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domingo, 18 de agosto de 2013

Iraque, Síria, Egito, a mesma sina?

O cartoon ao lado está bombando nas redes sociais do Egito. Que, diga-se de passagem, está vivendo o pior momento de sua história contemporânea.
O filósofo francês Henri Bergson dizia que O olho enxerga o que a mente está preparada para entender. Talvez daí venham os erros de projeção analítica da imprensa e da diplomacia estrangeira em relação ao Egito, e de forma geral, aos eventos mal-antecipados inclusive localmente.
Eu também erro porque sou humana. Mas, modéstia às favas, erro menos do que a maioria. Pois, além de ter estudado pra danar, sou picuinha, tento sempre entender o que não vejo. Procuro sempre o leão invisível na fotografia mas que está lá, sei, agachado no mato pronto para o ataque ao menor sinal de ameaça ou quando quer e precisa alimentar-se.
Assim é a natureza. Assim é a sociedade em que vivemos.
Acerto a maioria das minhas análises por causa disso. Desta teimosia que me marginaliza no meio dos que veem o que está na cara e negligenciam o que está escondido - ora por comodismo, ora por partidarismo, ora por ignorância histórica.
Ora também porque a tendência natural de um analista é "prever" o que lhe parece mais adequado e melhor para o lugar, para as pessoas envolvidas e as possibilidades do momento histórico.
O problema é que os protagonistas da história em curso nem sempre ou raramente têm o bom senso dos que estão de fora.
O sucesso do cartoon acima é porque, de repente, a população inteira que hoje detesta o primo-irmão-vizinho que pensa diferente - Irmandade Muçulmana e oponentes - só concorda em um ponto. Estão todos convencidos que as potências ocidentais, sobretudo EUA, Inglaterra e Israel, estão ajudando o adversário do momento.
A sociedade egípcia está dividida, famílias partidas, amizades rompidas.
A "diplomacia" desses países acima erraram tanto em suas declarações e ações, que conseguiram alienar gregos e troianos. Hoje, no Egito, os únicos amigos destes países são os militares que precisam deles.
Nunca se viu no Egito tanta xenofobia, tamanha raiva dos estrangeiros, ocidentais, e até dos refugiados palestinos que lá vivem há tempos.
Os jornalistas, como sempre, pagam o pato pelo mal-entendido. Talvez porque, no fundo, a culpa seja nossa de dar informações baseadas no que nossa mente está querendo aceitar e não no fato como ele (não) se apresenta.
Foi o que aconteceu em relação ao Iraque, Síria, e agora Egito.
Com o Iraque, a antipatia geral por Saddam Hussein era tanta que a imprensa preferiu engolir as mentiras das armas químicas oferecidas por Tony Blair e George W. Bush do que questioná-la e procurar a verdade em Bagdá, na fonte. Combati a invasão, disse que duvidava da existência de armas químicas, e que o Iraque não estava maduro o suficiente para "perder" Saddam Hussein. Os fatos provaram que eu  estava certa do começo ao fim. Inclusive na desordem sectária incontrolável que seguiria e persiste.
Com a Síria, a antipatia pelos Assad pai e filho também embaçou o julgamento da grande maioria e continua embaçando o de muitos. Quando disse há dois anos que a revolta não era popular, que havia extremistas estrangeiros demais infiltrados entre os "rebeldes", que a Síria estava caminhando para um desastre, os "humanistas" me olhavam ressabiados. Era como se eu tivesse virado a casaca das causas humanitárias e virado direitista. O tempo e o óbvio mostraram que eu estava certa. Ruim com Assad, pior em ele. Espero que os ocidentais caiam na real e incitem os "rebeldes" divididíssimos pela sede de poder a admitir o óbvio e deixá-lo fazer as reformas que promete.
Com o Egito foi um pouco o mesmo. A reticência de reconhecimento Ocidental (leia-se EUA) do fim de Hosni Mubarak facilitou a vitória da Irmandade Muçulmana nas eleições presidenciais.
Mas a culpa não é apenas dos Estados Unidos. Não diretamente, é claro.
No caso do Egito, todos os protagonistas oficiais se super-estimaram.
Durante os primeiros meses após a derrubada de Mubarak foram os militares.
Fizeram tudo para marginalizar os democratas, a juventude revolucionária que exigia mudanças imediatas. E colheram a radicalização que semearam.
Depois foi o presidente eleito Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana que ele representava. Ignorantes do processo democrático por jamais o terem experimentado, interpretaram uma vitória eleitoral apertada como um mandato para reinarem solitários. Deram murro em ponta de faca, Morsi achou que mantinha os generais no laço, e deu com os burros n'água.
Em seguida os militares voltaram a errar quando deram o golpe no dia 03 de julho e quando procederam ao massacre do dia 14 de agosto. Em vez de engajar um diálogo, apostaram e continuam apostando na eliminação permanente da Irmandade Muçulmana, como se ainda fossem capazes, e da oposição que não lhes for favorável.
Só para lembrar, a Irmandade Muçulmana foi dissolvida em 1954, mas registrou-se como ONG em março em resposta a contestação jurídica de sua legalidade. Foi fundada em 1928 e tem uma representação política registrada como Freedom and Justice Party, que elegeu Morsi.
A nova ideia do primeiro ministro "interino" Hazem el-Beblawi de dissolver a Irmandade Muçulmana como fizera Hosni Mubarak é, no mínimo, um tiro no escuro. E o que vão fazer com os milhares de simpatizantes cujas asas cresceram durante o governo Morsi e dos revoltados com os mortos?
Os governos ocidentais também querem livrar-se dela, da Irmandade Muçulmana, e por isso a mídia só ouviu e transmitiu de imediato a "queda" de Morsi em vez de "golpe" contra o Presidente eleito.
Eu fui um dos poucos jornalistas a dar nome aos bois de imediato. Por que os demais se calaram e repetiram a lenga lenga de Washington?
Voltando à Irmandade Muçulmana, o paradoxo de sua diabolização no Egito é que é o mesmo partido que os mesmos ocidentais apoiam na Síria contra Bashar el-Assad. Não por achá-la democrática e viável, é claro, mas por miopia. Pelo imdediatismo corrosivo que caracteriza a diplomacia e a "Inteligência" gringa.
Primeiro, tirar o inimigo de Israel de Damasco. Depois, lidar com os estragos causados pelos novos donos do poder que foram apoiados.
Não se há de esquecer que o pai de Bashar, Hafez el-Assad, expulsou a Irmandade do país há mais de três décadas e a "revolta" que começou há dois anos foi justamente desta organização que queria recuperar os direitos que o Partido Ba'ath lhes retirara. A derrubada de Assad era vontade polítco-democática de uma minoria de jovens. A vontade da maioria dos rebeldes é tomar o poder pura e simplesmente para fazer, certamente, o mesmo que Assad. E se forem/fossem os religiosos, de maneira ainda mais sectária.
Trocando em miúdos, a situação no Egito está como estava na semana do golpe. (Des)controlada pelo general Abdul-Fattah al-Sisi junto com sua cúpula de generais e policiais da era de Hosni Mubarak.
Quando Mohamed el-Baradei, Prêmio Nobel por sua atuação exemplar na International Atomic Energy Authority, aceitou o cargo no governo transitório recém-formado por Sissi, perguntei-me quanto tempo conseguiria ficar e como ele, tão lúcido, embarcara nessa história turva. Como era de se esperar, Baradei não durou muito. Demitiu-se logo que caiu na real. O General dos generais, Sisi, substituiu os governadores eleitos das principais, e até menos importantes, províncias para nomear para os cargos governadores "biônicos". Dez generais de reserva reativados e dois responsáveis pela polícia da era Mubarak. Diante disso, até cego enxerga o significado.
Se isto não for ditadura, alguém tem de me explicar quando a nomenclatura de autoritarismo foi mudada.
Quem conhece um pouquinho da história do Egito, sabe que o Exército só deixa correr águas em seu manancial, que caiam em sua represa e fiquem lá, bem guardadas. Sabe também que a ideologia que reina no meio dos oficiais do Cairo é a formatada nas escolas militares que eles frequentaram. Acho que não preciso dizer onde estão localizadas.
Nas intervenções armadas dos últimos dias, os soldados assistiam de camarote os policiais fazerem o trabalho sujo de atirar nos simpatizantes da Irmandade Muçulmana. Simpatizantes que, diga-se de passagem, embora estejam caindo aos montes sob as balas da polícia, também não estão com as mãos limpas. Vê-se alguns armados e atirando à vontade.
E para concluir, o general Sisi está cometendo um erro enorme reprimindo com tal violência. Não apenas pelas vidas que está tirando e o sofrimento que está causando, mas por uma razão política que não pode ser negligenciada. Cada homem que cai sob a bala da polícia vira um mártir a mais na lista da Irmandade Muçulmana.
Aliás, talvez um dia sem mortos até deixe os líderes da Irmandade Muçulmana decepcionados. Pois lhes faltaria munição para se vitimizarem.
Quanto mais cedo a repressão parar, menos gente engrossará as passeatas e mais depressa poder-se-á resolver a revolta com diálogo.
Com a restituição da democracia seria mais rápido.
Porém, com democracia ou ditadura, banir a Irmandade Muçulmana seria um erro. Não precisa ser grande agente secreto de um grande Serviço de Inteligência para saber que o inimigo clandestino é muito mais perigoso do que o visível.

"Poor Egypt.
HOW DID this come about? How did a glorious revolution turn into this disgusting spectacle?
How did the millions of happy people, who had liberated themselves from a brutal dictatorship, who had breathed the first heady whiffs of liberty, who had turned Liberation Square (that’s what Tahrir means) into a beacon of hope for all mankind, slide into this dismal situation?
In the beginning, it seemed that they did all the right things. It was easy to embrace the Arab Spring. They reached out to each other, secular and religious stood together and dared the forces of the aging dictator. The army seemed to support and protect them.
But the fatal faults were already obvious, as we pointed out at the time. Faults that were not particularly Egyptian. They were common to all the recent popular movements for democracy, liberty and social justice throughout the world, including Israel.
These are the faults of a generation brought up on the “social media”, the immediacy of the internet, the effortlessness of instant mass communication. These fostered a sense of empowerment without effort, of the ability to change things without the arduous process of mass-organization, political power-building, of ideology, of leadership, of parties. A happy and anarchistic attitude that, alas, cannot stand up against real power.
When democracy came for a glorious moment and fair elections were in the offing, this whole amorphous mass of young people were faced with a force that had all they themselves lacked: organization, discipline, ideology, leadership, experience, cohesion.
The Muslim Brotherhood."
Uri Avnery

Post Scriptum BRASIL/PALESTINA:
Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, envergonha o Brasil com seus negócios milionários com Israel. Contratos de armas e em outras áreas, como mostra o cartoon ao lado. O que será que ele ganha nessa jogada de apoio à limpeza étnica da Palestina?
Aliás, o Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros mais "próximos" de Israel. O que é uma surpresa, já que os gauchos primam pela consciência.
Dê uma lida no artigo abaixo e veja quão amoral é este político gaucho.
"Tarso Genro, governor of Rio Grande do Sol in Brazil, concluded a deal to develop a huge Israeli military technology center in Porto Alegre over the past few weeks. One day before signing the contract with the arms company Elbit, Genro was in the occupied West Bank, where he witnessed first-hand the oppression on which Israel’s weapons industry thrives.
Perhaps even more painful than the signing of the deal itself are the arguments he later gave to “defend” his action. It was very sad to see Genro stating — in an interview with the Brazilian publication Opera Mundi — that international law and human rights are not criteria for international commercial relations.
Confronted with Elbit’s track record of violations of human rights and international law, Genro argued that “It is not possible to decide on technological options, at [the] national or regional level, based on this criteria.” He added that “Ethics in global commercial relations is defined by national interests” (“Despite cricisim, Tarso Genro signs agreement with Israeli military,” 29 April 2013 [português]).
This argument flies in the face of the Brazilian constitution, which affirms the prevalence of human rights in international relations. It is also legally wrong. A vast body of legal analysis, UN guidelines and resolutions underscore that state and state institutions are obliged to respect and ensure respect for international law.
Elbit is profiting from the construction of Israel’s settlements and its wall in the West Bank, both of which are considered war crimes. Because of this involvement in violations of international law, Elbit is subject to a global campaign to stop contracts and investments in it.
In his interview with Opera Mundi, Genro defended the deal as an issue of national interest. The same argument was brought forward in the 1970s and early ’80s by the apartheid regime in South Africa and its allies in the UK and the US. Margaret Thatcher did not want to force UK companies to give up on the profits reaped from apartheid. Yet, by the 1990s, the global boycott movement had cost these companies a high economic price and US companies are still being sued for reparations in US courts."
Jamal Juna, coordenador da ONG palestina Stop the Wall.

domingo, 20 de maio de 2012

Omissão, indiferença, consciência de genocídios: Armênia, Palestina...


Todo mês de abril as comunidades armênias espalhadas pelo mundo comemoram um dos maiores genocídios do século XX, cometido contra seus antepassados no canto do cisne do Império Otomano, na atual Turquia.   Como os armênios pouco investiram em lobby, esta data passa quase desapercebida.   Inclusive muitos amigos de descendentes de armênios forçados a imigrar para países como o Brasil pouco sabem do drama que os antepassados destes brasileiros viveram antes de chegar ao aconchego da nossa terrinha tupiniquim.   Para não deixar a data passar em branco e reviver em poucas palavras memórias recalcitrantes, eis alguns dados importantes que não hão de ser esquecidos só porque os armênios tentam perdoar o imperdoável sem clamar por vingança.
A despeito deste espírito de boa-vontade, eles gostariam que a Turquia reconhecesse oficialmente o genocídio e que os sobreviventes que vivem até hoje nesse país pudessem praticar o cristianismo fora de casa sem correr perigo.
O genocídio armênio foi praticado através de deportações e massacres bem organizados.
No final da marcha fúnebre de abril de 1915, Um a um milhão e meio de homens, mulheres e crianças perderam a vida por assassinato ou mau-trato crônico.
Porque eram diferentes ou cristãos, a razão é dupla ou vaga.
O certo é que a violência foi generalizada contra os cidadãos de todas as idades e de ambos os gêneros.
Abusos de toda ordem, estupros, execuções sumárias, privação de comida e água foram lugares comuns durante a "depuração" étnica cuja responsabilidade até hoje a Turquia nega.

Documentário Al Jazeera: Common Pain sobre os armênios na Turquia até 1915


O mês de abril foi o da lembrança do genocídio armênio e o de maio é o da Catástrofe palestina.
A Catástrofe/ Naqba foi desapossamento, expulsão, deportação de mais de 760 mil palestinos de casa e território - cujos descendentes compõem a diáspora atual de 4.7 milhões de refugiados.
A Naqba aconteceu no processo de criação do Estado de Israel em 1948 e atingiu mais de 60 por cento da população nativa. 
 Mais de 530 cidadezinhas foram despopuladas e dizimadas em operações para-militares nesse período.
Cerca de 160 mil palestinos ficaram para trás (hoje são mais de 200 mil). Foram "poupados" e são hoje cidadãos de segunda classe no que é o Estado de Israel (do qual constituem cerca de 20% da população atual). Foram desapossados de bens e moradia como os demais, mas "só" internamente deslocados e impedidos de retornar a suas cidades de origem e às casas de seus antepassados. Suas residências foram "transferidas" a imigrantes judeus, mas até hoje, como os refugiados vítimas do êxodo, guardam com o maior cuidado a chave de casa. 
Passeata Naqba em Amman, na Jordânia 
Passeata na praça Tahrir do Cairo, no Egito
Neste ano a Naqba gerou manifestações em países árabes - Jordânia, Egito, Líbano... - na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. A repressão da IDF correu solta e deixou dezenas de feridos - em Gaza atiraram inclusive em uma criança que se aproximou de um checkpoint.
Mortos também não faltaram, de todas as idades, vítimas das balas de borracha e outros artifícios cada vez mais perversos e sofisticados que os israelenses usam à vontade para manter o regime de terror e a ordem de superfície nos territórios ocupados.

Documentário Al Jazeera: The Great book Robbery

Além de destruir vidas na criação de seu Estado, Israel destruiu também patrimônios arquitetônicos e culturais universais em sua campanha de ocupação territorial.
Durante a Naqba em 1948, por exemplo, bibliotecários da recém-criada Biblioteca Nacional de Israel acompanhavam os para-militares e soldados quando estes penetravam nas residências palestinas para despojar as famílias de seus pertences, vandalizarem suas moradias, expulsá-las e massacrá-las in loco ou em seguida.
Estes "civis" eram encarregados da pilhagem intelectual; de apreender o máximo de livros e manuscritos antigos que encontrassem.
No final do saque, 30.000 livros foram surrupiados em Jerusalém e 30.000 em Haifa e Jaffa.
Os israelenses apresentaram este desapossamento como "operação de resgate cultural" mas os palestinos o veem como "furto cultural".
Desde então as vítimas denunciam o confisco da herança cultural de seus antepassados, mas os israelenses se faziam de surdos e a comunidade internacional não agia por não ter prova concreta do saque.
Em 1998 um doutorando israelense "tropeçou" neste acervo estrangeiro durante sua pesquisa de tese no arquivo nacional e levou o fato ao conhecimento da imprensa e das autoridades.
As ONGs de Direitos Humanos israelenses andam fazendo duas perguntas às quais ainda não obtiveram resposta:
Por que este patrimônio cultural palestino ainda se encontra em cofres da Biblioteca Nacional de Israel?
Por que ainda não foi restituído aos proprietários legítimos?
"Se não for restituído, a operação não foi de preservação como foi dito, mas sim roubo, puro e simples," é a opinião que predomina na Tel Aviv pensante.

  
Al-NAQBA
http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2011/05/naqba-catastrofe.html
Al-Jazeera Listening Post: Nakba, rebels and reporters

Na véspera da comemoração da Naqba Netanyahu acabou se dobrando à negociação com os 2.000 grevistas de fome palestinos. Cedeu direitos magros que deveriam ser desde o princípio inalienáveis a um ser humano, mas já foi um passo bastante apreciado em Ramallah.
O "milagre" aconteceu por causa da perspectiva de passeatas gigantes incontroláveis na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e nos países limítrofes, cujas consequências a IDF e os serviços de segurança israelense temiam debaixo do pano.
Outro fator decisivo deve ter sido a ameaça do Hamas de retomar a resistência militar caso um só grevista perdesse a vida "na manifestação legítima de protesto".
O acordo intermediado pelo Egito e pela Jordânia aconteceu in extremis, mas a tempo de evitar a morte dos grevistas já moribundos.
As garantias foram poucas, mas suficientes para acalmar a onda de protestos que tomava proporções graves cujas consequências, do lado de cá e de lá da Linha Verde, apreendia-se.  
No papel, Israel prometeu o seguinte.
Embora os prisioneiros em "prisão administrativa" - sistema esdrúxulo que permite detenção sob "prova secreta", sem acusação formal e sem julgamento - continuem a cumprir penas, estas só serão renovadas se houver provas novas, ou seja, devidamente formalizadas. 
A outra "concessão" feita por Israel é de transferir para celas normais os inúmeros detentos em solitária - um dos maiores pontos de discórdia, pois este confinamento se devia a uma medida retaliatória que há meses caducara, já que era condicionada à libertação do soldado Gilad Shalit, preso em 2006 em Gaza e solto no ano passado.
Para não dar o braço a torcer e aproveitar para levar vantagem, Binyamin Netanyahu disse que seus esforços se inseriam em um contexto de retomada dos Acordos de Paz congelados e que suas concessões eram uma "resposta ao pedido do presidente palestino Mahmoud Abbas.. Esperamos que este gesto de Israel dê início à restauração de confiança entre as duas partes e aproxime a paz."
Naquela prática corrente de dar com uma mão fechada transformando a concessão esquálida em divina dádiva mediática e tirar com a outra arreganhada na discrição dos microfones desligados, concomitante ao comunidado do porta-voz de Netanyahu chegou um mais discreto do Shin Bet ("SNI" local), enfatizando uma "luz verde" das facções palestinas que os líderes dos prisioneiros assinassem "um compromisso de terminar as atividades terroristas dentro dos presídios.... Os prisioneiros pararão todas as atividades que constituem apoio ao terrorismo, inclusive recrutamento de pessoas para atividades terroristas, conselho, financiamento, coordenação e ajuda de recrutas, etc."

O Shin Bet não especificou como tais atividades vêm sendo praticadas, mas entende-se que além da suspeita das visitas dos familiares serem usadas para ativismo político, a falta de clareza visa a contra-informação habitual de justificar os maus-tratos e arbitrariedade nos presídios como necessários, e alimentar no inconsciente coletivo o fantasma dos atentados, embora estes tenham parado há sete anos.   O Protocolo, levado por um mediador egípcio, foi entregue aos líderes do movimento na prisão de Ashkelon no dia 14.
Na Faixa de Gaza houve manifestações de alegria de familiares dos presos que sairiam da solitária. Em Ramallah, a deputada Hanan Ashrawi declarou vitória para milhões de palestinos, " A magnífica coragem dos grevistas e sua generosidade são profundos exemplos de humildade. Eles demonstraram que a resistência não-violenta é um instrumento essencial na luta pela liberdade."
Hanan suspirou de alívio junto com toda a Autoridade Palestina que viveu dias de tensão enquanto os grevistas jejuavam. Temiam as terríveis consequências de Tha'er Halaleh e Bilal Diab, membros do Jihad Islâmico, não resistirem aos 77 dias de greve. As vidas dos dois homens estavam por um fio. Assim como qualquer perspectiva de paz futura.
Ao ouvir a notícia, um ativista de Direitos Humanos declarou que a ONU deveria forçar Israel a definir claramente o estatuto dos prisioneiros palestinos que são sequestrados no próprio território e jogados em cadeias temporárias ou presídios sem nenhum controle da Justiça Internacional e das organizações humanitárias.
"Se Israel definir que os prisioneiros são estrangeiros, são, por definição da Convenção de Geneva, prisioneiros de guerra e têm de ser tratados como tal e gozar do direito de vigilância das Nações Unidas.
Se definir que são prisioneiros locais, considerando os Territórios Ocupados como extensão do Estado de Israel, são então, por definição, prisioneiros políticos, já que seus 'crimes' são em protesto contra o status quo opressivo e repressivo que transforma seu quotidiano em inferno.
Uma coisa é certa, não são prisioneiros comuns e têm de ter direito a uma defesa além e aquém das fronteiras internacionais ".

Detentos palestinos em Israel, em 2012.
Apenas os números fornecidos pelo IPS (Israeli Prison Service).
Não inclui os prisioneiros detidos fora dos presídios, cujo número, lugar e condições de detenção são indefinidos.  
Mês
Dia
Prisão
Total
Cumprindo pena
Detentos
Detentos sob a
Lei de combate ilegal
Detentos em processo
Detentos
Administrativos
Abril
30
IPS
4,424
3,097
165
1
853
308
Março
31
IPS
4,386
3,125
145
1
795
320
Fev.
29 
IPS
4,411
3,213
164
1
713
320
Jan.
31 
IPS
4,357
3,215
156
1
676
309

Detenções aleatórias, horas a fio debaixo de sol e chuva nos checkpoints

 


 Tipos de tortura usadas em prisioneiros de todas as idades



Projeção do número e tipo de detenção nos últimos cinco anos. Fonte B'Tselem. 

Entrevista com o professor Noam Chomsky sobre a Greve de Fome dos prisioneiros palestinos

TED em Ramallah

PS. Netanyahu está furioso com a recusa do Comitê Olímpico de autorizar o "minuto de silêncio" solicitado por Israel em memória dos atletas israelenses assassinados em Munique em 1972.
Aí alguém explicou que se o Comitê concordasse em politizar o evento esportivo, seria obrigado a atender também às inúmeras reivindicações de boicote de Israel das Olimpíadas por desrespeito constante das leis internacionais na prática de apartheid e nas décadas de ocupação da Palestina com os estragos inerentes a estes atos arbitrários.
Aí os sionistas calaram o bico e continuaram suas barbaridades.   


“Since visiting Israel and the occupied territories in 2006, I have been part of an international movement to support the Palestinian people in their struggle for freedom, justice and equality.
I am honored to have been asked by the Palestinian BDS National Committee, to announce an initiative, to hold the World Social Forum Free Palestine in Porto Alegre, Brazil in November of this year, in cooperation with the Brazilian social movement and international civil society networks.
The object will be to create an international gathering there, that will encourage the basic human instinct in all men and women of good faith to unite in support of the Palestinian people in their struggle for self determination.
All over the world, our movement is growing.
Encouraged by events like the one coming here to Brazil, our voice will grow.
We will continue our call for an end to the Israeli occupation of Palestinian land, for the tearing down of The Walls of colonization and apartheid, for the creation of a Palestinian state with its capital in Jerusalem, for the granting of full and equal rights to the Arab-Palestinian citizens of Israel and for promoting the rights of Palestinian refugees to return to their homes as required by the Geneva convention, as stipulated in UN resolution 194, in 1949 and as restated by the International Court of Justice on the 9th of July 2004.
I find myself greatly encouraged by the growth of this movement in Israel, particularly among young Jewish Israelis, not least ‘Boycott From Within,’ With whom I am in contact.
We stand with you.
Events in Israel and the occupied territories are not widely or accurately reported in the west. The coming World Social Forum Free Palestine in Porto Alegre will help to break down The Walls of misinformation and complicity.
I urge people of conscience to support this forum and help make it a turning point in the international solidarity with the Palestinian people.
The truth will set us free
In Solidarity,
Roger Waters, durante a turnê 2012 do Pink Floyd no Brasil

Pink Floyd - Tour for Palestine (2010)

Documentário American Radical: the trials of Norman Finkelstein




domingo, 6 de março de 2011

Ingerência não é assistência

A semana foi marcada por uma ameaça de intervenção da OTAN na Líbia, condenada por Muammar Kadhafi a uma guerra civil de duração imprevisível.
Na semana passada Trípoli parecia perdida, hoje Benghazi retomou a vida normal e a cidade está à deriva administrativa. A população foi pega de surpresa pelo movimento revolucionário e não estava preparada para assumir a gestão e por enquanto nem o trânsito está sendo regulado.
Navios de guerra estadunidenses estão a postos no mar Mediterrâneo, batalhões ingleses idem, e o coronel Kadhafi, que nunca chegou e jamais chegará a general, conseguiu aliados graças à ameaça de intervenção ocidental.
Aviso aos invasores potenciais, tem uma coisa que os líbios detestam mais do que Kadhafi: estrangeiros em suas fronteiras cantando de galo.
A ONU intervir com funcionários para mediar conflito entre duas nações ou com soldados para fazer respeitar as leis internacionais, é perfeitamente justificável, já que um de seus propósitos é manter o equilíbrio mundial entre os Estados.
Porém, ingerência externa em um país para resolver conflito doméstico é um disparate. Por melhor que seja a intenção, a história mostra que o resultado é sempre um desastre. Vide a Indochina, o Vietnam e o Iraque.
Na primeira guerra do golfo em 1991, para “salvar” o Kweite da invasão do Iraque para recuperar terras que o invadido havia ocupado (uma questão de água), George Bush que odiava Saddam Hussein por querelas pessoais, fez sua “Tempestade do deserto” e condenou o Iraque a um boicote draconiano – em teoria, para alienar a população de Saddam Hussein para que ele caísse sem maiores trabalhos... Na prática o tiro saiu pela culatra. O povo se sentiu visado e a carência de gêneros de primeira necessidade o levou a apoiar o presidente em desgraça, em vez de rejeitá-lo.
O resultado foi o bombardeio do Iraque dez anos mais tarde, com a aquiescência até de alguns democratas liberais que acreditaram na mentira das armas de destruição em massa e acharam que embora tivessem deixado Augusto Pinochet aterrorizar o Chile durante anos, Saddam Hussein tinha de ser aniquilado.
Na época insisti que era um erro não apenas por a invasão ser contrária ao parecer da ONU, mas também porque as divisões étnicas e religiosas no país eram ancestrais e só não pareciam graves porque Saddam Hussein mantinha a ordem (à sua maneira drástica). E por outro lado, o país não estava pronto para assumir a liberdade. A fome de liberdade é um processo que pode ser rápido, mas muitas vezes é lento e tem de ser vivido em todas as etapas, pois são elas que levam ao amadurecimento da sociedade.
A sociedade iraquiana não estava preparada para o pós-Saddam Hussein e deu no que tinha de dar. Esta é outra história que abordarei mais tarde.
De uma forma geral, os países árabes atingiram este grau de maturidade e estão lutando pela liberdade sem nenhum “patrocínio” desconfiável. Esta é sua autenticidade e é daí que vem o entusiasmo com um futuro que estão querendo construir com liberdade.
Sei que vou desagradar, mas na Líbia não se sente a mesma unanimidade da Tunísia e do Egito. Não que é que o povo esteja satisfeito com Kadhafi, longe disso! Mas o país é tribal, as tribos são diferentes e não vêm o país e a vida com os mesmos olhos, e o processo revolucionário aconteceu por acaso; por causa da repressão a uma passeata por razões diferentes, em Benghazi e não na capital. Na Tripolitana o movimento ainda não é de massa, embora a população esteja com vontade de avançar, sem o jugo do coronel Kadhafi.
Os rebeldes estão ganhando terreno, estão armados , mas o Coronel dispõe de artilharia pesada e disse que vai lutar até o último homem. Quem duvida? Mas por mais que a perda de vidas seja deplorável, o conflito é nacional. Se Kadhafi sair vitorioso será porque a vontade de derrubá-lo não era majoritária e a determinação não era suficiente para derrubar o palácio. E armar os rebeldes, como cogita Washington depois de Londres, só é uma boa solução para os negociantes de armas.
Estou sendo lúcida, e não advogada do diabo.
Gelar a fortuna dos Kadhafi nos bancos ocidentais? É legítimo. Mais ainda se este dinheiro fosse restituído aos cofres da Nação desfalcada. Mas na real-política isto é só vontade.
Gelar a venda de armas para Kadhafi e policiar o tráfico? É necessário. Que se saiba, seu arsenal não é inesgotável.
Mas atacar Trípoli para botar as mãos na maior reserva de petróleo da África? Aí a estória fica macabra.
Será que não aprenderam a lição do Iraque?
E esta estória de bombardeio “cirúrgico” é uma fábula. No Iraque, dezenas de famílias morreram “por acaso” e vilarejos inteiros foram tirados do mapa. Em Trípoli, não há como bombardear o palácio sem matar homens, mulheres e crianças inocentes. E dizem que o bunker de Kadhafi é à prova de morteiros; de bomba então, nem falar!
Sem contar que combater selvageria com selvageria é o pior recurso para alcançar a paz. A cicatriz ficaria aberta por décadas. E Kadhafi sabe disto. Tanto ele quanto seus compatriotas lembram de pai para filho o período colonial quando eram obrigados a caminhar na sarjeta para deixar a calçada para o italiano passar.
Nenhuma ocupação é desejada e nem justificável.
Líbios exilados pedem intervenção - os iraquianos na mesma situação também pediam - e algumas tribos rebeldes solicitam armas e o bombardeio ocidental de pontos estratégicos, mas eles não representam todas as tribos, e a vondade é pontual.
O certo na Líbia é que os jornalistas não têm acesso a toda informação porque a circulação é restrita. Há duas versões distintas dos acontecimentos e ninguém pode garantir certeza absoluta. A única coisa visível é que o país está dividido. Ninguém pode afirmar com certeza o que querem os líbios. E na dúvida, é melhor eles serem deixados tranquilos.
Uma revolução bem sucedida é a que é feita pelo povo, unido, que consegue a adesão de todos, inclusive das forças armadas.
O então candidato Barack Obama criticou seus adversários políticos por estes terem colocado os EUA do “lado errado da história”. Chegou a hora do presidente de agora ser coerente pelo menos nisso e se colocar do lado certo, sem estória.
O processo revolucionário é árabe ou não será. Neste processo, o resto do mundo só pode ser testemunha, nada mais.

Neste ínterim...
.
No Iraque, as ruas de Bagdá também encheram de gente reivindicando reformas. A passeata pacífica foi reprimida com violência e 29 pessoas foram mortas. Tem 50.000 soldados estadunidenses lá, em princípio, para velar pela instituição de um “regime democrático”. Onde estavam quando o presidente fiel aos EUA mandou bater e atirar em civis desarmados?
. Na noite de sábado, os aviões israelenses bombardearam a cidade de Gaza, o norte da Faixa e um túnel na fronteira com o Egito. Três bombas visavam as bases da brigada de Izzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas. Israel repetiu que o bombardeio, noturno, foi retaliativo, por causa de um foguete ter atingido o deserto de Negev de manhã. A chefia política do Hamas voltou a insistir no respeito à trégua.
Aliás, parece até que o lançamento destes foguetes inócuos visa mesmo é dar desculpa a Israel para usar sua artilharia pesada. São foguetinhos que raramente causam perdas humanos, às vezes, materiais, e a retaliação é sempre desproporcional. Além de tirar o sono dos habitantes da Faixa, provoca graves danos emocionais e materiais, quando não de ferimentos graves ou mortais. Está passando da hora do Hamas pôr as mãos nos culpados que servem mais Israel do que a paz.
. Nos EUA, o Congresso aprovou cortes no orçamento para programas vitais de utilidade pública no setor de emprego, educação e saúde, porém, os U$3 bilhões de dólares de ajuda militar a Israel nem entraram na pauta. Este é um dos assuntos em que democratas e republicanos, de uma forma geral, concordam sem pestanejar, graças à força de persuasão lobística da APAIC. É normal que o país ajude um aliado, mas poderia condicionar esta ajuda ao gelo das colônias e ao respeito dos tratados internacionais. Mas isto é uma miragem.

Vou aproveitar a "âncora" para responder uma das várias perguntas que me fazem e que pus de lado desde o início das revoltas árabes.
Como os Estados Unidos conseguem manter duas guerras – Iraque e Afeganistão – sem aumentar os impostos para financiá-las?Porque os EUA as estão financiando com débito. Ou seja, com grande parte dos cerca de U$14.19 trilhões de dinheiro estrangeiro emprestado, o que o coloca em 12° lugar entre os países mais endividados do planeta (o PIB é de U$14.66 trilhões).
Os dez maiores credores dos EUA em bilhões são, China (1160.1), Japão (882.3), Inglaterra (272.1), países da OPEP (211.9), Brasil (186.1), bancos caribenhos (168.6), Hong Kong (134.2), Suiça (107), Taiwan (155.1) e Rússia (151).
Os novos empréstimos previstos para os próximos anos levam a uma projeção de aumento do débito público a U$26 trilhões em 2021. Os especialistas prevêem que neste ritmo, entre 2030 e 2040 gastos obrigatórios, como seguridade social mínima e assistência médica básica, somados aos juros da dívida, vão suplantar o imposto de renda. O que significa que terão de endividar-se mais ainda para gastos com coisas essenciais como educação, defesa e polícia.
Como disse no início do milênio, os EUA estão em um tobogã que só tem um destino. O império está falindo mais depressa do que muitos pensavam. O que os segura na cabeça é o armamento pesado que, paradoxalmente, é um dos grandes responsáveis pelo gasto excessivo e o declínio inevitável. Neste ritmo, daqui a 50 anos o mundo terá um, dois ou quatro novos líderes de direito e de fato.
Este líder vai certamente sair do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) a quem os EUA dão um exemplo implícito: Se quiser harmonia social doméstica e hegemonia mundial promissora, segura e duradoura, é melhor não fazer inimigos fora de casa, e dentro, investir em educação, saúde e emprego, em vez de fabricar armas que terão de ser vendidas e cedo ou tarde, usadas.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Encouraçado Líbia

Encontro de ditadores. Na primeira fila, Saleh (Yêmen), Gaddafi (Líbia), Mubarak (Egito)
“Bombardeiem o palácio, ele e seus soldados! Matem-no, se precisar. Mas não o deixem mais no poder. Basta. Eu pagarei a reconstrução.”
Esta mensagem foi enviada à ONU por Muammar Gaddafi.
Falava do presidente da Costa do Marfim Laurent Gbaggo, na semana em que os estudantes egípcios ocuparam a Praça Tahrir exigindo Liberdade. O homem que se considera Zaim – um líder guru – e realmente acredita ser o Rei dos Reis da África tinha confiança absoluta no regime de terror que praticava. Tanta, que jogou esta chuva de pedras em telhado alheio pensando que o seu fosse indestrutível e sua fortaleza inexpugnável.
Comecei o mês traçando um paralelo entre o Egito, Hosni Mubarak e três obras máximas do grande Gabriel Garcia Márquez. Por isto vou terminá-lo na mesma linha, mas com a Líbia e Muammar Gaddafi no bunker-Palácio que lembra o livro Das Schloss do tcheco germanófono Franz Kafka.
Das Schloss, traduzido como O Castelo significa também Tranca, trava. O Castelo governa uma cidade e o Palácio governa uma nação tribal da qual é alienado. O Castelo representa uma burocracia, o Palácio uma tirania que também faz incursões esporádicas às ruas mas sem interagir com vivalma, a não ser para explorá-la, na ficção literária, e na realidade Tripolitana, para subjugá-la. Os labirintos do Castelo representam a confusão mental dos homens; as tramas do Palácio, de um só homem desvairado. A verdade do Castelo é impenetrável e fora dele o povoado calcula e especula sobre o que não sabe. A verdade do Palácio é fabricada e fora dele o país teme em massa, pai desconfia de filho e todos servem o déspota do ignorantismo, até há pouco, calados.
Gaddafi, confinado em seu bunker-Palácio, acabou de perder o contato com a realidade.
Trípoli por sua vez lembra Броненосец Потёмкин, O Encouraçado Potemkin. A obra prima cinematográfica do mestre dos mestres Serguei Eisenstein. Neste filme precursor da Revolução de 1917, o cineasta russo reproduz na tripulação do encouraçado os seguimentos da sociedade que se rebela com determinação e coragem. A sequência marcante é a do massacre nos degraus da escada monumental de Odessa, que os soldados descem de maneira ritmada (pela composição de Dimitri Chostakovitch) empurrando a multidão em um frenesi que culmina com a célebre cena do carrinho de bebê que escapa escada abaixo em uma dramaticidade rara.
Gaddafi transformou Trípoli na Odessa do século passado com violência dobrada, pois além de soldados, a região está cheia de mercenários sem nenhuma consideração pela vida humana, apenas por quem os paga. E quem paga é um homem que sabe que está no fim da linha e antes do trem despejá-lo quer esmagar o máximo de pessoas que ousaram desafiá-lo.
Em janeiro esta cena era inimaginável. Não a da matança, mas a da insurreição contra o tirano máximo.
Até janeiro era difícil imaginar que o terror em que os líbios viviam como uma fatalidade à qual tinham se acomodado, desaparecesse da noite para o dia. Pois a brutalidade do Coronel, quase palpável quando estava na mesma sala, fragmentou sua família e a população durante quatro décadas e toda oposição foi, literalmente, esmagada ou exilada.
Os líbios só podiam participar de estruturas organizadas e controladas por Gaddafi, incluindo um comitê que reunia as trinta e duas tribos principais, usado para aplicar a “justiça revolucionária”. Kadhafi conquistou o poder com três tribos (Qadhadhfa, Maghraha, Warfalla) cujos membros dirigiam os comitês e os serviços de segurança que ainda não o abandonaram. Seus inimigos velados eram os Sa’adi, tribos de Cyrenaica, resistentes ferrenhos contra a ocupação italiana entre 1911 e 1927.
Vale lembrar que a Líbia, como o Yêmen, é uma sociedade tribal, diferente do Egito, mas semelhantes a outros países árabes.
O colapso do regime foi acelerado porque grande parte do milhão 759 mil km² das terras que compõem a Líbia é desértica – há regiões em que não chove desde 1998 – e o desenvolvimento econômico proporcionado pelo petróleo somado à aridez do país, fez com que os seis milhões de habitantes se concentrassem na planície de Jefara, ao redor de Trípoli, na região chamada Tripolitana e em Jabal al-Akhdar, atrás de Benghazi na Cyrenaica.
Portanto, a queda de Benghazi, por o Ministro da Justiça, Mustafá Mohamed Abdel Jalil, e o Ministro do Interior, general Abdel Fattah Younes al-Abidi, terem mudado de lado, foi mais do que a queda de uma cidade. Foi a perda concreta de seus dois “funcionários” mais preciosos e da metade do país, a Cyrenaica.
Younes al-Abidi já aconselhou Kadhafi a não usar os aviões de combate e Abdel Jalil já formou um governo provisório.
A deserção é fiável, pois todos sabem que para reinar sem rival, Gaddafi chegou ao ponto de dividir os filhos para que nenhum tivesse força suficiente para substituí-lo sem seu aval. Como os “súditos” e os “amigos”, até sua família vivia em um ambiente de desconfiança, suspeita constante, e de medo do progenitor que os tiranizou até os últimos instantes.
Apesar de tudo que disse acima, para a Líbia e para o mundo, a queda de Gaddafi será um desastre.
Não conseguindo liderar a Liga Árabe, em 1997 Gaddafi resolveu assumir a liderança dos países mais frágeis. Foi aí que se autodenominou Rei dos Reis da África se distanciando dos antigos aliados para rodear-se de novos manipuláveis. E para adquirir poder de barganha com a Europa, abriu as portas às populações subsaarianas provocando graves tensões domésticas, mas atingindo o objetivo principal de pressionar a União Européia com o perigo da imigração clandestina africana a partir de suas águas, para a Itália. Foi no mesmo período que constituiu a 32ª Brigada, a milícia usada na repressão e com a qual conta para terminar seu “reinado” em um banho de sangue memorável que puna os líbios por “não entenderem sua visão política”.
O Palácio é protegido por esta Brigada, apesar da região Tripolitana já acusar vários focos de resistência e de algumas cidades já terem sido liberadas. No exterior, muitas embaixadas já mudaram de lado e a dissensão nas Forças Armadas não se resume mais à região de Benghazi – soldados e oficiais ainda ressentem os insultos de Gaddafi quando foram forçados a se retirar do Tchad em 1987 de cabeça baixa.
E o pós-Gaddafi?
Gaddafi vivo, é uma salva-guarda contra o terrorismo em toda essa região da África.   
A defecção da eminência civil e da eminência militar: Younes al-Abidi e Abdel Jalil em uma hora crucial, prometendo assegurar um processo transitório de três meses antes de eleições presidenciais, dá esperanças - apenas aos incautos - de calma após a tempestade. Fora do círculo de Gaddafi, não há quadros, pelo menos visíveis em Trípoli e Benghazi. Há exilados políticos, mas sem nenhuma influência aparente sobre o processo revolucionário. Dentro do país tem a Fraternidade Islâmica e alguns grupos extremistas, mas estes até agora não manifestaram religiosidade no movimento de libertação nacional. E primeiro teriam de se entender antes de pleitearem uma liderança respeitada. Mas a Líbia tem vários executivos laicos preparados para governar. Trabalharam para Gaddafi..., mas atire a primeira pedra quem não tiver sido cúmplice compulsório de seu “reinado”.
Se tivesse de prever o futuro de Gaddafi nestas páginas, se ele for coerente com a personagem que representava, vai seguir os passos de Hitler e suicidar-se.
Se não, será executado sumariamente pelos "rebeldes" com a bênção dos EUA.

Curtas. Na segunda-feira a Inglaterra cancelou um carregamento de armas para a Líbia para não ser acusada de cumplicidade no massacre. Só nos últimos meses de 2010 vendeu para Muammuar Kadhafi seis milhões de dólares de equipamento, inclusive fuzis de precisão para os “caçadores” e a munição de controle de multidão que está sendo usada. A Inglaterra não é o único camelô nesta área. Quem vende este tipo de munição a alguém como Kadhafi sabe para quê será usada. Quem comercializa a morte pode dar lição de moral a um tirano deste naipe?
. O crescimento do interesse econômico estrangeiro pela Líbia a partir de 1999 foi concomitante ao da corrupção dos sete filhos de Gaddafi e da filha, excluindo o povo da receita petroleira. O povo quer substituir seu regime pela charia, disse Gaddafi apelando sem vergonha parao medo ocidental da Lei islâmica. Se deixarem os cofres vazios – os bilhões do petróleo estão em Dubai, na Itália (Berlusconi e Gaddafi são íntimos), e em outros países – pode ser mesmo que os sobreviventes da chacina procurem Allah. Em que forma? Como disse, na Líbia há várias. Tantas quantas tribos adversárias.
. Quando perdeu Benghazi, justamente Benghazi onde começou sua ascensão meteórica, Gaddafi recebeu um tapa na cara e um aviso que Trípoli estava a dois passos. Em alguns prédios da capital, grafites o retratam como O Macaco dos Macacos da África. O aeroporto é o espelho do caos da cidade paralisada - fome e insalubridade.
Os funcionários estrangeiros abandonaram o navio dos negócios milionários, o Egito e a Tunísia começaram a ser inundados de refugiados, e Beirute e Malta já negaram várias autorizações de pouso a jatos privados com passageiros não identificados.
Nesta altura do campeonato, talvez nem Berlusconi acolha seus amigos da “família real” em desgraça.
. Com a recusa dos policiais a aumentar o número de mortos a milhares, o coronel Gaddafi só está protegido pelos “comitês populares” que são de fato as milícias dirigidas por membros de suas tribos. Um dos encargos da milícia era vigiar os oficiais militares... Com exceção do bunker-Palácio, Trípoli está cada vez mais próxima de Benghazi.
As horas de Gaddafi estão contadas.

No Egito, Amr Moussa, atual presidente da Liga Árabe e ex-ministro do Exterior de Mubarak, anunciou sua candidatura às próximas eleições presidenciais. Passeou com dois parlamentares estadunidenses, John McCain e Joseph Lieberman, na praça Tahrir e enquanto isto, dezenas de manifestantes exigiam, diante do palácio, a demissão de Ahmad Shafiq, o primeiro ministro recentemente nomeado por Mubarak, e algumas greves eclodiram em cidades industriais.
A cúpula do Exército está em linha direta com o Pentágono que formou seus oficiais e quer assegurar a “paz fria” do país com Israel. Além disso, se o processo revolucionário prosseguir em uma linha democrática, os EUA querem conservar a regalia de aceder às reservas petrolíferas do Golfo a baixo custo, continuar a “cooperação” militar e incrementar o neoliberalismo que levou o país à revolta. Longe do que as passeatas reivindicavam.
Com o futuro político incerto e a economia em situação crítica, será que não é hora de dar uma mãozinha em vez de espremer o povo esgotado?

Na Jordânia as passeatas não visam à mudança do regime. A lealdade ao rei Abdullah e a estima pela rainha Rania são incontestáveis e não são contestadas. Mas os jordanianos querem mais do que a cabeça de um primeiro ministro. Abdullah vai ter de lhes dar algo mais; mas o quê? Onde buscar recursos que o país não dá? A repressão policial foi condenada em palácio e o novo primeiro ministro Marouf Makhit ordenou um inquérito. Abdullah sabe que não pode dar nem um passo em falso.

No Bahrein, o sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa liberou os cassetetes antes de se retratar e em seguida libertar vários presos políticos. Os militares foram (temporariamente?) retirados da rua e os manifestantes prometem continuar até que suas reivindicações sejam atendidas: nova constituição, verdadeira democracia e retorno dos “desaparecidos”. Os Khalifa prometeram mudanças concretas rápidas, mas não deram data.

No Yêmen, na terceira semana de protestos que começaram no dia 17, a trégua da repressão foi efêmera. A Anistia Internacional já anuncia 27 mortos, os chefes de Hashid e Baqil, as duas principais tribos, aderiram à revolta e mais cidades contestam a decisão de Alih Abdallah Saleh de continuar na presidência até 2013. Na Universidade de Sanaa os estudantes rebatizaram a praça em que acampam al-Huriya, a Liberdade. Perderam dois colegas e o protesto dobrou de intensidade.

Na Síria, o rei Bashar aumentou o salário do funcionalismo púbico, e "está mantendo" a calma. Será mantida, se os Estados Unidos e Israel não armarem a oposição.

No Sudão, o rei Bashir declarou que não vai se recandidatar à presidência.

Na Argélia, o rei Bouteflika acabou com o Estado de emergência em que o país vivia.

Na Arábia Saudita, o rei Abdullah prometeu U$36 bilhões para os súditos ficarem quietos.

Em Oman, no sábado, jovens manifestantes saíram às ruas de Sohar fazendo reivindicações econômicas, sociais e políticas. Nenhuma repressão foi armada e o sultão Qabos bin Said deu as caras anunciando a demissão de seis ministros, aumento de verba para as universidades e reformas socio-econômicas imediatas. A partir de fevereiro, o salário mínimo já ganha mais 43%, passando a U$520 mensais. Atos institucionais que nem a Tunísia, nem o Egito, nem o Yêmen, nem o Bahein fizeram, até agora. Mas no domingo a polícia atacou os manifestantes que se aproximavam da central de polícia da cidade. Qabos governa Oman desde que tomou o poder do pai em 1970, "para acabar com o isolamento do país e usar a renda do petróleo para modernisá-lo."
Esta revolta em Oman, país relativamente calmo e com um padrão de vida razoável, mostra que as reivindicações socio-econômicas nas passeatas são uma fachada. Os árabes estão com fome mesmo é de Tahrir, Liberdade.

Neste ínterim, no Paquistão, após a condenação à morte em novembro de uma cristã por “insulto ao Islã”, apesar das pressões, o governo continua decidido a manter a Lei da Blasfêmia. O assassinato recente do governador do Punjab Salman Taseer (o “heroísmo” do assassino foi aclamado) por criticar a lei em público, mostra que ela é um instrumento perigoso de Caça às Bruxas das minorias religiosas, mas também dos políticos liberais.

Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O outono do patriarca



Em vez de desfiar o rosário de manifestantes de Alexandria, do Cairo, do punhal de cameleiros, de reviravolta nos palácios, de mortos e feridos cujas imagens indignaram, como as informações são múltiplas, variadas, estão todos cansados, e cultura geral e geopolítica são para mim indissociáveis, resolvi poupá-los de uma grande análise dominical apelando mais uma vez para um ás literário.
O grande Gabriel García Márquez, inspirado, entre outros, nos ditadores Francisco Franco da Espanha, Rafael Trujillo da República Dominicana, Anastazio Somoza da Nicarágua e no venezuelano então recém-deposto Juan Vicente Gómez, publicou em 1975 uma fábula despontuada memorável sobre os efeitos desastrosos da concentração do poder em um único homem e a solidão que este poder proporciona. Revoltado contra o assassinato do presidente chileno Salvador Allende no dia 09 de setembro de 1973 (o 11/9 que abalou a América Latina) o escritor colombiano mudou-se com a família de Bogotá para o México e disse que só voltaria a escrever depois que o Chile se libertasse da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet.
Ainda bem que não cumpriu a promessa e empunhou de novo a pena para atacar a ignorância com sua melhor arma. Em 1981, ano anterior ao seu Prêmio Nobel, publicou a Crônica de uma Morte Anunciada, em que relata o assassinato de um homem por dois outros, mas que só é possível por causa da cumplicidade da cidade que segue toda a armação calada.
Mas antes destas duas obras primas García Márquez escreveu A Má Hora (precursora de Cem anos de solidão) em que mostra a tensão política e a opressão em um povoado cujos habitantes aspiram à liberdade e à justiça, sem resultado.
O Egito viveu e vive uma mistura destas três obras.
Em um paralelo com a Crónica de una muerte anunciada, Hosni Mubárak fez o que faz todo ditador bem assessorado: imprensa censurada, eleições fraudadas, ministros desintelectualisados, promessas falsas. O povo infantilizado era deixado em paz e o que pensava ia para trás das grades sob indiferença geral.
Ninguém via nada. Nem ele? Quem quiser acredite quando Mubárak e os aliados ocidentais dizem que ele não sabia de nada.
Em um paralelo com El otoño del patriarca, Hosni Mubárak viu seu partido decompor-se como um castelo de cartas. O último a abandonar o barco foi o “príncipe herdeiro” Gamal Mubárak, a peça principal de seus sonhos dinásticos. Os Estados Unidos passaram o comando a Omar Suleiman, o Golbery do Couto e Silva de Mubárak, que até a semana passada era um dos homens mais poderosos e temidos do país, próximo dos EUA a ponto das celas Mukhabarat (uma Guantánamo árabe) ter sido um dos destinos preferidos da CIA para levar suspeitos de terrorismo capturados no que se chama “Rendition”. De novo, Suleiman só tem o cargo. As risadas da semana passada viraram risos amargos.
Em um paralelo com La mala hora, cujo título privado foi Este pueblo de mierda, na quarta-feira Mubárak usou do artifício dos “contra” (que a CIA usou na Nicarágua) para desacreditar o movimento democrático e pôr o Exército na rua para “estabelecer calma”. Para completar, seu fiel general Tantawi apareceu na praça Tahrir para dar uma impressão aos manifestantes que eles obteriam o que o nome da praça simbolizava: Liberdade. Enquanto isto, alguns dos jovens que se destacaram e que voltaram em casa para uma higiene básica desapareceram e fala-se que nos porões da ditadura, em vez de inaugurarem uma era de justiça, estão experimentando uma antiga barbárie.
Para não dizer que não falei das flores, como todo ser civilizado da Terra, gostaria que Mubárak se retirasse, mas não sozinho, com Suleiman e Tantawi na bagagem. Que os três deixassem o “comitê de sábios” (1) escolhido pelos Twitters assegurar a transição democrática, que os jovens egípcios conseguissem continuar uma vigília cada vez mais acesa até obterem a democracia almejada, e que se 90% do desejado dessem errado e Omar Suleiman dirigisse o Egito até setembro, alguém o tocasse com uma varinha mágica que o transformasse em nacionalista, democrata, justo, ou no mínimo, leal ao povo que diz representar... e em setembro proporcionasse eleições honestas, que Gamal Mubárak estivesse realmente se afastando do pai de quem fosse realmente diferente e “se” "fosse" “eleito” à presidência daqui a alguns meses, optasse pela auto-determinação e tomasse o lado do povo, do Egito, e não o do autoritarismo, da corrupção e das influências periféricas.
O fato é que em duas semanas a economia do país passou de mal a pior e quem pegar o governo agora vai ter de avisar que é inviável cumprir qualquer programa incompatível com uma política econômica de austeridade.
Após treze dias intensos, apesar de promessas de um lado, e do outro, entusiasmo, não se tem certeza de nada. Os manifestantes pro-democracia estão cansados, mas continuam na praça seguros de que venceram e achando que estão dando as cartas. Será?
O que parece nos palácios – da White House em Washington ao Kasr al-Ittihadiya em Heliópolis, no Cairo – é que apesar do “Comitê de sábios” e a recente agregação da Fraternidade Islâmica (2) ao diálogo, o máximo que se obterá a curto prazo é que Mubárak seja sacrificado para que só se mude as caras e a liberdade continue apenas no nome da praça em que os sonhos de centenas de milhares de jovens começaram.
Mas como disse no início, isto não é uma análise, é um tecido de palavras inspiradas no grande mestre da pena político-literária.
Mas para concluir com otimismo, se não houver mudanças reais, imediatas, após os jovens terem provado o sabor da liberdade democrática que criaram através das passeatas, é bem provável que a tahrir, de direito e de fato, só seja adiada. E quando votarem, elejam um presidente laico, democrata.

(1) A lista formulada na sexta-feira incluía Amr Moussa, secretário geral da Liga Árabe; o prêmio Nobel Ahmed Zuwail, conselheiro pontual de Obama; Mohamed Selim Al-Awa, professor de estudos islamitas próximo da Fraternidade Islâmica; o presidente do partido Wafd, Said AL-Badawi; o empresário Nagib Suez, ligado ao sistema de telefonia cortado na semana passada; Nabil AL-Arabi, um delegado na ONU, o cirurgião cardíaco Magdi Yacoub, e outras personalidades.
(2) A Fraternidade Islâmica é a associação islamita mais organizada no mundo. Presente em mais de quatorze países, foi fundada no Egito em 1928 por Hassan AL-Banna e tem influenciado movimentos muçulmanos, não extremistas em vários países. Mistura ativismo político com trabalho caritativo, é banida de atividades políticas públicas, rejeita violência, apóia princípios democráticos, mas almeja a criação de Estado governado pela lei Islamita. Seu slogan é: o islã é a solução. Seu líder atual é o professor de veterinária Mohamed Badi’e.