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domingo, 6 de fevereiro de 2011

O outono do patriarca



Em vez de desfiar o rosário de manifestantes de Alexandria, do Cairo, do punhal de cameleiros, de reviravolta nos palácios, de mortos e feridos cujas imagens indignaram, como as informações são múltiplas, variadas, estão todos cansados, e cultura geral e geopolítica são para mim indissociáveis, resolvi poupá-los de uma grande análise dominical apelando mais uma vez para um ás literário.
O grande Gabriel García Márquez, inspirado, entre outros, nos ditadores Francisco Franco da Espanha, Rafael Trujillo da República Dominicana, Anastazio Somoza da Nicarágua e no venezuelano então recém-deposto Juan Vicente Gómez, publicou em 1975 uma fábula despontuada memorável sobre os efeitos desastrosos da concentração do poder em um único homem e a solidão que este poder proporciona. Revoltado contra o assassinato do presidente chileno Salvador Allende no dia 09 de setembro de 1973 (o 11/9 que abalou a América Latina) o escritor colombiano mudou-se com a família de Bogotá para o México e disse que só voltaria a escrever depois que o Chile se libertasse da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet.
Ainda bem que não cumpriu a promessa e empunhou de novo a pena para atacar a ignorância com sua melhor arma. Em 1981, ano anterior ao seu Prêmio Nobel, publicou a Crônica de uma Morte Anunciada, em que relata o assassinato de um homem por dois outros, mas que só é possível por causa da cumplicidade da cidade que segue toda a armação calada.
Mas antes destas duas obras primas García Márquez escreveu A Má Hora (precursora de Cem anos de solidão) em que mostra a tensão política e a opressão em um povoado cujos habitantes aspiram à liberdade e à justiça, sem resultado.
O Egito viveu e vive uma mistura destas três obras.
Em um paralelo com a Crónica de una muerte anunciada, Hosni Mubárak fez o que faz todo ditador bem assessorado: imprensa censurada, eleições fraudadas, ministros desintelectualisados, promessas falsas. O povo infantilizado era deixado em paz e o que pensava ia para trás das grades sob indiferença geral.
Ninguém via nada. Nem ele? Quem quiser acredite quando Mubárak e os aliados ocidentais dizem que ele não sabia de nada.
Em um paralelo com El otoño del patriarca, Hosni Mubárak viu seu partido decompor-se como um castelo de cartas. O último a abandonar o barco foi o “príncipe herdeiro” Gamal Mubárak, a peça principal de seus sonhos dinásticos. Os Estados Unidos passaram o comando a Omar Suleiman, o Golbery do Couto e Silva de Mubárak, que até a semana passada era um dos homens mais poderosos e temidos do país, próximo dos EUA a ponto das celas Mukhabarat (uma Guantánamo árabe) ter sido um dos destinos preferidos da CIA para levar suspeitos de terrorismo capturados no que se chama “Rendition”. De novo, Suleiman só tem o cargo. As risadas da semana passada viraram risos amargos.
Em um paralelo com La mala hora, cujo título privado foi Este pueblo de mierda, na quarta-feira Mubárak usou do artifício dos “contra” (que a CIA usou na Nicarágua) para desacreditar o movimento democrático e pôr o Exército na rua para “estabelecer calma”. Para completar, seu fiel general Tantawi apareceu na praça Tahrir para dar uma impressão aos manifestantes que eles obteriam o que o nome da praça simbolizava: Liberdade. Enquanto isto, alguns dos jovens que se destacaram e que voltaram em casa para uma higiene básica desapareceram e fala-se que nos porões da ditadura, em vez de inaugurarem uma era de justiça, estão experimentando uma antiga barbárie.
Para não dizer que não falei das flores, como todo ser civilizado da Terra, gostaria que Mubárak se retirasse, mas não sozinho, com Suleiman e Tantawi na bagagem. Que os três deixassem o “comitê de sábios” (1) escolhido pelos Twitters assegurar a transição democrática, que os jovens egípcios conseguissem continuar uma vigília cada vez mais acesa até obterem a democracia almejada, e que se 90% do desejado dessem errado e Omar Suleiman dirigisse o Egito até setembro, alguém o tocasse com uma varinha mágica que o transformasse em nacionalista, democrata, justo, ou no mínimo, leal ao povo que diz representar... e em setembro proporcionasse eleições honestas, que Gamal Mubárak estivesse realmente se afastando do pai de quem fosse realmente diferente e “se” "fosse" “eleito” à presidência daqui a alguns meses, optasse pela auto-determinação e tomasse o lado do povo, do Egito, e não o do autoritarismo, da corrupção e das influências periféricas.
O fato é que em duas semanas a economia do país passou de mal a pior e quem pegar o governo agora vai ter de avisar que é inviável cumprir qualquer programa incompatível com uma política econômica de austeridade.
Após treze dias intensos, apesar de promessas de um lado, e do outro, entusiasmo, não se tem certeza de nada. Os manifestantes pro-democracia estão cansados, mas continuam na praça seguros de que venceram e achando que estão dando as cartas. Será?
O que parece nos palácios – da White House em Washington ao Kasr al-Ittihadiya em Heliópolis, no Cairo – é que apesar do “Comitê de sábios” e a recente agregação da Fraternidade Islâmica (2) ao diálogo, o máximo que se obterá a curto prazo é que Mubárak seja sacrificado para que só se mude as caras e a liberdade continue apenas no nome da praça em que os sonhos de centenas de milhares de jovens começaram.
Mas como disse no início, isto não é uma análise, é um tecido de palavras inspiradas no grande mestre da pena político-literária.
Mas para concluir com otimismo, se não houver mudanças reais, imediatas, após os jovens terem provado o sabor da liberdade democrática que criaram através das passeatas, é bem provável que a tahrir, de direito e de fato, só seja adiada. E quando votarem, elejam um presidente laico, democrata.

(1) A lista formulada na sexta-feira incluía Amr Moussa, secretário geral da Liga Árabe; o prêmio Nobel Ahmed Zuwail, conselheiro pontual de Obama; Mohamed Selim Al-Awa, professor de estudos islamitas próximo da Fraternidade Islâmica; o presidente do partido Wafd, Said AL-Badawi; o empresário Nagib Suez, ligado ao sistema de telefonia cortado na semana passada; Nabil AL-Arabi, um delegado na ONU, o cirurgião cardíaco Magdi Yacoub, e outras personalidades.
(2) A Fraternidade Islâmica é a associação islamita mais organizada no mundo. Presente em mais de quatorze países, foi fundada no Egito em 1928 por Hassan AL-Banna e tem influenciado movimentos muçulmanos, não extremistas em vários países. Mistura ativismo político com trabalho caritativo, é banida de atividades políticas públicas, rejeita violência, apóia princípios democráticos, mas almeja a criação de Estado governado pela lei Islamita. Seu slogan é: o islã é a solução. Seu líder atual é o professor de veterinária Mohamed Badi’e.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tunísia, Egito... o fogo da liberdade se alastra



Atentados mortíferos em Moscou, Bagdá, Kandahar, o chão que treme no Líbano, na Jordânia, no Yemen com as passeatas nas ruas de Beirute, de Amman e de Sanaa..., a semana foi carregada... Culminou com dois acontecimentos geopolíticos incontornáveis: os Palestine Papers divulgados pela TV Al Jazeera e o fogo de revolta que saiu da Tunísia, saltou a Líbia e se alastrou pelo Egito, em Suez, Alexandria, Cairo até queimar o país de Abu-Simbel ao Sinai.
Os Palestine Papers serão abordados em outra oportunidade.
Hoje vou falar sobre o Egito onde Hosni Mubarak luta contra uma revolução que poria fim à sua ditadura “democrática” de 30 anos e que tiraria dos EUA um de seus aliados mais úteis no Oriente Médio.
“Poria” "tiraria" porque como se sabe, tendo de escolher entre um governante árabe que garanta a seu povo democracia, melhores condições de vida e um ditador corrupto que defenda os interesses de Israel e dê uma pseudo-segurança contra o fundamentalismo islamita, os EUA tradicionalmente optam por este último. É aquela política do façam o que eu digo e não o que eu faço. Democracia é bom, mas em casa. Para mim, liberdade, e cabresto para os demais.
Só que o problema com os ditadores é que estão muito distantes do povo, embora sua polícia (esta vestida de preto de cima abaixo) esteja por toda parte. E cedo ou tarde o eco da insatisfação popular reprimida fica alto demais para ser abafado e explode em uma onda de energia que se alastra, atualmente, pela internet, através da qual os jovens se comunicam como a minha geração batia papo nos bares.
Quem conhece o Egito sabe de suas universidades caindo aos pedaços, favelas se alastrando como praga, redes de esgoto se aproximando cada vez mais da insalubridade...
Quem já esteve no Cairo sabe do caos urbano que atola a capital, apesar de seu charme.
Parece que não tem verba para nada, mas dinheiro não falta. A corrupção parece só perder para a tecnologia que permitiu a Hosni Mubarak, em um gesto de desespero político, tirar a internet do ar esperando assim evitar a comunicação e parar as passeatas.
E resolveu falar. Tudo errado. A tensão estava em sua cara e não inspirou respeito, só raiva. Achando que se safaria com um bode expiatório que fizesse esquecer que é ele que é visado, demitiu seu ministério e cometeu um erro crasso. Nomeou como primeiro ministro o chefe de seu Serviço Secreto, o septuagenário Omar Suleiman que já sofreu três ataques cardíacos e é o seu negociador com Israel que passou meses de sua vida, se não anos, entre Jerusalém e Tel Aviv. É inacreditável. Provocou risadas entre os egípcios, pois mostrou quão escassos são seus quadros e que está cada minuto mais acuado.
O Egito está em chamas e o Cairo parece um campo de batalha. Daqui a pouco vai lembrar Bagdá, se Mubarak conseguir se proteger em uma Zona Verde e declarar o resto da cidade Vermelha. Aliás, é quase isto, segundo alguns habitantes que já estão formando milícias em seus bairros para protegê-los da pilhagem de marginais, deixados à vontade pela polícia para semear a anarquia e o caos.
E tudo começou de maneira espontânea. A fórmula foi a da Tunísia. A organização das passeatas foi feita através de Facebook, Twitter e celulares. O Cairo começou a ferver, a tensão era palpável, em Suez as armas dos beduínos substituíram os slogans dos estudantes da capital e a passeata de sexta-feira seria a gota d’água que faria naufragar Mubarak... Mas na madrugada do dia chave a internet saiu do ar. Telas escuras e silêncio total. Era como se fosse a Faixa de Gaza bombardeada quando os Israelenses bloquearam a rede de contato ou na Birmânia quando o ditador de lá, enquanto massacrava os monges, “desligou” os celulares – aliás, o governo chinês cortou há pouco o Egito de todas as comunicações de Twitter e similares... A cara da ditadura muda, mas os métodos são os mesmos em toda parte.
Para jornalista, não poder se comunicar é um pesadelo do qual só pensa em acordar. Os mais antigos na praça correm atrás do velho Telex por onde antigamente a informação circulava, mas onde encontrar uma máquina dessas em bom estado? Para transmitir algo, neste caso, só atravessando a fronteira, mas para onde? Sudão ou Líbia? Foice ou punhal?
O jeito foi esperar testemunhando o que passava.
O “velho” Mubarak está bem preparado, bem armado e parece querer resistir até não poder mais. Trinta anos no poder, um simulacro de democracia com a qual até alguns dias controlava o campo e as cidades... Ele estava tão preocupado em agradar os aliados ocidentais que não viu o tempo passar, o país naufragar, a população mudar, os camponeses deixarem de ser majoritários e seus filhos começarem a reivindicar liberdade e maiores oportunidades.
Quase dois terços dos habitantes nasceram durante o governo Mubarak e destes 50 e poucos milhões, 24 têm menos de 20 anos. Saem da escola, da faculdade, sem perspectiva, sem trabalho e com tempo de sobra para surfar na internet, informar-se e sonhar.
Os tunisianos mostraram o caminho e os jovens egípcios os seguiram sem pestanejar.
E o Egito tem um líder potencial de peso que falta à Tunísia: Mohamed ElBaradei, ex-presidente da Comissão Nuclear das Nações Unidas, e desde o fim do seu mandato diplomático, o mais forte candidato democrático à sucessão de Hosni Mubarak.
Na quinta-feira ElBaradei saiu correndo de Viena, onde reside, para o Cairo. Alguns dizem que lhe faltou faro político, pegou o bonde andando, chegou tarde.
É verdade que se o Prêmio Nobel da Paz quisesse ser o presidente da vez deveria ter pego o avião no dia em que Ben Ali foi escorraçado de Tunis para capitalizar a revolta contra os 30 anos de “reinado” de Mubarak. Mas ElBaradei não foi para o Egito atrás de cargo, segundo fala. Foi para catalisar, mostrar a cara conhecida em todos os palácios do mundo civilizado e assegurar uma transição democrática até a organização de eleições honestas em que todas as facções do país estejam representadas.
Aos 68 anos e uma carreira internacional independente de pressões e até hoje sem falha, como diz o escritor Alaa Al-Aswany, sua figura simboliza tudo pelo que as ruas estão em batalha. E o ditador de 82 anos sabe desta ameaça. ElBraradei levou um jato d’água como qualquer manifestante e depois seguiu o conselho de ficar em casa até a hora de mostrar a voz e a cara ao povo que deu ouvidos às suas palavras.
A revolta está virando revolução de hora em hora. O processo parece irreversível. Da Casa Branca Barak Obama cobrou as mudanças prometidas por Mubarak. Agora é tarde. Teria de aconselhar Mubarak a retirar-se e entregar a chave a ElBaradei para que este arrume a casa enquanto a revolta é laica... Mais uma demonstração da perigosa miopia geopolítica de Washington. Hillary Clinton, por sua vez, fez o discurso errado, ameaçando cortar a ajuda de 1.5 bilhões de dólares... Seu despreparo geopolítico é deplorável... falar em dinheiro quando a questão é de autodeterminação, liberdade... está no limite da decência diplomática. Era melhor ter ficado calada. Mesmo porque este dinheiro não era do povo que está nas ruas. Estas estão lotadas de homens e mulheres que preferem batalhar no trabalho para se alimentar e decidir seu próprio destino do que bilhões de dólares que vão parar em mãos erradas que não contribuem com nada. Depois Hillary ouviu a voz da razão e entendeu que era melhor mudar de lado e apoiar uma transição pacífica.
Esta revolta no Egito é popular. E pelo menos por enquanto é laica. Na sexta-feira as ruas se encheram depois da oração do meio-dia nas mesquitas e no domingo é a vez dos Coptas se juntarem às passeatas após a missa. Pouco se ouve, fora nos enterros, a frase corrente nos países árabes: Allah AlAkbar! (Deus é grande), os jornalistas estrangeiros são bem-vindos, não se queima bandeira americana e a palavra de ordem de muçulmanos e cristãos em uníssono é Kefaya! Basta; é quase como se o país tivesse amadurecido, se olhasse por dentro e por fora, e assumisse sua responsabilidade pela situação em que se encontra sem procurar falsos culpados.
Um colega norte-americano conjeturou sobre o cansaço da massa daqui a alguns dias e Mubarak continuar como se tivesse sido apenas uma onda que passa como no Irã no ano atrasado. Parecia mais uma esperança, o que verbalizava. O Egito não é o Irã. E para que não vire, os EUA, a França, a Inglaterra e a Alemanha têm de ficar de fora, calados publicamente (e ao telefone com Mubarak para que este limite os estragos, no país e pessoais) e deixar a água rolar sem opinar como fizeram no Irã no ano atrasado minando a revolta nacionalista contra Ahmadinejad.
Por enquanto o Exército, que beneficia de farta verba dos EUA, está relativamente quieto. Mas seu comandante, general Tantawi, é amigo pessoal de Mubarak, e pelo que consta, estava em Washington enquanto a polícia atirava no Cairo. Para quê estava lá, só dá para imaginar. Se a ordem que recebeu foi de apoiar Mubarak custe o que custar, vai ser um massacre. Se a ordem foi de aconselhar o amigo a renunciar e assegurar uma transição calma, os soldados estão prontos para acatá-la e gritar Kefaya.
Pois o que se ouve por todos os lados é uma frase simples: Só queremos a demissão de Mubarak e eleições democráticas. E nas ruas, os gritos aconselham Mubarak a pegar o avião e escapar. Para a Arábia Saudita, quem sabe?
Liberdade era o que nós brasileiros queríamos em 1994. Sem luta, sem sangue, só com o povo na rua reivindicando seus direitos inalienáveis. Nossos militares entenderam que era o fim da linha, que estava na hora de deixar os brasileiros decidirem que rumo tomar.
Se os EUA deixarem, os egípcios estão prontos para seguir nossos passos.
A sensação é de que tudo é possível. Da guerra civil, caso Mubarak se agarre ao poder com mais armas, a uma revolução em que realmente as coisas mudam. Do nada ao tudo. Tudo ou nada.