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domingo, 4 de dezembro de 2011

Israel vs Palestina: Prólogo - Xô, doutrinação Shabak!


Na semana passada, o governo de Israel tomou mais duas medidas arbitrárias inconcebíveis em um regime democrático.
Amordaçou a informação fechando a rádio liberal Kol Hashalom Vozes da Paz, criada por ativistas palestinos e israelenses que trabalham em boa camaradagem.
Vozes da Paz é uma órgão de imprensa importante, autorizado pelos Acordos de Oslo, porque dá espaço a todos os segmentos das populações de ambos os lados, tentando inclusive abrir diálogo com militantes políticos palestinos e com colonos sionistas de extrema direita. Em uma tentativa democrática de estabelecer comunicação e promover a paz.
Mas em vez da rádio pacifista, o governo criou a rádio Galey Israel Ondas de Israel, que veicula ideias mais de ódio do que de paz, tanto na Cisjordânia quanto em Israel, onde suas ondas vagueiam, e a mensagem é transmitida, como quem não quer nada.
E assim Binyamin Netanyahu continua coerente com seu governo expansionista e cada vez mais arbitrário.
Segundo um parlamentar de extrema-direita, "Uma estação de rádio esquerdista que se transforma em instrumento de incitação não pode ser autorizada a transmitir para o público."
Enquanto que Mossi Raz, ex-parlamentar que co-dirige a rádio, e outros democratas ficaram preocupados com a escalada das restrições democráticas que a população israelense vem sofrendo.
Raz declarou ao jornal inglês The Guardian que "É uma decisão política. Estou muito preocupado. Não tem democracia aqui. As pessoas acham que democracia é apenas o direito de voto, mas não é apenas isto. Não tem democracia sem liberdade de imprensa." "E de expressão" acrescentou um judeu militante de Direistos Humanos, se referindo às leis anti-boicote e de financiamento estrangeiro que só prejudica as ONGs, e a mudança do controle da Corte Suprema para o Parlamento.
Jornalistas israelenses vêm reclamando bastante da censura nos meios de comunicação.
O Canal 10, uma estação de TV independente, está quase fechando porque o Governo condicionou uma negociação do pagamento de suas dívidas à demissão do jornalista que revelou o "patrocínio" de viagens privadas de Binyamin Netanyahu antes de ser primeiro ministro.
O âncora do Canal 2, Yair Lapid, por seu lado, disse que Um governo incontinente está silenciando vozes dissidentes."   
Voltando à rádio Kol Hashalom, a mordaça em si já é repreensível, mas o pior é que a sede da rádio não é em Israel e não transmite nem de Jaffa, nem de Haifa nem de Tel Aviv - transmite de Jerusalém Oriental e de Ramallah... na Cirjordânia.

E depois do anúncio feito por Mahmoud Abbas das próximas eleições em Maio de 2012 na Palestina, em retaliação à ousadia do Fatah e o do Hamas concordarem que está na hora do povo voltar às urnas (a última eleição autorizada pela "Comunidade Internacional" aconteceu seis anos atrás com o resultado que se sabe), o governo de Israel voltou a bloquear os fundos de pagamento dos 153.000 funcionários da Autoridade Palestina e simplesmente pagar as contas.
Pois é, até o dinheiro gerado diretamente pela Palestina é "coletado" em grande maioria por Israel e transita pelos bancos de Tel Aviv que transferem ou não os fundos até para pagamento de funcionários, o que é o mínimo.    
Faz parte dos Acordos de Oslo e beneficia sobretudo israel que cobra 3% de todo o dinheiro dos impostos que coleta. E beneficia também os bancos, pois enquanto o dinheiro "dorme" na conta...  
Avigdor Lieberman, o sionista integrista que ocupa o Ministério das Relações Exteriores disse que faria tudo para que o dinheiro não fosse transferido.
A situação é tão esdrúxula, para não dizer absurda, que desta vez até os aliados israelenses de carteirinha,Tony Blair, Ban Ki-moon e Hillary Clinton solicitaram a Netanyahu, em público (ao telefone ficou entre eles) que liberasse os fundos sem os quais os palestinos não vivem.
A resposta de Tel Aviv, off the records, foi que com este comportamento negativo e irresponsável eles não podem esperar business as usual.  
O Comportamento negativo e irresponsável da Autoridade Palestina, ao qual referem, é o de ter conseguido o reconhecimento da Unesco e estar tentando a obtenção da cadeira na ONU que garanta ao povo o direito de ter carteira de identidade e passaporte palestino, que lhes dê o direito de existir e de transitar como você e eu em seu território e fora.
Israel e os EUA consideram que os palestinos precisam da bênção de ambos para pleitear o que a ONU lhes deve desde 1947. E definem o comportamento da Autoridade Palestina de unilateral, embora a iniciativa desta seja diplomática, respeitando as vias oficiais internacionais.
Ao contrário do que Israel fez em 1948. Vamos ver a história direitinho nos próximos blogs.

O título do blog de hoje, ou seja, esta palavra desconhecida para a maioria, vem de Israel.
Shabak é um acrônimo de Shérūt ha-Bītāhōn ha-Klālīa, vulgo Shin Bet, como o Serviço Secreto Israelense interno (tipo o SNI no Brasil dos militares) é chamado. 
O Mossad é a CIA local e o campo de atuação do Shin Bet é o "território nacional", no qual leia-se Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaz..., como se os Territórios Ocupados fossem de Israel de direito e de fato, o que para bom entendedor já é sintomático. 
O que me interessa hoje não são as ações do Shin Bet, condenadas pelas ONGs de Direitos Humanos pela crueldade (como o DOI-CODI dos nossos militares), mas sim o adjetivo em que virou a palavra.
"Educação Shabak" é como os israelenses, e os palestinos que sobreviveram em Israel bem que mal à Naqba, definem o processo de doutrinamento que recebem desde a infância nas escolas.
Como minha geração foi "instruída" nos cursos de "Moral e Cívica" do Primeiro Grau, de "OSPB" do Segundo e "EPB" da Universidade.
Em Israel, o processo consiste de inculcar nos israelitas o sionismo exacerbado e extirpar da memória árabe sua identidade cristã ou islamita distanciando este cidadão de segunda classe emocionalmente dos compatriotas encurralados nos Territórios Ocupados e na Faixa de Gaza.
Às vezes tenho a impressão que todo o Ocidente sofre a lavagem cerebral da educação shabak que leva o cidadão brasileiro, francês, estadunidense, etc. a acreditar que o principal objetivo da vida é acumular bens e dinheiro, e no plano geopolítico do Oriente Médio, a identificar-se com o algoz em detrimento da vítima. Inclusive a grande maioria da mídia. 
As imagens indutivas são tão fortes que até hoje, embora faça cinco anos que os palestinos puseram fim aos atentados suicidas, no imaginário popular individual e coletivo estes atos isolados lamentáveis ocupam muito mais espaço do que os abomináveis bombardeios de 2006 e 2008/9 do Líbano, da Faixa de Gaza, que deixaram centenas de mortos e cidades inteiras destruídas, e as agressões quotidianas que os palestinos sofrem de soldados e colonos israelenses, que os insultam e destroem suas casas e o fruto de seu trabalho.
O general Golbery do Couto e Silva não conseguiu nos transformar nas ovelhas passivas que pretendia porque vivíamos no Brasil e sentíamos na pele os efeitos do regime e víamos o que os militares faziam.
Já que nem todo mundo quer e pode dar um pulo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza para ver e sentir o drama palestino, e como contra todo mal tem um antídoto, o que combate a Educação Shabak é a informação, simples e accessível.
Eu sou apenas uma fonte entre tantas outras. Como os documentários, sites e filmes que recomendo abaixo e tento selecionar o melhor possível.

Documentário de Essam Billan: Inside Shin Bet (48')

Por lembrar na semana passada de Juliano, de Vittorio e a batalha pela justiça da qual ambos foram trágica e precocemente arrancados, resolvi atender aos pedidos que me fazem amiúde de esclarecer a história do conflito israelo-palestino.
É para os que recusam a Educação Shabak que se destina a história, legítima, mas vista pelo prisma do vencido, que começa neste blog e terminará em janeiro de 2012.
Vou tentar desfiar, com a ajuda de fatos e de dados recolhidos em ONGs de Direitos Humanos israelenses, os porquês, quem e quando.
Sendo alérgica a ocupação, espoliação, opressão, “limpeza” humana programada, minha posição no conflito é clara. Sou contra a ocupação israelense da Cisjordânia – militar e através das colônias – e a favor dos dois Estados autônomos e livres convivendo um ao lado do outro, como povos civilizados.
Como desejam os democratas liberais de ambos os lados.
Mas tem jornalistas, jornais, que desejam outra coisa, o contrário. Quem discordar de mim pode lê-los e me deixar de lado. Isto se chama democracia, liberdade.
Porém, não conheço nenhum ser humano, inclusive repórter acostumado com as piores atrocidades, que tenha estado de cabo a rabo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e que consiga "entender" a política de limpeza étnica do governo de Israel na Palestina.
Dito isto, volto a precisar que não tenho nenhuma antipatia por Israel e nem pelo povo israelense, muito pelo contrário.
Haifa e Tel Aviv são bolhas animadas (vide filme homônimo de Eytan Fox) cheia de boas pessoas interessantes, inteligentes, simpáticas, que não se consideram superiores a nenhuma outra gente. Estas pessoas bem-intencionadas querem viver em paz com os vizinhos em pé de igualdade, e quem sabe até serem amigos – parentes já são, já que têm a mesma raiz semita.
Estão longe de ser maioria; se fossem, o governo seria outro e agiria de outro jeito. Mas fazem tanto barulho quanto os compatriotas influenciados pela Educação Shabak e por isto sua liberdade de expressão vem sendo embargada.
Como sou da geração brasileira que ainda se lembra da ditadura, vejo os sinais do autoritarismo, me arrepio e me solidarizo com os democratas engajados na luta contra este governo belicoso e expansionista que envergonha a memória de seus antepassados. 
A história que vou desenrolar nestas três semanas é para quem gosta de conhecer todas as verdades antes de escolher a sua. Que questiona a propaganda veiculada pelos lobbys e pelos meios de comunicação com agenda própria ou que trabalham com comunicados oficiais dos poderosos que escrevem a história.
Eu só enxergo o óbvio, sinto, raciocino e me ponho no lugar do outro para entender o que ele sente, passa, sofre sem poder fazer nada.
Nesta onda brava do Oriente Médio, antes de abordar a história, vou navegar abaixo por certos mitos ou/e “inverdades” que ouço amiúde de israelenses integristas ou doutrinados e de simpatizantes de Israel que nunca pisaram nos territórios palestinos ocupados e que talvez por isto defendam o que a maioria das pessoas no mundo considera indefensável.

A primeira é uma inverdade muitas vezes repetida até muitos acreditarem: O conflito Israel/Palestina é religioso.
Não é não.
É um confronto entre duas nações.
É um conflito político e expansionista entre um Estado com grande potência bélica que ocupa um outro que nem existe de fato e que não tem direito de armar-se, defender-se e revidar.
Apesar dos componentes religosos, sociais e outros que acabam exacerbados pelos extremistas, a questão não é religiosa, é de território.
A Palestina não era terra de ninguém quando os judeus chegaram. Era uma terra habitada por 500.000 pessoas das quais 90% eram já de dezenas de gerações.
Conheço muitos judeus esclarecidos que sabem disto e condenam o governo de Israel com mais veemência ainda. Morrem de vergonha de alguém confundir a riqueza da religião hebraica com os atos bárbaros praticados pelo governo de Israel, através dos colonos e dos soldados, nos territórios ocupados.
Eles, como eu, quando ouvem alguém dizer que faz parte de uma raça superior, mais inteligente, mais talentosa, do povo escolhido, lembram de Hitler e arrepiam de pavor! E você, leitor?

A segunda é uma das mantras que os israelenses repetem de pai para filho e para os estrangeiros que passam por lá, para justificar seu desprezo pelos "animais" que eles fazem tudo para exterminar.
Mostram as terras irrigadas que cultivam, produtivas centímetro por centímetro, e mostram um pedaço de terra palestina ainda não confiscada, enchem a boca e dizem: veja como são incapazes e atrasados!
O que omitem é que as laranjas de Jaffa, tão conhecidas na Europa, eram cultivadas pelos palestinos antes de 1948 até as terras serem confiscadas, os donos serem deportados e os ocupantes de hoje desviarem toda a água para a própria agricultura e para os colonos, cuja diversão favorita é destruir e queimar lavouras e oliveirais palestinos ancestrais.
Dezenas de casos já foram levados a tribunal. Nenhum foi julgado.
Como boa goiana, sei que sem água, nem erva daninha pega.
Sem contar o lucro do turismo cristão, embora a maior parte dos sítios históricos se encontrem na Cisjordânia e a manutenção seja feita pelos palestinos, é só Israel que ganha.

O terceiro é o mito alimentado por uma certa mídia: Em 2000, as negociações de Campo David, apadrinhadas por Bill Clinton, capotaram por causa da partida enraivecida de Yasser Arafat.
De jeito nenhum.
É verdade que Yasser Arafat partiu no meio do Encontro, mas foi por indignação com a proposta de Ehud Barak.
Veremos os detalhes quando atingirmos este ponto na História do conflito que começarei a traçar na semana que vem.
Embora eleito pelo Partido Trabalhista, desde que assumiu o governo em 1999, Ehud Barak, em vez de devolver aos palestinos pelo menos um ínfimo do que lhes pertencia, incrementou a expansão das invasões/assentamentos na Cisjordânia confiscando terras, demolindo casas, aumentando as invasões já montadas e construindo novas.
Quando Ariel Sharon o sucedeu no governo era só prosseguir no terreno minado.
Desde então, a situação só tem piorado.
Até Netanyahu voltar ao poder com ideias mais extremistas, com o apoio de Shimon Peres no alto, de Ehud Barak de um lado e Avigdor Lieberman do outro, para agir com maquiavelismo e crueldade.   
Aí ouço também o argumento de que Sharon fez o gesto de "boa vontade" de evacuar as colônias da Faixa de Gaza... Pois é, mas para bombardeá-la à vontade dois anos mais tarde.
Se isto não for tática de guerra em vez de tática de paz, o mundo em que vivemos não é nem o purgatório. É o inferno.

O quarto ponto é uma inverdade e um ultrage: Os palestinos mandam os filhos jogarem pedras nos soldados da IDF (exército israelense) para provocarem a própria morte e a mídia lhes dar espaço.
Como imaginar que os palestinos não se importem que os filhos morram, que sejam assassinados?!
Se num país livre os pais não conseguem controlar os movimentos dos rebentos (só os trancando a sete chaves, e olhe lá!), como os palestinos, em situação de ocupação, de guerra, conseguiriam evitar que os filhos, indo para a escola e se defrontando com obstáculo armado que os impede de ir à aula, demonstrem sua impotência e raiva jogando pedras na barreira bélica, na esperança, vã (mas sem esperança a vida não vale nada) de forçar passagem e reocupar o espaço que é seu e que lhe foi arbitrariamente confiscado?

Sei que para um cidadão brasileiro bem nascido, leia-se, no hospital, com mãe e pai, tendo crescido livre convivendo com seus compatriotas pra cima e pra baixo com babá-celular, é difícil imaginar o que significa nascer e crescer em seu país ocupado por soldados e invasores estrangeiros que falam outra língua, o privam de água que jorra da terra de seus ancestrais, o acordam de madrugada abruptamente com um bulldozer que está destruindo a sua casa o deixando na rua sem nada, o encurrala em cercas de arame farpado e de cimento armado e ainda por cima, o trata como animal e o humilham cada vez que você sai de casa.
Dá para imaginar?
Não?
Tente imaginar a cidade em que mora com checkpoints por toda parte, com barricadas, soldados armados e de cara amarrada.
Para ir trabalhar você tem de fazer fila, ser revistado, ser despido na frente de estranhos e dos filhos, e esperar a boa vontade do soldado estrangeiro que é tão rápido quanto uma tartaruga para decidir se você pode ou não passar.
Quando dá na telha, o oficial dá ordem de fechar o checkpoint e você, para chegar ao trabalho, tem de dar mais uma volta de mais de hora para chegar a quatro quarteirões de sua casa, cercada de um muro que corta a rua e que esconde o outro lado, uma paisagem milenar familiar aos seus antepassados.
Para ir à escola é o mesmo calvário.
Pior ainda, pois você é menor e todo obstáculo é super-dimensionado. Os checkpoints são estratégicos em ruas vizinhas e você caminha, caminha, em sua prisão murada, e quando está chegando, encontra um checkpoint que não estava lá nos dias passados, era por isto que tinha dado esta volta saindo de casa uma hora adiantado para chegar à escola que fica a meio, um ou dois quilômetros de casa.
As meninas, quando cruzam com professoras também bloqueadas, têm aula na rua, sentadas no chão, os cadernos no joelho, conformadas.
Os meninos às vezes fazem o mesmo e outras vezes jogam pedra, para desabafar. Quem já sentiu sabe que sentimento de impotência aperta o peito e é difícil segurar; é barra.
Isto quando meninos e meninas não são apedrejados das janelas dos prédios de invasores instalados em Jerusalém Oriental.
E mesmo assim, 90% dos palestinos chegam à Universidade. Não conheço muita gente com tanta força de vontade.
Aliás, este é outro mito: que os israelenses são inteligentes e os palestinos burros. Se fossem, não teriam uma porcentagem tão alta de sucesso educacional com meios tão precários. O maior valor em uma família palestina é a educação, o estudo.
"Imparcialidade jornalística" além de quimera (como já disse no ano passado), em assuntos graves como este significa omissão, consentimento, cumplicidade com o inadmissível. Com o insuportável.


Trocando em miúdos, por que dou mais espaço a este conflito entre tantos outros nesta e nas demais regiões que cubro?
Já expliquei no ano passado. Não é por parcialidade, pois esta implica em um interesse próprio arquitetado.
Apenas informo sobre uma situação que interpela minha humanidade.
Este conflito reflete todas as injustiças das quais o homem é capaz quando é movido por ignorância, cobiça e ódio.
Este conflito reproduz todo tipo de opressão possível de um povo sobre outro desprovido de meios e apoio para que se levante: ocupação de terra; humilhações e abusos quotidianos de adultos e crianças; detenções arbitrárias; confisco de riquezas naturais (1); apartheid; confinamento murado e de arame farpado...
No dia em que a ONU oficializar o Estado da Palestina na fronteira completa de 1967, pelo menos a metade dos problemas internacionais serão solucionados, o mundo se reconciliará com Israel e Jerusalém vislumbrará, quem sabe, um pouco de luz e de paz.
Enquanto isto, para que a morte de Vittorio e Juliano não tenham sido vãs, sinto-me na obrigação de continuar a batalha que os dois, Naji Salim al-Ali, Rachel, James, Peter e tantos mais, iniciaram e travaram, ao preço de suas vidas, sem jamais vender a alma.          

Palestina antes de 1948
        
"No matter what's happening in the Middle East - the Arab Spring, et cetera, the economic challenges, high rates of unemployment - the emotional, critical issue is always the Israeli-Palestinian one."
King Abdullah II

Documentário: Occupation 101; de Sufyan e Abdallah Omeish
Documentário: Defamation, de Yoav Shamir
legendado em italiano

Documentário/livro: The Israel Lobby (US), dos professores John Mearsheimer e Stephen Walt

Channel 4: The Israel lobby in United Kingdom, de Peter Oborne (48', 2009)
Press TV: UKPolitics and the Israely Lobby (7')

Documentário: American Radical, the trials of Norman Finkelstein


Livro: Stay Human
De Vittorio Arrigoni
http://guerrillaradio.iobloggo.com/





Conferência do professor Noam Chomsky na Brown University, EUA 

"By 2001, there were 225,000 Israeli settlers in the West Bank and Gaza. The best offer made to the Palestinians -- by President Clinton, not Prime Minister Barak -- was to withdraw 20 percent, leaving 180,000 in 2009 settlements covering about 5 percent of the land. The 5 percent figure is quite misleading. It describes only the actual footprints of the settlements. In addition, there are other large areas that have been taken or earmarked for future expansion -- roadways that joined the settlements with each other and to Jerusalem, and life arteries, so-called, that provide water, sewage, electricity and communications. These range in width from 500 to 4,000 meters, and Palestinians cannot use or even cross many of these connecting links."
Jimmy Carter, Council on Foreign Relations

Shovrim Shtika - Breaking the Silence

 

domingo, 2 de outubro de 2011

"Estado Judeu" e Ocupação de fato



Os EUA estão diretamente fora da rede de exploração da matéria prima bilionária.Porém, perseguem a quimera do gaseoduto Pipelineistan (Turcomenistão/Afegasnitão/Paquistão).
Oficialmente chamado Trans-Afgan Pipeline - TAP (Gasoduto Trans-Afgão) e que talvez vire TAPI, caso a Índia entre realmente no negócio.
Washington é obcecada com o TAP desde meados da década de noventa quando Bill Clinton negociou sua exploração com os Taliban até eles baterem o pé quanto às taxas de trânsito e Clinton recuar porque queria levar todas as vantagens.
Antes do ataque às Torres Gêmeas em 2001 o governo Bush já havia substituído a retórica do “tapete do ouro” por “tapete de bombas”.
De uma certa forma, representando o advogado do diabo, nesta equação financeiro-militar Ben Laden veio a calhar.
Os EUA não se conformam em perder esta mina de ouro potencial que, apesar do custo de construção avaliado em U$10 bilhões, garante uma renda fixa milionária a longo prazo pela qual os EUA está desesperado.
Os Pashtuns nacionalistas eram uma pedrinha no sapato na época do comandante Massud e esta pedra virou uma pedrona chamada Taliban, no caminho deste contrato.
Contudo, dez anos e U$5.4 trilhões mais tarde, em Washington, o sonho com o Gasoduto ainda suplanta o pesadelo das mortes e da destruição que ele vem custando.
Com os Taliban no comando o gasoduto é inviável. Todos sabem.
Com a guerra interminável também, mas as tropas aliadas estão cuidando bem da faixa pela qual o gás transita.  
Se os EUA tivessem usado as vias diplomáticas no início do milênio e tivessem concordado com as condições tarifárias propostas pelos Taliban, o lucro com o TAP seria menor do que cobiçavam, mas não teriam sofrido nem infligido nenhuma perda humana.
A paz reinaria (pelo menos lá) e a Casa Branca não estaria à mercê de contractors, de credores, e sobretudo, não precisaria fomentar conflitos para vender seus serviços e faturar com o único poder que lhe resta; o das armas.

Um pouco da beleza do Afeganistão em imagens de alguns lugares que gosto.

Rabino Yisrael Dovid Weiss fala sobre o sionismo

Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/.


Artists United: Freedom for Palestine


* Filmografia selecionada de Alexandre Nikolaievitch Sokurov, em russo e inglês, pois não sei como foram intitulados em português: The Lonely Voice of Man, Одинокий голос человека, 1978–1987; The Degraded, Разжалованный, 1980; Mournful Unconcern, Скорбное бесчувствие, 1983–1987; Empire, Ампир, 1986; Days of Eclipse, Дни затмения, 1988; Save and Protect, Спаси и сохрани, 1989; The Second Circle, Круг второй, 1990; Stone, Камень, 1992; Whispering Pages, Тихие страницы, 1993; Mother and Son, Мать и сын, 1997; Moloch, Молох, 1999Taurus, Телец, 2000; Russian Ark, Русский ковчег, 2002; Father and Son, Отец и сын, 2003; The Sun, Солнце, 2004; Alexandra, Александра, 2007; Faust, Фауст, 2011.
Documentários também incríveis, sobretudo a entrevista com o escritor Alexandre Solzenitzin, em 1998.
Apesar de gostar bastante de Sokurov, prefiro publicar aqui uma pérola mais rara e, no gênero, inigualável. Uma entrevista com o grande, imenso, Andrei Tarkovski. Mestre de vários cineastas contemporâneos cujos filmes são inigualáveis em matéria de reflexão e sensibilidade do mundo e dos seres humanos.

domingo, 4 de setembro de 2011

Israel se anima na Tentifada enquanto na Cisjordânia os colonos se armam


Passeatas em Israel: Caminhe como um egípcio
De cabeça erguida
Hoje deixarei de lado a Síria, onde uma calma lúgubre voltou a reinar em Damasco por medo do potencial de repressão do presidente Assad assim como Gaddafi e a Líbia que este abandonou desgovernada e cheia de cadáveres.

Primeiro vamos à parcialidade da Organização das Nações Unidas e a subserviência do seu atual Secretário Geral Ban Ki-Moon ao presidente dos EUA (que de candidato intelectual salvador da pátria passou a mais um governante míope manipulável) e consequentemente ao governo de extrema-direita de Israel.
É claro que ele não está sozinho na cumplicidade, mas como é ele que não tem vergonha de dizer aberrações sem mudar de cara, é ele que tem de pagar o pato.
A ONU nasceu durante a ressaca da calamidade causada por Adolf Hitler no fim da Segunda Guerra Mundial. Como se sabe, os nazistas exterminaram 6 milhões de pessoas. Centenas de milhares de ciganos (executados diretamente onde estavam) e judeus (asfixiados em câmaras de gás); internaram em campos de concentração (dos quais muitos não voltaram) milhares de comunistas e opositores de toda índole, credo e nacionalidade; trataram homossexuais e deficientes como se fossem animais, e resistentes alemães loirinhos foram julgados sumariamente e executados por traição à pátria por terem se rebelado.
A criação do Estado de Israel também nasceu desta ressaca. Foi aí que lobistas judeus milionários e governos ocidentais de consciência pesada resolveram “doar” aos israelitas dois terços de um país chamado Palestina, que a Grã-Bretanha ocupava. Isto sem legalizar a situação dos nativos no pedacinho que lhes sobrava.
Sessenta e três anos, diáspora palestina forçada e guerras expansionistas mais tarde, a Palestina se encontra dividida em duas partes incomunicáveis, chamadas Cisjordânia e Gaza.
A primeira, após ser invadida, ocupada militarmente, amarrada, amordaçada e despojada de sua água, vem sendo paulatinamente desapossada de sua terra invadida por colonos judeus importados e subsidiados (alguns mal falam hebraico) que se instalam como se fossem donos da casa e os autótonos fossem bichos selvagens ou objetos inanimados.
A segunda é a Faixa pequenininha onde vivem um milhão e meio de homens, mulheres e crianças concentrados e em estado de sítio desde 2007, contra o qual o mundo inteiro, responsável, se levanta e grita, até agosto, sem que nada mude.
Neste contexto iníque, para surpresa geral, a ONU acabou de anunciar que o bloqueio de Israel da Faixa é legal e justificado... “a fim de evitar a entrada de armas na Faixa”.
Ataquedo navio Mavi Marmara pela IDF
em águas internacionais, no ano passado 
E segundo o novo relatório que desmente estranhamente o do ano passado, o ataque israelense da Flotilha da Liberdade, em águas internacionais, também foi justificado porque tinham de defender-se da resistência que encontraram...!
De quem?
De ativistas internacionais que tentavam palear um pouquinho à carência alimentícia e às destruições materiais causadas pelos bombardeios sucessivos de Gaza.
O único porém que a ONU encontrou foi que a IDF (exército israelense) usou de força excessiva na “abordagem” dos navios. Força que, diga-se de passagem, resultou na morte de nove cidadãos turcos que estavam a bordo do navio Mavi Manara. Este encabeçava a Flotilha que levava víveres e material de construção para Gaza.
O Ministro das Relações Exteriores da Turquia
promete questionar o bloqueio da Faixa de Gaza
 na Corte Internacional de Justiça
A Turquia voltou a exigir desculpas de Biniamin Netanyahu, que recusou até uma esfarrapada, embora o governo de Ankara seja seu único aliado nas paragens, e os turcos foram obrigados a levar de novo seu embaixador para casa.
E o presidente da ONU não deixou por menos. Lembrando oportunamente de seu papel de árbitro, apelou para os dois países entrarem em acordo, como se ambos fossem culpados do “acidente diplomático”.
Enquanto a ONU deu corda para Israel continuar seus atos ilegítimos, Netanyanu voltou a ameaçar a Autoridade Palestina para que esta não apresente à ONU a moção de reconhecimento de seu Estado no dia 20.
Famosa foto que cela os Acordos de Oslo
Yasser Arafat sorridente aperta a mão de Yitzhak Rabin reticente
“Se fizerem isto, consideramos o Acordo de Oslo caduco”, disse, querendo dizer que Israel e Palestina voltam a ser oficialmente inimigos.
Seria risível se a IDF não estivesse armando os 500 mil invasores que moram nas colônias/assentamentos na Cisjordânia, e treinando cães de ataque que são mostrados na televisão israelense para “tranquilizar” os moradores israelenses com esta arma secreta e nociva.
Avigdor Lieberman, o ministro fascista responsável pelas questões externas mas especialista mesmo é em incentivar guerra, não para de apavorar seus compatriotas incautos dizendo que “A Autoridade Palestina está planejando um banho de sangue após o dia 20!” 
Os colonos que estão sendo
treinados e armados
Setembro na Palestina é um mês de esperança em que cidadãos apátridas na terra natal terão o direito de existir, de ter passaporte, identidade reconhecida, e isto é entendido nos meios liberais israelenses como uma marca de futuro livre e dinâmico para a Palestina, e que gerará paz.
A extrema-direita sionista israelense está se preparando para uma guerra sem trégua contra a Terceira Intifada, como se as passeatas que os palestinos estão preparando fossem campanhas militares. Nesta semana a IDF vai proceder ao treinamento militar de colonos e continuar a armá-los de material militar que atira e mata, contra pedras eventuais.
Aliás é difícil fazer a separação da IDF e dos colonos, pois muitos destes servem o exército ou são oficiais, e muitos militares moram nessas colônias ilegais.
O que agrava mais ainda o caso de Israel porque quando oficiais e soldados de um país infringem as leis internacionais de maneira descarada, a coisa fica muito mais complicada. Se não fosse Israel, a OTAN já teria bombardeado...
A Primeira Intifada levou aos Acordos de Oslo
Só para refrescar a memória, a Primeira Intifada (que em árabe significa algo intraduzível, mas parecido com Revolta), rebentou no dia 9 de dezembro de 1987.
Foi na época de Yasser Arafat e denunciava a ocupação israelense. Esta é considerada como vitoriosa para os palestinos porque originou os Acordos de Oslo.
As pedras dos palestinos contra os tanques israelenses
na Segunda Intifada na Cisjordânia
A Segunda Intifada começou no dia 29 de setembro de 2000 em Jerusalém. 
Após o fracasso das negociações de Campo David, nos EUA, o general Ariel Sharon, até então em semi-ostracismo após o massacre de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila no Líbano, resolveu voltar à ativa da pior maneira possível. Escoltado de dezenas de soldados devidamente armados, penetrou na esplanada da Mesquita Al-Aqsa em um gesto de provocação deliberada de conflito.
Em resposta, aconteceu uma imensa passeata de jovens violentamente reprimidos pela IDF, que conteve a caminhada a gás, tanques e balas, ocasionando a morte de um estudante local.
Funeral do sheikh Ahmed Yassin criador do Hamas 
assassinado pela IDF em Gaza durante a 2a Intifada
A violência de ambos os lados - de um humilhações, check points, tanques e balas, do outro pedras e bombas suicidas que substituíam, segundo os organizadores, as forças armadas que não possuíam para combater com armas iguais – durou até fim de 2004. Ano em que Hamas e Fatah decidiram passar à resistência pacífica.
Foi então que as bombas suicidas pararam. Foi então que o Global BDS, movimento internacional de boicote a produtos israelenses, foi criado e vem expandindo sem parar. Ao ponto de deixar o governo de Israel preocupado.

Apesar da luta pacífica dos palestinos (com exceção de foguetes esporádicos lançados de Gaza por grupos extremistas), a ocupação militar de Israel continuou firme, os checkpoints entre as cidades palestinas dobraram de arbitrariedade, as colônias israelenses na Cisjordânia multiplicaram, a água foi confiscada até os palestinos só poderem desfrutar de 10% de seus recursos hídricos, Gaza foi bloqueada, bombardeada, centenas de palestinos de todas as idades foram presos aleatoriamente, e outras coisinhas mais.
Os quatro anos e pouco de conflito declarado após a Segunda Intifada, entre repressão da IDF e ataques suicidas, resultou na morte de 4.546 civis palestinos, dentre os quais 882 crianças. E do lado de Israel, 716 civis, incluindo 124 crianças.
É verdade que conforme for a reação dos EUA e a postura da ONU em relação à criação do Estado da Palestina, uma terceira Intifada é mais do que provável.
Porém, 2000 e 2011 só são separados por uma década, mas por dois mundos.
A Primavera Árabe, o fim da época Mubarak e da cumplicidade do Egito, adicionados aos movimentos populares na Cisjordânia e sobretudo na Síria, mudam totalmente a perspectiva.
Entre a potência militar da IDF com a assistência dos colonos contra as pedras eventuais dos jovens palestinos é provável que Netanyahu, Lieberman e sua cupinchas consigam fomentar o banho de sangue que anunciam.
Os caras-pintadas de Israel vão conseguir derrubar
Binyamin Netanyahu?
A maioria dos israelenses, que moram em residências legais em cidades reconhecidas, parece despreocupada. Muitos acham que tudo isto é uma invenção de Netanyahu para desviar a atenção das reivindicações domésticas econômicas e sociais.
E acho que têm razão. Que é realmente uma distração, mas infelizmente, a distração para um inimigo comum fabricado pode gerar um drama, já que o governo está preparando um coquetel mortífero junto aos colonos: terror + armas + treinamento militar = banho de sangue.
O fato é que por maquiavelismo de um e ingenuidade de outros, tanto os EUA quanto alguns israelenses incautos, vivem dizendo que as colônias/assentamentos/invasões bloqueiam as negociações e que este é o problema crucial. Ou seja, “os imbecis dos colonos”.
O que não admitem, por má-fé ou comodismo, é que como os colonos dominam a coalição política que governa o país, é o governo que está comprometido.
As tendas de protesto que cobrem a Alameda Rotschild, em Tel Aviv
O problema sócio-econômico de Israel é grave. Para encará-lo de frente e solucioná-lo, o governo precisa fazer reformas econômicas que exigem verbas elevadas. Dinheiro há, mas é utilizado em armamento e nas colônias que são um saco sem fundo literal.
Israel tem 7.5 milhões de habitantes e suas Forças Armadas, incluindo a bomba atômica negada ao Irã, ocupa o quarto lugar como potência bélica do planeta. Os cerca de 4 bilhões de ajuda militar dos EUA alimenta só uma parte do que sua manutenção exige.
No final das contas, a guerra tem um custo alto demais para os cidadãos israelenses (como para os estadunidenses: lá, em grana e em outros países, em vidas). E os colonos são o maior ponto de discórdia entre Israel e a Palestina. Portanto, os colonos são diretamente responsáveis pela queda brutal da qualidade de vida de seus compatriotas que vivem na legalidade. Além disso, estão prontos para iniciar uma guerra em que no final todos serão vencidos.
Repito: por que não recorrer às tropas da ONU para a retirada dos colonos e matar o mal pela raiz, já que Netanyahu diz que é um processo perigoso e difícil?
Um colega de Tel Aviv diz que é porque judeu tem uma regra intransigível de lavar roupa suja em casa. Ao que respondo que ao instalar-se em casa alheia sem ser convidado, o penetra já perdeu os princípios na entrada e tem de estar pronto para sair enxotado.

Enquanto os fora-da-lei se armam com ódio na Cirjordânia que invadiram, os israelenses que vivem na legitimidade em seu próprio país engrossam as passeatas de protesto em suas principais cidades (500 mil desfilaram ontem em Tel Aviv), a preocupação doméstica do governo aumenta, e o capetinha espeta o diabolismo da saída imediata fácil (?) de distrair a atenção para os palestinos e a Terceira Intifada.
Tenho dificuldade em imaginar que no Egito, na Síria, na Cisjordânia e no Líbano, os refugiados palestinos e a população local, desta vez, fiquem de braços cruzados enquanto a IDF e os colonos armados massacrarem os cisjordanianos.
A tensão está realmente grande em Israel. O país está em pé de guerra. Tanto social interna quanto literal.
Portanto, com a aproximação do dia 20 de setembro fatídico (a União Européia liberou o voto de seus membros na questão da criação do Estado da Palestina), por que as tropas pacificadores da ONU não estão na Cisjordânia, já que os palestinos são proibidos de proteger-se das forças armadas dos invasores que os agridem?
Por que Ban Ki-Moon está deixando como é que está para ver como é que fica?

Autocolante da ONG israelense de Direitos Humanos Gush Shalom 

Mãe de Samer Allawi

Jornalista Samer Allawi no trabalho
E para concluir, ontem em Gaza, cerca de 150 jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas internacionais fizeram um protesto pacífico. Sentaram na porta do escritório da ONU na Faixa para solicitar que a Organização intervenha junto a Israel a fim que liberte nosso colega Samer Allawi, palestino detentor de passaporte jordaniano (por os palestinos não terem nacionalidade reconhecida e nem identidade). Detido arbitrariamente desde o dia 10 de agosto.
A palavra de ordem dos manifestantes da imprensa é que esta detenção atinge indiretamente todos os jornalistas que trabalham no Oriente Médio, passíveis às mesmas medidas arbitrárias para virarem dedo-duro se quiserem salvar a pele.
Samer Allawi é chefe do escritório da TV Al Jazeera em Kabul. Visita a família uma vez por ano (como qualquer pessoa que mora longe de casa) em Sabastia, sua cidade natal próxima de Nablus nos Territórios Ocupados. Foi detido por soldados da IDF no fim das férias quando atravessava a ponte Allenby, que liga a Cisjordânia à Jordânia, sob acusação oficiosa de “manter contato com membros do seguimento armado do Hamas”.
Acusação absurda, pois como todo jornalista que vale algo tem de ter contato com todos os lados, a acusação serve a qualquer profissional que se preza e exerce o direito e obrigação de informar com conhecimento de causa.  
O advogado de Samer, Salim Waakim, disse que até hoje a Justiça israelense não formalizou nenhuma acusação contra seu cliente, que foi interrogado sobre seu trabalho, finanças, relações pessoais desde a infância, colegas de escola e outros detalhes de sua vida na Cisjordânia. Também se estava em contato com agentes secretos de EUA, Jordânia, Palestina, e confiscaram seu computador e o forçaram a divulgar a senha para lerem todo correio pessoal, profissional e artigos.
Samer, que trabalha na Al Jazeera desde 2006, declarou rapidamente à equipe de TV presente no tribunal que sua prisão “é arbitrária; estão tentando me forçar a dar informações que impliquem Al Jazeera e eu,” antes que soldados impedissem a filmagem.
Seu advogado diz que os interrogadores estão ameaçando acusar Samer de transferência de dinheiro do Afeganistão para a Cisjordânia se ele não concordar em virar informante de Israel.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ-Committee to Protect Journalists) baseado em Nova Iorque exigiu que Israel “esclareça as razões legais da manutenção de Samer Allawi em detenção”. E lembrou que em março deste ano já insistiu com o governo de Israel que pare de perseguir jornalistas e que respeite os parâmetros internacionais de liberdade de imprensa permitindo que o jornalista trabalhe sem interferência.
O CPJ teve de intervir por causa das violações correntes e persistentes da IDF de liberdade da imprensa na Cisjordânia, inclusive censura, detenções e ataques físicos de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.
Em Israel de Netanyahu e Lieberman, informar é crime.

Campanha do CPJ contra a impunidade de violação à liberdade de imprensa
e assassinato de jornalistas mundo afora
Ataque do navio Mavi Marmara em 2010

Lista de produtos das colônias a serem boicotados:
http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements;
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;
Lowkey: http://youtu.be/GO5Cay6GUkM;
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/
Reservista da IDF Breaking the Silence 

domingo, 21 de agosto de 2011

David e Golias

Bombardeio de Gaza na noite do atentado perto do Resort israelense do Mar Morto em Eilat, no Vale do Jordão 

Quem quebrou a trégua entre Israel e a Palestina?
Quando na Cisjordânia invasores extremistas de colônias como Yitshar fazem operações terroristas contra a população palestina, Israel, como um todo, é responsabilizado? 
Não que eu saiba.
Enterro de um soldado da IDF
Velório de uma criança palestina bombardeada 
Quando um corpúsculo extremista (sem nenhuma ligação com o Hamas) atravessa o deserto do Sinai -sob as barbas da IDF - para uma operação de captura de mais um refém militar (para reforçar o poder de barganha com Israel) e a operação termina na morte de sete deles mais oito israelenses – civis e militares, é normal que o Hamas seja tido como responsável e que todos os gazauís paguem o pato?
Vira e mexe faço esta pergunta. Vira e mexe o governo de Netanyahu usa um subterfúgio qualquer para tentar destruir o moral e a vida em Gaza.
Apesar do Hamas e da Brigada Qassam (sua Força Armada) terem logo negado qualquer participação na operação que ignoravam, a IDF (exército de Israel), mesmo sabendo que o responsável foi o grupo independente Popular Resistence Comitte – PRC (Comitê de Resistência Popular, que é uma pedra no sapato do próprio Hamas) e resolveu vingar-se, como sempre, na população inteira de Gaza com bombardeios ininterruptos da Faixa.
Agentes israelenses limpando um foguete em Ashdod
Um dos prédios destruídos em Gaza,
nos últimos três dias
 As brigadas Qassam responderam com o foguetório habitual ferindo quatro israelenses, e a IDF, só nas primeiras 24 horas já tinha ferido mais de 30 civis e matado 14. Seis militantes do PRC e oito civis, dentre estes, três meninos, um deles de 5 anos. Sem contar os danos materiais.
Como eu disse na semana passada, Netanyahu estava louco para encontrar uma desculpa para voltar a bombardear Gaza e distrair a atenção do movimento social interno que estava assumindo proporções incontroláveis. Pronto. Agora tem o escudo da retaliação para a escalada de violência e de distração nacional, e além disso, não para de gritar, bem alto, para a Comunidade Internacional só ouvir o seu lado.
E no mundo todo o atentado do Mar Morto é legitimamente condenado.
Só que até agora a comunidade internacional irreleva a morte dos civis em Gaza e o fato de Israel ter quebrado a trégua sem pestanejar.
E por seu lado, indignado com as perdas humanas, o Hamas confirma que a trégua, após a violência do ataque inesperado, virou história.
Aí me põem a pulga atrás da orelha e eu faço a pergunta básica dos criminologistas: Com a próxima votação da ONU do reconhecimento do Estado da Palestina, quem ganha com o crime?
O jornalista israelense Uri Avnevy aliás lembra que em 1982, o então ministro da defesa de Israel Ariel Sharon tinha decidido atacar os palestinos refugiados na Síria e no Líbano. E por isto foi a Washington pedir a bênção que foi condicionada a uma “provocação credível”. Alguns dias depois, como por milagre, o grupo liderado por Abu Nidal, inimigo mortal de Yasser Arafat, cometeu um atentado frustrado contra o embaixador israelense em Londres e esta ação foi interpretada como a “provocação credível” que valeu a Sharon o apoio estadunidense à agressão que ficou conhecida como a primeira guerra do Líbano. E à carnificina nos campos de refugiado de Sabra e Shatila.
Na quinta-feira, Netanyahu foi salvo pelo gongo militar em uma hora em que parecia que os protestos internos fossem empurrá-lo à demissão, como aconteceu com Golda Meir e como a coalição entre Netanyahu e Ehud Barak (antes de virar casaca) teve de ser quebrada anos atrás.
O ministro de extrema-direita Avigdor Lieberman (invasor de carteirinha, residente de uma colônia na Cisjordânia) passou a semana apavorando os compatriotas com o “banho de sangue” que os palestinos estão preparando para o dia 20. Dia da votação na ONU e em que várias passeatas multi-nacionais de celebração pacífica estão previstas na Cisjordânia e nas fronteiras com o Líbano e a Síria. O objetivo de Lieberman é que os jovens deixem as tendas plantadas na alameda Rothschild (que incomodam o governo todo dia), parem as reivindicações e empunhem fusis e canhões.
É a estória do inimigo comum que se fabrica a fim de promover uma reunião doméstica furtiva. Recurso que já gerou, mundo afora, tantos conflitos para acobertar erros políticos.

À esquerda, no resort israelense de Eilat, perto de onde aconteceu o atentado, a juventude dourada passeia devidamente policiada. À direita, um menino gazauí limpa o quintal de bomba recém-jogada. Por pouco a família inteira teria sido dizimada, como outras tantas em bombardeios noturnos passados.  

Netanyahu fez declarações tonitruantes em Beer Sheva, inclusive de reforço da proteção da fronteira no deserto de Sinai, admitindo a falha(?) da IDF em controlar a área, enquanto no sul, ao lado, o Egito está em polvorosa por causa do assassinato “acidental” de seus soldados.
Os egípcios voltaram às ruas e desta vez foi para gritar contra o vizinho. O embaixador foi retirado de Tel Aviv em seguida.
O Egito, que se debate entre a era Mubarak da cumplicidade criminosa com o governo de extrema direita israelense e a da solidariedade com a Palestina não quer e não pode ser dar ao luxo de complicar a situação interna.
Quanto a Netanyahu e seus cúmplices de extrema-direita, estão todos regozijantes com a desculpa esfarrapada que encontraram para fazer o que mais gostam: expandir suas invasões na Cisjordânia e bombardear a Faixa de Gaza.

Interpretação da lenda de David e Golias em
pintura de 1914 de Albert Weisgerber

Na verdade, este conflito dos séculos XX e XXI na Palestina, hoje, me lembra a ocupação deste território há cerca de três mil anos quando os israelitas chegaram à “Terra Prometida”.
A história dos vencedores pinta Golias como um mastodonte contra um David corajoso e miúdo – e a ficção começa neste ponto.
Estudados, viajados e vividos sabem que naquela região, gigantes são pura fantasia.
E sabe-se bem que para preservar seus compatriotas dos invasores fugitivos do Egito, Golias propôs uma luta entre os dois líderes.
Litografia David e Golias, de Osmar Schindler
Uma luta limpa que resolvesse a disputa sem guerra e sem perda palestina material e humana.
Todos conhecem mais ou menos o desfecho bíblico e a lenda de David e Golias, em que o primeiro foi sacralizado e o segundo ficou na história como um Hulk morenado.
Toda aquela parte espertinha, em que Golias espera que David se levante para começar a luta e é surpreendido com a esperteza de David, que em vez de orar estava arquitetando o plano de jogar-lhe areia nos olhos para derrubá-lo com uma estilingada e matá-lo traiçoeiramente deitado, parece irrelevante para os que usam David como exemplo de vitória do mais fraco contra o mais forte que o ameaça ou oprime.
Já Gustave Doré preferiu retratar David
com o troféu da vitória: a cabeça de Golias 
Estes desconsideram que nesta história, o "mocinho" e o "bandido" não são forçosamente os que diz a lenda.
Já que no final do combate desleal, David não cumpriu a palavra e saqueou a Palestina, forçando a população a refugiar-se onde?
Isto mesmo.
Na Faixa de Gaza.
Onde os Filistinos ficaram conhecidos sob o nome latino de Filisteus. Que, diga-se de passagem, no Aurélio e em todos os dicionários do mundo influenciado pelos vencedores, virou um insulto – “burguês de espírito vulgar e estreito”...
Com a derrubada do templo de Jerusalém pelos romanos no fim do Século I, a fuga das autoridades israelitas e o abandono das terras tiradas de Golias, os filistinos foram saindo de Gaza e voltando a expandir-se.
E dezoito séculos mais tarde... David voltou pelas mãos da ONU. 
E no século XXI, o governo israelense de extrema direita é o David contemporâneo, espertinho, espoliador, expansionista.
E a Palestina é Golias, mas não o brutamonte que se imagina. O Golias de dimensão humana que não é reconhecida.



Lista de produtos das colônias a serem boicotados: http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements;
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/; http://www.bigcampaign.org/