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domingo, 15 de julho de 2012

Um passo pra frente na Líbia, um pulão pra trás no Paraguai


Depois do Egito, no dia 07 foi a vez dos líbios votarem no homem que vai estabelecer a democracia e governar o país...
Que país? A Cirenaica, a Tripolitana, Fezzan, as três regiões juntas ou nenhuma?
Governar o norte e o sul em uma democracia será (seria?) como governar espartanos e troianos na mitologia antiga contada nos versos de Homero e Virgílio, ou então governar a Grécia e a Turquia brandindo a mesma bandeira, hoje em dia.
O Conselho Nacional de Transição (CNT) que conduziu a Líbia a sucateando até e após a execução brutal de Gaddafi no dia 20 de outubro do ano passado, ao definir o futuro que o pleito daria aos compatriotas especificou que este ato simples de pôr tinta no dedão (para evitar fraude) e fazer uma cruz diante do nome de seu candidato na cédula eleitoral era o início do processo de criação de um sistema político novo e justo.
Para isto, estabeleceu uma representação proporcional com duzentos assentos na Assembleia em uma matemática que desagradou logo os cirenaicos - estes ficaram com 60 cadeiras, Fezzan com 40 e as outras 100 ficaram com a região Tripolitana, que para muitos cirenaicos foi derrotada junto com Gaddafi.
Talvez tivesse sido melhor dividir o país nesta oportunidade.

Vários intelectuais cirenaicos pediram o federalismo enquanto muitos das classes populares queriam mesmo era gritar basta de exclusão e de cidadania de segunda classe.
Durante os 42 anos de regime de Muammar Gaddafi a Cirenaica foi deixada para trás com a centralização do poder em Trípoli e as reservas petroleiras do leste foram sistematicamente exploradas em benefício da região tripolitana, da família e dos íntimos do "imperador da África".
Os cirenaicos se vangloriam de terem instigado a revolução anti-Gaddafi e estão frustrados por não terem colhido os louros que esperavam. Acham que os novos decretos beneficiam mais o oeste do país - com verbas para a educação e oportunidades de trabalho, como na época de Gaddafi.
Durante a "rebelião" eu disse e repeti que os líbios não são um povo uniforme e o Estado líbio - como a maioria dos países da África - é mais uma fabricação europeia decorrente das divisões aleatórias feitas no processo colonial nos séculos XIX até meados do século XX do que uma nação ligada por cultura e amor nacional.
O espaço territorial chamado Líbia reúne três povos  - desunidos e de culturas distintas - originários de três regiões que são Tripolitana, Cirenaica e Fezzan.
O bom senso deveria ter levado o CNT a aproveitar a "revolução" para dividir o país em três, com governos distintos, autônomos e soberanos para dar à população uma chance maior de conviver em paz como vizinhos, talvez até como amigos.
Viver em uma mesma nação unida e indivisível é pedir muito, talvez demais. Um pouco como a Iugoslávia pós-Tito quando em poucos anos a unidade que ele mantinha com autoridade e carisma desmoronou e virou um cada um por si em que bósnios, croatas, sérvios, kosovares pareceram acordar do sonho em que conviviam até como amigos para a realidade do que os separava ser mais forte do que o que os unia em Estado único.

No caso da Líbia, os três países potenciais que a compõem são separados por grandes espaços de terra e água. Sendo que a maior reserva subterrânea do "ouro azul" fica em Fezzan.
Embora os povos compartilhem a mesma religião - predominância muçulmana com 2% de cristãos e 1.3% de outras religiões - historicamente a Cirenaica tende a voltar-se para o Mashreq ou seja, o mundo islâmico oriental, enquanto que a Tripolitana tende a voltar-se para o Maghreb ou seja, o mundo islâmico ocidental.
Fezzan, que é maior do que as duas outras, mas se estende no deserto do Saara com sua areia indomável,  está mais voltada economicamente para os países da Africa ocidental do que para a Tripolitana ou Cirenaica.
O rei Idris Sanussi da Líbia, deposto no golpe militar de Gaddafi, governava apenas a Cirenaica. Foram os britânicos que lhe ofereceram de presente as duas outras regiões após a Segunda Guerra para que fosse Emir do conjunto pré-fabricado conhecido como a Líbia atual. Em reconhecimento ao seu apoio aos aliados.
Quando Gaddafi o destronou o povo inteiro seguiu o Coronel com menos ou mais boa vontade, porém nesses 42 anos a Cirenaica nunca esqueceu o rei deposto em 1969. Muitos lá acham que Gaddafi punia a região por causa do apoio desta a Sanussi. O que talvez não fosse tão errado. Além do ressentimento de Gadaffi pelos danos que o Emir também causara aos tripolitanos, naquela velha valsa de discórdias ancestrais.
O CNT e o presidente eleito que segue a mesma linha apostam em uma Líbia como a que Gaddafi mantinha. Continuam contra a ideia de Federalismo e com a a ilusão de uma grande Líbia. Muitos discordam e acham que só há duas saídas para a concórdia. Divisão pura e simples ou o Federalismo semi-autônomo. Menos como o Brasil e mais como os Estados Unidos em que os estados têm até leis próprias e razoável autonomia.
Em vez de escutar as ruas, o presidente do CNT Mustafá Abdel Jalil, ex-ministro da Justiça de Gaddafi, disse que usaria até a força para preservar a (sua ideia de) unidade.
A elite de Trípoli também rejeita a ideia de federalismo com o argumento que a partição da Líbia poderia ter consequências negativas, inclusive eventuais conflitos inter-regiões sérios - já que os "rebeldes" estão longe de deporem as armas que lhes foram dadas de mão beijada.
Mas as ruas parecem querer mesmo a separação ou no mínimo o federalismo.

Atual divisão distrital da Líbia
Contra a opinião contrária de líderes das regiões por temerem ser deixados de lado, outros por ignorarem o clamor das massas e a maioria por pavos dos trinta e três líderes tribais aproveitarem a deixa para impor leis unilaterias e ficarem com o poder real em detrimento dos partidos políticos.
Segundo o historiador Ronald Bruce St John, na antiguidade, o povo de Cartago na região tripolitana ocidental e o povo da Cirenaica do outro lado "concordaram em traçar uma fronteira entre suas esferas de influência onde corredores de ambos os lados se encontrariam" justamente no meio do caminho no Golfo de Sirte. Perto de onde as passeatas contra o CNT brotaram por ocasião do anúncio da divisão de cadeiras na Assembleia.
É onde os "separatistas" acham que a fronteira deveria ser estabelecida.  
Para evitar que tais ideias criem asas o CNT colocou barragens nas estradas litorâneas que conectam o leste e o oeste impedindo a passagem de veículos militares e tráfico comercial até o presidente eleito conseguir controlar todo o território.
O homem no poder agora é o doutor em Ciências Políticas (Universidades de Princeton e Pittsburgh nos EUA) Mahmud Jibril, membro do CNT e fundador do National Forces Alliance, NFA, o partido que o levou ao poder. Ele nasceu há 60 anos em El-Beida - terceira cidade líbia, segunda da Cirenaica e a com a maior reserva hídrica natural (400 a 600m pluviais de precipitações anuais - grande vantagem em um país em que o deserto ocupa mais de 90% da superfície).
Jibril foi o presidente do serviço de Desenvolvimento Nacional no governo de Muammar Gaddafi. Ele quer a Líbia una e indivisível. É ocidentalizado e pragmático, como toda a elite local que formou-se fora.
Tomara que consiga desenvolver uma Líbia majoritária à sua imagem.
Por enquanto a atividade das tribos e as armas espalhadas por todo lado em mãos de pessoas incontroláveis levam a pensar que sua tarefa será árdua.
"Fazemos um apelo honesto a um diálogo nacional para que juntos formemos uma coalição governamental com uma bandeira única... a fim de encontrar um compromisso, um consenso em que a Constituição seja escrita e um novo governo possa ser formado. Nestas eleições não houve nem perdedor nem vencedor.  A Líbia é a única vitoriosa," disse o presidente eleito.
Inch'Allah!


No nosso continente, logo que Fernando Lugo foi eleito para a presidência do Paraguai ouviu-se fortes rumores de insatisfação em Washington.
Porém, como estamos no século XXI e o Paraguai está na esfera de domínio latino-americano, e do Brasil, os contra-rumores de um eventual apoio ou incentivo a um golpe para derrubá-lo foram descartados de maneira até irônica: Foi-se o tempo em que os países latino-americanos eram repúblicas bananeiras à mercê dos gringos!
Ironia à parte, aconteceu o inacreditável.
Não há nenhuma prova que os Estados Unidos estejam por trás do golpe-disfarçado que derrubou o presidente paraguaio eleito democraticamente, mas os criminologistas repetem sem parar que para encontrar o culpado de um crime há de se procurar primeiro quem leva vantagem no delito.
No caso, um nome aflora a todos os lábios: os gringos são os únicos que têm algo a ganhar ou pelo menos, algo a não perder, além do amor próprio ferido.
As revelações do WikiLeaks que funcionários estadunidenses estavam contrafeitos com o distanciamento do presidente paraguaio do "comando sulista dos EUA" também bota a pulga atrás da orelha.
Primeiro foi o discurso "socialista" de Fernando Lugo que desagradou os Estados Unidos e ofendeu sua convicção do seu sistema ter de prevalescer no mundo.
Segundo porque antes do padre Lugo assumir o poder, Washington ofereceu "ajuda humanitária" ao "pobre Paraguai" em troca de apoio contra Hugo Chavez e uma ameaça velada de que se Assunção não aceitasse tropas dos EUA em solo paraguaio, perderia os milhões da ajuda "humanitária".
Quem diz humanitária, diz desinteressada. Ou a semântica anda errada?
Tais tratados pareciam desnecessários, já que por incrível que pareça o Senado paraguaio aprovou em maio de 2005 a entrada de tais tropas estrangeiras (com alguma "compensação" privada?) e quatrocentos marines foram transferidos para solo paraguaio em rodízio de semanas ou meses dos batalhões lá estacionados.
Este programa de "cooperação" chamado New Horizons consiste, no papel, de exercícios de treinamento médico. 
O ativista de Direitos Humanos Orlando Castillo diz que o treinamento médico é na verdade uma simples operação de observação dos líderes rurais considerados perigosos na ótica do Pentágono.
Aliás, "no State Department não parece haver nenhuma menção de fundos para trabalho médico no Paraguai. Há menção de fundos, dobrados, mas para contra-terrorismo."
Terroristas no Paraguai?!
Calminha... Em linguagem gringa, terrorista é todo aquele que não diz Amém ao seu Way of Life. Podemos dormir tranquilos. Não tem ninguém querendo explodir os nossos vizinhos.  
Enfim, podíamos dormir tranquilos até o golpe-impeachment de Fernando Lugo. Por que mesmo ele foi destituído? Nem vale a pena mencionar.
Agora temos os marines US à nossa porta. Em nosso quintal Paraguaio. De lá para o Mato Grosso e o Paraná é um pulo.  
Dilma, cuidado! Você sabe que a Operação Condor começou assim. Primeiro em um país e depois se alastrou pelo Cone Sul inteiro! (É brincadeira, sem graça; já estamos emancipados e os EUA nos devem dinheiro demais para nos atacarem com as armas que os nossos empréstimos certamente ajudam a financiar - a não ser que queiram livrar-se da dívida com um calote golpista ... Um a mais ou a menos, para eles tanto faz.)   
Barack Obama não se conforma com a decadência vertiginosa em que seu império se encontra e anda fazendo uma bobagem geopolítica atrás da outra. O Brasil está ao abrigo, pois a Casa Branca é míope mas não é destemida. Não ao ponto de cutucar onça com varetinha. O Paraguai é outra história, outro tamanho e outra medida.
Quando o teólogo e bispo católico Fernando Lugo foi eleito (em abril de 2008) deu fim à hegemonia do Partido Colorado que só não governou o Paraguai entre 1904 e 1946. O ditador Alfredo Stroessner (1954-89) reforçou ainda mais esta hegemonia.
Até perderem o governo para Fernando Lugo que prometeu realizar reforma agrária dentro dos marcos constitucionais, ampliar o sistema de seguridade social e lutar pela soberania energética do país.
Enfim, programa perigosíssimo para as elites dominantes e a corrupção reinante.
Ao ser eleito Lugo logo mostrou a que vinha respondendo mal a um possível Acordo de Forças Militares com os EUA e a outras investidas político-militares da Casa Branca via Embaixada.
Aí os EUA ficaram "extremamente desapontados" com a defecção paraguaia.
A estratégia EUA no Cone Sul não é segredo para ninguém que segue a Política Internacional, a paranóia de Washington (porque em vez de amigos só faz inimizades ou amizades pontuais interessadas) e sua obsessão em controlar tudo e todos em benefício próprio.
A decadência não os impede de continuar dando murro em ponta de faca. Aliás, é uma das razões da bancarrota, mas os gastos bélicos continuam aumentando como se desse para conseguirem comida e água pela força das armas.
Suas reservas naturais, sobretudo de água, foram tão mal exploradas na indústria selvagem que na região dos grandes lagos na fronteira com o Canadá já precisam fazer malabarismo para conseguir água potável. Daí a caça às reservas alheias que há anos assediam.
 
O nosso Brasil possui tudo o que eles gostariam de ter eternamente e estão desfalcados. Os olhos dos tecnocratas estadunidenses brilham quando falam nas doze bacias hidrográficas que constituem nosso patrimônio de 13% da reserva hídrica de água doce do planeta. Mas nisto ninguém tasca!
O crescimento do Brasil e a soberania demonstrada pela Dilma convenceram o Pentágono a nem tentar tocar diretamente na nossa bacia do Tietê-Paraná. Imagino que o Planalto ou o Itamaraty já tenham deixado claro que não tomaram o que é nosso de direito e de fato nem ocupando o Paraguai, nem com a cumplicidade do governo de Santiago.   
Digo Santiago porque o embaixador dos EUA no Chile sugeriu a Washington que estreitasse relações com líderes regionais que "compartilhassem suas preocupações em relação a Hugo Chavez."
Pois, como se sabe, os EUA morrem de medo de Hugo Chavez.
Com Fidel Castro com os anos contados, o novo bicho papão latino-americano é o venezuelano abusado que não perde a oportunidade de ridicularizar a Casa Branca e às vezes até de dizer em voz alta o que o mundo inteiro cochicha com sarcasmo.
O Pentágono quis por tudo instalar uma base militar na região do Chaco argentino, que faz parte do Grande Chaco que engloba terras argentinas, bolivianas, paraguaias e brasileiras - ao sul do Pantanal. A negativa peremptória de Cristina Kirchner fez com que Barack Obama procurasse outra saída e foi aí que o Paraguai foi cortejado com agressividade. Por ser o mais fraco do território e nosso vizinho íntimo em um trânsito fronteiriço carregado.
Washington queria esta base porque com a mudança de presidente do Equador, o novo, Raphael Correa, botou os militares gringos para fora de Manta, sua cidade costeira que os uniformes dos marines tingiam de cores estrangeiras.
O único cúmplice que os Estados Unidos tem no Cone Sul é o Chile, que abriu... os braços, e autorizou mais uma base estrangeira em casa. Aliás a amizade entre os dois países data da era negra de Pinochet e dos Chicago Boys. A democracia não inverteu o processo de submissão e dependência que marcava a ditadura militar que a Operação Condor instalara e apadrinhara até não poder mais.
Não sou especialista em Chile e só conheço este belo país como turista, mas dói-me a alma vê-lo prestar-se ao papel de vassalo dos Estados Unidos. É pena que suas elites não tenham mudado nem aprendido as lições do passado.

Falando em bases militares. Os Estados Unidos têm 800 espalhadas pelo planeta Terra em lugares estratégicos.
A América Latina abriga vinte e duas delas. Todas subordinadas a um departamento do Pentágono chamado Southern Comamnd - como se os nossos países fossem uma extensão do deles.
O Southern Command faz parte dos cinco comandos militares mais importantes dos Estados Unidos. É encarregado de nos vigiar, espionar e controlar noite e dia.
Seu Quartel General foi no Panamá de 1903 até 1999, depois foi transferido para Miami em 2000 com um plano militar de controle "sub-regional" que usa operações tecnológicas de ponta chamadas FOL (Forward Operation Location) - centros de "mobilidade estratégica" e "usos de força decisiva" com bases, rápido transporte aéreo e mobilização de tropas.   
Na América do Sul estamos cercados por todos os lados, mas os dois países mais EUAmilitarizados são a Colômbia e o Chile.
Aliás no dia 05 de abril deste ano os chilenos acolheram outro batalhão norte-americano em Concón, na base naval de Aguayo.
Os Estados Unidos forneceram U$460.000 para a construção e o treinamento consiste da doutrina dita Military Operations on Urbanized Terrain (MOUT). Uma daquelas doutrinas às quais Golbery do Couto e Silva era chegado.

Falando na eminência parda dos generais que nos governaram durante os 20 anos ditatoriais, a Escola das Américas (School of the Americas - SOA), criada no Panamá em 1946 e atuando hoje no Forte Benning, na Georgia, até 2004 formara 61.000 latino-americanos em técnicas de combate, tática militar, inteligência e técnica de tortura.
Muitos deles sujaram o Cone Sul de sangue durante as ditaduras orquestradas pela Operação Condor.
O agora chamado Institute of Hemispheric Cooperation continua formando cerca de mil para-militares latino-americanos por ano.

A base militar estadunidense mais famosa é a de Guantánamo, em Cuba, localizada só a 64 quilômetros de Santiago, segunda cidade do país e a 920 km de Havana. Como se sabe, foi apoderada pelos EUA em 1903 e há anos funciona como centro de tortura e prisão sem julgamento. Obama prometera fechá-la, mas ela continua. 
A base militar em Manta, que o Equador está fechando, abriga o centro eletrônico de espionagem de satélites do Pentágono. De lá saíam diariamente aviões espiões Orion C-130 armados em controle de rotina de terras e ares. É crucial na estratégia de missões de inteligência estadunidense.
Dizem que é esta que Washington quer transferir para o Paraguai, já que falhou Chaco.
A base de Comalapa em El Salvador é pequena. É usada para monitorar satélites e como apoio à Manta que está sendo desativada.
As demais bases da América Central - em Honduras e Costa Rica - são centros operacionais de radar e de apoio de missões aéreas.
É a partir da Colômbia que o sapato aperta. Nos últimos 12 anos recebeu cerca de U$5 bilhões de dólares em ajuda militar. Por isto autoriza sete bases militares estadunidenses pesadas (conhecidas) que operam em seu território colombiano e abrem as asas sobre nós e os venezuelanos. Além destas, compartilha com o Pentágono pelo menos as cinco ao lado.
A Arauca é oficialmente destinada ao combate do tráfico de drogas, mas é de fato um ponto estratégico para monitorar a região petrolífera na Colômbia, na Venezuela e a reserva amazônica.
A base de Larandia serve aos helicópteros. Suas pistas acolhem operações de bombardeiros B-52 com alcance além do território colombiano. Cobre o espaço aéreo de quase todo o nosso continente.     
A base Three Corners também na Colômbia serve para operações de terra, ar e água e virou um ponto estratégico contra as guerrilhas, base permanente de armas, logística de estratégia militar e tropas de combate.
Dizem as más línguas que na Colômbia tem até armas nucleares gringas. Apontadas para onde, os vizinhos?
Há poucos meses a Colômbia recebeu a visita do chefe da CIA David Petraeus, do secretário da defesa dos EUA Leon Panetta.
O ex-primeiro ministro e atual ministro da defesa de Israel Ehud Barak também esteve por lá para "estreitar a cooperação militar" com um interesse particular na base de Tolemaida, pertinho de Bogotá. Vira e mexe recebe a visita de ativistas que querem ver os marines e os israelenses pelas costas e longe de lá.
A relação militar entre a Colômbia e Israel começou a ser estreitada na década de 80. A Indumil colombiana produz inclusive uma versão do fusil Galil israelense - que é "inspirado" na famosa AK47, criada pelo engenheiro russo Mikhail Kalashnikov durante a Segunda Guerra Mundial e desde então copiada e traficada em todos pelos mascates da morte onde tiver conflito. 

O Peru (soldados ao lado armados do Galil) autorizou duas bases estrangeiras em Iquitos e em Nanay. Pertencem às Forças Armadas peruanas, mas foram construídas pelos Estados Unidos e são usadas pelos marines que operam na Amazônia peruana. Isto porque no final das contas, os Estados Unidos cobiçam mesmo são os nossos recursos naturais. Sobretudo o petróleo e a água.
Pois embora os brasileiros estejam fascinados com a China, suas práticas escravas e seus meios de enriquecimento ilícito mundo afora, só dois países dos BRICs têm futuro assegurado.
Apenas Rússia e Brasil têm fôlego para manter hegemonia a médio e longo prazo porque são os únicos em que os recursos naturais que a China (Tibete) e a Índia (Kashimir) têm de predar além de suas fronteiras legais abundam.
Nossos recursos naturais, os tesouros que o pulmão amazônico abriga, o petróleo que jorra e a ainda mais preciosa reserva hídrica (bacias à direita) são invejados e cobiçados pelo resto do mundo de maneira mais ou menos agressiva.
Mas a ABIM - Agência Brasileira de Inteligência, o serviço secreto tupiniquim que parece ser eficiente, sabe de tudo isto melhor do que eu e deve estar tomando as devidas providências para os marines, seus aviões espiões e seus piratas ficarem fora das nossas fronteiras.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Vox populi, Vox Dei?



Antes de perguntarem, vou sim, continuar a História Israel vs Palestina, começada no dia 05 de dezembro passado, mas vai ser de 15 em 15 dias, para dar espaço a outros assuntos importantes na minha área.
Como por exemplo, agora que voltei à labuta após as férias curtas no nosso país tropical (banhado pela chuvarada, oriunda dos danos no ecosistema, que há alguns anos cobre o nosso sol de verão) quero atualizar a situação das revoltas e conquistas que abordei no ano passado tentando fugir da mesmice das retrospectivas que chovem no molhado.
Não sei se vou conseguir, mas vou tentar.
A expressão Vox populi, vox Dei deste título, foi lida pela primeira vez em uma correspondência do monge inglês Alcuin de York para o rei dos francos Carlos Magno, que dominou a Europa no século VIII até 814.
Desde então ela virou palavra de ordem dos democratas e de chacota para déspotas e aristocratas.
Na época, Alcuin a imortalizou, mas na negativa, pois a frase completa que escreveu em 798 foi ...Nec audiendi qui solent dicere, Vox populi, vox Dei, quum tumultuositas vulgi semper insaniae proxima sit, ou seja, ...E estas pessoas que continuam a dizer que a vox do povo é a voz de Deus não deveriam ser ouvidas, pois a natureza turbulenta da multidão está sempre muito próxima da loucura.
Eu sempre tento me situar no campo dos justos e dos democratas do mundo, mas às vezes concordo com Alcuin na íntegra. Quando isto acontece é por razões distintas; é quando um homem, um partido ou uma comunidade sectária manipula o povo em interesse próprio.
Porém, na maioria das vezes que pronuncio esta frase me restrinjo à célebre versão encurtada.
Hoje a escrevi acima em homenagem à emancipação de um povo dividido em várias nacionalidades, que começou a tomar as rédeas de seu destino no ano passado e quaisquer que fossem ou sejam nossos temores e vontades ocidentais, não vai parar no meio da estrada da liberdade que pegou em 2011 e que continua a percorrer em 2012 em uma dinâmica própria.
O Despertar Árabe foi o grande acontecimento internacional de 2011. Pois além de sua importância intrínsica, inspirou revoltas econômicas nacionais na maioria dos países ocidentais, de Occupy Wall Street dos Estados Unidos à Austrália, contra os 1% de nababos que beneficiam da desOrdem econômica mundial.

Os movimentos de rebeldia no Ocidente foram contra os bancos que são as versões locais de Mubarak, Ben Ali e Gaddafi. As Agências de câmbio e os bancos estadunidenses são intercambiáveis e envenenam o mercado com suas taxas e com seu vai e vem entre o governo e instituições bancárias, em uma promiscuidade de arrepiar.
Ao ponto que até a mídia especializada, que deveria informar o público incauto, pega leve quando trata destes casos. Bate e sopra; cutuca, mas não move uma palha.
Como a grande maioria dos repórteres estadunidenses que cobrem o Oriente Médio evitando sempre qualquer crítica possível a Tel Aviv. Os comunicados de imprensa dos lobistas da IDF (exército israelense) são divulgados como fatos incontestáveis para explicar aos compatriotas que podem confiar nos "negociadores da paz" de Washington, que os israelenses são os mocinhos e os palestinos os bandidos,  e quão moderados são os "mocinhos" e quão violentos são os "bandidos".
Os banqueiros ocidentais podem destruir as economias domésticas e de mercado, gritar, espernear, infringir a lei, e continuam sendo os "mocinhos" na farsa mediática.
Mas quando os protestadores de Wall Street botam a boca no trombone e exigem que os grandes banqueiros responsáveis pelo caos econômico sejam julgados como Mubarak, são chamados de anarquistas e de terroristas sociais.
Na visão da elite socio-econômico-mediática os ditadores árabes têm de ser derrubados, julgados e condenados por seus crimes políticos, porém, os ditadores da finança ocidental não podem responder por seus crimes econôcios e sociais. São intocáveis. Até quando, não se sabe. Pelo menos até quando nossos jornais também forem controlados por esta elite que transita livremente nos templos financeiros e nas instâncias máximas que governam nossos Estados.

Voltando à fonte da revolta, quem diria que a humilhação de um jovem em dezembro de 2010 em Sidi Bouzid, cidadezinha situada a duzentos quilômetros de Tunis, capital da Tunísia, fosse provocar uma cadeia regional de conscientização e rebeldia?
O dia 17 de dezembro nasceu em Sidi Bouzid como todos, mas naquele dia, a frustração frente à injustiça econômica e à repressão do autoritarismo levaram o jovem Mohamed Bouazizi, vendedor de frutas de 26 anos, reagir mal à afronta pública de uma policial que confiscou sua banca e à incapacidade de recuperá-la no órgão administrativo responsável. Despejou combustível no corpo e imolou-se, em um gesto desesperado. Morreu no dia 4 de janeiro de 2011.
A informação alastrou-se por twitter e facebook formando a corrente que todos sabem e dez dias mais tarde, o presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado do poder e o fogo da liberdade saltou as fronteiras para os vizinhos árabes.
Na praça Tahrir, no Cairo, apareceram bandeiras tunisianas e o movimento contra o presidente Hosni Mubarak começou incendiando o país inteiro até sua queda no dia 11 de fevereiro.
A palavra de ordem na região era Ash-shaab yurid isqat an-nizam, O povo deseja a queda do regime!
Os gritos reivindicativos ganharam as ruas de Arábia Saudita (onde a imprensa foi logo amordaçada, os primeiros manifestantes presos de cara, assim como Manal al-Sherif por ter iniciado campanha contra a proibição das mulheres ao volante, o rei Abdullah ganhou o apoio das autoridades religiosas na proibição de protestos públicos e petições por reformas no país e disponibilizou US$37bilhões para programas sociais);

Argélia, onde promessas de reforma e um cabresto firme em que o presidente Abdelaziz Bouteflika mantém a população bastaram para calar a insatisfação crescente; Iraque, onde os jovens se revoltaram em Bagdad, Basra, Kut, em cidades menores e em regiões kurdas, e a presença militar estadunidense impediu que as reivindicações de melhores condições de vida se generalizassem, até sua retirada em dezembro;

Jordânia, onde a ira do povo começou em janeiro, foi acalmada com promessas de reformas, até o povo voltar às ruas em setembro para protestar contra o Tratado de Paz assinado com Israel em plena mobilização de reconhecimento da Palestina - cerca da metade dos seis milhões de habitantes do país, inclusive a raínha Raina, são ligados à Palestina por raízes ou casamento.
Por outro lado, as reformas político-econômico-sociais do rei Abdullah ainda não foram cumpridas e o crescimento político da Irmandade Muçulmana nos países vizinhos os está tornando populares sobretudo junto à população mais carente; portanto, a poeira não vai baixar tão depressa quanto o rei gostaria;
Kuwait, cujo emir Sabah IV calou os súditos loguinho;
Mauritânia, país pobre africano cujo presidente fez o que pôde sem muita violência e em junho nomeou uma celebridade internacional para o Ministério da Cultura, o cineasta Abderrahmane Sissako, cujos filmes tratam de problemas sociais graves, como a difícil condição feminina;
Marrocos, dominado pelo rei Muhammed VI (aliado íntimo dos EUA) que foi rápido no gatilho da repressão e do amordaçamento da mídia, mas não conseguiu impedir um estertor reivindicativo em junho em Rabah onde os gritos de liberdade e dignidade voltaram a aflorar.
Enfim, nestes países acima, onde a repressão causou poucas vítimas fatais, o povo está mais ou menos conformado, mas a revolução parece ter sido apenas adiada para daqui a pouco ou mais tarde.

No Bahrein, Líbia, Síria e Yêmen o número de mortos, feridos e encarcerados deixaram marcas indeléveis nos vencedores e nos derrotados. As cicatrizes serão difíceis de curar.
No Bahrein, um reino ilhado no Golfo árabe em que a maioria chiita é governada por uma família sunita, os protestos ainda não acabaram, embora a violência da polícia tenha sido uma das mais criticadas e as centenas de presos venham sendo bastante maltratados. No domingo passado os estudantes que retornaram às ruas foram recebidos com bomba de gás lacrimogênio, à vontade.

No Yêmen, no finalzinho do ano, milhares de pessoas engrossaram as passeatas na bela capital Sanaa e em outras dezoito cidades. Exigem que o presidente Ali Abdullah Saleh (que no dia 23 de novembro acabou transferindo oficialmente seus poderes para o vice-presidente para livrar a cara) responda processo pelas centenas de mortes cometidas sob suas ordens.
O povo está preocupado porque oficiosamente Saleh parece não querer desencarnar e para salvaguardar-se, espera um visto de entrada nos EUA, para tratamento de saúde, e pode assim fugir à sua responsabilidade.

A Líbia pós-Gaddafi continua governada pelo Conselho Nacional de Transição de Benghazi que marcou eleições para junho ou julho deste ano. Mas sem um governo nacional, realmente centralizado, que governe de fato.
É falho em todos os níveis.
Por exemplo, Saif al-Islam, filho de Gaddafi, foi detido em novembro e continua preso em uma casa perto de Zintan, uma cidadezinha montanhosa no sudeste de Trípoli; sem direito a advogado, visita, rádio, internet, televisão e com a única companhia de guardas armados que o alimentam três vezes por dia.
A Corte Penal Internacional solicitou sua extradição à Háguia para ser julgado por crimes contra a humanidade, mas o Conselho de Benghazi está empurrando com a barriga uma decisão que talvez não possa tomar nem provar que pode julgar imparcialmente o filho de Gaddafi.
Saif denunciou para o representante de Human Rights Watch a incapacidade do Conselho de Benghazi de cumprir a palavra de estabelecer democracia e justiça.
De fato, mais de sete mil prisioneiros próximos de Gaddafi estão detidos em prisões espalhadas pelo país, no mesmo sistema "incomunicado" de Saif. Sem advogado e sem perspectiva de julgamento. E o CNT ainda nem começou a investigação da execução de Muammar Gaddafi.
É por isto que o novo governo da Tunísia recusou a extradição do ex-primeiro ministro Al-Baghdadi Ali al-Mahmoudi. Temem que seja torturado.
Mas Aisha, a filha de Gaddafi que encontrou refúgio na Argélia, resolveu acionar a Justiça por conta própria. Contratou o advogado israelense Nick Kaufman, especialista em crimes de guerra, para solicitar à CPI que investigue a morte do pai.
Donatella Rovera, uma representante da Anistia Internacional entende o porquê disto, "Atualmente, é difícil falar de um judiciário independente na Líbia, pois não existe nenhuma autoridade central da qual se possa falar".
Por pior que tenha sido Gaddafi e por mais inconsequente que tenha sido Saif, que surpreendeu todos os que o conheciam e o tinham por inteligente e ocidentalizado, todo crime tem de ser devidamente julgado. E a Háguia é o melhor lugar para isto.
Sobretudo no caso de Saif, que tem muita história para contar. Inclusive sua relação, bastante chegada, com Tony Blair e seu possível envolvimento na libertação, em 2009, de Abdelbaset al-Megrahi, o terrorista líbio responsável pela explosão do Boeing da Pan Nam em Lockerbie, em 1988. Atentado que causou a morte de 259 pessoas.
Ou será por isto que ele esteja sendo calado?
Enquanto estas questões básicas não se definem, os negócios vão de vento em popa em Benghazi, há pequenas escaramuchas tribais e a população respira, embora alguns ainda não se sintam à vontade para bater-papo nos bares - após 42 anos de boca fechada, falar livremente não é fácil. Minha geração brasileira, que "só" foi amordaçada durante 20 anos, sabe.  
O certo é que o país tem de ser construído do zero. Começando por um sistema jurídico e policial democráticos até escolas e hospitais.
A riqueza do petróleo, que nunca beneficiou o povo, tem de ser utilizada em bens-públicos e as feridas deixadas pela revolução, profundas como um precipício entre as tribos rebeldes e das forças pró-Gaddafi, têm de ser curadas e as divergências tribais resolvidas para que a paz possa reinar.
Contudo, a corrupção da nova elite e a "entrega" do país às multinacionais ocidentais estão longe de ser descartadas.
Apesar das incógnitas políticas e econômicas, para ajudar o povo a sair do buraco, que venham os turistas! A Líbia é muito bonita, as ruinas romanas estão entre as mais bem preservadas; o deserto, junto com o da Tunísia, é o mais impressionante do planeta, Trípoli tem sítios históricos que valem a viagem e os líbios, como todo árabe, tem aquele sentido brasileiro da hospitalidade.

No final das contas da Primavera Árabe, quatro ditadores foram derrubados. Os dois primeiros citados, da Tunísia e do Egito, foram depostos, o líbio Muammar Gaddafi foi executado no dia 20 de outubro, e Ali Abdullah Saleh, do Yêmen, demitiu-se no dia 23 de novembro.
O ano de 2012 começou com grandes desafios que exigem decisões importantes.
Na Tunísia, segundo a ONU, mais de duzentas pessoas morreram durante a revolução e centenas foram feridas pelas forças militares de Ben Ali.
No tocante à política, a mudança é patente. Em outubro o país votou em um líder e elegeu Ennahdha, do partido islamita moderado. O atual presidente é Moncef Marzouki, um ativista de longa data, que devolveu a seus compatriotas o sorriso.
Porém, os revolucionários e a classe média tunisiana dizem que só saborearão o sucesso de seu Movimento quando houver mudança, social e econômica, concreta.

No Egito, a promotoria exigiu pena de morte para Hosni Mubarak, cujo julgamento está sendo seguido em todas as cidades.
Enquanto isto, o partido dos ativistas jovens que puseram o país de cabeça para baixo e enxotaram Mubarak só obteve 2% nas urnas e os Liberais laicos, apenas 9%.
Sessenta e dois por cento dos quinze milhões de eleitores que foram às urnas, segundo resultados preliminares, votaram nos partidos islamitas perseguidos durante o antigo regime, com predominância da Irmandade Muçulmana que dominará o Parlamento.
O destino do país está nas mãos da Irmandade, mas Mohamed Mursi, líder do partido, prometeu que a Assembléia Constituinte contará com representantes de todos os egípcios.
A eleição é baseada em um sistema complexo de representações e turnos. Os resultados definitivos de todas as Assembleias Legislativas locais e nacionais só serão conhecidos após as eleições que começarão no dia 29 de janeiro para a Câmara Alta, que corresponderia ao nosso Senado.
Após a posse, escolher-se-á uma comissão responsável pela nova Constituição. É por isto que a eleição presidencial está prevista só para fim de junho.
Os cristãos coptas, que vêm sofrendo perseguições em algumas regiões, estão divididos entre preocupação e otimismo. Mas é difícil imaginar como o Egito, que quer resolver seus problemas econômico-sociais e modernizar-se, obteria sucesso sem a contribuição da elite intelectual, sobretudo dos coptas.
Para o país sair do buraco o pragmatismo vai ter de falar mais alto do que o sectarismo e uma aliança ampla instalar-se.

E no vizinho abaixo, o Sudão, após quase cinquenta anos de uma guerra civil mediatizada por celebridades, em janeiro de 2011, a secessão foi efetivada.
O Estado do Sul, constituído por uma grande maioria cristã e de religiões indígenas, foi reconhecido pela ONU em seguida.
A separação legal não impediu que a violência continuasse na fronteira, causando cerca de três mil mortes.
E o presidente Salva Kiir este ano tem de enfrentar problemas econômicos e sociais complicados. Primeiro, tirar o país dos 80% de inflação em que está atolado e lidar com o retorno de 350 mil compatriotas e de cerca de um milhão de refugiados cuja volta está prevista em 2012.
No estado em que o país se encontra, prevê-se que cerca de 2,7 milhões de sudaneses do sul passem fome este ano.
E no meio deste caos social, a quem Salva Kiir acabou de fazer uma visita surpreendente?
A Binyamin Netanyahu.
Aparentemente, nada liga israel ao Sudão. Nem fronteira, nem religião, nem cultura, nem etnia. Por outro lado, são distanciados por mais de três mil quilômetros de terra e água...
Na perspectiva de Israel, o Suldão do Sul está geopoliticamente bem localizado porque serviria para bloquear uma suposta rota do Irã (um de seus maiores pesadelos) nessa área.
Como Tel Aviv só pensa em segurança total e armas para garantir o que não quer garantir com bom senso, desocupação e diálogo, o que a liga a Juba só pode ser armamento leve e pesado.
No fundo do poço, Salva Kiir escolheu vender a alma para o diabo (e para o braço armado da nossa América, no norte?) e virar base africana de um Israel governado por uma extrema-direita cega e implacável.
As vantagens fornecidas por Israel (e os EUA por trás?) são tantas, que Kiir chegou a declarar que está pronto a abrir uma embaixada em Jerusalém. Em toda ilegalidade internacional.

E por último, vem a Síria, palco de uma disputa de território acirrada entre Bashar el Assad e uma grande população revoltada.
Nos dez meses de revolta, a ONU afirma que mais de 5.000 mil pessoas foram mortas e o governo contra-ataca com a cifra de que os "terroristas" mataram 2.000 mil policiais.
Na verdade, ninguém sabe de nada. A Síria está fechada e os poucos jornalistas que acedem ao território vêem fatos isolados e não dispõem de nenhuma informação fiável. Até os observadores da Liga Árabe estão confusos
É certo que o regime de Assad, como o do pai e dos demais governantes anteriores, é autoritário e persegue seus opositores. Mas isto não é novidade.
A novidade é que o povo se diz farto.
Neste caso específico, há um componente religioso claro: Bashar é de confissão religiosa alauita, uma minoria chiita, e as outras duas facções muçulmanas chiitas e sunitas querem que ceda o lugar.
Os observadores da Liga Árabe afirmam que sua investigação in loco pode durar bastante, assim como sua intermediação e negociação com os beligerantes.
Voltaremos a este assunto mais tarde.

O ex-primeiro ministro de Israel Ehud Olmert foi indiciado por corrupção nas investigações do Caso Holyland, sob acusação de ter recebido propina, junto com o ex-prefeito de Jerusalém Uri Lupolianski e mais 17 funcionários do governo, para autorizar a construção de novas residências na cidade.
O Projeto Holyland é um dos maiores casos de corrupção da história de Israel. O processo começou em 2010 após uma denúncia anônima de que a construtora responsável teria desembolsado dezenas de milhões de shekels (moeda local) em propina para obter diminuição de impostos, de prazo e retirada de obstáculos ao seu empreendimento imobiliário no bairro Bayit VeGan de maioria de judeus ultra-ortodoxos.
Além do mal gosto de deformar a paisagem do sudoeste de Jerusalém, um pinheiral foi arrancado para acomodar o luxuoso complexo imobiliário e estima-se que pelo menos 300 objeções oficiais tenham sido arquivadas para viabilizar a obra.

"No matter what's happening in the Middle East - the Arab Spring, et cetera, the economic challenges, high rates of unemployment - the emotional, critical issue is always the Israeli-Palestinian one."
King Abdullah II

Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/;
Lista de produtos das colônias a serem boicotados:
http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements.

domingo, 23 de outubro de 2011

Banalização de execução sumária

I and the public know; What all shcoolchildren learn; Those to whom evil is done; Do evil in return.
Eu e o público sabemos; O que todos os meninos aprendem; Aqueles que são maltratados; Por seu lado maltratam.
Esta é uma estrofe célebre de Wystan Hugh Auden. Genro de Thoman Mann e um dos maiores intelectuais britânicos do século passado.
WH Auden, cristão confesso, disse também que Todos estamos na Terra para ajudar os outros. O que não entendo é para quê estão os outros.
Na semana passada (como tantas outras) os Todos continuavam Indignados de Singapura a Nova Iorque, mas os Outros levantaram a voz, e às vezes, armas.
A execução de Gaddafi só é surpresa (?) para a ONU.
A cabeça a prêmio não precisava as condições de captura, se algemado ou em imagem, mas a expectativa de execução era quase clara.
O choque das imagens, a Rússia botou a boca no trombone e a ONU resolveu pedir contas do assassinato. Mas com que moral?
Só neste ano, deixou os EUA executarem sumariamente Osama Bin Laden e seu próprio cidadão Anwar al-Awlaki com o filho de 16 anos, sem questionarem nada.
Neste contexto de impunidade do "líder das nações livres", como fazer os rebeldes líbios engolirem lição de moral?
Estas execuções fazem o mundo "civilizado" regredir moralmente à Idade Média, ao obscurantismo.
E as nações árabes que emergem à democracia têm em Washington um péssimo exemplo.
Sem punir os Estados Unidos na Háguia, vai ser quase impossível punir os rebeldes da Líbia por crime semelhante.
A não ser que a OTAN esteja disposta a atolar, cada vez mais, no solo enlameado do país inteiro, o pé esquerdo com que entrou nos ares tripolitanos.
Gaddafi é morto. E agora, Jalil? E agora, África?
A queda do ditador da Líbia causa satisfação na América e na Europa. Os demais ditadores árabes e a África estão tensos, apesar de terem costas quentes.
Ele não era o único déspota do continente, mas era o único que não tinha rabo preso a nenhuma potência estrangeira. Daí a rapidez com que estas “socorreram” os rebeldes, os armaram e depois bombardearam de cima para ter certeza que Gaddafi não se safaria e que os próximos líderes lhes abririam as portas econômico-financeiras.
Os demais ditadores africanos têm costas quentes, mas talvez nem tanto.
Mesmo protegidos militarmente pelos Estados Unidos em nome da “guerra contra o terror”, e pela China e Índia que não deixar ninguém matar a galinha de ovos de ouro fazendo revoluções, a grande maioria do povo não beneficia dos investimentos que entram no país ou já vão direto para contas clandestinas no exterior. Por isto e por viver em um mundo em que as distâncias encurtaram, a insatisfação, cedo ou tarde, vai chegar aos países mais improváveis.
Quem sabe até na Somália.

The Death of Gaddafi: The Big Picture

Quanto ao futuro da Líbia, ouve-se que a paz momentânea pode ser guerra civil proximamente.
Gaddafi foi para Sirte sabendo que não sairia de lá vivo. Queria morrer junto de sua tribo e transformar-se em mártir para os humildes.
Morrer isolado em palácio, é uma coisa.
Morrer rodeado na cidade natal é outra, com sentido. 
Daí a pressa da ONU em prometer investigação sobre os crimes de guerra cometidos por ambos os lados.
Há semanas que os rumores na Líbia são de que estava condenada a continuar a novela negra que começou no Iraque em 2003.
A queda de Gaddafi é um triunfo, mas a execução é uma derrota flagrante.
Mostra o quanto a autoridade do NTC (Conselho Nacional Transitório) junto aos grupos rebeldes é frágil. E quão aleatória será a posição destes homens unidos pelo ódio de Gaddafi e separados, quem sabe, por ambições de poder tribal ou/e pessoal.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Já dizia Camões. Vide a foto acima, do ano passado.
Uma coisa é certa. O conflito armado não terminou com a execução de Gaddafi. É quase certo que rixas entre prós e contras e contras e contras vão soltar faíscas em algumas partes.
Resta torcer para que as faíscas não provoquem incêndio nacional e que o NTC consiga controlar o que hoje parece dificilmente controlável.
Alguém na Líbia disse que eles podem inspirar-se no processo de reconciliação da África do Sul, exportado com sucesso para Ruanda, Libéria e outros países, mas tem um porém... O programa inaugurado pelo bispo Desmond Dutu é fundado na fé cristã da confissão do pecado e do perdão. Não sei se funcionaria calcado em outra religião. Quem viver verá.
A OTAN prometeu terminar a “campanha da Líbia” no dia 31 de outubro, mas não falou quando abandonará o navio nas mãos de tripulação e capitães nativos.

Nos Estados Unidos, França, Inglaterra,... as empresas que ainda não estão com caixeiros viajantes postados há meses em Benghazi, para abocanhar os espólios milionários da guerra que seus países patrocinaram, estão sendo incitadas vivamente a voarem já! A fim de participarem da festa econômica e deixarem os empresários locais a ver navios, como em Bagdá oito anos atrás.
Boa sorte para a Líbia e para os líbios! Com votos de que o país não protagonize o Cine-catástrofe-realidade: Iraque Bis.

RT: Que direito a OTAN tem de executar Gaddafi?

Duas “revoluções” com duas caras, poderia ter sido o título de um artigo comparativo entre o processo de “libertação” da Líbia e da Tunísia.
Porém, como nos últimos meses já falei bastante sobre o caminho errado tomado desde o início na Líbia, prefiro dar uma palavrinha sobre o país em que o povo venceu na mais perfeita paz.
Na sexta-feira almocei com Jamel, um tunisiano que faz parte da elite pensante e ativa que reside fora.
A falangeta de seu polegar estava curiosamente manchada de tinta preta e ele disse, com orgulho da conquista de um direito universal nascente, que tinha acabado de votar no Consulado para a escolha do Conselho que comporá a iminente Assembléia Constituinte.
ESclareceu que a tinta preta é para evitar fraude. As eleições no exterior duram dois dias e a tinta é impossível de ser apagada em menos de três. O sistema é infalível.
É a primeira vez que ele votava (tem 39 anos).
Não que o deposto Zine El Abidine Ben Ali tenha presidido o país de 1987 a 2011 sem organizar sufrágios, é que era eleito com mais de 90% de votos, fraudados. Os funcionários públicos, por exemplo, recebiam o envelope com a cédula, única, que depositavam na urna e iam ruminando a frustração de volta ao lar, seguro, graças à cumplicidade a que eram obrigados.
Dez meses após a queda de Ben Ali, tunisianos bem sucedidos em outras paragens retornaram ao país para participar do processo de democratização e oitenta partidos foram criados.
Jamel, como os tunisianos bem pensantes e laicos, votou na lista de personalidades que propõem um esboço de constituição que será submetida ao escrutínio público na internet para ser melhorada conforme a expectativa popular.
Dentro do país, os cidadãos que tomaram seu destino em mãos votam neste domingo.
Revolução popular é isto. É o povo unido contra um sistema apodrecido e que deixa a Justiça punir os criminosos, de colarinho branco e sem colarinho.

Após a primeira leva de troca de prisioneiros no dia 18, negociada entre Israel e o Hamas, e a acolhida de herói que tiveram alguns militantes do Hamas responsáveis por crimes de sangue, me perguntaram se acho isto moral e se não há risco que estes voltem aos atentados.
Começando pela segunda pergunta, as estatísticas que Israel mantém desde que procede a estas trocas de prisioneiros mostram que apenas 15% dos libertados retomaram atividades militares.
O risco hoje é menor ainda, pois na visão destes militantes (muitos eram civis presos por nada), eles cometeram estes atos repreensíveis em situação de guerra e agiram como soldados lutando por justa causa, com comando e ações hierarquicamente determinadas e ditadas por uma vontade política clara.
A vontade explícita do Hamas, desde 2005, é de conciliação e paz, não é mais de atentado.

Nelson Mandela, um “terrorista” anos mais tarde, em vida, popularmente canonisado, durante seus primeiros quinze anos de prisão, costumava cantar a célebre balada popular irlandesa (1) composta em homenagem a Kevin Barry, dando ênfase à frase “Fuzilem-me como um soldado irlandês, não me enforquem como um cão, pois lutei pela liberdade da Irlanda”.
Kevin Barry tinha 18 anos quando foi enforcado junto com nove companheiros do IRA, enterrados no pátio da prisão em 1920. Na libertação da Irlanda em 1934, os túmulos dos dez homens foram identificados. Em 2001 uma missa foi rezada na Catedral de Nossa Senhora e os corpos foram devidamente enterrados no cemitério de Glasnevin, em Dublin, onde um monumento foi edificado aos heróis do passado que permitiram que o presente seja desfrutado com liberdade.
Quem já esteve em Israel e, como eu, observa tudo, deve ter reparado que tem muitas ruas e praças chamadas Shlomo Ben Yosef.
O que valeu tanta homenagem a este membro do controvertido partido sionista revisionista Irgun?
Em 1938, um ano depois de ter emigrado para a Palestina, ele fuzilou um ônibus cheio de nativos com a intenção de matar todos os palestinos que conseguisse.
Ben Yosef foi julgado pelas autoridades britânicas, que então ocupavam a região, e foi condenado a morte pelo crime premeditado.
Para a  grande maioria dos israelenses, este homem movido pelo ódio racista é louvável.

Em 1948, Albert Einstein junto com a filósofa Hannah Arendt e outros intelectuais judeus da época, enviaram ao New York Times uma carta aberta (2) condenando a visita aos Estados Unidos de Menachem Begin. Este era líder do Tnuat Haherut, partido cuja organização, métodos, filosofia política e social se assemelhavam à dos fascistas, segundo os assinantes da missiva.
Esta mostra a clarividência destes intelectuais encabeçados por Einstein a Arendt. Viram nesta visita a vontade política estadunidense de apoiar este partido na Nação recém-criada, contra as ideais de Ben Gurion, mais abertas.
A carta mostrou também que a comunidade judia estava dividida, mas não evitou a ascensão meteórica de Begin.
Embora tivesse participado e dirigido vários massacres de palestinos que resultaram na Naqba (blog do 15/05/11), - inclusive do vilarejo vizinho de Jerusalém, Deir Yassin, em que o genocídio dos palestinos deixou traumatizados os soldados ingleses que chegavam sempre após o fato consumado (algumas raras fotos, como as de acima, atestam a história) - co-ganhou o Prêmio Nobel com Anwar al-Sadat em 1979 por assinarem o Tratato de Paz que seguiu a Guerra dos Seis dias.
Assinatura que não impediu Menachen Begin, entre outros atos, de bombardear uma "usina nuclear" no Iraque em 1982; de invadir o Líbano, dando início à “guerra” que culminou com o massacre dos palestinos nos campos de refugiados de Sabrah e Shatila; e de começar o processo de colonização em Cisjordânia e em Gaza.
Em 1983 retirou-se da vida pública e em 2005 foi eleito por seus compatriotas uma das cinco figuras mais importantes de Israel de todos os tempos.
O que prova a teoria do próprio Einstein. Da relatividade.

A lista de “terroristas” convertidos em “heróis” é longa. 
Uns têm glória merecida. Outros menos.
Mas é raríssimo que as pessoas em nome de quem o atos de violência são cometidos questionem o mérito destes indivíduos.
Eu sou e serei sempre contra a solução armada, pois sangue deixa mancha muitas vezes indeléveis e outras marcas dificílimas de tirar com meios brandos.
Quanto à questão moral que alguns leitores colocaram...
A primeira moral da estória é que a história não tem moral.
A segunda é que a vida mostra que pessoas intrinsecamente morais em toda e qualquer circunstância de estres, pressão, dor física ou psicológica extremas, são espécie rara.
A terceira é que sendo cristã - dos três primeiros séculos em que o cristianismo era calcado na tolerância e engajado em princípios irrepreensíveis - acho que todo mundo merece uma segunda chance.
Eu, prefiro dar a outra face e levar mais uma bofetada encarando o meu agressor do que revidar ou pôr o rabo entre as pernas e seguir adiante, de cabeça baixa, com medo da sombra.
E como todos os israelenses ativistas de Direitos Humanos aprovam a troca de prisioneiros (blog anterior) e querem que os outros seis mil palestinos sejam libertados o quanto antes, quem sou eu para emitir opinião sobre um drama do qual sou espectadora e não participante?
Além disso, o risco é relativamente proporcional à vontade de provocação de Binyamin Netanyahu e de seus planos.

Wag the dog é uma expressão anglófona imortalizada no filme homônimo de Barry Levinson, com Robert de Niro e Dustin Hoffman.
Significa dar predominância de algo irrelevante sobre um acontecimento de grande importância.
Barack Obama, coitado, na semana passada, sem solução para o movimento incontrolável de Occupy Wall Street, resolveu wag the dog para ver se as coisas acalmam.
Primeiro forneceu ao público um inimigo comum. Um complô irano-mexicano para matar o embaixador estadunidense na Arábia Saudita em solo estadunidense.
Depois foi a lenga-lenga do papel catalisador do Irã nos conflitos árabes.
E por último, mas não menos importante, declarou que os Estados Unidos retirará do Iraque seus últimos 39.000 soldados até o dia 31 de dezembro deste ano.
Desde 2003, mais de 4.400 cidadãos dos EUA morreram na ocupação do Iraque.
Segundo uma agência de pesquisa britânica, cerca de um milhão de iraquianos morreram no mesmo período em consequência da guerra e da ocupação.


No Yêmen, os protestos não arrefecem e a repressão prossegue.
Ali Abdullah Saleh quer garantias,
antes de abdicar ao absolutismo de seus 33 anos de presidência  



 
Na Síria,
a palavra de ordem não muda: Assad, reforma, ou fora!
A despeito das  passeatas de simpatizantes do presidente em Aleppo e Damasco.


A título de informação, o Brasil finalmente aderiu, oficialmente, à ocupação injusta da Palestina abrindo uma representação nacional do Movimento Brasileiro BDS (Boycott, Disinvestiment, Sanctions) contra Israel. O evento aconteceu na USP na semana passada.
Agora os nossos compatriotas que quiserem, poderão participar do Movimento e pressionar o governo da Dilma para que não permita que Israel use MADE IN BRAZIL para produzir e exportar seus produtos que vêm sendo boicotados no mundo inteiro.
Temos de ficar atentos para que o lobby sionista não transforme São Paulo em Nova Iorque e Brasília em Washington.
Nós somos brasileiros, defensores dos fracos e dos oprimidos; ou isto é ideal ultrapassado nas novas gerações?
"Palestine is the cement that holds the Arab world together, or it is the explosive that blows it apart."
Yasser Arafat
Israel: Estado Militar

1. Balada Kevin Barry: http://youtu.be/ehWfKQRFwWQ; letra: http://celtic-lyrics.com/forum/index.php?autocom=tclc&code=lyrics&id=283.
2. Carta de Einstein enviada ao NY Times: http://www.physics.harvard.edu/~wilson/NYTimes1948.html
Lista de produtos das colônias a serem boicotados: http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements;
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;