domingo, 27 de fevereiro de 2011

Encouraçado Líbia

Encontro de ditadores. Na primeira fila, Saleh (Yêmen), Gaddafi (Líbia), Mubarak (Egito)
“Bombardeiem o palácio, ele e seus soldados! Matem-no, se precisar. Mas não o deixem mais no poder. Basta. Eu pagarei a reconstrução.”
Esta mensagem foi enviada à ONU por Muammar Gaddafi.
Falava do presidente da Costa do Marfim Laurent Gbaggo, na semana em que os estudantes egípcios ocuparam a Praça Tahrir exigindo Liberdade. O homem que se considera Zaim – um líder guru – e realmente acredita ser o Rei dos Reis da África tinha confiança absoluta no regime de terror que praticava. Tanta, que jogou esta chuva de pedras em telhado alheio pensando que o seu fosse indestrutível e sua fortaleza inexpugnável.
Comecei o mês traçando um paralelo entre o Egito, Hosni Mubarak e três obras máximas do grande Gabriel Garcia Márquez. Por isto vou terminá-lo na mesma linha, mas com a Líbia e Muammar Gaddafi no bunker-Palácio que lembra o livro Das Schloss do tcheco germanófono Franz Kafka.
Das Schloss, traduzido como O Castelo significa também Tranca, trava. O Castelo governa uma cidade e o Palácio governa uma nação tribal da qual é alienado. O Castelo representa uma burocracia, o Palácio uma tirania que também faz incursões esporádicas às ruas mas sem interagir com vivalma, a não ser para explorá-la, na ficção literária, e na realidade Tripolitana, para subjugá-la. Os labirintos do Castelo representam a confusão mental dos homens; as tramas do Palácio, de um só homem desvairado. A verdade do Castelo é impenetrável e fora dele o povoado calcula e especula sobre o que não sabe. A verdade do Palácio é fabricada e fora dele o país teme em massa, pai desconfia de filho e todos servem o déspota do ignorantismo, até há pouco, calados.
Gaddafi, confinado em seu bunker-Palácio, acabou de perder o contato com a realidade.
Trípoli por sua vez lembra Броненосец Потёмкин, O Encouraçado Potemkin. A obra prima cinematográfica do mestre dos mestres Serguei Eisenstein. Neste filme precursor da Revolução de 1917, o cineasta russo reproduz na tripulação do encouraçado os seguimentos da sociedade que se rebela com determinação e coragem. A sequência marcante é a do massacre nos degraus da escada monumental de Odessa, que os soldados descem de maneira ritmada (pela composição de Dimitri Chostakovitch) empurrando a multidão em um frenesi que culmina com a célebre cena do carrinho de bebê que escapa escada abaixo em uma dramaticidade rara.
Gaddafi transformou Trípoli na Odessa do século passado com violência dobrada, pois além de soldados, a região está cheia de mercenários sem nenhuma consideração pela vida humana, apenas por quem os paga. E quem paga é um homem que sabe que está no fim da linha e antes do trem despejá-lo quer esmagar o máximo de pessoas que ousaram desafiá-lo.
Em janeiro esta cena era inimaginável. Não a da matança, mas a da insurreição contra o tirano máximo.
Até janeiro era difícil imaginar que o terror em que os líbios viviam como uma fatalidade à qual tinham se acomodado, desaparecesse da noite para o dia. Pois a brutalidade do Coronel, quase palpável quando estava na mesma sala, fragmentou sua família e a população durante quatro décadas e toda oposição foi, literalmente, esmagada ou exilada.
Os líbios só podiam participar de estruturas organizadas e controladas por Gaddafi, incluindo um comitê que reunia as trinta e duas tribos principais, usado para aplicar a “justiça revolucionária”. Kadhafi conquistou o poder com três tribos (Qadhadhfa, Maghraha, Warfalla) cujos membros dirigiam os comitês e os serviços de segurança que ainda não o abandonaram. Seus inimigos velados eram os Sa’adi, tribos de Cyrenaica, resistentes ferrenhos contra a ocupação italiana entre 1911 e 1927.
Vale lembrar que a Líbia, como o Yêmen, é uma sociedade tribal, diferente do Egito, mas semelhantes a outros países árabes.
O colapso do regime foi acelerado porque grande parte do milhão 759 mil km² das terras que compõem a Líbia é desértica – há regiões em que não chove desde 1998 – e o desenvolvimento econômico proporcionado pelo petróleo somado à aridez do país, fez com que os seis milhões de habitantes se concentrassem na planície de Jefara, ao redor de Trípoli, na região chamada Tripolitana e em Jabal al-Akhdar, atrás de Benghazi na Cyrenaica.
Portanto, a queda de Benghazi, por o Ministro da Justiça, Mustafá Mohamed Abdel Jalil, e o Ministro do Interior, general Abdel Fattah Younes al-Abidi, terem mudado de lado, foi mais do que a queda de uma cidade. Foi a perda concreta de seus dois “funcionários” mais preciosos e da metade do país, a Cyrenaica.
Younes al-Abidi já aconselhou Kadhafi a não usar os aviões de combate e Abdel Jalil já formou um governo provisório.
A deserção é fiável, pois todos sabem que para reinar sem rival, Gaddafi chegou ao ponto de dividir os filhos para que nenhum tivesse força suficiente para substituí-lo sem seu aval. Como os “súditos” e os “amigos”, até sua família vivia em um ambiente de desconfiança, suspeita constante, e de medo do progenitor que os tiranizou até os últimos instantes.
Apesar de tudo que disse acima, para a Líbia e para o mundo, a queda de Gaddafi será um desastre.
Não conseguindo liderar a Liga Árabe, em 1997 Gaddafi resolveu assumir a liderança dos países mais frágeis. Foi aí que se autodenominou Rei dos Reis da África se distanciando dos antigos aliados para rodear-se de novos manipuláveis. E para adquirir poder de barganha com a Europa, abriu as portas às populações subsaarianas provocando graves tensões domésticas, mas atingindo o objetivo principal de pressionar a União Européia com o perigo da imigração clandestina africana a partir de suas águas, para a Itália. Foi no mesmo período que constituiu a 32ª Brigada, a milícia usada na repressão e com a qual conta para terminar seu “reinado” em um banho de sangue memorável que puna os líbios por “não entenderem sua visão política”.
O Palácio é protegido por esta Brigada, apesar da região Tripolitana já acusar vários focos de resistência e de algumas cidades já terem sido liberadas. No exterior, muitas embaixadas já mudaram de lado e a dissensão nas Forças Armadas não se resume mais à região de Benghazi – soldados e oficiais ainda ressentem os insultos de Gaddafi quando foram forçados a se retirar do Tchad em 1987 de cabeça baixa.
E o pós-Gaddafi?
Gaddafi vivo, é uma salva-guarda contra o terrorismo em toda essa região da África.   
A defecção da eminência civil e da eminência militar: Younes al-Abidi e Abdel Jalil em uma hora crucial, prometendo assegurar um processo transitório de três meses antes de eleições presidenciais, dá esperanças - apenas aos incautos - de calma após a tempestade. Fora do círculo de Gaddafi, não há quadros, pelo menos visíveis em Trípoli e Benghazi. Há exilados políticos, mas sem nenhuma influência aparente sobre o processo revolucionário. Dentro do país tem a Fraternidade Islâmica e alguns grupos extremistas, mas estes até agora não manifestaram religiosidade no movimento de libertação nacional. E primeiro teriam de se entender antes de pleitearem uma liderança respeitada. Mas a Líbia tem vários executivos laicos preparados para governar. Trabalharam para Gaddafi..., mas atire a primeira pedra quem não tiver sido cúmplice compulsório de seu “reinado”.
Se tivesse de prever o futuro de Gaddafi nestas páginas, se ele for coerente com a personagem que representava, vai seguir os passos de Hitler e suicidar-se.
Se não, será executado sumariamente pelos "rebeldes" com a bênção dos EUA.

Curtas. Na segunda-feira a Inglaterra cancelou um carregamento de armas para a Líbia para não ser acusada de cumplicidade no massacre. Só nos últimos meses de 2010 vendeu para Muammuar Kadhafi seis milhões de dólares de equipamento, inclusive fuzis de precisão para os “caçadores” e a munição de controle de multidão que está sendo usada. A Inglaterra não é o único camelô nesta área. Quem vende este tipo de munição a alguém como Kadhafi sabe para quê será usada. Quem comercializa a morte pode dar lição de moral a um tirano deste naipe?
. O crescimento do interesse econômico estrangeiro pela Líbia a partir de 1999 foi concomitante ao da corrupção dos sete filhos de Gaddafi e da filha, excluindo o povo da receita petroleira. O povo quer substituir seu regime pela charia, disse Gaddafi apelando sem vergonha parao medo ocidental da Lei islâmica. Se deixarem os cofres vazios – os bilhões do petróleo estão em Dubai, na Itália (Berlusconi e Gaddafi são íntimos), e em outros países – pode ser mesmo que os sobreviventes da chacina procurem Allah. Em que forma? Como disse, na Líbia há várias. Tantas quantas tribos adversárias.
. Quando perdeu Benghazi, justamente Benghazi onde começou sua ascensão meteórica, Gaddafi recebeu um tapa na cara e um aviso que Trípoli estava a dois passos. Em alguns prédios da capital, grafites o retratam como O Macaco dos Macacos da África. O aeroporto é o espelho do caos da cidade paralisada - fome e insalubridade.
Os funcionários estrangeiros abandonaram o navio dos negócios milionários, o Egito e a Tunísia começaram a ser inundados de refugiados, e Beirute e Malta já negaram várias autorizações de pouso a jatos privados com passageiros não identificados.
Nesta altura do campeonato, talvez nem Berlusconi acolha seus amigos da “família real” em desgraça.
. Com a recusa dos policiais a aumentar o número de mortos a milhares, o coronel Gaddafi só está protegido pelos “comitês populares” que são de fato as milícias dirigidas por membros de suas tribos. Um dos encargos da milícia era vigiar os oficiais militares... Com exceção do bunker-Palácio, Trípoli está cada vez mais próxima de Benghazi.
As horas de Gaddafi estão contadas.

No Egito, Amr Moussa, atual presidente da Liga Árabe e ex-ministro do Exterior de Mubarak, anunciou sua candidatura às próximas eleições presidenciais. Passeou com dois parlamentares estadunidenses, John McCain e Joseph Lieberman, na praça Tahrir e enquanto isto, dezenas de manifestantes exigiam, diante do palácio, a demissão de Ahmad Shafiq, o primeiro ministro recentemente nomeado por Mubarak, e algumas greves eclodiram em cidades industriais.
A cúpula do Exército está em linha direta com o Pentágono que formou seus oficiais e quer assegurar a “paz fria” do país com Israel. Além disso, se o processo revolucionário prosseguir em uma linha democrática, os EUA querem conservar a regalia de aceder às reservas petrolíferas do Golfo a baixo custo, continuar a “cooperação” militar e incrementar o neoliberalismo que levou o país à revolta. Longe do que as passeatas reivindicavam.
Com o futuro político incerto e a economia em situação crítica, será que não é hora de dar uma mãozinha em vez de espremer o povo esgotado?

Na Jordânia as passeatas não visam à mudança do regime. A lealdade ao rei Abdullah e a estima pela rainha Rania são incontestáveis e não são contestadas. Mas os jordanianos querem mais do que a cabeça de um primeiro ministro. Abdullah vai ter de lhes dar algo mais; mas o quê? Onde buscar recursos que o país não dá? A repressão policial foi condenada em palácio e o novo primeiro ministro Marouf Makhit ordenou um inquérito. Abdullah sabe que não pode dar nem um passo em falso.

No Bahrein, o sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa liberou os cassetetes antes de se retratar e em seguida libertar vários presos políticos. Os militares foram (temporariamente?) retirados da rua e os manifestantes prometem continuar até que suas reivindicações sejam atendidas: nova constituição, verdadeira democracia e retorno dos “desaparecidos”. Os Khalifa prometeram mudanças concretas rápidas, mas não deram data.

No Yêmen, na terceira semana de protestos que começaram no dia 17, a trégua da repressão foi efêmera. A Anistia Internacional já anuncia 27 mortos, os chefes de Hashid e Baqil, as duas principais tribos, aderiram à revolta e mais cidades contestam a decisão de Alih Abdallah Saleh de continuar na presidência até 2013. Na Universidade de Sanaa os estudantes rebatizaram a praça em que acampam al-Huriya, a Liberdade. Perderam dois colegas e o protesto dobrou de intensidade.

Na Síria, o rei Bashar aumentou o salário do funcionalismo púbico, e "está mantendo" a calma. Será mantida, se os Estados Unidos e Israel não armarem a oposição.

No Sudão, o rei Bashir declarou que não vai se recandidatar à presidência.

Na Argélia, o rei Bouteflika acabou com o Estado de emergência em que o país vivia.

Na Arábia Saudita, o rei Abdullah prometeu U$36 bilhões para os súditos ficarem quietos.

Em Oman, no sábado, jovens manifestantes saíram às ruas de Sohar fazendo reivindicações econômicas, sociais e políticas. Nenhuma repressão foi armada e o sultão Qabos bin Said deu as caras anunciando a demissão de seis ministros, aumento de verba para as universidades e reformas socio-econômicas imediatas. A partir de fevereiro, o salário mínimo já ganha mais 43%, passando a U$520 mensais. Atos institucionais que nem a Tunísia, nem o Egito, nem o Yêmen, nem o Bahein fizeram, até agora. Mas no domingo a polícia atacou os manifestantes que se aproximavam da central de polícia da cidade. Qabos governa Oman desde que tomou o poder do pai em 1970, "para acabar com o isolamento do país e usar a renda do petróleo para modernisá-lo."
Esta revolta em Oman, país relativamente calmo e com um padrão de vida razoável, mostra que as reivindicações socio-econômicas nas passeatas são uma fachada. Os árabes estão com fome mesmo é de Tahrir, Liberdade.

Neste ínterim, no Paquistão, após a condenação à morte em novembro de uma cristã por “insulto ao Islã”, apesar das pressões, o governo continua decidido a manter a Lei da Blasfêmia. O assassinato recente do governador do Punjab Salman Taseer (o “heroísmo” do assassino foi aclamado) por criticar a lei em público, mostra que ela é um instrumento perigoso de Caça às Bruxas das minorias religiosas, mas também dos políticos liberais.

Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Emancipação, repressão, e quem sabe, a gota d'água


Com todo aparato repressivo e figura autoritária emblemática, Muammar Kadhafi em seu Reino do Silêncio, como a Líbia é chamada, mesmo recorrendo à força máxima está penando para guardar sua seara na impunidade.
Tudo começou em Trípoli com o baixo-assinado em que 213 personalidades de meios profissionais variados exigiam o fim de seus 41 anos de “reinado” e denunciavam os males que vem infligindo à sociedade. Enquanto isto no norte do país, em Benghazi, começava a passeata anual em memória de um assassinato de presos que marcou a cidade. Virou uma manifestação reprimida com a violência própria a Kadhafi.
Benghazi é longe de Trípoli e demorou uma semana para as ruas da capital se encherem de jovens gritando Kefaya! sendo recebidos a fogo pelo forte aparato policial que tinha sido dobrado. Mas desta vez condenou-se a violência, mas ninguém ousou falar em derrubar Kadhafi. Todos sabem do que ele é capaz. Kadhafi não é o fraco Ben Ali, nem o venal Mubarak, nem um sheik bilionário. Kadhafi conquistou o poder aos 27 anos liderando uma revolta militar. Com ele não é questão só de ambição financeira desmesurada ou sede de poder insaciável. Sua divisa é a dos Romanos: ordine; a ordem à qual se sacrifica tudo, começando pela liberdade de palavra. Quem conhece Kadhafi sabe que governa a Líbia como se fosse a sua casa. Age como um padrasto impiedoso que não recua diante de nada para proteger seus filhos em detrimento dos enteados e impor suas leis e suas vontades. E ninguém "paga" seu salário. Ninguém "patrocina" suas forças armadas. Kadhafi é autônomo. Tem certeza de que não precisa de ninguém nem de nada. Acima dele, só Allah. É por isto que se deu ao direito de atacar os manifestantes com todas as sua forças armadas. E assim começou a história de um massacre anunciado. Quanto tempo vai durar, só Allah sabe. Se Kadhafi vai conseguir sair ileso desta guerra contra seu povo, é pouco provável.

No Bahein, país de 750m² compostos de trinta ilhas vizinhas do Qatar, em resposta à morte de dois afiliados, o principal partido xiita al-Wefaq suspendeu sua participação no governo e em seguida as ruas de Manama foram invadidas de homens e mulheres (estas, de hijab preto) exigindo a renúncia do Sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa (tio do rei e primeiro ministro desde 1971), a libertação dos prisioneiros religiosos e uma nova constituição.
A ironia é ser justamente no Bahein, que tem o maior índice de liberdade política e social do Golfo, que a revolta mude de cara. Aqui ela tem a cara religiosa que a imprensa sensacionalista pintava (pinta?) das outras capitais. Os xiitas são maioria no país em que o milhão e trezentos mil habitantes são governados pelos Khalifa, a família real sunita que ocupa o trono há dois séculos.
A relação entre os xiitas e os sunitas lembra a discórdia sangrenta entre os protestantes e os católicos nos séculos XVI e XVII na Europa. Lutero x Papa. Alih x Abu-Bakr ou Abu-Bakr x Alih; conforme for o seu lado.
Eu disse que a cara é religiosa, mas é só um lado e nem este lado tem a feição do al-Qaida. Pode tirar o peso da alma. Esta face é a dos velhos, arcaica. Os jovens gritam Não aos xiitas! Não aos sunitas! Somos todos bareinitas! e mostram a outra face. A da emancipação laica.

Em Ramallah, os jovens também continuam a reivindicar a união do Fatah e do Hamas, e a demissão do presidente Mahmoud Abbas e do primeiro ministro Salam Fayadd. Desacreditados pelas revelações dos Palestine Papers e fragilizados pela relação que tinham com Hosni Mubarak.

No Yêmen, embora as ruas de Sana'a estejam menos cheias do que nos dias passados, após os tiros trocados, teme-se que o os chefes tribais aproveitem para invadir a capital com todo seu arsenal. Eu continuo achando (ou esperando) que não passa de ameaça. A não ser que tenham planejado um suicídio coletivo diante do palácio de Ali Abdullah Saleh para sensibilizá-lo.

. Os “novos” dirigentes da Tunísia, do Egito e dos países que seguirão seus passos, terão de lidar com posições internacionais impopulares tomadas pelo antigo regime ditadas por interesses estrangeiros. A primeira é o bloqueio da Faixa de Gaza; a segunda é a situação do Iraque, a terceira é a hostilidade bélica dirigida ao Irã, e a última, ligada à primeira, à mediação desacreditada do conflito Israelo-palestino.
Estas quatro reclamações são ouvidas em todos os países árabes, já ou ainda não inflamados.

Onda de Liberdade x Rede de repressão armadaNão é por nada que na Tunísia as potências ocidentais repudiaram Ben Ali de imediato e muitos hesitaram a abandonar o fiel aliado Hosni Mubarak. É pela posição estratégica do Egito entre a África e a Ásia e por ser o farol sócio-político da Liga Árabe. Como o Brasil em nossas paragens.
No século XVIII exerceu profunda influência social, política e cultural na modernização da região e entre 1952 e 1970 se destacou dos vizinhos graças ao seu carismático presidente Gamal Abdel Nasser cuja personalidade forte e inteligência aguçada valeram ao país uma independência pragmática e liderança incontestável. Após a morte de Nasser o Egito perdeu a aura visionária, mas conservou bastante influência durante a gestão de Anuar Sadat e mais tarde, com Hosni Mubarak, apesar do enfraquecimento pessoal deste devido à subserviência aos EUA.
Até 2010 foi um exemplo de autoritarismo e de repressão disfarçada, como no Brasil dos militares. Sua transformação em democracia liberal como a da Turquia, teria (terá?) portanto graves consequências sócio-políticas, pois o quadro é mais ou menos o mesmo na região por todos os lados.
O crescimento econômico razoável nos estados não-petroleiros não gerou empregos e sim desempregados, a administração e a corrupção ficaram incontroláveis, as famílias estão menos sólidas do que no passado, o sistema educativo se encontra em processo de decomposição rápida, a realização profissional virou um sonho dificilmente realizável, e sobretudo, o despotismo, agravado por um nepotismo declarado, tem ficado cada vez mais claro e insuportável.
Com a abertura no Egito, o efeito dominó é inevitável.
A revolta na Líbia mostra que nem figuras emblemáticas como o terrível Kadhafi estão imunes à emancipação popular. Neste caso, até eu fiquei surpreendida de ver estes líbios amáveis mas acostumados a andar de cabeça baixa, levantá-la.
Se, se, se conseguirem derrubar Kadhafi, nenhum outro ditador estará imune ao levante popular. Mas o que realça nestes movimentos de emancipação, além do espírito secular que retrata, é a uniformidade do sistema repressivo vigente nos regimes árabes.
Como por exemplo, a repetida armação dos “contra” nas ruas de Sana’a, Alger, Amman, Ramallah, Bahein a fim de facilitar a ação militar e “desaparecer” com as figuras mais destacadas, como aconteceu no Cairo. Isto porque, como a Operação Condor da CIA formou a rede de repressão e cavou porões na América do Sul começando no Brasil em 1964, os países árabes também têm uma rede de “Informação” coesa e implacável.
Faz anos que os Serviços Secretos trocam figurinhas sobre técnicas de tortura sofisticadas aprendidas com os colonizadores ocidentais “civilizados”. Foi em Alger, ou melhor, na Delegacia de Chateauneuf, como o DOI CODI local é chamado, que os egípcios aprenderam a usar eletricidade nos órgãos genitais dos presos políticos. Aliás, quando falei de tortura semanas atrás, não mencionei a maneira dos argelinos desvirtuarem o ouro azul – são especialistas em uma tortura que consiste em encher o torturado de água até ele rebentar.
Em 1994, os argelinos foram à Síria saber como o então presidente Hafez El-Assad tinha lidado com o levante muçulmano de 1982 em Hama e aprenderam que bastou explodir a cidade e deixar os cadáveres de inocentes e culpados expostos na praça. Como os portugueses fizeram com Tiradentes durante a nossa Inconfidência de Minas Gerais.
Não há prescrição histórica para a barbárie?
Em dezembro foram os tunisianos que visitaram os argelinos para se atualizarem na arte de torturar. Ainda não se sabe se e quando serão praticadas no período “pós-revolucionário”.
Trocando em miúdos, o que está acontecendo nos países árabes foi o que aconteceu na América do Sul na década de 80 – aquela corrente de Basta! contra a Operação Condor e os milhares de desaparecidos e torturados nas masmorras dos nossos regimes militares.
Até ontem, até agora, nestes países em que os jovens estão dizendo Kefaya!, os dirigentes também recebiam ordens do Pentágono e os sádicos nacionais, também formados por “especialistas” ocidentais, se esqueciam dos princípios humanos básicos como no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai...
Como no nosso Cone Sul, o Oriente Médio cansou de apanhar, ser derrubado e ficar deitado. Deixou o medo de lado e resolveu se levantar.
Como no nosso Cone Sul, Washington está demorando a desencarnar. Sua reação de apoio imediato só foi dirigida ao Irã, aos jovens que saíram às ruas de Teheran e foram matracados... E repete os erros do passado intervindo justamente onde atrapalha.
Mudam-se os tempos, mas os EUA não mudam suas vontades imediatas.

Na ONU, o veto altamente inflamávelNa sequência de imobilidade geopolítica, os EUA vetaram na ONU a moção que condena a construção de novas colônias israelenses na Cisjordânia peitando os outros 14 membros do Conselho de Segurança. Nesta questão internacional também a Casa Branca continua isolada.
O argumento usado é em si um ultraje: Embora concordemos com os demais no tocante à ilegitimidade do prosseguimento das colônias, achamos desaconselhável que o Conselho tente resolver questões de fundo que dividem israelenses e palestinos.
(Vale lembrar que conforme as leis internacionais as colônias existentes já são ilegais. O que para Israel tanto faz. Assim como as 34 resoluções da ONU que desrespeita na impunidade. Se a Organização das Nações Unidas não tiver poder para fazer cumprir suas próprias leis, quem terá? Para que ela existe, de fato?)
Os delegados dos demais países membros permanentes ou transitórios do Conselho ficaram estupefatos. Alguns exprimiram sua incompreensão e raiva. Outros engoliram em seco e devem ter ido rezar para que esta servidão cega a Israel, criticada com veemência até pelas ONGs de Direitos Humanos de Tel Aviv, embora faça Benyamin Netanyahu e Avigdor Lieberman rirem e esfregarem as mãos, não termine em mais lágrimas amargas.
Pois esta nova “vitória” do lobby israelense (1) não deixa de ser uma derrota, já que terminou de converter Israel em um passivo perigoso para os EUA. Com o veto desta semana a uma posição mais moral e legal do que efetiva, Barak Obama deu as costas ao mundo, admitiu sua autonomia fictícia e arruinou grande parte do capital de simpatia internacional que ainda tinha.
Que Netanyahu e Lieberman não se iludam. Este novo sucesso lobístico é um golpe no processo de paz. Só conseguiram devolver os Estados Unidos ao isolamento em que a ocupação do Iraque os havia levado. W. Bush deve estar rolando de rir de seu sucessor que fez tantas promessas pacíficas antes de assumir o cargo carregado de compromissos intricados.
É claro que Barack Obama e Hillary Clinton estão cientes que dando carta branca a Israel para prosseguir sua ocupação ilegal da Cisjordânia provocam um desastre político e humanitário (2) que inviabiliza qualquer passo da Autoridade Palestina em direção à mesa de negociação.
É claro que Obama e Clinton sabem que sua relação com os países árabes desmoronou na hora que apoiaram Israel em um assunto inapoiável.
Mas por incrível que pareça o veto foi pensado, calculado, e Obama mais uma vez pesou errado os seus interesses político-partidários. E antes de votar, teve a ousadia de ligar para Ramallah na véspera para forçar Mahmoud Abbas a impedir que a Resolução fosse votada. A pressão telefônica durou 50 minutos. Surrealista ou amoral?
A ONG israelense de Direitos Humanos Gush Shalom já declarou que a AIPAC (3) não é um lobby israelense, mas sim um lobby anti-israelense “que acumula um poder desmesurado que impede que Israel corrija seus graves erros políticos e leva nosso país a uma política auto-destrutiva que compromete nosso futuro ao negar a Israel a menor chance de alcançar a paz com os vizinhos e ao empurrar o país em direção ao abismo da ocupação, colonização e do racismo.”
Gush Shalom e as outras ONGs de Direitos Humanos têm razão. A notícia pode inflamar as passeatas que se multiplicam nos países árabes e teme-se que daqui a pouco bandeiras estadunidenses voltem a ser queimadas.
O argumento usado pelos EUA de que o assunto da Palestina não é da alçada do Conselho de Segurança da ONU é o mesmo que usam sempre para bloquear sistematicamente qualquer ação internacional na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Vale lembrar que o Conselho de Segurança é composto de cinco membros permanentes – China, Inglaterra, França, EUA e Rússia – e dez com mandatos anuais. A ONU só pode agir quando a decisão é aprovada por unanimidade.
Faz anos que o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho, mas a porta é bloqueada. Em 2011, o Brasil faz parte dos dez membros não-permanentes que têm a oportunidade de tentar mudar algo.
Já que o nosso país teve a coragem política e a ética de reconhecer o Estado da Palestina com as fronteiras de 1967, por que não aproveitar 2011 para apresentar ao Conselho uma proposta de admissão da Palestina na ONU como Estado?
Pode até não dar em nada. Mas vai mostrar que ao contrário dos EUA e dos outros quatro membros do BRIC “candidatos” à hegemonia político-econômica mundial, o Brasil tem visão internacional a curto, médio e longo prazo. E de lambuja, sabe liderar.

The Israeli Lobby

Global BDS Movement

BDS Flash Mob
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E agora, Wael?


... E dezoito dias depois, Barack Obama resolve convencer Hosni Mubarak a deixar o cargo. Uma vez mais o presidente dos EUA seguiu, em vez de liderar. Agora tem de pressionar o Exército egípcio, que quase depende dele para o salário, a assegurar a transição democrática.
Como disse na semana passada, o Patriarca caiu em desgraça, foi para sua mansão à margem do Mar Vermelho, mas deixou a cabeça e os dois braços armados a postos no Cairo. Omar Suleiman e o general Tantawi continuam lá. Mas terão de escutar. O Egito não é mais o mesmo. Os egípcios acordaram e não estão dispostos a deixar a conquista resvalar. Prometem continuar a vigília de casa, do trabalho, da universidade, e através de uma imprensa livre para denunciar.
A festa na rua foi bonita, o otimismo e a alegria continuam, porém... hoje é difícil cantar vitória. No final das contas, vai depender de quão grande é a dissensão no Exército e de quão potentes são os oficiais democratas. Hoje os soldados são chamados de irmãos, mas soldado é peão. Peão não se desloca, é deslocado e só de casa em casa, para frente ou para trás, e neste tabuleiro de xadrez a rainha é Tantawi e o rei é Suleiman. Enquanto ambos não forem transformados em torres, bispos ou tirados do jogo, vai ser preciso vigilância constante para que as reformas vinguem e para que haja eleições livres, sem corrupção.
Dito isto sobre o Egito, um balanço provisório se impõe na região.
Desde que al-Qaeda protagonizou as explosões das torres gêmeas de Nova York, Ben Laden foi transformado NO Bicho Papão e o Islamismo foi estigmatizado como uma religião que fabrica terroristas em massa.
No século III o persa Mani inventou esta teoria do Universo ser dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis do oito ou oitenta, do Bem e do Mal absolutos, mas a vida e o mundo já provaram n vezes que o maniqueísmo é desumano e falho.
Nenhuma religião fabrica terrorista, nenhuma fabrica vítima e nenhuma fabrica tolerância e liberalismo. Se religião influenciasse alguém e algo, o capitalismo não teria tido nenhuma chance de triunfar entre os cristãos, o “nosso” mundo teria vivido dezessete séculos de paz e o Ocidente seria uma imensa Shangri-La.
O que diferencia as pessoas pode ser a visão.
Por exemplo, a pessoa cuja visão econômica se estende da Teoria de Sentimentos Morais do escocês Adam Smith ao Das Kapital de Karl Marx entende melhor o cerne da revolta nos países árabes do que os “Chicago boys” adeptos de Milton Friedman e sua teoria do choque (http://www.youtube.com/watch?v=aSF0e6oO_tw).
Ben Laden é uma ameaça, mas é uma ameaça ínfima comparada com a dos khobzistes (desempregados do Magreb). Os efeitos colaterais dos regimes autoritários que permitem as vidas de nababo dos clãs dos dirigentes dos países árabes – a concentração da riqueza atinge um grau inimaginável enquanto ao resto do país falta o básico – já eram claros, mas negligenciados.

Um exemplo. Na Tunísia, os Trabelsi, a família de Leila, esposa do presidente escorraçado – irmãos, primos, cunhados, parentes próximos e distantes – controlam todos os setores importantes da economia, segundo se ouve, de maneira insaciável. Aliás, uma das piadas que corria sobre Ben Ali é que, parado por um policial por excesso de velocidade, ele argumenta que é o presidente Ben Ali e o policial responde “Nunca ouvi falar” e o leva para a delegacia onde o delegado olha sua carteira de identidade e diz “Tudo bem. Ele é parente dos Trabelsis”. A anedota retrata o que, apesar da calma, não sai da cabeça dos tunisianos: comparado com a rede de poder, de força e de controle que os Trabelsi exercem sobre a Tunísia, Ben Ali não é nada. A rede continua armada.
No Yêmen, sociedade tradicionalmente tribal, os manifestantes que enchem as ruas da capital, Sana’a, pedem, além de comida e trabalho, que o presidente demita do serviço público todos os familiares. No país mais bonito dos mares Vermelho e da Arábia – embora seja um dos mais inaccessíveis ao turismo internacional por ter “herdado” as bases da fronteira do Paquistão/Afeganistão do al-Qa’ida (palavra que significa justamente Base), as passeatas populares nas ruas da capital cultural árabe – 2.500 anos e com muito da beleza arquitetural histórica intacta – mostra justamente a fragilidade do maniqueísmo e dos dogmas ocidentais. O governo de Ali Abdullah Saleh também completou 30 anos (quarto mandato de sete anos) e com al-Qaida ou não nas paragens, as manifestações também, por enquanto, têm sido laicas. Com a miséria atingindo cinquenta por cento da população, a reserva de petróleo (70% do PIB) esgotando sem que a população tenha se beneficiado, rebeliões no Norte e um movimento secessionista no Sul difícil de parar, Saleh está conseguindo acalmar o povo prometendo não se recandidatar em 2013, baixar os impostos, aumentar os salários do funcionalismo público, e dos militares que guardam suas costas. Aliás, em um país em que os homens saem à rua com kalashnikov debaixo do braço, um afrontamento acarretaria milhares de mortos de ambas as partes. A calma também prova que ao contrário do que alguns acham, todo mundo prefere viver em paz.
Na década de 60, no mundo árabe, os regimes subsidiavam gêneros de primeira necessidade para assegurar a passividade. Na década de 80, trocaram o pão pelo voto e na Argélia a troca ocasionou uma revolta religiosa de proporções enormes em 1988 e na Jordânia um processo de liberalização salutar.
São águas passadas. Em 2011, as marchas em Tunis, Amman, Sana’a, Argel, Ramallah, Alexandria, Suez, Cairo... são um reflexo de sobrevivência de quem está morrendo sufocado.
Apesar da falta de conhecimento e/ou de assunto levar uma certa mídia a apavorar o leitor incauto, o movimento popular árabe é de emancipação. Mas se o Ocidente se esforçar, pode até conseguir empurrá-los para o extremismo religioso e em vez de democracia tudo acabe em sharia.

PS1. Falando em Lei islâmica, no Irã, o Aiatolá supremo Khamenei tentou ligar o processo revolucionário do Egito ao movimento que destituiu o xá Rheza Pahlavi (governou de 1941-79) e acabou na revolução que instituiu a República Islâmica no país. Porém, em comum os dois países só têm o xá, a quem Anuar el-Sadat deu asilo no Cairo. Até o ex-presidente Aiatolá Rafsanjani contradiz o rival: “É provável que o Irã acabe importando a revolução egípcia... o povo quer que más elites sejam sentenciadas e más ideias política removidas... o povo quer democracia.” Sem contar que nas ruas de Teheran em 1979 viam-se tantas faixas com slogans islâmicos quanto políticos, as passeatas foram feitas durante um feriado religioso e eram as vozes do Aiatolá Khomeini e outros líderes religiosos que comandavam os participantes nas ruas à oração. Hoje, como já disse, os Imãs estão ausentes das capitais “revoltadas” e apesar do peso político da Fraternidade Islâmica, a organização não liderou nada, muito pelo contrário, ficou de fora até ser chamada à mesa para negociar. Enquanto isto, a voz que é ouvida e aclamada no Egito é a de Wael Ghonim http://www.youtube.com/watch?v=4OgnO3fILno. O jovem executivo da Google cujo Facebook foi um dos principais motores da revolta. “Desaparecido” no dia 27 de janeiro e interrogado de olhos tapados durante 11 dias, onde, não sabe, de volta às ruas na segunda-feira passada com toda força e vontade, sua entrevista levou o país inteiro às lágrimas, reanimou os jovens ativistas e animou seus pais e os operários. Toda revolução tem um mártir. A do Egito tem um herói que chegou na hora exata. Quando tudo parecia perdido e acabado Wael reenergizou os ânimos e lembrou o porquê de estarem lá, sujos, afônicos, cansados, mas redispostos a lutar.
Enquanto o Egito desperta vigorosamente de uma letargia que parecia interminável, do Irã chegam notícias que desmentem tanto o Aiatolá supremo quanto os enviados de Washington: os gritos das ruas de Alexandria e do Cairo chegaram até a دانشگاه مادر Universidade Mãe, em Teheran, e os dedos-duros que pululam nas salas de aula como pululavam nas nossas até 1984, estão pondo as forças armadas em alerta. آزادی Azadi, é como os persas clamam Liberdade.

PS2. O xá Rezah Pahlavi usou em 1979 o mesmo argumento que Mubarak usou até a semana passada para manter sua ditadura nepotista no Egito. O persa apelou para o pavor dos Estados Unidos de seu inimigo máximo na época – o comunismo – para justificar seu regime autoritário e para torturar ativistas democratas com a bênção dos mesmos aliados que protegeram Mubarak até não poderem mais. O árabe recorreu até o fim à ameaça do Islã fundamentalista como se o sonho dos muçulmanos fosse só deixar crescer a barba e hijab.
Não é. Querem mais. As mesmas coisas que querem os jovens ocidentais: estudo, respeito, trabalho e liberdade.

PS3. O Oriente Médio pegando fogo, o povo assumindo o controle, exigindo seus direitos cívicos, dignidade, respeito aos valores nacionais e nacionalistas, e o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, em vez de ficar quieto, cutuca Washington para só olhar o seu lado e provoca os palestinos com discursos belicosos.
Durante a semana Israel voltou a bombardear Gaza ferindo oito pessoas e destruindo um posto de saúde no norte da Faixa. Foi mais uma “retaliação” noturna aos foguetes arcaicos. Até hoje nós jornalistas ainda não conseguimos entender se os bombardeios são executados à noite por covardia ou pelo prazer mórbido de fazer as famílias viverem em sobressalto.
Comecei esta matéria no Egito e acabei na Palestina... O problema com o Oriente Médio é que, onde quer que seja o incêndio o vento o alimenta sempre com as cinzas que Israel mantém vivas nos Territórios Ocupados; e da Cisjordânia e de Gaza as flamas se alastram. Só quem ainda não entendeu isto foi Washington. Faz anos que os defensores da paz e de Israel aconselham os governos sucessivos a negociar enquanto podem e a resposta é sempre a mesma: Israel é forte e os árabes são fracos; paz só nos termos sionistas ideais. Hoje, estas vozes solidárias a Israel soam mais preocupadas. A elas juntam-se as dos que querem que justiça se faça sem que mais sangue seja derramado. Israel tem de sentar-se à mesa de negociação com o Fatah, e o Hamas, sem tardar. Agora não tem mais como se auto-congratularem que os israelenses são intrinsecamente potentes e os palestinos intrinsecamente frágeis. Uma quimera. Tem intelectuais palestinos por toda parte – apesar dos check points que visam dificultar o acesso às escolas, noventa por cento dos jovens palestinos cristãos e muçulmanos chegam à universidade. E agora está claro que com poder financeiro e/ou bélico externo guardando suas costas, são os dirigentes que são débeis e venais, e não os árabes.
Aliás, em Ramallah, os jovens também saíram às ruas para protestar. Na Cisjordânia exigiram, exigem, o fim da divisão que Israel alimentou para reinar. Os gritos chamam à união do Fatah e do Hamas em uma frente única e solidária para negociar seus direitos de existir e a paz.
Novos tempos, novas vontades.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O outono do patriarca



Em vez de desfiar o rosário de manifestantes de Alexandria, do Cairo, do punhal de cameleiros, de reviravolta nos palácios, de mortos e feridos cujas imagens indignaram, como as informações são múltiplas, variadas, estão todos cansados, e cultura geral e geopolítica são para mim indissociáveis, resolvi poupá-los de uma grande análise dominical apelando mais uma vez para um ás literário.
O grande Gabriel García Márquez, inspirado, entre outros, nos ditadores Francisco Franco da Espanha, Rafael Trujillo da República Dominicana, Anastazio Somoza da Nicarágua e no venezuelano então recém-deposto Juan Vicente Gómez, publicou em 1975 uma fábula despontuada memorável sobre os efeitos desastrosos da concentração do poder em um único homem e a solidão que este poder proporciona. Revoltado contra o assassinato do presidente chileno Salvador Allende no dia 09 de setembro de 1973 (o 11/9 que abalou a América Latina) o escritor colombiano mudou-se com a família de Bogotá para o México e disse que só voltaria a escrever depois que o Chile se libertasse da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet.
Ainda bem que não cumpriu a promessa e empunhou de novo a pena para atacar a ignorância com sua melhor arma. Em 1981, ano anterior ao seu Prêmio Nobel, publicou a Crônica de uma Morte Anunciada, em que relata o assassinato de um homem por dois outros, mas que só é possível por causa da cumplicidade da cidade que segue toda a armação calada.
Mas antes destas duas obras primas García Márquez escreveu A Má Hora (precursora de Cem anos de solidão) em que mostra a tensão política e a opressão em um povoado cujos habitantes aspiram à liberdade e à justiça, sem resultado.
O Egito viveu e vive uma mistura destas três obras.
Em um paralelo com a Crónica de una muerte anunciada, Hosni Mubárak fez o que faz todo ditador bem assessorado: imprensa censurada, eleições fraudadas, ministros desintelectualisados, promessas falsas. O povo infantilizado era deixado em paz e o que pensava ia para trás das grades sob indiferença geral.
Ninguém via nada. Nem ele? Quem quiser acredite quando Mubárak e os aliados ocidentais dizem que ele não sabia de nada.
Em um paralelo com El otoño del patriarca, Hosni Mubárak viu seu partido decompor-se como um castelo de cartas. O último a abandonar o barco foi o “príncipe herdeiro” Gamal Mubárak, a peça principal de seus sonhos dinásticos. Os Estados Unidos passaram o comando a Omar Suleiman, o Golbery do Couto e Silva de Mubárak, que até a semana passada era um dos homens mais poderosos e temidos do país, próximo dos EUA a ponto das celas Mukhabarat (uma Guantánamo árabe) ter sido um dos destinos preferidos da CIA para levar suspeitos de terrorismo capturados no que se chama “Rendition”. De novo, Suleiman só tem o cargo. As risadas da semana passada viraram risos amargos.
Em um paralelo com La mala hora, cujo título privado foi Este pueblo de mierda, na quarta-feira Mubárak usou do artifício dos “contra” (que a CIA usou na Nicarágua) para desacreditar o movimento democrático e pôr o Exército na rua para “estabelecer calma”. Para completar, seu fiel general Tantawi apareceu na praça Tahrir para dar uma impressão aos manifestantes que eles obteriam o que o nome da praça simbolizava: Liberdade. Enquanto isto, alguns dos jovens que se destacaram e que voltaram em casa para uma higiene básica desapareceram e fala-se que nos porões da ditadura, em vez de inaugurarem uma era de justiça, estão experimentando uma antiga barbárie.
Para não dizer que não falei das flores, como todo ser civilizado da Terra, gostaria que Mubárak se retirasse, mas não sozinho, com Suleiman e Tantawi na bagagem. Que os três deixassem o “comitê de sábios” (1) escolhido pelos Twitters assegurar a transição democrática, que os jovens egípcios conseguissem continuar uma vigília cada vez mais acesa até obterem a democracia almejada, e que se 90% do desejado dessem errado e Omar Suleiman dirigisse o Egito até setembro, alguém o tocasse com uma varinha mágica que o transformasse em nacionalista, democrata, justo, ou no mínimo, leal ao povo que diz representar... e em setembro proporcionasse eleições honestas, que Gamal Mubárak estivesse realmente se afastando do pai de quem fosse realmente diferente e “se” "fosse" “eleito” à presidência daqui a alguns meses, optasse pela auto-determinação e tomasse o lado do povo, do Egito, e não o do autoritarismo, da corrupção e das influências periféricas.
O fato é que em duas semanas a economia do país passou de mal a pior e quem pegar o governo agora vai ter de avisar que é inviável cumprir qualquer programa incompatível com uma política econômica de austeridade.
Após treze dias intensos, apesar de promessas de um lado, e do outro, entusiasmo, não se tem certeza de nada. Os manifestantes pro-democracia estão cansados, mas continuam na praça seguros de que venceram e achando que estão dando as cartas. Será?
O que parece nos palácios – da White House em Washington ao Kasr al-Ittihadiya em Heliópolis, no Cairo – é que apesar do “Comitê de sábios” e a recente agregação da Fraternidade Islâmica (2) ao diálogo, o máximo que se obterá a curto prazo é que Mubárak seja sacrificado para que só se mude as caras e a liberdade continue apenas no nome da praça em que os sonhos de centenas de milhares de jovens começaram.
Mas como disse no início, isto não é uma análise, é um tecido de palavras inspiradas no grande mestre da pena político-literária.
Mas para concluir com otimismo, se não houver mudanças reais, imediatas, após os jovens terem provado o sabor da liberdade democrática que criaram através das passeatas, é bem provável que a tahrir, de direito e de fato, só seja adiada. E quando votarem, elejam um presidente laico, democrata.

(1) A lista formulada na sexta-feira incluía Amr Moussa, secretário geral da Liga Árabe; o prêmio Nobel Ahmed Zuwail, conselheiro pontual de Obama; Mohamed Selim Al-Awa, professor de estudos islamitas próximo da Fraternidade Islâmica; o presidente do partido Wafd, Said AL-Badawi; o empresário Nagib Suez, ligado ao sistema de telefonia cortado na semana passada; Nabil AL-Arabi, um delegado na ONU, o cirurgião cardíaco Magdi Yacoub, e outras personalidades.
(2) A Fraternidade Islâmica é a associação islamita mais organizada no mundo. Presente em mais de quatorze países, foi fundada no Egito em 1928 por Hassan AL-Banna e tem influenciado movimentos muçulmanos, não extremistas em vários países. Mistura ativismo político com trabalho caritativo, é banida de atividades políticas públicas, rejeita violência, apóia princípios democráticos, mas almeja a criação de Estado governado pela lei Islamita. Seu slogan é: o islã é a solução. Seu líder atual é o professor de veterinária Mohamed Badi’e.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tunísia, Egito... o fogo da liberdade se alastra



Atentados mortíferos em Moscou, Bagdá, Kandahar, o chão que treme no Líbano, na Jordânia, no Yemen com as passeatas nas ruas de Beirute, de Amman e de Sanaa..., a semana foi carregada... Culminou com dois acontecimentos geopolíticos incontornáveis: os Palestine Papers divulgados pela TV Al Jazeera e o fogo de revolta que saiu da Tunísia, saltou a Líbia e se alastrou pelo Egito, em Suez, Alexandria, Cairo até queimar o país de Abu-Simbel ao Sinai.
Os Palestine Papers serão abordados em outra oportunidade.
Hoje vou falar sobre o Egito onde Hosni Mubarak luta contra uma revolução que poria fim à sua ditadura “democrática” de 30 anos e que tiraria dos EUA um de seus aliados mais úteis no Oriente Médio.
“Poria” "tiraria" porque como se sabe, tendo de escolher entre um governante árabe que garanta a seu povo democracia, melhores condições de vida e um ditador corrupto que defenda os interesses de Israel e dê uma pseudo-segurança contra o fundamentalismo islamita, os EUA tradicionalmente optam por este último. É aquela política do façam o que eu digo e não o que eu faço. Democracia é bom, mas em casa. Para mim, liberdade, e cabresto para os demais.
Só que o problema com os ditadores é que estão muito distantes do povo, embora sua polícia (esta vestida de preto de cima abaixo) esteja por toda parte. E cedo ou tarde o eco da insatisfação popular reprimida fica alto demais para ser abafado e explode em uma onda de energia que se alastra, atualmente, pela internet, através da qual os jovens se comunicam como a minha geração batia papo nos bares.
Quem conhece o Egito sabe de suas universidades caindo aos pedaços, favelas se alastrando como praga, redes de esgoto se aproximando cada vez mais da insalubridade...
Quem já esteve no Cairo sabe do caos urbano que atola a capital, apesar de seu charme.
Parece que não tem verba para nada, mas dinheiro não falta. A corrupção parece só perder para a tecnologia que permitiu a Hosni Mubarak, em um gesto de desespero político, tirar a internet do ar esperando assim evitar a comunicação e parar as passeatas.
E resolveu falar. Tudo errado. A tensão estava em sua cara e não inspirou respeito, só raiva. Achando que se safaria com um bode expiatório que fizesse esquecer que é ele que é visado, demitiu seu ministério e cometeu um erro crasso. Nomeou como primeiro ministro o chefe de seu Serviço Secreto, o septuagenário Omar Suleiman que já sofreu três ataques cardíacos e é o seu negociador com Israel que passou meses de sua vida, se não anos, entre Jerusalém e Tel Aviv. É inacreditável. Provocou risadas entre os egípcios, pois mostrou quão escassos são seus quadros e que está cada minuto mais acuado.
O Egito está em chamas e o Cairo parece um campo de batalha. Daqui a pouco vai lembrar Bagdá, se Mubarak conseguir se proteger em uma Zona Verde e declarar o resto da cidade Vermelha. Aliás, é quase isto, segundo alguns habitantes que já estão formando milícias em seus bairros para protegê-los da pilhagem de marginais, deixados à vontade pela polícia para semear a anarquia e o caos.
E tudo começou de maneira espontânea. A fórmula foi a da Tunísia. A organização das passeatas foi feita através de Facebook, Twitter e celulares. O Cairo começou a ferver, a tensão era palpável, em Suez as armas dos beduínos substituíram os slogans dos estudantes da capital e a passeata de sexta-feira seria a gota d’água que faria naufragar Mubarak... Mas na madrugada do dia chave a internet saiu do ar. Telas escuras e silêncio total. Era como se fosse a Faixa de Gaza bombardeada quando os Israelenses bloquearam a rede de contato ou na Birmânia quando o ditador de lá, enquanto massacrava os monges, “desligou” os celulares – aliás, o governo chinês cortou há pouco o Egito de todas as comunicações de Twitter e similares... A cara da ditadura muda, mas os métodos são os mesmos em toda parte.
Para jornalista, não poder se comunicar é um pesadelo do qual só pensa em acordar. Os mais antigos na praça correm atrás do velho Telex por onde antigamente a informação circulava, mas onde encontrar uma máquina dessas em bom estado? Para transmitir algo, neste caso, só atravessando a fronteira, mas para onde? Sudão ou Líbia? Foice ou punhal?
O jeito foi esperar testemunhando o que passava.
O “velho” Mubarak está bem preparado, bem armado e parece querer resistir até não poder mais. Trinta anos no poder, um simulacro de democracia com a qual até alguns dias controlava o campo e as cidades... Ele estava tão preocupado em agradar os aliados ocidentais que não viu o tempo passar, o país naufragar, a população mudar, os camponeses deixarem de ser majoritários e seus filhos começarem a reivindicar liberdade e maiores oportunidades.
Quase dois terços dos habitantes nasceram durante o governo Mubarak e destes 50 e poucos milhões, 24 têm menos de 20 anos. Saem da escola, da faculdade, sem perspectiva, sem trabalho e com tempo de sobra para surfar na internet, informar-se e sonhar.
Os tunisianos mostraram o caminho e os jovens egípcios os seguiram sem pestanejar.
E o Egito tem um líder potencial de peso que falta à Tunísia: Mohamed ElBaradei, ex-presidente da Comissão Nuclear das Nações Unidas, e desde o fim do seu mandato diplomático, o mais forte candidato democrático à sucessão de Hosni Mubarak.
Na quinta-feira ElBaradei saiu correndo de Viena, onde reside, para o Cairo. Alguns dizem que lhe faltou faro político, pegou o bonde andando, chegou tarde.
É verdade que se o Prêmio Nobel da Paz quisesse ser o presidente da vez deveria ter pego o avião no dia em que Ben Ali foi escorraçado de Tunis para capitalizar a revolta contra os 30 anos de “reinado” de Mubarak. Mas ElBaradei não foi para o Egito atrás de cargo, segundo fala. Foi para catalisar, mostrar a cara conhecida em todos os palácios do mundo civilizado e assegurar uma transição democrática até a organização de eleições honestas em que todas as facções do país estejam representadas.
Aos 68 anos e uma carreira internacional independente de pressões e até hoje sem falha, como diz o escritor Alaa Al-Aswany, sua figura simboliza tudo pelo que as ruas estão em batalha. E o ditador de 82 anos sabe desta ameaça. ElBraradei levou um jato d’água como qualquer manifestante e depois seguiu o conselho de ficar em casa até a hora de mostrar a voz e a cara ao povo que deu ouvidos às suas palavras.
A revolta está virando revolução de hora em hora. O processo parece irreversível. Da Casa Branca Barak Obama cobrou as mudanças prometidas por Mubarak. Agora é tarde. Teria de aconselhar Mubarak a retirar-se e entregar a chave a ElBaradei para que este arrume a casa enquanto a revolta é laica... Mais uma demonstração da perigosa miopia geopolítica de Washington. Hillary Clinton, por sua vez, fez o discurso errado, ameaçando cortar a ajuda de 1.5 bilhões de dólares... Seu despreparo geopolítico é deplorável... falar em dinheiro quando a questão é de autodeterminação, liberdade... está no limite da decência diplomática. Era melhor ter ficado calada. Mesmo porque este dinheiro não era do povo que está nas ruas. Estas estão lotadas de homens e mulheres que preferem batalhar no trabalho para se alimentar e decidir seu próprio destino do que bilhões de dólares que vão parar em mãos erradas que não contribuem com nada. Depois Hillary ouviu a voz da razão e entendeu que era melhor mudar de lado e apoiar uma transição pacífica.
Esta revolta no Egito é popular. E pelo menos por enquanto é laica. Na sexta-feira as ruas se encheram depois da oração do meio-dia nas mesquitas e no domingo é a vez dos Coptas se juntarem às passeatas após a missa. Pouco se ouve, fora nos enterros, a frase corrente nos países árabes: Allah AlAkbar! (Deus é grande), os jornalistas estrangeiros são bem-vindos, não se queima bandeira americana e a palavra de ordem de muçulmanos e cristãos em uníssono é Kefaya! Basta; é quase como se o país tivesse amadurecido, se olhasse por dentro e por fora, e assumisse sua responsabilidade pela situação em que se encontra sem procurar falsos culpados.
Um colega norte-americano conjeturou sobre o cansaço da massa daqui a alguns dias e Mubarak continuar como se tivesse sido apenas uma onda que passa como no Irã no ano atrasado. Parecia mais uma esperança, o que verbalizava. O Egito não é o Irã. E para que não vire, os EUA, a França, a Inglaterra e a Alemanha têm de ficar de fora, calados publicamente (e ao telefone com Mubarak para que este limite os estragos, no país e pessoais) e deixar a água rolar sem opinar como fizeram no Irã no ano atrasado minando a revolta nacionalista contra Ahmadinejad.
Por enquanto o Exército, que beneficia de farta verba dos EUA, está relativamente quieto. Mas seu comandante, general Tantawi, é amigo pessoal de Mubarak, e pelo que consta, estava em Washington enquanto a polícia atirava no Cairo. Para quê estava lá, só dá para imaginar. Se a ordem que recebeu foi de apoiar Mubarak custe o que custar, vai ser um massacre. Se a ordem foi de aconselhar o amigo a renunciar e assegurar uma transição calma, os soldados estão prontos para acatá-la e gritar Kefaya.
Pois o que se ouve por todos os lados é uma frase simples: Só queremos a demissão de Mubarak e eleições democráticas. E nas ruas, os gritos aconselham Mubarak a pegar o avião e escapar. Para a Arábia Saudita, quem sabe?
Liberdade era o que nós brasileiros queríamos em 1994. Sem luta, sem sangue, só com o povo na rua reivindicando seus direitos inalienáveis. Nossos militares entenderam que era o fim da linha, que estava na hora de deixar os brasileiros decidirem que rumo tomar.
Se os EUA deixarem, os egípcios estão prontos para seguir nossos passos.
A sensação é de que tudo é possível. Da guerra civil, caso Mubarak se agarre ao poder com mais armas, a uma revolução em que realmente as coisas mudam. Do nada ao tudo. Tudo ou nada.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Palestine Papers



Al Jazeera investiga e denuncia: PALESTINE PAPERS. Os bastidores das negociações Israel/USA & Autoridade Nacional Palestina

Day 1 
 Day 2: https://youtu.be/B_DemcnWGHg
Day 3: https://youtu.be/GcAW5DmIONw
Day 4: https://youtu.be/8RFUE5RNaog

domingo, 23 de janeiro de 2011

Onda revolucionária nos países árabes?



Alguns leitores deste blog estão curiosos em saber se vai mesmo ter uma avalancha revolucionária nos países árabes deslanchada pela revolução tunisiana, e onde está a verdade no alarde mediático.
Onde está a verdade verdadeira só o futuro sabe.
O que sei é que se dependesse só da má qualidade de vida, das baixas perspectivas de crescimento individual e da insatisfação dos jovens nos países vizinhos da Tunísia, eu diria que a bola de neve rolaria pelo menos até a Argélia. Diria também que na Tunísia o que aconteceu foi uma verdadeira revolução que trará mudança tanto política quanto ideológica concreta e que nem os fundamentalistas vão conseguir dominar quem não quer mais ser dominado; sobretudo após ouvir um tunisiano que prezo falar entusiasmado sobre o descontentamento geral e solidário (de fato, palpável) e que tendo provado o gostinho da liberdade de ação e de palavra, o povo não vai voltar ao medo que o levava à passividade.
Eu gostaria de acreditar pelo menos nas últimas linhas do último parágrafo. Vendo o arrebatamento deste e de outros tunisianos confesso que um sorriso prazeroso me veio aos lábios. Lembrei o movimento brasileiro pelas Diretas, as passeatas, a esperança de estarmos saindo das trevas e que a luz estava voltando a brilhar em todos os estados. Contudo, o Brasil tinha uma oposição organizada, com quadros políticos e intelectuais maduros, inexperientes, mas prontos para governar, e no nosso país, desde a independência, tudo acontece sem extremismo e sem trauma – os anos de ditadura são uma aberração que destoam da nossa pauta.
Na Tunísia tem um porém importantíssimo que não há como descartar: o presidente Ben Ali fugiu com o ouro do Estado e a família de sangue, mas sua família política continua lá, liderada por Mohamed Ghannouchi, com 20 anos de fidelidade ao presidente escorraçado. Para completar, o que se ouvia nos países árabes sobre a Tunísia antes da onda democrática, era que toda a população adulta trabalhava direta ou indiretamente para a polícia de Ben Ali. Ora, a polícia lá tem o peso do exército no nosso lado. Ben Ali é um ex-policial que governou com o apoio total de seus companheiros de arma que somam milhares e deixou o exército de lado – daí o apoio imediato dos soldados e da hierarquia militar ao povo revoltado. E ao fugir, Ben Ali prometeu aos seus assessores policiais imediatos que ia voltar. Promessa é dívida para os que aproveitavam do sistema e por isto o aparelho ainda não foi e só será desmontado na marra. O perigo da guerra civil ainda não foi descartado.
O outro dado importante é que a França, a Inglaterra, a Alemanha e os Estados Unidos sempre apoiaram os ditadores africanos e árabes, os quais de uma maneira ou de outra o grupo junto ou separado quase ajuda a empossar e depois sempre fecha os olhos para o autoritarismo que estes ditadores cedo ou tarde acabam instalando para ficarem.
Ben Ali é um arquétipo que realça no contexto atual, mas como ele existem presidentes, emires, sheiks e monarcas autoritários espalhados por todo o mundo árabe. Os países ocidentais influentes os deixam livres para reprimir o povo e pilhar o patrimônio nacional contanto que conservem o extremismo muçulmano bem vigiado e domado.
O que o Ocidente não vê, (como não via no nosso Cone Sul durante a guerra fria em que o mal absoluto era o comunismo do Kremlin e não Ben Laden – Bons tempos aqueles! dizem hoje em salas fechadas), é que o resultado de autoritarismo + desemprego + pobreza + corrupção desenfreada é uma bomba relógio, uma catástrofe anunciada.
A farsa do Iraque foi um desastre para o mundo árabe. Afinal, Saddam Hussein era um Pinochet em versão árabe, apenas um ditador a mais e era o único que realmente combatia Ben Laden. Hoje o Iraque também virou uma presa fácil, como os demais.
Não porque os árabes tenham todos tendência fundamentalista, dizer isto seria como afirmar que todo judeu é sionista extremista, e ambas asserções são inflamatórias e falsas. Mas sim porque a diferença entre o padrão de vida dos governantes e dos governados é grande demais para ser suportável. Em países como a Argélia, onde a riqueza do solo é parasitada por um clã político, ou em outros, por uma dinastia insaciável que se enriquece com grande evasão de divisas – o dinheiro é gasto em casa, mas muito mais fora – o ressentimento corrói até os ossos e Allah parece a única solução honrada.
No século XXI, no Ocidente o Islamismo substituiu o comunismo no consciente e no inconsciente de medo coletivo. Mas como os comunistas, os muçulmanos não comem criancinhas, e não são todos barbudos e bitolados. É claro que a falta de perspectiva e lavagem cerebral podem transformar até um jovem recém-diplomado em soldado de Ben Laden. Mas se fosse assim tão fácil e se tivesse tantos candidatos, o mundo ocidental já teria vindo abaixo, já que há 1 bilhão e 200 milhões de muçulmanos nos quatro cantos da Terra. Os judeus são 14 milhões. Os cristãos são dois bilhões.
Como os EUA sabem melhor do que ninguém que estes números não significam influência, (se significasse, a Palestina – cristã e muçulmana – já seria uma nação independente), vivem em constante estado de alerta. Por isto quem está esperando uma onda revolucionária seguida de outra democrática nos países árabes pode esperar sentado senão cansa.
Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos da América, falam e falam em ajudar a democratização e em apoiar democracias emergentes nos países árabes, mas cada vez que um presidente é eleito, governa para si e para seu clã, mais cedo do que tarde acaba corrompendo o sistema eleitoral para se perpetuar e os quatro grandes lhes dão um tapinha na mão de vez em quando enquanto seus bancos recebem o ouro roubado e as boas intenções vão por água abaixo.
Ben Ali é o padrão da hipocrisia ocidental e árabe. Até o mês passado o renegado (em sentido próprio e figurado) era recebido em todas as capitais por chefes de estado e empresários sem que ninguém questionasse sua integridade. Hoje todos o repudiam e desaprovam sua corrupção da qual beneficiavam em negócios milionários.
O poder político dos quatro grandes, sobretudo dos EUA, é tão grande por aqueles lados que mesmo estando tão apavorado quanto os vizinhos autoritários, o rei da Arábia Saudita não teve como recusar refúgio a Ben Ali. Aliás é o mesmo país que recebeu o sanguinário Idi Amin Dada em 1979.
A palavra de ordem nos palácios dos governos árabes é não desagradar os EUA, cliente petrolífero e dono de bases militares autárquicas inclusive na Arábia Saudita (onde a Meca está situada – versão muçulmana do Vaticano, sem um papa). E as bases são sólidas e estão para ficar.
Os déspotas árabes são os maiores aliados dos EUA no combate ao “terrorismo”. Aliás, Guantánamo (http://www.youtube.com/watch?v=QXlRJmpHFxA), que o candidato Barak Obama havia prometido fechar, continua “abrigando” 192 suspeitos que se não estivessem lá, também teriam sido enviados a centros de detenção “especializados” instalados em alguns países árabes.
A cumplicidade é devida a um pragmatismo imediato de temerem que os fundamentalistas ocupem seu lugar. Para agradar os EUA até deixam Israel avançar e avançar em seus projetos de ocupação e só defendem a Palestina quando são obrigados por uma insatisfação popular que os ameace. Eles agora sabem que todos os seus palácios têm telhado de vidro, embora pensassem que fosse de aço e que o ouro do petróleo fosse uma proteção inoxidável.
Por isto, pelo receio que a casa desmorone e que tenham de fugir para nunca mais voltar, (como foi o caso de Idi Amin Dada que morreu rico, mas exilado em uma mansão que virou mais uma prisão do que um oásis) por todo lado a alta de preços que está estrangulando as famílias foi subitamente gelada, a promessa é de baixa, e pelo menos pão vai encher a barriga das massas. Em tempos de crise aguda, promessas é que não faltam. 

Quanto à Tunísia, que os otimistas me perdoem, mas pela lógica da real-política, a não ser que a internet além de facilitar a comunicação tenha o poder de mudar cultura e mentalidade das classes populares, o mais provável é que, no caso de eleições presidenciais a população acabe elegendo um candidato ligado ao partido islâmico. Não por vontade individual, mas porque, que eu saiba, a oposição partidária é de fachada e o país ainda não dispõe de nenhuma liderança laica válida, já que a revolta foi espontânea, e não organizada.
O líder do partido islâmico moderado Ennahda, Rachid Ghannouchi, exilado entre Londres e Paris há mais de duas décadas, já declarou ao Der Spiegel que está preparando sua volta, mas que não deseja instalar no país um regime de partido único e nem instaurar a charia (lei islâmica). Mas sua liderança não atinge a juventude laica.
Enquanto isto, em Tunis, as prisões foram esvaziadas dos presos políticos e religiosos, a mesquita da Universidade de Tunis, de onde começou a revolta estudantil islâmica em 1981, foi reaberta na sexta-feira para um primeiro culto do qual participaram uns cinquenta estudantes, e todos os imãs tunisianos no exterior foram chamados de volta para casa.
A laicidade que é cultivada na Tunísia desde a independência da França em 1956 (as mulheres são proibidas de usar o hijab – véu – no serviço público), pode estar ameaçada e em poucos meses pode ser que as mulheres cubram a cabeça e os homens deixem crescer a barba. Mas são os tunisianos que têm de escrever sua própria história.
A notícia que tenho de última hora é que os sindicalistas, que se juntaram aos jovens no processo revolucionário, pretendem participar da reestruturação do Estado.
Quem sabe surge um líder oposicionista carismático?
Mas até as eleições democráticas muita água vai rolar. Mas o certo é que a Situação, até com ajuda ocidental velada, não poderá se reorganizar, pôr um verniz democrático na fala e na cara, e eleger seu candidato.
O processo democrático parece irreversível. Embora, para responder com honestidade as perguntas sobre os rumos da Tunísia e dos demais países árabes, seja obrigada a repetir que na verdade, fazer uma projeção definitiva do futuro laico da Tunísia nesta data não é fazer análise, é conjeturar. E não me meto nesta seara.

The Road to Guantánamo, de Michael Winterbotton: http://www.youtube.com/watch?v=JCUDFfBLRTU