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domingo, 27 de março de 2011

Petróleo? E água.

Em homenagem ao dia 23, da água, resolvi deixar de lado a Líbia, Kadhafi e seus adversários tribais apoiados pelos aviões franceses, ingleses e quataris sob as ordens do Pentágono e dar um pulo nos dois extremos da península árabe.
Primeiro o Yêmen, cujo presidente Ali Abdullah Saleh, no poder por 32 anos, após dois meses de repressão às passeatas, durante os quais permitiu inclusive o assassinato de cinquenta e três pessoas por caçadores de tocaia em telhados e de dezenas de outros por soldados regulares, resolveu recuar e negociar sua retirada.
Os pontos principais são o destino de sua família – seus filhos e sobrinhos chefiam vários setores, inclusive das Forças Armadas – e o momento de retirar-se, já que sua proposta de terminar o mandato foi rejeitada.
Saleh vai sair, é certo, pois quer se livrar de uma bomba que vai explodir na mão do próximo presidente de maneira inexorável. Sanaa é a primeira capital do mundo condenada, em curto prazo, à seca total.
Daqui a 20 anos, no máximo, não terá mais nenhuma gota d’água nas torneiras. Os dois milhões de habitantes terão exaurido todas as camadas freáticas próximas, e a médio e longo prazo, das proximidades. A situação da capital é crítica, mas o ressecamento atinge o país inteiro. A agricultura consome 90% da água, dos quais 37% são usados para a cultura subsidiada de um arbusto chamado khat, cujas folhas, que têm o efeito da anfetamina, são mastigadas diariamente por mais de 90% da população masculina. Esta, mesmo sabendo que a água é mais valiosa do que o petróleo e que sem ela a morte é certa, prefere a droga diária que os entorpece do que a fonte que os revigora.
Quem sabe um governo democrático deixa de financiar o khat, já que não precisará de uma população quimicamente alienada?

Na Síria, a situação do regime autoritário do presidente Bashar al-Assad, 11 anos no “trono” herdado do pai, Hafez al-Assad, que governou o país por 30 anos, também está periclitante, apesar de sua reação rápida desde janeiro para abafar os focos de revolta.
Não há como esconder a depredação inusitada das fotografias de Bashar e de estátuas do pai em Daraa (onde os protestos começaram), Homs, Sanamim, Latakia. As concessões feitas nos últimos dois meses – subsídio de aquecimento, maior acesso à mídia, redução de três meses no serviço militar, libertação de dezenas de presos políticos e o fim do estado de emergência (em vigor desde 1963) – ainda não bastaram para acalmar as ruas. Porém, por mais que Washington queira ter em Damasco um aliado subserviente como o saudita Abdullah é em Ryad, Assad é autoritário, mas não é um Muammar Kadhafi. E o movimento antagonista não é de massa como no Egito e na Tunísia.
Em Damasco houve uma manifestação muito grande em seu favor e grande parte das passeatas nas demais cidades acontecem após o enterro de um dos mortos (27 oficiais, cem a mais, segundo a voz popular) e a palavra de ordem não é abaixo o regime, mas sim, punição aos culpados.
Não é que os sírios não prefiram um regime democrático, mas a intervenção na Líbia arrefeceu o ânimo dos jovens e foi um balde de água fria no fogo de liberdade que se alastrava pelos países árabes.
Aliás, nos países "incendiados" o que se está ouvindo mais é que não querem nenhum estrangeiro na parada; que roupa suja se lava em casa. Minha impressão na Síria é que as mudanças virão, em um ritmo nacional.

E na Palestina a voz do povo também está sendo ouvida, e respeitada.
Sob pressão constante dos jovens na ruas de Ramallah exigindo união política, o líder do Fatah, Mahmoud Abbas, acabou encontrando Aziz Dweik, líder parlamentar do Hamas e concordou em ir a Gaza dialogar.
Será que foi mesmo por isto que Israel voltou a bombardear a Faixa mais amiúde do que seus bombardeios noturnos aos quais se está acostumado? É o que se conjetura por lá, quando deploram os civis mortos e feridos nos ataques.

E para não dizer que não falei na Líbia, vou falar sem falar, ou melhor, por tabela, sucinta, da Arábia Saudita (fornecedora de mão-de-obra e logística às operações estadunidenses no mundo árabe).
Na década de oitenta do século passado, os EUA treinaram um milionário saudita fundamentalista chamado Bin Laden para combater os soviéticos no Afeganistão, e este mais tarde fundou o AL-Qaida.
Em 2001, um piloto saudita treinado nos EUA jogou um Boeing 757 no Pentágono, a serviço do Al-Qaida.
Em 2011, o Pentágono está com um projeto imediato de levar para os EUA dezenas de jovens sauditas para treiná-los a voar, e matar.
Parafraseando Karl Marx, a história primeiro se repete em tragédia. A segunda, em farsa.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Encouraçado Líbia

Encontro de ditadores. Na primeira fila, Saleh (Yêmen), Gaddafi (Líbia), Mubarak (Egito)
“Bombardeiem o palácio, ele e seus soldados! Matem-no, se precisar. Mas não o deixem mais no poder. Basta. Eu pagarei a reconstrução.”
Esta mensagem foi enviada à ONU por Muammar Gaddafi.
Falava do presidente da Costa do Marfim Laurent Gbaggo, na semana em que os estudantes egípcios ocuparam a Praça Tahrir exigindo Liberdade. O homem que se considera Zaim – um líder guru – e realmente acredita ser o Rei dos Reis da África tinha confiança absoluta no regime de terror que praticava. Tanta, que jogou esta chuva de pedras em telhado alheio pensando que o seu fosse indestrutível e sua fortaleza inexpugnável.
Comecei o mês traçando um paralelo entre o Egito, Hosni Mubarak e três obras máximas do grande Gabriel Garcia Márquez. Por isto vou terminá-lo na mesma linha, mas com a Líbia e Muammar Gaddafi no bunker-Palácio que lembra o livro Das Schloss do tcheco germanófono Franz Kafka.
Das Schloss, traduzido como O Castelo significa também Tranca, trava. O Castelo governa uma cidade e o Palácio governa uma nação tribal da qual é alienado. O Castelo representa uma burocracia, o Palácio uma tirania que também faz incursões esporádicas às ruas mas sem interagir com vivalma, a não ser para explorá-la, na ficção literária, e na realidade Tripolitana, para subjugá-la. Os labirintos do Castelo representam a confusão mental dos homens; as tramas do Palácio, de um só homem desvairado. A verdade do Castelo é impenetrável e fora dele o povoado calcula e especula sobre o que não sabe. A verdade do Palácio é fabricada e fora dele o país teme em massa, pai desconfia de filho e todos servem o déspota do ignorantismo, até há pouco, calados.
Gaddafi, confinado em seu bunker-Palácio, acabou de perder o contato com a realidade.
Trípoli por sua vez lembra Броненосец Потёмкин, O Encouraçado Potemkin. A obra prima cinematográfica do mestre dos mestres Serguei Eisenstein. Neste filme precursor da Revolução de 1917, o cineasta russo reproduz na tripulação do encouraçado os seguimentos da sociedade que se rebela com determinação e coragem. A sequência marcante é a do massacre nos degraus da escada monumental de Odessa, que os soldados descem de maneira ritmada (pela composição de Dimitri Chostakovitch) empurrando a multidão em um frenesi que culmina com a célebre cena do carrinho de bebê que escapa escada abaixo em uma dramaticidade rara.
Gaddafi transformou Trípoli na Odessa do século passado com violência dobrada, pois além de soldados, a região está cheia de mercenários sem nenhuma consideração pela vida humana, apenas por quem os paga. E quem paga é um homem que sabe que está no fim da linha e antes do trem despejá-lo quer esmagar o máximo de pessoas que ousaram desafiá-lo.
Em janeiro esta cena era inimaginável. Não a da matança, mas a da insurreição contra o tirano máximo.
Até janeiro era difícil imaginar que o terror em que os líbios viviam como uma fatalidade à qual tinham se acomodado, desaparecesse da noite para o dia. Pois a brutalidade do Coronel, quase palpável quando estava na mesma sala, fragmentou sua família e a população durante quatro décadas e toda oposição foi, literalmente, esmagada ou exilada.
Os líbios só podiam participar de estruturas organizadas e controladas por Gaddafi, incluindo um comitê que reunia as trinta e duas tribos principais, usado para aplicar a “justiça revolucionária”. Kadhafi conquistou o poder com três tribos (Qadhadhfa, Maghraha, Warfalla) cujos membros dirigiam os comitês e os serviços de segurança que ainda não o abandonaram. Seus inimigos velados eram os Sa’adi, tribos de Cyrenaica, resistentes ferrenhos contra a ocupação italiana entre 1911 e 1927.
Vale lembrar que a Líbia, como o Yêmen, é uma sociedade tribal, diferente do Egito, mas semelhantes a outros países árabes.
O colapso do regime foi acelerado porque grande parte do milhão 759 mil km² das terras que compõem a Líbia é desértica – há regiões em que não chove desde 1998 – e o desenvolvimento econômico proporcionado pelo petróleo somado à aridez do país, fez com que os seis milhões de habitantes se concentrassem na planície de Jefara, ao redor de Trípoli, na região chamada Tripolitana e em Jabal al-Akhdar, atrás de Benghazi na Cyrenaica.
Portanto, a queda de Benghazi, por o Ministro da Justiça, Mustafá Mohamed Abdel Jalil, e o Ministro do Interior, general Abdel Fattah Younes al-Abidi, terem mudado de lado, foi mais do que a queda de uma cidade. Foi a perda concreta de seus dois “funcionários” mais preciosos e da metade do país, a Cyrenaica.
Younes al-Abidi já aconselhou Kadhafi a não usar os aviões de combate e Abdel Jalil já formou um governo provisório.
A deserção é fiável, pois todos sabem que para reinar sem rival, Gaddafi chegou ao ponto de dividir os filhos para que nenhum tivesse força suficiente para substituí-lo sem seu aval. Como os “súditos” e os “amigos”, até sua família vivia em um ambiente de desconfiança, suspeita constante, e de medo do progenitor que os tiranizou até os últimos instantes.
Apesar de tudo que disse acima, para a Líbia e para o mundo, a queda de Gaddafi será um desastre.
Não conseguindo liderar a Liga Árabe, em 1997 Gaddafi resolveu assumir a liderança dos países mais frágeis. Foi aí que se autodenominou Rei dos Reis da África se distanciando dos antigos aliados para rodear-se de novos manipuláveis. E para adquirir poder de barganha com a Europa, abriu as portas às populações subsaarianas provocando graves tensões domésticas, mas atingindo o objetivo principal de pressionar a União Européia com o perigo da imigração clandestina africana a partir de suas águas, para a Itália. Foi no mesmo período que constituiu a 32ª Brigada, a milícia usada na repressão e com a qual conta para terminar seu “reinado” em um banho de sangue memorável que puna os líbios por “não entenderem sua visão política”.
O Palácio é protegido por esta Brigada, apesar da região Tripolitana já acusar vários focos de resistência e de algumas cidades já terem sido liberadas. No exterior, muitas embaixadas já mudaram de lado e a dissensão nas Forças Armadas não se resume mais à região de Benghazi – soldados e oficiais ainda ressentem os insultos de Gaddafi quando foram forçados a se retirar do Tchad em 1987 de cabeça baixa.
E o pós-Gaddafi?
Gaddafi vivo, é uma salva-guarda contra o terrorismo em toda essa região da África.   
A defecção da eminência civil e da eminência militar: Younes al-Abidi e Abdel Jalil em uma hora crucial, prometendo assegurar um processo transitório de três meses antes de eleições presidenciais, dá esperanças - apenas aos incautos - de calma após a tempestade. Fora do círculo de Gaddafi, não há quadros, pelo menos visíveis em Trípoli e Benghazi. Há exilados políticos, mas sem nenhuma influência aparente sobre o processo revolucionário. Dentro do país tem a Fraternidade Islâmica e alguns grupos extremistas, mas estes até agora não manifestaram religiosidade no movimento de libertação nacional. E primeiro teriam de se entender antes de pleitearem uma liderança respeitada. Mas a Líbia tem vários executivos laicos preparados para governar. Trabalharam para Gaddafi..., mas atire a primeira pedra quem não tiver sido cúmplice compulsório de seu “reinado”.
Se tivesse de prever o futuro de Gaddafi nestas páginas, se ele for coerente com a personagem que representava, vai seguir os passos de Hitler e suicidar-se.
Se não, será executado sumariamente pelos "rebeldes" com a bênção dos EUA.

Curtas. Na segunda-feira a Inglaterra cancelou um carregamento de armas para a Líbia para não ser acusada de cumplicidade no massacre. Só nos últimos meses de 2010 vendeu para Muammuar Kadhafi seis milhões de dólares de equipamento, inclusive fuzis de precisão para os “caçadores” e a munição de controle de multidão que está sendo usada. A Inglaterra não é o único camelô nesta área. Quem vende este tipo de munição a alguém como Kadhafi sabe para quê será usada. Quem comercializa a morte pode dar lição de moral a um tirano deste naipe?
. O crescimento do interesse econômico estrangeiro pela Líbia a partir de 1999 foi concomitante ao da corrupção dos sete filhos de Gaddafi e da filha, excluindo o povo da receita petroleira. O povo quer substituir seu regime pela charia, disse Gaddafi apelando sem vergonha parao medo ocidental da Lei islâmica. Se deixarem os cofres vazios – os bilhões do petróleo estão em Dubai, na Itália (Berlusconi e Gaddafi são íntimos), e em outros países – pode ser mesmo que os sobreviventes da chacina procurem Allah. Em que forma? Como disse, na Líbia há várias. Tantas quantas tribos adversárias.
. Quando perdeu Benghazi, justamente Benghazi onde começou sua ascensão meteórica, Gaddafi recebeu um tapa na cara e um aviso que Trípoli estava a dois passos. Em alguns prédios da capital, grafites o retratam como O Macaco dos Macacos da África. O aeroporto é o espelho do caos da cidade paralisada - fome e insalubridade.
Os funcionários estrangeiros abandonaram o navio dos negócios milionários, o Egito e a Tunísia começaram a ser inundados de refugiados, e Beirute e Malta já negaram várias autorizações de pouso a jatos privados com passageiros não identificados.
Nesta altura do campeonato, talvez nem Berlusconi acolha seus amigos da “família real” em desgraça.
. Com a recusa dos policiais a aumentar o número de mortos a milhares, o coronel Gaddafi só está protegido pelos “comitês populares” que são de fato as milícias dirigidas por membros de suas tribos. Um dos encargos da milícia era vigiar os oficiais militares... Com exceção do bunker-Palácio, Trípoli está cada vez mais próxima de Benghazi.
As horas de Gaddafi estão contadas.

No Egito, Amr Moussa, atual presidente da Liga Árabe e ex-ministro do Exterior de Mubarak, anunciou sua candidatura às próximas eleições presidenciais. Passeou com dois parlamentares estadunidenses, John McCain e Joseph Lieberman, na praça Tahrir e enquanto isto, dezenas de manifestantes exigiam, diante do palácio, a demissão de Ahmad Shafiq, o primeiro ministro recentemente nomeado por Mubarak, e algumas greves eclodiram em cidades industriais.
A cúpula do Exército está em linha direta com o Pentágono que formou seus oficiais e quer assegurar a “paz fria” do país com Israel. Além disso, se o processo revolucionário prosseguir em uma linha democrática, os EUA querem conservar a regalia de aceder às reservas petrolíferas do Golfo a baixo custo, continuar a “cooperação” militar e incrementar o neoliberalismo que levou o país à revolta. Longe do que as passeatas reivindicavam.
Com o futuro político incerto e a economia em situação crítica, será que não é hora de dar uma mãozinha em vez de espremer o povo esgotado?

Na Jordânia as passeatas não visam à mudança do regime. A lealdade ao rei Abdullah e a estima pela rainha Rania são incontestáveis e não são contestadas. Mas os jordanianos querem mais do que a cabeça de um primeiro ministro. Abdullah vai ter de lhes dar algo mais; mas o quê? Onde buscar recursos que o país não dá? A repressão policial foi condenada em palácio e o novo primeiro ministro Marouf Makhit ordenou um inquérito. Abdullah sabe que não pode dar nem um passo em falso.

No Bahrein, o sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa liberou os cassetetes antes de se retratar e em seguida libertar vários presos políticos. Os militares foram (temporariamente?) retirados da rua e os manifestantes prometem continuar até que suas reivindicações sejam atendidas: nova constituição, verdadeira democracia e retorno dos “desaparecidos”. Os Khalifa prometeram mudanças concretas rápidas, mas não deram data.

No Yêmen, na terceira semana de protestos que começaram no dia 17, a trégua da repressão foi efêmera. A Anistia Internacional já anuncia 27 mortos, os chefes de Hashid e Baqil, as duas principais tribos, aderiram à revolta e mais cidades contestam a decisão de Alih Abdallah Saleh de continuar na presidência até 2013. Na Universidade de Sanaa os estudantes rebatizaram a praça em que acampam al-Huriya, a Liberdade. Perderam dois colegas e o protesto dobrou de intensidade.

Na Síria, o rei Bashar aumentou o salário do funcionalismo púbico, e "está mantendo" a calma. Será mantida, se os Estados Unidos e Israel não armarem a oposição.

No Sudão, o rei Bashir declarou que não vai se recandidatar à presidência.

Na Argélia, o rei Bouteflika acabou com o Estado de emergência em que o país vivia.

Na Arábia Saudita, o rei Abdullah prometeu U$36 bilhões para os súditos ficarem quietos.

Em Oman, no sábado, jovens manifestantes saíram às ruas de Sohar fazendo reivindicações econômicas, sociais e políticas. Nenhuma repressão foi armada e o sultão Qabos bin Said deu as caras anunciando a demissão de seis ministros, aumento de verba para as universidades e reformas socio-econômicas imediatas. A partir de fevereiro, o salário mínimo já ganha mais 43%, passando a U$520 mensais. Atos institucionais que nem a Tunísia, nem o Egito, nem o Yêmen, nem o Bahein fizeram, até agora. Mas no domingo a polícia atacou os manifestantes que se aproximavam da central de polícia da cidade. Qabos governa Oman desde que tomou o poder do pai em 1970, "para acabar com o isolamento do país e usar a renda do petróleo para modernisá-lo."
Esta revolta em Oman, país relativamente calmo e com um padrão de vida razoável, mostra que as reivindicações socio-econômicas nas passeatas são uma fachada. Os árabes estão com fome mesmo é de Tahrir, Liberdade.

Neste ínterim, no Paquistão, após a condenação à morte em novembro de uma cristã por “insulto ao Islã”, apesar das pressões, o governo continua decidido a manter a Lei da Blasfêmia. O assassinato recente do governador do Punjab Salman Taseer (o “heroísmo” do assassino foi aclamado) por criticar a lei em público, mostra que ela é um instrumento perigoso de Caça às Bruxas das minorias religiosas, mas também dos políticos liberais.

Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Emancipação, repressão, e quem sabe, a gota d'água


Com todo aparato repressivo e figura autoritária emblemática, Muammar Kadhafi em seu Reino do Silêncio, como a Líbia é chamada, mesmo recorrendo à força máxima está penando para guardar sua seara na impunidade.
Tudo começou em Trípoli com o baixo-assinado em que 213 personalidades de meios profissionais variados exigiam o fim de seus 41 anos de “reinado” e denunciavam os males que vem infligindo à sociedade. Enquanto isto no norte do país, em Benghazi, começava a passeata anual em memória de um assassinato de presos que marcou a cidade. Virou uma manifestação reprimida com a violência própria a Kadhafi.
Benghazi é longe de Trípoli e demorou uma semana para as ruas da capital se encherem de jovens gritando Kefaya! sendo recebidos a fogo pelo forte aparato policial que tinha sido dobrado. Mas desta vez condenou-se a violência, mas ninguém ousou falar em derrubar Kadhafi. Todos sabem do que ele é capaz. Kadhafi não é o fraco Ben Ali, nem o venal Mubarak, nem um sheik bilionário. Kadhafi conquistou o poder aos 27 anos liderando uma revolta militar. Com ele não é questão só de ambição financeira desmesurada ou sede de poder insaciável. Sua divisa é a dos Romanos: ordine; a ordem à qual se sacrifica tudo, começando pela liberdade de palavra. Quem conhece Kadhafi sabe que governa a Líbia como se fosse a sua casa. Age como um padrasto impiedoso que não recua diante de nada para proteger seus filhos em detrimento dos enteados e impor suas leis e suas vontades. E ninguém "paga" seu salário. Ninguém "patrocina" suas forças armadas. Kadhafi é autônomo. Tem certeza de que não precisa de ninguém nem de nada. Acima dele, só Allah. É por isto que se deu ao direito de atacar os manifestantes com todas as sua forças armadas. E assim começou a história de um massacre anunciado. Quanto tempo vai durar, só Allah sabe. Se Kadhafi vai conseguir sair ileso desta guerra contra seu povo, é pouco provável.

No Bahein, país de 750m² compostos de trinta ilhas vizinhas do Qatar, em resposta à morte de dois afiliados, o principal partido xiita al-Wefaq suspendeu sua participação no governo e em seguida as ruas de Manama foram invadidas de homens e mulheres (estas, de hijab preto) exigindo a renúncia do Sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa (tio do rei e primeiro ministro desde 1971), a libertação dos prisioneiros religiosos e uma nova constituição.
A ironia é ser justamente no Bahein, que tem o maior índice de liberdade política e social do Golfo, que a revolta mude de cara. Aqui ela tem a cara religiosa que a imprensa sensacionalista pintava (pinta?) das outras capitais. Os xiitas são maioria no país em que o milhão e trezentos mil habitantes são governados pelos Khalifa, a família real sunita que ocupa o trono há dois séculos.
A relação entre os xiitas e os sunitas lembra a discórdia sangrenta entre os protestantes e os católicos nos séculos XVI e XVII na Europa. Lutero x Papa. Alih x Abu-Bakr ou Abu-Bakr x Alih; conforme for o seu lado.
Eu disse que a cara é religiosa, mas é só um lado e nem este lado tem a feição do al-Qaida. Pode tirar o peso da alma. Esta face é a dos velhos, arcaica. Os jovens gritam Não aos xiitas! Não aos sunitas! Somos todos bareinitas! e mostram a outra face. A da emancipação laica.

Em Ramallah, os jovens também continuam a reivindicar a união do Fatah e do Hamas, e a demissão do presidente Mahmoud Abbas e do primeiro ministro Salam Fayadd. Desacreditados pelas revelações dos Palestine Papers e fragilizados pela relação que tinham com Hosni Mubarak.

No Yêmen, embora as ruas de Sana'a estejam menos cheias do que nos dias passados, após os tiros trocados, teme-se que o os chefes tribais aproveitem para invadir a capital com todo seu arsenal. Eu continuo achando (ou esperando) que não passa de ameaça. A não ser que tenham planejado um suicídio coletivo diante do palácio de Ali Abdullah Saleh para sensibilizá-lo.

. Os “novos” dirigentes da Tunísia, do Egito e dos países que seguirão seus passos, terão de lidar com posições internacionais impopulares tomadas pelo antigo regime ditadas por interesses estrangeiros. A primeira é o bloqueio da Faixa de Gaza; a segunda é a situação do Iraque, a terceira é a hostilidade bélica dirigida ao Irã, e a última, ligada à primeira, à mediação desacreditada do conflito Israelo-palestino.
Estas quatro reclamações são ouvidas em todos os países árabes, já ou ainda não inflamados.

Onda de Liberdade x Rede de repressão armadaNão é por nada que na Tunísia as potências ocidentais repudiaram Ben Ali de imediato e muitos hesitaram a abandonar o fiel aliado Hosni Mubarak. É pela posição estratégica do Egito entre a África e a Ásia e por ser o farol sócio-político da Liga Árabe. Como o Brasil em nossas paragens.
No século XVIII exerceu profunda influência social, política e cultural na modernização da região e entre 1952 e 1970 se destacou dos vizinhos graças ao seu carismático presidente Gamal Abdel Nasser cuja personalidade forte e inteligência aguçada valeram ao país uma independência pragmática e liderança incontestável. Após a morte de Nasser o Egito perdeu a aura visionária, mas conservou bastante influência durante a gestão de Anuar Sadat e mais tarde, com Hosni Mubarak, apesar do enfraquecimento pessoal deste devido à subserviência aos EUA.
Até 2010 foi um exemplo de autoritarismo e de repressão disfarçada, como no Brasil dos militares. Sua transformação em democracia liberal como a da Turquia, teria (terá?) portanto graves consequências sócio-políticas, pois o quadro é mais ou menos o mesmo na região por todos os lados.
O crescimento econômico razoável nos estados não-petroleiros não gerou empregos e sim desempregados, a administração e a corrupção ficaram incontroláveis, as famílias estão menos sólidas do que no passado, o sistema educativo se encontra em processo de decomposição rápida, a realização profissional virou um sonho dificilmente realizável, e sobretudo, o despotismo, agravado por um nepotismo declarado, tem ficado cada vez mais claro e insuportável.
Com a abertura no Egito, o efeito dominó é inevitável.
A revolta na Líbia mostra que nem figuras emblemáticas como o terrível Kadhafi estão imunes à emancipação popular. Neste caso, até eu fiquei surpreendida de ver estes líbios amáveis mas acostumados a andar de cabeça baixa, levantá-la.
Se, se, se conseguirem derrubar Kadhafi, nenhum outro ditador estará imune ao levante popular. Mas o que realça nestes movimentos de emancipação, além do espírito secular que retrata, é a uniformidade do sistema repressivo vigente nos regimes árabes.
Como por exemplo, a repetida armação dos “contra” nas ruas de Sana’a, Alger, Amman, Ramallah, Bahein a fim de facilitar a ação militar e “desaparecer” com as figuras mais destacadas, como aconteceu no Cairo. Isto porque, como a Operação Condor da CIA formou a rede de repressão e cavou porões na América do Sul começando no Brasil em 1964, os países árabes também têm uma rede de “Informação” coesa e implacável.
Faz anos que os Serviços Secretos trocam figurinhas sobre técnicas de tortura sofisticadas aprendidas com os colonizadores ocidentais “civilizados”. Foi em Alger, ou melhor, na Delegacia de Chateauneuf, como o DOI CODI local é chamado, que os egípcios aprenderam a usar eletricidade nos órgãos genitais dos presos políticos. Aliás, quando falei de tortura semanas atrás, não mencionei a maneira dos argelinos desvirtuarem o ouro azul – são especialistas em uma tortura que consiste em encher o torturado de água até ele rebentar.
Em 1994, os argelinos foram à Síria saber como o então presidente Hafez El-Assad tinha lidado com o levante muçulmano de 1982 em Hama e aprenderam que bastou explodir a cidade e deixar os cadáveres de inocentes e culpados expostos na praça. Como os portugueses fizeram com Tiradentes durante a nossa Inconfidência de Minas Gerais.
Não há prescrição histórica para a barbárie?
Em dezembro foram os tunisianos que visitaram os argelinos para se atualizarem na arte de torturar. Ainda não se sabe se e quando serão praticadas no período “pós-revolucionário”.
Trocando em miúdos, o que está acontecendo nos países árabes foi o que aconteceu na América do Sul na década de 80 – aquela corrente de Basta! contra a Operação Condor e os milhares de desaparecidos e torturados nas masmorras dos nossos regimes militares.
Até ontem, até agora, nestes países em que os jovens estão dizendo Kefaya!, os dirigentes também recebiam ordens do Pentágono e os sádicos nacionais, também formados por “especialistas” ocidentais, se esqueciam dos princípios humanos básicos como no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai...
Como no nosso Cone Sul, o Oriente Médio cansou de apanhar, ser derrubado e ficar deitado. Deixou o medo de lado e resolveu se levantar.
Como no nosso Cone Sul, Washington está demorando a desencarnar. Sua reação de apoio imediato só foi dirigida ao Irã, aos jovens que saíram às ruas de Teheran e foram matracados... E repete os erros do passado intervindo justamente onde atrapalha.
Mudam-se os tempos, mas os EUA não mudam suas vontades imediatas.

Na ONU, o veto altamente inflamávelNa sequência de imobilidade geopolítica, os EUA vetaram na ONU a moção que condena a construção de novas colônias israelenses na Cisjordânia peitando os outros 14 membros do Conselho de Segurança. Nesta questão internacional também a Casa Branca continua isolada.
O argumento usado é em si um ultraje: Embora concordemos com os demais no tocante à ilegitimidade do prosseguimento das colônias, achamos desaconselhável que o Conselho tente resolver questões de fundo que dividem israelenses e palestinos.
(Vale lembrar que conforme as leis internacionais as colônias existentes já são ilegais. O que para Israel tanto faz. Assim como as 34 resoluções da ONU que desrespeita na impunidade. Se a Organização das Nações Unidas não tiver poder para fazer cumprir suas próprias leis, quem terá? Para que ela existe, de fato?)
Os delegados dos demais países membros permanentes ou transitórios do Conselho ficaram estupefatos. Alguns exprimiram sua incompreensão e raiva. Outros engoliram em seco e devem ter ido rezar para que esta servidão cega a Israel, criticada com veemência até pelas ONGs de Direitos Humanos de Tel Aviv, embora faça Benyamin Netanyahu e Avigdor Lieberman rirem e esfregarem as mãos, não termine em mais lágrimas amargas.
Pois esta nova “vitória” do lobby israelense (1) não deixa de ser uma derrota, já que terminou de converter Israel em um passivo perigoso para os EUA. Com o veto desta semana a uma posição mais moral e legal do que efetiva, Barak Obama deu as costas ao mundo, admitiu sua autonomia fictícia e arruinou grande parte do capital de simpatia internacional que ainda tinha.
Que Netanyahu e Lieberman não se iludam. Este novo sucesso lobístico é um golpe no processo de paz. Só conseguiram devolver os Estados Unidos ao isolamento em que a ocupação do Iraque os havia levado. W. Bush deve estar rolando de rir de seu sucessor que fez tantas promessas pacíficas antes de assumir o cargo carregado de compromissos intricados.
É claro que Barack Obama e Hillary Clinton estão cientes que dando carta branca a Israel para prosseguir sua ocupação ilegal da Cisjordânia provocam um desastre político e humanitário (2) que inviabiliza qualquer passo da Autoridade Palestina em direção à mesa de negociação.
É claro que Obama e Clinton sabem que sua relação com os países árabes desmoronou na hora que apoiaram Israel em um assunto inapoiável.
Mas por incrível que pareça o veto foi pensado, calculado, e Obama mais uma vez pesou errado os seus interesses político-partidários. E antes de votar, teve a ousadia de ligar para Ramallah na véspera para forçar Mahmoud Abbas a impedir que a Resolução fosse votada. A pressão telefônica durou 50 minutos. Surrealista ou amoral?
A ONG israelense de Direitos Humanos Gush Shalom já declarou que a AIPAC (3) não é um lobby israelense, mas sim um lobby anti-israelense “que acumula um poder desmesurado que impede que Israel corrija seus graves erros políticos e leva nosso país a uma política auto-destrutiva que compromete nosso futuro ao negar a Israel a menor chance de alcançar a paz com os vizinhos e ao empurrar o país em direção ao abismo da ocupação, colonização e do racismo.”
Gush Shalom e as outras ONGs de Direitos Humanos têm razão. A notícia pode inflamar as passeatas que se multiplicam nos países árabes e teme-se que daqui a pouco bandeiras estadunidenses voltem a ser queimadas.
O argumento usado pelos EUA de que o assunto da Palestina não é da alçada do Conselho de Segurança da ONU é o mesmo que usam sempre para bloquear sistematicamente qualquer ação internacional na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Vale lembrar que o Conselho de Segurança é composto de cinco membros permanentes – China, Inglaterra, França, EUA e Rússia – e dez com mandatos anuais. A ONU só pode agir quando a decisão é aprovada por unanimidade.
Faz anos que o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho, mas a porta é bloqueada. Em 2011, o Brasil faz parte dos dez membros não-permanentes que têm a oportunidade de tentar mudar algo.
Já que o nosso país teve a coragem política e a ética de reconhecer o Estado da Palestina com as fronteiras de 1967, por que não aproveitar 2011 para apresentar ao Conselho uma proposta de admissão da Palestina na ONU como Estado?
Pode até não dar em nada. Mas vai mostrar que ao contrário dos EUA e dos outros quatro membros do BRIC “candidatos” à hegemonia político-econômica mundial, o Brasil tem visão internacional a curto, médio e longo prazo. E de lambuja, sabe liderar.

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