidades no norte de Gaza.
O chefe da operação foi Shimon Avidan. As ordens operacionais eram de "Deny the enemy a base... creating general panic and breaking his morale... cause the flight of the inhabitants in the area."
As instruções de Avidan aos sub-chefes não podiam ser mais claras quanto ao poder aleatório e ilimitado que lhes dava. "You will determine alone, in consultation with the Intelligence Service officer, the villages in your zone that should be occupied, cleaned up or destroyed."
A Operação Barak começou no dia 04 de maio de 1948. Dois meses mais tarde, 16 cidadezinhas palestinas haviam sido invadidas e destruídas. A Operação de "limpeza" provocou a diáspora de mais de vinte mil refugiados palestinos deixados ao Deus dará. 
Sderot foi construída sobre os escombros de centenas de anos de arquitetura e de muitas vidas - o que não justifica atos mortíferos revanchistas, mas ajuda a entender o sentimento de frustração de quem foi despojado de tudo o que tinha, inclusive de cidadania, perspectiva de futuro, de vida.

Ariel Sharon, que nunca viu os palestinos como gente e sim como animais selvagens dos quais tinha de se livrar para criar o Grande Israel, usou a desculpa da morte destes dois meninos de Sderot para realizar uma nova "mini" catástrofe.
No dia 28 de setembro de 2004 inaugurou a Operação Dias de Penitência.
A "Penitência" duraria dezessete dias.
No mês de setembro, contando os dois meninos de Sderot, os israelenses enterraram 11 mortos. Os palestinos 114. Dentre eles, várias crianças "irrelevantes".
Os Dias de Penitência desequilibrariam ainda mais a balança. Os campos de refugiados de Jabalyia, Beit Lahya e Beit Hanun sofreriam noites e dias apocalípticos.

Documentário da israelo-marroquino-francesa Simone Bitton, 2004
MUR
Parte V - legendas em português, (10')

Reservistas da IDF, forças israelenses de ocupação,
Shovrim Shtika - Breaking the Silence 
"We (the army) go into Jericho a lot. Nearly every night. Every time, we’d be told, “tonight we’re going in”.
What for?
... arrests, it had a code-name, it happened almost every day. There’s a road to Jericho that isn’t very active, it’s blocked. When arrest missions took place, we’d open the gate for them (the forces) and they’d go in. We were told that it was the army, or that is was Shabak (Israel Security Agency), all sorts. We didn’t need to know too much of what was going on in there.
That was inside the city?
Yes. Totally. We were shown that very clearly. You ask yourself what this being Area A means (an area under civil and security jurisdiction of the Palestinian Authority), I mean, if the Israeli army can go in whenever it wants."
"We would go out on so-called "curfew-imposing missions". We would go out, impose a curfew [em Ramallah].
What does that mean?
Say, we would replace Border-Police Sivan, whose job it was. Sometimes we would do it, go out in a jeep and impose curfew. We would throw a smoke-grenade into every open shop door. That's just what we did. Sometimes a shock-grenade. If we saw anybody in the street , we would fling at him some . . . This was for fun. Fling, hoopla, fling at him.
Target-shooting.
Yeah, like target-shooting."

"...people in the brigade showed some weird behavior: the guys from intelligence would take photos of killed terrorists' bodies, "for intelligence purposes". These photos would somehow end up in all the computers on the base, through military email, and would serve as screen savers in all kinds of computers at the adjutancy and such. Simply photos of terrorists' bodies. Guys from intelligence used to show up and stare at the dead bodies of terrorists, a burnt terrorist, a photo of D-9 demolishing a house, that was the screen saver of the Corps of Engineers computer. 
Everyone was doing these things. 
These events sprouted a culture – I use the term intentionally – of extreme cynicism."

"The procedures weren’t very clear, because they didn’t know what to do with these people [os palestinos detidos aleatoriamente nas barragens]. They said, “Dry them out.” “Drying them out” is pretty vague, it leaves room for the imagination . . . So these Russians [imigrantes judeus russos], who were in principle at a lookout post, which was more of a screwing around and no exercise post, meaning they didn’t have to run from place to place. So by chance someone walked right by their post, and they grabbed him. They grabbed him, and tied him up straightaway...
Do you sit everyone down together, or just wherever someone’s caught?
It depends. Sometimes we’d catch a few people together, so we’d sit them down together, or we’d decide that we didn’t want them sitting together, “You sit here, you sit there.” So when the Russians caught him, they tied his hands behind his back, blindfolded him, took his picture in all kinds of poses, one with a weapon in the air and things like that, like they caught some serious terrorist or something. And it was just some guy on his way to work.

 

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