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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Israel vs Palestina na Faixa de Gaza: Divide ut regnes


No ponto em que chegamos na história do conflito Israel vs Palestina,  uma digressão paralela pela Faixa de Gaza e as fundações do Hamas é necessária.
Neste parêntese entre o capítulo V e VI vamos ver primeiro a geografia da Faixa.
O território é um enclave de 5 a 12 quilômetros de largura e 40 de comprimento, mais um perdido com soldados da IDF e a No Man's Land de Erez Crossing.
"Enclave" tem origem do latim enclavatus que significa "trancado".
"Enclave" em geopolítica é um território sob soberania de um principal do qual é separado por fronteiras alheias - a Faixa é cortada da Cisjordânia por fronteira de 51 km de arame farpado com Israel e 11km com o Egito.
Considerando o estado de sítio em que vive a Faixa, enclavatus seria palavra mais adaptada do que "enclave", consonante com o Vaticano, mas dissonante neste caso.
Entrar na Faixa é uma via crucis.

Os aeroportos mais próximos são Ben Gurion de Israel e El Arish do Egito, já que o aeroporto palestino Yasser Arafat, após ser interditado, foi várias vezes bombardeado e hoje é ruína.
O visitante precisa de visto da Embaixada israelense de seu país de origem.
Em teoria pode demorar de 5 a 10 dias.
Na prática, meses.
E se você não for jornalista credenciado ou membro de ONG humanitária sua chance de entrar é mínima.

Ao turista curioso ou interessado que se aproxima do Erez Crossing, os soldados não dizem que a entrada é proibida para que você não veja a que os gazauís estão reduzidos. Dizem com veemência que lá dentro tem 1 milhão e meio de terroristas prontos para reduzi-lo a pedaços...
A fronteira com o Egito hoje é uma opção válida e talvez para o cidadão comum que queira ver com os próprios olhos a vida na Faixa este caminho seja menos complicado.

Além de Erez tem mais dois checkpoints de entrada e saída.
Os únicos palestinos autorizados a atravessar um dos três são os que possuem passaporte estrangeiro, que provem necessitar de tratamento médico inacessível na Faixa ou os jovens que saem para fazer faculdade em cidades e países onde estas são edifícios acadêmicos e não alvos.
E estas autorizações levam tempo. Muito tempo. Muuuuito tempo.

Jornalistas com GOP (Governement Press Office) podem entrar e sair à vontade.
Os demais dependem de credencial, cara, origem, e boa vontade do oficial da IDF de guarda.
Após passar a revista de um primeiro soldado na mira dos guaritas, encontra outro em seguida e depois caminha os mil metros de No man's land pior do que a de Berlim durante a Guerra Fria.
No fim deste túnel tem uma casinha que é outro checkpoint que pode ser ignorado na entrada, mas jamais na saída.
Aí é bom pegar táxi - nem que seja para ajudar na economia gazauí - até o controle oficial de entrada, feito pelo Hamas. Neste não tem arma à vista.
Em seguida você pode pegar táxi ou ser recolhido pelo seu contato (que nós jornalistas chamamos de fixer).
Todo o território é devidamente vigiado por zepelins que rondam noite e dia.
Bem-vindo à maior prisão do planeta!

Geograficamente, a superfície é quase toda plana, ao contrário da Cisjordânia que é enfeitada de colinas, umas matas e o Jordão inacessível; e a terra em grande parte é arenosa e árida.
A população vive da pesca (hoje restrita ao mínimo), do cultivo e produção de oliva e azeite (uma delícia orgânica) e de legumes e frutas orientais.
A população é de mais de 1 milhão e 600 mil habitantes, dentre os quais, mais de um terço são refugiados.
A taxa de natalidade é alta, as mulheres têm uma média de cinco filhos. 
A religião predominante é muçulmana sunita, com um por cento de cristãos.
A Faixa é dividida em cinco distritos.
O do Norte é composto de cinco cidades.
A principal é Beit Hanoun, berço do rei palestino Hanoun, no século VIII AC.
Hoje 90% de seus habitantes são refugiados.
Foram os primeiros alvos dos bombardeios israelenses de 2008 (em que uma única família perdeu 18 membros em uma noite) e muitas casas ainda estão em ruínas devido ao bloqueio que a priva do básico.
Depois do Norte vem o município principal da Faixa.
Contém cerca de 800 mil habitantes dentre os quais 70% têm menos de 25 anos.
Lá está a capital Gaza. Onde nasceu o lendário Golias e onde Sansão caiu na armadilha da patriota Dalila e perdeu madeixas e vida.
Gaza é uma das cidades mais antigas do planeta. Tem cerca de 5.000 anos.
Na Idade do Ferro, era a capital da "Pentapólis Palestina" do século XII AC, que consistia de cinco cidades em um território chamado "Canaanita", cuja autonomia foi recuperada dos egípcios.
Compreendia quase tudo o que antes de 1948 era a Palestina, incluindo a Samaria e excluindo a Galileia.
Alexandre, o grande conquistador macedônio, lutou 5 meses antes de conseguir ultrapassá-la para chegar ao Egito.
(E pensar que após resistir tantos milênios ao assédio de egípcios, assírios, Alexandre, otomanos, todo este patrimônio histórico tem sido destruído paulatinamente por bombas sem nenhum escândalo...)

Depois de Gaza vem Deir al-Balah, com a cidade homônima e quatro campos de refugiados que abrigam 209 mil pessoas.
O seguinte é Khan Yunis, de cerca de 280 mil habitantes em três cidades.
E no fim, na fronteira com o Egito, está Rafah. Onde os gazauís cavam os túneis por ondem contrabandeiam gêneros alimentícios e de primeira necessidade proibidos pelo bloqueio, e raramente, armas.
Sem os túneis os gazauís teriam morrido de fome há dois anos, pois é por eles que conseguem gêneros tão perigosos quanto papel higiênico. 
Rafah conta cinco cidades e dois campos de refugiados em um total de 175 mil habitantes.
É lá que estão as ruínas do aeroporto Yasser Arafat, há anos interditado, e o portão para o Egito.

Um parêntese sobre a particularidade dos refugiados palestinos.
Não vivem em tenda como os demais.
É o único povo que conheço que onde quer que seja deslocalizado, chega, constrói casa e arruma estudo para os filhos; até ter escolas, improvisam aulas para a educação não parar.
Daí o maquiavelismo dos ocupantes de proceder à destruição moral sistemática através dos caterpillars e dos checkpoints que interditam acesso aos estabelecimentos escolares.

Antes da Naqba em 1948, a Faixa tinha uma vida normal e tranquila.
Os gazauís pescavam em abundância, tinham comida, lavoura, estudo, saúde e trabalho.
Os milhares de refugiados que chegaram das localidades distantes e vizinhas foram se instalando como podiam, apertando-se, mas com boa vontade iam levando.
Em 1967 Israel invadiu a Faixa que até então nem David conseguira penetrar quando derrotou Golias com seu estratagema pouco recomendável.
Depois da invasão militar instalou 41 invasões de civis (em cinza, na foto abaixo) tomando 20% da terra, ou seja, 10km dos 50, e confiscando outras tantas por "medida de segurança"..
Os caterpillars botaram casas milenares abaixo para construir apartamentos novinhos para os colonos judeus importados; a IDF desapropriou camponeses locais das terras mais férteis que cultivavam há séculos, e os recém-chegados ocuparam as cidades como se fossem seus legítimos proprietários. Enfim, como se os invasores fossem os nativos.
A pouca água da Faixa era canalizada para estas 41 colônias enquanto os proprietários consumiam a que sobrava, cada vez menos potável.
Os colonos humilhavam e agrediam os gazauís sempre que tivessem oportunidade, e os soldados da IDF só olhavam, como continuam a fazer na Cisjordânia.
A situação estava neste ponto quando explodiu a Intifada.
A precariedade e a frustração dos gazauís só aumentava de ver que o mundo sabia e ignorava.

Enquanto as autoridades políticas, militares e secretas de Israel perseguiam e executavam elementos proeminentes da OLP e do Fatah a fim de acossar Yasser Arafat - que não perdoavam pelos ataques das décadas de 60 e 80 - na Faixa de Gaza fomentavam, indiretamente, um compatriota adversário.
Israel aplicava a célebre teoria do imperador romano Júlio César, retomada por Napoleão em suas bravatas na Europa: Divide et impera e Divide ut regnes - Dividir para reinar.
A liderança secular do Fatah incomoda?
Que floresça um rival religioso que a enfraqueça e divida os árabes!
Foi assim que o Movimento de Resistência Islamita, cujo acrônimo é conhecido como Hamas, foi se legitimando e fagocitando as lideranças laicas do Fatah na Faixa.

Tudo começou como uma organização de caridade, Mujama al-Islamiya, que construia escolas, hospitais, instituições religiosas e cuidava dos gazauís como a Igreja católica, em maior escala, cuidava dos cristãos nos primeiros séculos construindo em volta das igrejas um complexo humanitário com hospital, escola, universidade que cuidasse do físico, do intelecto e da alma das comunidades.
O responsável desta Organização caritativa islamita era o Sheikh Ahmed Yassin, líder religioso sunita que representava a Irmandade Muçulmana na Faixa.
Yassin era um dos milhares de refugiados deportados para Gaza.
Era originário de Al-Jura, cidadezinha palestina de 2.420 habitantes, cristãos e muçulmanos, que foi riscada do mapa pelas Forças para-militares israelenses junto com a vizinha Majdal, no dia 30 de outubro de 1948. Durante a Naqba.

Yassin tinha 11 anos quando assistiu ao massacre de concidadãos e viveu desmoronamento próprio e figurado da vida livre, segura e despreocupada que até então havia levado.
Quando foi enxotado junto com os demais sobreviventes dos escombros de Jura e Majdal e empurrado abaixo para a Faixa de Gaza, da noite pro dia, literalmente, ficou apátrida, seu mundo virou de cabeça pra baixo e passou a ser cercado de muro e arame farpado.
Seus movimentos eram monitorados e sua situação doravante seria precária, como a de todos os outros habitantes do campo de refugiado em que foram parar.
No ano seguinte sofreu um acidente que o deixou quase cego e tetraplégico, mas estudou mesmo com dificuldade até terminar o Ensino Médio.
De Gaza foi para a Universidade al-Ahar, no Cairo. Uma das mais antigas do mundo. Fundada em 969, a partir de 988 focada em Estudos Islâmicos, e desde 1961, uma universidade pluridisciplinar, mas tida como a mais alta autoridade em Islamismo sunita dos países árabes.
Seus estudos religiosos serviram para aplacar um pouco do ressentimento e canalisá-lo para obras humanitárias, porém, a mágoa continuava lá, firme, forte e transbordante no quotidiano de humilhações impostas pelos colonos na Faixa - uma das distrações destes era despejar lixo e excrementos pela janela, ao ponto dos nativos terem sido obrigados a cobrir a feira com redes de pesca para evitar pelo menos os detritos sólidos despejados pelos vizinhos debochados.

Para completar o sentimento de injustiça e abandono, desde 1950 Yassin e os demais refugiados de Jura e Majdal viam erguer-se novas casas nas ruínas em que os bombardeios e buldozers haviam reduzido as que moravam, e assistiam de longe à chegada de centenas de imigrantes judeus que ocupavam as terras de seus ancestrais na nova cidade agora chamada Ashkelon, ao lado.
E a frustração da impotência frente ao ocupante crescia, subterrânea, enquanto na superfície sua popularidade aumentava.

Foi figura presente nas ruas da Faixa e suas obras caritativas o tornaram uma personalidade cuja aura só rivalizava com a de Abdel Shafi e só perdia para Yasser Arafat.
Mas Arafat estava longe, ilhado, e seus representantes nos Territórios Ocupados eram vigiados, presos ou executados pelo Shin Bet e o Mossad que deixavam religiosos locais ganharem espaço, contanto que combatessem o Fatah e Yasser Arafat.
Foi este vácuo elaborado que Yassin ocupou de bom grado. Gozava inclusive de relação cordial com Yitzhak Segev, governador israelense da Faixa. Ao ponto de em 1979 este facilitar a hospitalização de Yassin em Tel Aviv.
Durante anos o Shin Bet e o Mossad fecharam os olhos às obras de caridade do Mujama.
Até receberem informação que Yassin estava recebendo armas e encontrarem um punhado delas, escondidas em uma mesquita.
Yassin foi preso em 1984, mas quando disse que o arsenal era para usar contra o Fatah, foi libertado no Acordo de Jibril, em que 1.150 prisioneiros palestinos foram trocados por três soldados israelenses detidos pela ala dissidente da OLP, a Frente Popular de Libertação da Palestina.
Yassin foi solto e continuou suas obras de caridade, e as demais.
Hoje as autoridades israelenses juram de pé junto que deixaram Yassin crescer por negligência e que nunca financiaram nem armaram o Hamas...
Mas Robert Fisk, o "papa" do jornalismo do Oriente Médio, conta que no início da década de 1990, em conversa com um membro do Hamas em Beirute, este lhe ofereceu o número de telefone de Shimon Peres... "E como você tem o número dele?!" Porque estamos em contato frequente com autoridades israelenses.
Foi a resposta, no mínimo, surpreeendente.
Eu mesma já ouvi a seguinte frase baseada em outra história do gênero: "Dizem que o Hamas foi criado pelo Serviço Secreto Israelense.
O mais plausível é que o Serviço de Inteligência de Israel o tenha infiltrado como o MI6 britânico infiltrou o IRA em um grau considerável.
Como se sabe, terrorista para uns é combatente pela liberdade de outros."
A história da resistência contra os nazistas na Segunda Guerra está aí para provar.
O fato é que o Hamas, parte ativa de uma guerra contemporânea em que para uns é terrorista e para outros resistência legítima, nasceu na Intifada.
Cercados na Faixa de Gaza e vendo os membros do Fatah sendo um por um detidos ou assassinados e as universidades e escolas seculares sendo fechadas, os alunos da Universidade Islâmica, patrocinada pelo Mujama, foram atrás da autoridade religiosa que conheciam desde criança e que viam como única liderança local atuante. 
Pediram ajuda ao Sheikh Ahmed Yassin para guiá-los na Intifada e ele respondeu presente.
O Hamas foi oficializado e começou a atuar no mesmo ano distribuindo panfletos que acusavam o Mossad de corrupção dos jovens que transformava em delatores.
Os atentados militares começaram em seguida, mas ninguém do partido foi incomodado.
Tel Aviv e Ariel Sharon em particular, continuavam obsidiados por Yasser Arafat sem conseguir digerir as ações militares da OLP e do Fatah - aliás, o ódio de Sharon por Arafat era pessoal e doentio.
Foi pelo rancor cegante que fizeram vista grossa às obras de Yassin até 1989.
Nesse ano, Yassin seria rotulado de terrorista, após um atentado que matou dois soldados da IDF, e por causa da Carta belicosa do Hamas.
Esta declarava guerra a Israel (substituindo assim em palavras e atos a Carta do Fatah, criada com o mesmo propósito e pelas mesmas razões em 1959 e que a OLP aposentara em dezembro de 1988).
Yassin foi então detido com alarde e herdou o rótulo de terrorista que Arafat perdera ao renegar a resistência armada.
Apesar disto, Tel Aviv continuaria sem nenhuma vontade de negociar com o líder da OLP e com Haidar Abdel Shafi, o médico nascido em Gaza em 1919.
Shafi teria podido  dar um rumo laico ao Conflito, embora o pai tivesse sido oficial do Alto Conselho Islâmico. Estudou em Jerusalém e em Hebron, fez Medicina na Universidade Americana de Beirute, especializou-se em cirurgia na Universidade de Ohio, tinha vivência internacional, era fluente em inglês, laico, e era o único líder local nascido e criado em Gaza em uma família de intelectuais.
Aderiu ao Exército Britânico do Deserto em 1944, mas nunca deixou a Palestina. No fim da Segunda Guerra montou consultório em Gaza e lá moraria até a morte, em 2007.
Em 1948 atendeu centenas de concidadãos feridos e foi seu trabalho nos anos seguintes com refugiados que o levou à vida pública.
Quando constituiram um Parlamento na Faixa em 1962, ele foi eleito deputado, foi nomeado porta-voz dos parlamentares e representou Gaza no processo de criação da OLP em 1964. Representou-a na Faixa até 1967. Era tido como de Esquerda, mas foi sempre independente politicamente e religião para ele não era posição política partidária, mas pessoal e privada.
Em 1969, Moshe Dayan, então Ministro da Defesa, o baniu de Gaza durante três meses por recusar-se a cooperar com o ocupante e o deportou brevemente para o Líbano no ano seguinte.
De volta a Gaza ele fundou e dirigiu a Sociedade Palestina do Crescente Vermelho, que é um forum cultural e ministra cuidados médicos gratuitos como os da Cruz Vermelha
.
Quando começou a Intifada em 1987, usou sua autoridade para reunir as facções rivais e organizar o movimento na Faixa. Era respeitado pelas lideranças e membros do Fatah e do Hamas.
Foi o primeiro palestino a expor o drama de seu povo ao público estadunidense no programa da ABC Nightline. Sua influência foi grande até a Conferência de Madri, da qual foi o participante mais eminente.
Entretanto, sua divergência de ponto de vista com Yasser Arafat o deixou fora das negociações de Oslo para as quais havia contribuído, e por causa disto foi sendo levado ao ostracismo político, deixando o caminho livre para Yassin na Faixa.
Arafat tinha muitas qualidades, mas tinha alguns defeitos que foram nocivos à sua causa.
Um deles era o "centralismo democrático" que o levava a afastar de si quem discordasse de seu ponto de vista e a puxar o tapete de quem brilhasse mais.
Foi por causa disto que em 1996 Shafi, eleito para o Conselho Legislativo da Palestina, retirou-se da sessão em protesto à proposta de Arafat de reconhecer o Estado de Israel.
Foi seu último ato político.
Sua posição era mais ou menos a mesma do Hamas ou a do Hamas é mais ou menos a dele.
Shafi dizia que a presença judia era uma realidade que tinha de ser reconhecida, mas o reconhecimento tinha de ser recíproco.
Este debate ainda é de atualidade e de peso.
Mas voltando ao conto Gazauí-Hamasiano que precede Oslo, estávamos no capítulo em que Ahmed Yassin foi condenado à prisão perpétua e mais tarde deportado com 400 membros do seu Movimento.
Deixou na Faix a estrutura do Hamas já consolidada e tão ou mais integrada do que o Fatah, que vinha sendo paulatinamente estropiado.

Em 1989, quando Shafi tinha 70 anos e Yassin cinquenta e algo, Ismail Haniyeh, o atual Primeiro Ministro da Palestina e líder político do Hamas na Faixa, tinha 26 anos.
Como Yassin, as raízes ancestrais de sua família também eram fora da Faixa.

Seus pais eram refugiados desapropriados da mesma Majdal em cujas ruínas Israel construiu a cidade de Ashkelon para judeus imigrados.
Haniyeh nasceu e cresceu no campo de refugiados al-Shati, no distrito de Gaza, formou-se em Literatura, e participou ativamente, como milhares de jovens gazauís, da Intifada.
Foi preso três vezes durante a insurgência.
Na última, em 1992, foi deportado para o Líbano com Yassin...
Em 1993 voltou para Gaza com 30 anos como reitor da Universidade Islâmica e como membro proeminente do Hamas.
Haniyeh não é nenhum bárbaro. É culto e inteligente. As circunstâncias ditariam seu ativismo "musculoso".
Durante a ausência da liderança exilada, a ala militar do Hamas, as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, continuariam a conduzir ataques contra Israel causando vítimas civis e militares.
As iniquidades impostas aos cidadãos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza só aumentavam e a palavra de ordem era Liberdade: "O custo não importava, pois já considerávamos ter pago o mais caro, que era a nossa terra e não queríamos perder a dignidade," diz um membro da então resistência armada.
E o massacre de al-Aqsa só fez crescer a popularidade do Hamas, que aos olhos dos Palestinos desfalcados da liderança do Fatah e da OLP, ainda confinada a Tunis, parecia ser o salvador da Pátria.
Apesar das desavenças internas e a impopularidade internacional do Hamas, que fique claro que seus líderes não são nenhuns salafistas fanáticos. São pessoas muito mais abertas e instruídas que os atuais governantes de Israel.
Sou contra a violência, mas sou obrigada a admitir que os atos do Hamas são de resistência.  Resistem como podem para que seu povo sobreviva e que possa viver em liberdade e de cabeça erguida.
O mesmo que desejavam os "subversivos" da época das ditaduras bárbaras na América Latina.
Por mais que eu descorde dos métodos bélicos aos quais o Hamas recorre, que fique claro, o Hamas não é uma organização terrorista. É um partido legitimado pelo voto popular em 2006. Um partido cujos dirigentes são estudados e preferem o combate verbal ao das armas. Mas sob ocupação e vivendo em uma prisão, é difícil manter a calma.
Dito isto, a maioria absoluta dos gazauís quer é viver como gente, e em paz.
Com a eleição de Yitzak Rabin e seu discurso conciliatório pragmático, renasceria esperança nos moderados de ambos os lados.
"Esperávamos que Rabin, com a sabedoria conquistada após muitas batalhas em que o ódio era a arma fatal, se sentasse com Arafat e negociasse uma paz perene baseada na proposta feita pelo Israel Council for Israeli-Palestinian Peace (ICIPP) em 1976. E finalmente alcançássemos uma convivência pacífica com os palestinos em dois Estados," disse um dos poucos pacifistas israelense, esperançoso que a os Acordos de Oslo em 1993 resolvessem algo.
Amarga ilusão. Os Acordos seriam assinados, mas daí a decidir a resolverem algo... Os termos e a aplicação (ou não) dos mesmos, veremos na próxima etapa.


Documentário: Gaza Ghetto, retrato de uma família palestina
De Pea Holmquist, Joan Mandell, Pierre Bjorklund
Produzido em 1984, segue a vida de uma família de refugiados palestinos que tenta manter suas tradições e viver normalmente no confinamento de muros e arames farpados.




"The Vietnamese who have endured years of American heavy bombing have responded not by capitulation but by shooting down more enemy aircraft.
In 1940 my own fellow countrymen resisted Hitler's bombing raids with unprecedented unity and determination.
For this reason, the present Israeli attacks will fail in their essential purpose, but at the same time they must be condemned vigorously throughout the world."Bertrand Russel

Inside Story: Hamas x Fatah


Debate de Doha entre o Hamas e o Fatah

Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/;
Lista de produtos das colônias a serem boicotados: http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements;

domingo, 8 de maio de 2011

Olho por Olho, Ossama é morto e Obama sobe ao topo; Falando Sério, Fatah e Hamas entram em acordo

A semana começou com a execução de Ossama Ben Laden em Abbottabad, a 50 km de Islamabad e a uns 3 km de uma antiga base colonial que hoje abriga a Academia Militar do Paquistão. Se fosse nos EUA, seria como se ele estivesse a dois passos de West Point.
O Serviço de Informação do Paquistão sabia, é claro. A cumplicidade deste com Ben Laden data do início dos anos 80 quando o terrorista ex-mais procurado atuava como correio transferindo fundos dos Serviços secretos Sauditas para o Jammaat-e-Islami no Paquistão durante a jihad anti-soviética. Portanto, sua transferência em 1996 para o nordeste do Afeganistão, área monitorada pelo Paquistão, foi uma movida natural.
O anti-natural é a celebração da “vitória” da ilegalidade internacional como se perder a autoridade moral fosse uma bobagem e estas operações militares fossem mais um filme de ação hollywoodiano em que os GIs são os mocinhos e que os demais possam e devam ser aniquilados sem serem julgados.
E mais anti-natural ainda é a temeridade de transformar um velho patético em mártir só porque foi executado em vez de ser devidamente condenado no Tribunal Internacional da Háguia, que foi criado também para julgar estes casos.
Entendo que com um Ben Laden é difícil Dar a outra face, mas daí a proclamar que Quem com ferro fere com ferro será ferido como se o Direito que rege as sociedades civilizadas e a consciência que nos distingue dos psicopatas não contassem para nada, é demais.
Eu gostaria de acreditar que a distância entre pessoas deste naipe e os seres normais é abissal. Mas Obama está provando o contrário. Recuperou a popularidade de um dia para o outro como se tivesse feito um milagre porque o nome vai ficar gravado na história dos EUA com o de Ossama Ben Laden; porém, deu um golpe terrível na Justiça Internacional e ficou sem álibi.
Como justificar a permanência no Afeganistão, bombardeado e ocupado desde 2001 por causa de Ben Laden? Hillary Clinton continua boiando em um mundo imaginário quando conjetura que a morte do ex-líder do Al-Qaida vai amansar os Taliban e jogá-los nos braços do governo afgão corrupto apoiado pela OTAM. Alguns taliban admiravam Bin Laden, mas nenhum amor os unia como o que os une ao Mullah Omar que inspira o combate às tropas ocidentais. O perigo no Afeganistão vem deste homem que está bem vivo e não de Ben Laden.
Como o perigo do Al-Qaida há anos vem da geração jovem que tem várias caras, uma delas, a do estadunidense muçulmano, Anwar al-Awlaki, baseado no Yêmen, outro país no qual Washington despeja milhões de dólares e está pronto para seguir os passos do Paquistão e deixar os caubóis agirem, para em contrapartida o ditador obter apoio contra a onda democrática contra a qual vem lutando desde janeiro com todas as armas.
Anwar al-Awlaki lembra o Fundamentalista Relutante do paquistanês Mohsin Hamid. O protagonista do livro se chama Changez (tradução em urdu de Genghis) e conta sua estória a Você, um estadunidense sobressaltado, em um café de Lahore, uma bela cidade paquistanesa no Punjab: como um jovem brilhante, bem diplomado, pragmático, laico, com um futuro promissor, se metamorfoseia em islamista radical ao ser progressivamente estigmatisado após o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque.
A moral da estória é que em vez de ações populistas talvez fosse melhor cortar o mal pela raiz erradicando a causa do ódio e da radicalização daninha que alimenta as vocações para o Al-Qaida.


Enquanto isto, na quarta-feira, sob os auspícios do Novo Egito – após 18 meses de infrutíferas tentativas de reunir-se com as outras onze facções menos mediatizadas e mais ou menos radicalizadas – os líderes do Fatah e do Hamas, com a benção dos demais, assinaram um acordo histórico no Cairo.
Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina e Khaled Meshall, o líder do Hamas, se comprometeram a formar um governo constituído de figuras independentes cujas tarefas principais serão de preparar as próximas eleições lidando com os problemas internos resultados das divisões, promover a reconstrução de Gaza e o fim do bloqueio, unindo as instituições da AP na Cisjordânia e em Gaza; organizar as eleições de 2012 para a Assembléia Legislativa, a Presidência e o Conselho Nacional Palestino que representará os cidadãos dos Territórios e da diáspora; montar um comitê de inspeção do processo eleitoral; formar um Conselho Supremo de Segurança concensual; libertar os prisioneiros políticos detidos em Gaza e na Cisjordânia pelas administrações rivais (ambas partes negam a existência de tais presos) após vistoria de um comitê dos dossiês de detenção.
O primeiro ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, condenou acerbamente este acordo (“um tremendo golpe à paz!”) que marca uma nova era no conflito que ele não para de alimentar desde que assumiu o governo. Reação normal de um homem que quer dominar e ocupar em vez de negociar. O golpe na paz ocorreu quando parou de dialogar para continuar a expandir sua ocupação colonial na Cisjordânia.
Mas agora, com o Egito mudando de lado e os palestinos em fase, vai ser difícil para Netanyahu impor suas vontades.
E do outro lado, sem a pressão dos jovens em Ramallah e em Gaza e sem Murad Muwafi, o novo diretor do Serviço Secreto egípcio, o acordo um dia teria acontecido, mas não teria sido tão rápido. Em três semanas tudo ficou resolvido e os compatriotas fizeram as pazes. Dir-se-ia até que nunca tinham brigado. Abbas parecia renovado, Meshall estava cheio de entusiasmo e Muwafi estava pronto para apadrinhar a formação dos três comitês necessários à efetivação do Tratado que responde às expectativas nacionais.
Uma frente unida tem mais força para limpar a casa, reconstruir as áreas bombardeadas e negociar uma paz duradoura e real.

Falando em paz, pensa-se em Direitos Humanos, liberdade de expressão, combate pacífico por causas apoiadas nas Leis Internacionais, e o boicote que é um direito ao alcance de todo cidadão. Pois bem, várias vídeos de ações do BDS movement vêm sendo sistematicamente bloqueadas no youtube. É uma prova do sucesso mundial do movimento de cinco anos, mas também do controle de certos lobbys sobre a informação.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E agora, Wael?


... E dezoito dias depois, Barack Obama resolve convencer Hosni Mubarak a deixar o cargo. Uma vez mais o presidente dos EUA seguiu, em vez de liderar. Agora tem de pressionar o Exército egípcio, que quase depende dele para o salário, a assegurar a transição democrática.
Como disse na semana passada, o Patriarca caiu em desgraça, foi para sua mansão à margem do Mar Vermelho, mas deixou a cabeça e os dois braços armados a postos no Cairo. Omar Suleiman e o general Tantawi continuam lá. Mas terão de escutar. O Egito não é mais o mesmo. Os egípcios acordaram e não estão dispostos a deixar a conquista resvalar. Prometem continuar a vigília de casa, do trabalho, da universidade, e através de uma imprensa livre para denunciar.
A festa na rua foi bonita, o otimismo e a alegria continuam, porém... hoje é difícil cantar vitória. No final das contas, vai depender de quão grande é a dissensão no Exército e de quão potentes são os oficiais democratas. Hoje os soldados são chamados de irmãos, mas soldado é peão. Peão não se desloca, é deslocado e só de casa em casa, para frente ou para trás, e neste tabuleiro de xadrez a rainha é Tantawi e o rei é Suleiman. Enquanto ambos não forem transformados em torres, bispos ou tirados do jogo, vai ser preciso vigilância constante para que as reformas vinguem e para que haja eleições livres, sem corrupção.
Dito isto sobre o Egito, um balanço provisório se impõe na região.
Desde que al-Qaeda protagonizou as explosões das torres gêmeas de Nova York, Ben Laden foi transformado NO Bicho Papão e o Islamismo foi estigmatizado como uma religião que fabrica terroristas em massa.
No século III o persa Mani inventou esta teoria do Universo ser dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis do oito ou oitenta, do Bem e do Mal absolutos, mas a vida e o mundo já provaram n vezes que o maniqueísmo é desumano e falho.
Nenhuma religião fabrica terrorista, nenhuma fabrica vítima e nenhuma fabrica tolerância e liberalismo. Se religião influenciasse alguém e algo, o capitalismo não teria tido nenhuma chance de triunfar entre os cristãos, o “nosso” mundo teria vivido dezessete séculos de paz e o Ocidente seria uma imensa Shangri-La.
O que diferencia as pessoas pode ser a visão.
Por exemplo, a pessoa cuja visão econômica se estende da Teoria de Sentimentos Morais do escocês Adam Smith ao Das Kapital de Karl Marx entende melhor o cerne da revolta nos países árabes do que os “Chicago boys” adeptos de Milton Friedman e sua teoria do choque (http://www.youtube.com/watch?v=aSF0e6oO_tw).
Ben Laden é uma ameaça, mas é uma ameaça ínfima comparada com a dos khobzistes (desempregados do Magreb). Os efeitos colaterais dos regimes autoritários que permitem as vidas de nababo dos clãs dos dirigentes dos países árabes – a concentração da riqueza atinge um grau inimaginável enquanto ao resto do país falta o básico – já eram claros, mas negligenciados.

Um exemplo. Na Tunísia, os Trabelsi, a família de Leila, esposa do presidente escorraçado – irmãos, primos, cunhados, parentes próximos e distantes – controlam todos os setores importantes da economia, segundo se ouve, de maneira insaciável. Aliás, uma das piadas que corria sobre Ben Ali é que, parado por um policial por excesso de velocidade, ele argumenta que é o presidente Ben Ali e o policial responde “Nunca ouvi falar” e o leva para a delegacia onde o delegado olha sua carteira de identidade e diz “Tudo bem. Ele é parente dos Trabelsis”. A anedota retrata o que, apesar da calma, não sai da cabeça dos tunisianos: comparado com a rede de poder, de força e de controle que os Trabelsi exercem sobre a Tunísia, Ben Ali não é nada. A rede continua armada.
No Yêmen, sociedade tradicionalmente tribal, os manifestantes que enchem as ruas da capital, Sana’a, pedem, além de comida e trabalho, que o presidente demita do serviço público todos os familiares. No país mais bonito dos mares Vermelho e da Arábia – embora seja um dos mais inaccessíveis ao turismo internacional por ter “herdado” as bases da fronteira do Paquistão/Afeganistão do al-Qa’ida (palavra que significa justamente Base), as passeatas populares nas ruas da capital cultural árabe – 2.500 anos e com muito da beleza arquitetural histórica intacta – mostra justamente a fragilidade do maniqueísmo e dos dogmas ocidentais. O governo de Ali Abdullah Saleh também completou 30 anos (quarto mandato de sete anos) e com al-Qaida ou não nas paragens, as manifestações também, por enquanto, têm sido laicas. Com a miséria atingindo cinquenta por cento da população, a reserva de petróleo (70% do PIB) esgotando sem que a população tenha se beneficiado, rebeliões no Norte e um movimento secessionista no Sul difícil de parar, Saleh está conseguindo acalmar o povo prometendo não se recandidatar em 2013, baixar os impostos, aumentar os salários do funcionalismo público, e dos militares que guardam suas costas. Aliás, em um país em que os homens saem à rua com kalashnikov debaixo do braço, um afrontamento acarretaria milhares de mortos de ambas as partes. A calma também prova que ao contrário do que alguns acham, todo mundo prefere viver em paz.
Na década de 60, no mundo árabe, os regimes subsidiavam gêneros de primeira necessidade para assegurar a passividade. Na década de 80, trocaram o pão pelo voto e na Argélia a troca ocasionou uma revolta religiosa de proporções enormes em 1988 e na Jordânia um processo de liberalização salutar.
São águas passadas. Em 2011, as marchas em Tunis, Amman, Sana’a, Argel, Ramallah, Alexandria, Suez, Cairo... são um reflexo de sobrevivência de quem está morrendo sufocado.
Apesar da falta de conhecimento e/ou de assunto levar uma certa mídia a apavorar o leitor incauto, o movimento popular árabe é de emancipação. Mas se o Ocidente se esforçar, pode até conseguir empurrá-los para o extremismo religioso e em vez de democracia tudo acabe em sharia.

PS1. Falando em Lei islâmica, no Irã, o Aiatolá supremo Khamenei tentou ligar o processo revolucionário do Egito ao movimento que destituiu o xá Rheza Pahlavi (governou de 1941-79) e acabou na revolução que instituiu a República Islâmica no país. Porém, em comum os dois países só têm o xá, a quem Anuar el-Sadat deu asilo no Cairo. Até o ex-presidente Aiatolá Rafsanjani contradiz o rival: “É provável que o Irã acabe importando a revolução egípcia... o povo quer que más elites sejam sentenciadas e más ideias política removidas... o povo quer democracia.” Sem contar que nas ruas de Teheran em 1979 viam-se tantas faixas com slogans islâmicos quanto políticos, as passeatas foram feitas durante um feriado religioso e eram as vozes do Aiatolá Khomeini e outros líderes religiosos que comandavam os participantes nas ruas à oração. Hoje, como já disse, os Imãs estão ausentes das capitais “revoltadas” e apesar do peso político da Fraternidade Islâmica, a organização não liderou nada, muito pelo contrário, ficou de fora até ser chamada à mesa para negociar. Enquanto isto, a voz que é ouvida e aclamada no Egito é a de Wael Ghonim http://www.youtube.com/watch?v=4OgnO3fILno. O jovem executivo da Google cujo Facebook foi um dos principais motores da revolta. “Desaparecido” no dia 27 de janeiro e interrogado de olhos tapados durante 11 dias, onde, não sabe, de volta às ruas na segunda-feira passada com toda força e vontade, sua entrevista levou o país inteiro às lágrimas, reanimou os jovens ativistas e animou seus pais e os operários. Toda revolução tem um mártir. A do Egito tem um herói que chegou na hora exata. Quando tudo parecia perdido e acabado Wael reenergizou os ânimos e lembrou o porquê de estarem lá, sujos, afônicos, cansados, mas redispostos a lutar.
Enquanto o Egito desperta vigorosamente de uma letargia que parecia interminável, do Irã chegam notícias que desmentem tanto o Aiatolá supremo quanto os enviados de Washington: os gritos das ruas de Alexandria e do Cairo chegaram até a دانشگاه مادر Universidade Mãe, em Teheran, e os dedos-duros que pululam nas salas de aula como pululavam nas nossas até 1984, estão pondo as forças armadas em alerta. آزادی Azadi, é como os persas clamam Liberdade.

PS2. O xá Rezah Pahlavi usou em 1979 o mesmo argumento que Mubarak usou até a semana passada para manter sua ditadura nepotista no Egito. O persa apelou para o pavor dos Estados Unidos de seu inimigo máximo na época – o comunismo – para justificar seu regime autoritário e para torturar ativistas democratas com a bênção dos mesmos aliados que protegeram Mubarak até não poderem mais. O árabe recorreu até o fim à ameaça do Islã fundamentalista como se o sonho dos muçulmanos fosse só deixar crescer a barba e hijab.
Não é. Querem mais. As mesmas coisas que querem os jovens ocidentais: estudo, respeito, trabalho e liberdade.

PS3. O Oriente Médio pegando fogo, o povo assumindo o controle, exigindo seus direitos cívicos, dignidade, respeito aos valores nacionais e nacionalistas, e o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, em vez de ficar quieto, cutuca Washington para só olhar o seu lado e provoca os palestinos com discursos belicosos.
Durante a semana Israel voltou a bombardear Gaza ferindo oito pessoas e destruindo um posto de saúde no norte da Faixa. Foi mais uma “retaliação” noturna aos foguetes arcaicos. Até hoje nós jornalistas ainda não conseguimos entender se os bombardeios são executados à noite por covardia ou pelo prazer mórbido de fazer as famílias viverem em sobressalto.
Comecei esta matéria no Egito e acabei na Palestina... O problema com o Oriente Médio é que, onde quer que seja o incêndio o vento o alimenta sempre com as cinzas que Israel mantém vivas nos Territórios Ocupados; e da Cisjordânia e de Gaza as flamas se alastram. Só quem ainda não entendeu isto foi Washington. Faz anos que os defensores da paz e de Israel aconselham os governos sucessivos a negociar enquanto podem e a resposta é sempre a mesma: Israel é forte e os árabes são fracos; paz só nos termos sionistas ideais. Hoje, estas vozes solidárias a Israel soam mais preocupadas. A elas juntam-se as dos que querem que justiça se faça sem que mais sangue seja derramado. Israel tem de sentar-se à mesa de negociação com o Fatah, e o Hamas, sem tardar. Agora não tem mais como se auto-congratularem que os israelenses são intrinsecamente potentes e os palestinos intrinsecamente frágeis. Uma quimera. Tem intelectuais palestinos por toda parte – apesar dos check points que visam dificultar o acesso às escolas, noventa por cento dos jovens palestinos cristãos e muçulmanos chegam à universidade. E agora está claro que com poder financeiro e/ou bélico externo guardando suas costas, são os dirigentes que são débeis e venais, e não os árabes.
Aliás, em Ramallah, os jovens também saíram às ruas para protestar. Na Cisjordânia exigiram, exigem, o fim da divisão que Israel alimentou para reinar. Os gritos chamam à união do Fatah e do Hamas em uma frente única e solidária para negociar seus direitos de existir e a paz.
Novos tempos, novas vontades.