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domingo, 20 de março de 2011

A Inês é morta?

A decisão da ONU de autorizar a exclusão aérea da Líbia, por unanimidade, em Paris, chegou tarde.
Em fevereiro teria soado justa para os líbios e para o mundo inteiro. Em março parece interesseira.
A resposta demagógica do ditador máximo veio por rádio: “Chegou a hora de abrir as lojas e armar a massa com todo tipo de artilharia para defender a independência, a unidade e a honra da Líbia!”
Kadhafi reivindicou em seguida seu direito de defesa, estipulado no artigo 51 da ONU, e liberou o caminho da emigração “clandestina” para a Europa. Sua arma secreta contra as Forças Internacionais que marcaram bem nos mapas os poços de petróleo para não serem alvos de nenhuma bomba extraviada. Têm de ser preservados para serem repartidos mais tarde.
As bombas ocidentais visam as defesas e as forças armadas do Coronel, os mercenários e não os soldados. Ingenuidade? Os EUA, que há anos usam esta mão-de-obra no Iraque pelas mesmas razões que Kadhafi (isenção de ética e fidelidade cega ao vil metal) sabem da dificuldade, quando não da impossibilidade, de distinguir quem é quem na hora do ataque, sobretudo quando este é feito do alto.
As bombas caem em pontos estratégicos, mas todos sabem que The End só vai aparecer na tela quando em Trípoli o bunker-palácio virar fumaça.
Por enquanto, o muro deste está com um escudo humano, só se vê na rua homens armados, bombas caem sem que a população apavorada saiba muito bem quem e o que é alvo, mulheres choram mortos enterrados e os que vão enterrar mais tarde, e um senhor idoso, que tem cara de quem passou por tudo que um homem pode passar, mas que apesar de tudo é calmo e amável, fez este comentário: "Até hoje nossos filhos e netos pisam e explodem com os milhões de minas deixadas pelos ocidentais. Se tirarem Kadhafi para voltarem a nos subjugar como fazem no Iraque, vou entregar a alma só depois de esvaziar minha arma."
Se o ataque aéreo não surtir o efeito desejado ter-se-á de ir mais longe e pôr tropas no solo... E aí, o que vai acontecer com os soldados ocidentais neste emaranhado tribal?
Parafraseando William Shakespeare, What's done is done. O que está feito está feito. Só resta torcer para que os danos materiais e humanos sejam limitados.

Neste ínterim,
. No Iraque, os cristãos continuam a ser caçados e o milhão que existia quando os EUA invadiram o país, entre mortos e emigrados, resta menos da metade, dos quais cem mil em Bagdá. Al Qaïda os chama de "alvo legítimo" e há meses abriu a temporada de caça. A Fraternidade Islâmica pediu para os iraquianos protegerem "seus irmãos cristãos".
Ainda tem desavisados que põem ambos no mesmo saco.
. Na Palestina, passeatas reuniram milhares de jovens em Ramallah (controlada pelo Fatah) e na cidade de Gaza (controlada pelo Hamas) para exigir a união dos dois partidos. Em Gaza, o primeiro ministro banido Ismail Haniyeh, do Hamas, declarou que está na hora do processo de reconciliação começar. Em Ramallah, o porta-voz do Fatah, Ahmed Assaf, rejeitou a proposta na terça-feira alegando falta de sinceridade.
Está passando da hora dos EUA tirarem as algemas de Mahmoud Abbas e deixá-lo estender a mão a Ismail Haniyeh para a vontade do povo ser respeitada. O único jeito de negociar uma paz viável e durável com Israel é o Hamas e o Fatah caminharem para a mesa de mãos dadas.
O jogo de dividir para reinar já foi longe demais.

domingo, 13 de março de 2011

Kadhafi contra-ataca; Knesset endurece a linha

A natureza provocou uma tragédia no Japão e em seguida a ameaça de contaminação nuclear apavorou japoneses e os países vizinhos. Todos se lembram do desastre em Tchernobyl 24 anos atrás, cujas consequências os ucranianos sofrem na pele até hoje.

Fora de lá...
No Egito, depois da agressão aos Coptas, cristãos e muçulmanos esclarecidos voltaram a desfilar ostentando a bandeira com a cruz e a lua crescente entrelaçadas. Quem dera o bom senso fosse geral.
Na sexta-feira a União Européia votou contra a exclusão aérea da Líbia, e Nicolas Sarkozy e James Cameron isolaram a França e a Inglaterra dos demais países encabeçados pela Alemanha, que votou conforme à jurisprudência internacional. Esta impõe três condições sine qua non para a exclusão solicitada. Primeiro, “a necessidade óbvia” tem de ser provada, ou seja, que a população está sob ameaça de ataque aéreo e de uso de armas químicas; segundo, tem de haver “base legal clara”, ou seja, uma resolução do Conselho de Segurança da ONU ou uma condenação por crimes contra a humanidade oficializada pela Convenção de Genebra, contra Kadhafi; e “apoio regional” tem de estar assegurado, que, no caso da Líbia, é da União Africana e da Liga Árabe. Esta terceira condição é primordial. Sem o aval dos africanos e dos árabes, um envolvimento militar da OTAN seria, além dos riscos que a ingerência comporta, irresponsável. A União Africana ficou calada, mas a Liga Árabe concordou com a exclusão aérea. Talvez um pouco tarde.
As tropas de Kadhafi vêm ganhando terreno estratégico, inclusive recuperando Brega e o aeroporto que lhe proporciona abastecimento em víveres e armas, e abrindo caminho para Benghazi. O que não é surpresa, pois a divisão entre os rebeldes é tamanha, e as lideranças tão heterogêneas e sem tática, que mesmo armados de armas pesadas o recuo é diário. Na Cyrenaica alguns habitantes já balançam entre os lados, pois certos grupos também matam civis que não queiram cooperar.
É provável que os mortos sejam contados por milhares, mas as vontades dos grupos rebeldes (fora a de derrubar Kadhafi) são tão variadas ou indeterminadas, que armar essas tribos seria (está sendo?) um grande erro tático a médio e longo prazo. Em vez de baratear, talvez o petróleo saísse custando caro demais. Como no Iraque.

Na França, Nicolas Sarkozy acabou de dar um bom exemplo da necessidade de ter um diplomata de carreira na cabeça do Ministério das Relações Exteriores, para evitar que o presidente faça bobagem.
Seu país já reconheceu o Conselho Nacional Líbio, auto-nomeado em Benghazi, surpreendendo até os aliados com esta urgência em se desincompatibilizar de Kadhafi.
Ora, para o Conselho de Benghazi servir a democracia, tem de ser de transição ou seu poder também seria discricionário, já que não foi eleito por sufrágio universal. E a história contemporaneíssima do Afeganistão e do Iraque estampa em letras vermelhas garrafais o resultado de reconhecer governos que não contam com apoio popular.
Além do mais, esta validação estrangeira precipitada fornece munição verbal a Kadhafi em sua campanha para desacreditar a motivação nacionalista do movimento que quer derrubá-lo.

Os EUA, à procura de uma via torta para intervir e derrubar o Coronel odiado, fizeram apelo ao rei Abdullah, o ditador amigo, da Arábia Saudita (que desceu o cassetete nos súditos que saíram às ruas; mas aos aliados se perdoa tudo?).
Washington sabe do ódio de Abdullah por Kadhafi, que tentou assassiná-lo no ano passado, e recorreu ao rei para armar os rebeldes por tabela. Este “negócio” não seria (está sendo?) o primeiro entre os dois países. A família real saudita já protagonizou vários tráficos de armas para adversários dos EUA, e no final dá sempre errado.
No nosso continente, durante o governo de Ronald Reagan, eles armaram os Contra na Nicarágua; e depois na Ásia, intermediaram o armamento dos afegãos contra a União Soviética – armas leves e pesadas que acabaram nas mãos dos talibã e depois dos tchetchenos e seus aliados no Cáucaso.

Epílogo Tripolitano: Ouvi dizer que Kadhafi nem se preocupa mais com uma intervenção militar ocidental. Pois caso acontecesse, viraria mártir da pátria invadida pelos EUA.
Se facilitar, seu sonho será realizado e vai acabar o reino de terror como herói nacional, “canonizado” por seus piores adversários, na roda-viva da geopolítica do curto prazo.
E,
Em Nablus, na Cisjordânia, cada vez que alguma estrutura proibida é demolida (por policiais, para manter um suposto limite às invasões nos Territórios Ocupados) os colonos israelenses descontam na população local em operações corriqueiras que chamam de “etiqueta de preço” – há pouco jogaram uma bomba incendiária em uma casa em Huwarra que provocou a hospitalização dos filhos do casal por intoxicação. Cansados dos ataques constantes dos invasores que além das terras lhes confiscam a pouca água, há alguns dias os nablusianos saíram às ruas para reclamar das agressões e a passeata pacífica foi reprimida a bala pelos soldados israelenses que feriram dez participantes.
A tensão foi aumentando e neste fim-de-semana, um casal e três filhos que viviam na colônia de Itamar, próxima de Nablus, foram esfaqueados, provocando uma operação militar israelense violenta na cidade: invasões de casas e tudo o que acontece quando o exército ocupante procede a este tipo de razzia.
Para completar, em “represália”, Binyamin Netanyahu informou, Barak Obama por telefone e o resto do mundo em um comunicado, que construirá mais 500 casas lá.
O assassinato da família Fogel é hediondo. Quaisquer que fossem as razões do assassino – asfixia econômica e moral, vida de animal abusado e encurralado – nenhuma é válida, e as autoridades palestinas já estão à busca do culpado.
Crimes de colonos contra os ocupados são mais comuns, inclusive de um bebê de três meses. Quando é um colono que mata um palestino, é tratado como preso comum, julgado em Tel Aviv e chamado de militante extremista.
Por que o assassino desta família está sendo chamado de terrorista?
É um criminoso que tem de ser punido, mas pela Autoridade Palestina. Se não o sentimento de impotência da população ocupada vai aumentar e a tensão mais ainda.
Os palestinos condenam o crime, mas não conseguem entender porquê os bombardeios de civis de todas as idades em Gaza, noturnos e calculados, são chamados de operação militar e os criminosos desfrutam de impunidade enquanto que um assassinato isolado e raro é chamado de ato terrorista e a comunidade toda paga o pato.
O temor que a punição já anunciada não satisfaça a sede de sangue da Linha dura israelense está tirando o sono de adultos e crianças em Nablus e no resto da Cisjordânia.

Invasão de Nablus em 2007: http://www.youtube.com/watch?v=sXxFVlUKsiA
Situação de Nablus em 2010: http://www.youtube.com/watch?v=QGooZvxBqlU


 
Na semana passada falei sobre a manutenção do Congresso estadunidense da ajuda militar de três bilhões de dólares a Israel em detrimento de projetos cruciais na área nacional de saúde e educação. Como ganância pouca é bobagem, Ehud Barak, Ministro da Defesa israelense, anunciou há pouco que vai pedir a Washington mais U$20 bilhões para mais aviões de combate, mísseis, submarinos, etc.
(Para se proteger das pedras que os jovens jogam contra os check-points que os impedem de ir à escola? Ou dos adultos desarmados que manifestam diariamente em B’lim contra o muro que devora suas plantações e quintais?)
O primeiro ministro Binyamin Netanyahu posou então ao lado de soldadas, como fazia Muammar Kadhafi quando se pavoneava, e reiterou que seu exército jamais se retirará do Vale do Jordão, que pertence à Cisjordânia. Voltou a desafiar a ONU publicamente completando que esta faixa é de segurança vital para Israel e coisa e tal. Uma ladainha tão antiga quanto a ocupação que também dura 41 anos. A mais longa da história mundial.
E no dia 8, no Knesset, os parlamentares aprovaram uma lei que proíbe seus concidadãos de protestar contra a ocupação da Cisjordânia. A “Lei anti-boicote” foi condenada massivamente pelas 53 ONGs israelenses de Direitos Humanos. Na carta que enviaram ao Knesset condenando a decisão dos parlamentares, reafirmaram que “o boicote é uma maneira de expressão cívica, não-violenta e legítima de exprimir a opinião e promover mudança social e política”. Esta lei anti-boicote não foi a única lei antidemocrática votada em plenário, mas foi a que provocou reações mais indignadas.

Falando nisto, eis o site do Global BDS, movimento que cresce em Tel Aviv e nos países ocidentais, apesar da vontade da Linha dura do Knesset de erradicá-lo: http://www.bdsmovement.net/.

Ação do BDS em Bruxelas: http://www.youtube.com/watch?v=MJncQ7toX9s
Comitê de Israel contra a demolição de casas: http://www.icahd.org/
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/; http://gazasiege.org/

domingo, 6 de março de 2011

Ingerência não é assistência

A semana foi marcada por uma ameaça de intervenção da OTAN na Líbia, condenada por Muammar Kadhafi a uma guerra civil de duração imprevisível.
Na semana passada Trípoli parecia perdida, hoje Benghazi retomou a vida normal e a cidade está à deriva administrativa. A população foi pega de surpresa pelo movimento revolucionário e não estava preparada para assumir a gestão e por enquanto nem o trânsito está sendo regulado.
Navios de guerra estadunidenses estão a postos no mar Mediterrâneo, batalhões ingleses idem, e o coronel Kadhafi, que nunca chegou e jamais chegará a general, conseguiu aliados graças à ameaça de intervenção ocidental.
Aviso aos invasores potenciais, tem uma coisa que os líbios detestam mais do que Kadhafi: estrangeiros em suas fronteiras cantando de galo.
A ONU intervir com funcionários para mediar conflito entre duas nações ou com soldados para fazer respeitar as leis internacionais, é perfeitamente justificável, já que um de seus propósitos é manter o equilíbrio mundial entre os Estados.
Porém, ingerência externa em um país para resolver conflito doméstico é um disparate. Por melhor que seja a intenção, a história mostra que o resultado é sempre um desastre. Vide a Indochina, o Vietnam e o Iraque.
Na primeira guerra do golfo em 1991, para “salvar” o Kweite da invasão do Iraque para recuperar terras que o invadido havia ocupado (uma questão de água), George Bush que odiava Saddam Hussein por querelas pessoais, fez sua “Tempestade do deserto” e condenou o Iraque a um boicote draconiano – em teoria, para alienar a população de Saddam Hussein para que ele caísse sem maiores trabalhos... Na prática o tiro saiu pela culatra. O povo se sentiu visado e a carência de gêneros de primeira necessidade o levou a apoiar o presidente em desgraça, em vez de rejeitá-lo.
O resultado foi o bombardeio do Iraque dez anos mais tarde, com a aquiescência até de alguns democratas liberais que acreditaram na mentira das armas de destruição em massa e acharam que embora tivessem deixado Augusto Pinochet aterrorizar o Chile durante anos, Saddam Hussein tinha de ser aniquilado.
Na época insisti que era um erro não apenas por a invasão ser contrária ao parecer da ONU, mas também porque as divisões étnicas e religiosas no país eram ancestrais e só não pareciam graves porque Saddam Hussein mantinha a ordem (à sua maneira drástica). E por outro lado, o país não estava pronto para assumir a liberdade. A fome de liberdade é um processo que pode ser rápido, mas muitas vezes é lento e tem de ser vivido em todas as etapas, pois são elas que levam ao amadurecimento da sociedade.
A sociedade iraquiana não estava preparada para o pós-Saddam Hussein e deu no que tinha de dar. Esta é outra história que abordarei mais tarde.
De uma forma geral, os países árabes atingiram este grau de maturidade e estão lutando pela liberdade sem nenhum “patrocínio” desconfiável. Esta é sua autenticidade e é daí que vem o entusiasmo com um futuro que estão querendo construir com liberdade.
Sei que vou desagradar, mas na Líbia não se sente a mesma unanimidade da Tunísia e do Egito. Não que é que o povo esteja satisfeito com Kadhafi, longe disso! Mas o país é tribal, as tribos são diferentes e não vêm o país e a vida com os mesmos olhos, e o processo revolucionário aconteceu por acaso; por causa da repressão a uma passeata por razões diferentes, em Benghazi e não na capital. Na Tripolitana o movimento ainda não é de massa, embora a população esteja com vontade de avançar, sem o jugo do coronel Kadhafi.
Os rebeldes estão ganhando terreno, estão armados , mas o Coronel dispõe de artilharia pesada e disse que vai lutar até o último homem. Quem duvida? Mas por mais que a perda de vidas seja deplorável, o conflito é nacional. Se Kadhafi sair vitorioso será porque a vontade de derrubá-lo não era majoritária e a determinação não era suficiente para derrubar o palácio. E armar os rebeldes, como cogita Washington depois de Londres, só é uma boa solução para os negociantes de armas.
Estou sendo lúcida, e não advogada do diabo.
Gelar a fortuna dos Kadhafi nos bancos ocidentais? É legítimo. Mais ainda se este dinheiro fosse restituído aos cofres da Nação desfalcada. Mas na real-política isto é só vontade.
Gelar a venda de armas para Kadhafi e policiar o tráfico? É necessário. Que se saiba, seu arsenal não é inesgotável.
Mas atacar Trípoli para botar as mãos na maior reserva de petróleo da África? Aí a estória fica macabra.
Será que não aprenderam a lição do Iraque?
E esta estória de bombardeio “cirúrgico” é uma fábula. No Iraque, dezenas de famílias morreram “por acaso” e vilarejos inteiros foram tirados do mapa. Em Trípoli, não há como bombardear o palácio sem matar homens, mulheres e crianças inocentes. E dizem que o bunker de Kadhafi é à prova de morteiros; de bomba então, nem falar!
Sem contar que combater selvageria com selvageria é o pior recurso para alcançar a paz. A cicatriz ficaria aberta por décadas. E Kadhafi sabe disto. Tanto ele quanto seus compatriotas lembram de pai para filho o período colonial quando eram obrigados a caminhar na sarjeta para deixar a calçada para o italiano passar.
Nenhuma ocupação é desejada e nem justificável.
Líbios exilados pedem intervenção - os iraquianos na mesma situação também pediam - e algumas tribos rebeldes solicitam armas e o bombardeio ocidental de pontos estratégicos, mas eles não representam todas as tribos, e a vondade é pontual.
O certo na Líbia é que os jornalistas não têm acesso a toda informação porque a circulação é restrita. Há duas versões distintas dos acontecimentos e ninguém pode garantir certeza absoluta. A única coisa visível é que o país está dividido. Ninguém pode afirmar com certeza o que querem os líbios. E na dúvida, é melhor eles serem deixados tranquilos.
Uma revolução bem sucedida é a que é feita pelo povo, unido, que consegue a adesão de todos, inclusive das forças armadas.
O então candidato Barack Obama criticou seus adversários políticos por estes terem colocado os EUA do “lado errado da história”. Chegou a hora do presidente de agora ser coerente pelo menos nisso e se colocar do lado certo, sem estória.
O processo revolucionário é árabe ou não será. Neste processo, o resto do mundo só pode ser testemunha, nada mais.

Neste ínterim...
.
No Iraque, as ruas de Bagdá também encheram de gente reivindicando reformas. A passeata pacífica foi reprimida com violência e 29 pessoas foram mortas. Tem 50.000 soldados estadunidenses lá, em princípio, para velar pela instituição de um “regime democrático”. Onde estavam quando o presidente fiel aos EUA mandou bater e atirar em civis desarmados?
. Na noite de sábado, os aviões israelenses bombardearam a cidade de Gaza, o norte da Faixa e um túnel na fronteira com o Egito. Três bombas visavam as bases da brigada de Izzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas. Israel repetiu que o bombardeio, noturno, foi retaliativo, por causa de um foguete ter atingido o deserto de Negev de manhã. A chefia política do Hamas voltou a insistir no respeito à trégua.
Aliás, parece até que o lançamento destes foguetes inócuos visa mesmo é dar desculpa a Israel para usar sua artilharia pesada. São foguetinhos que raramente causam perdas humanos, às vezes, materiais, e a retaliação é sempre desproporcional. Além de tirar o sono dos habitantes da Faixa, provoca graves danos emocionais e materiais, quando não de ferimentos graves ou mortais. Está passando da hora do Hamas pôr as mãos nos culpados que servem mais Israel do que a paz.
. Nos EUA, o Congresso aprovou cortes no orçamento para programas vitais de utilidade pública no setor de emprego, educação e saúde, porém, os U$3 bilhões de dólares de ajuda militar a Israel nem entraram na pauta. Este é um dos assuntos em que democratas e republicanos, de uma forma geral, concordam sem pestanejar, graças à força de persuasão lobística da APAIC. É normal que o país ajude um aliado, mas poderia condicionar esta ajuda ao gelo das colônias e ao respeito dos tratados internacionais. Mas isto é uma miragem.

Vou aproveitar a "âncora" para responder uma das várias perguntas que me fazem e que pus de lado desde o início das revoltas árabes.
Como os Estados Unidos conseguem manter duas guerras – Iraque e Afeganistão – sem aumentar os impostos para financiá-las?Porque os EUA as estão financiando com débito. Ou seja, com grande parte dos cerca de U$14.19 trilhões de dinheiro estrangeiro emprestado, o que o coloca em 12° lugar entre os países mais endividados do planeta (o PIB é de U$14.66 trilhões).
Os dez maiores credores dos EUA em bilhões são, China (1160.1), Japão (882.3), Inglaterra (272.1), países da OPEP (211.9), Brasil (186.1), bancos caribenhos (168.6), Hong Kong (134.2), Suiça (107), Taiwan (155.1) e Rússia (151).
Os novos empréstimos previstos para os próximos anos levam a uma projeção de aumento do débito público a U$26 trilhões em 2021. Os especialistas prevêem que neste ritmo, entre 2030 e 2040 gastos obrigatórios, como seguridade social mínima e assistência médica básica, somados aos juros da dívida, vão suplantar o imposto de renda. O que significa que terão de endividar-se mais ainda para gastos com coisas essenciais como educação, defesa e polícia.
Como disse no início do milênio, os EUA estão em um tobogã que só tem um destino. O império está falindo mais depressa do que muitos pensavam. O que os segura na cabeça é o armamento pesado que, paradoxalmente, é um dos grandes responsáveis pelo gasto excessivo e o declínio inevitável. Neste ritmo, daqui a 50 anos o mundo terá um, dois ou quatro novos líderes de direito e de fato.
Este líder vai certamente sair do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) a quem os EUA dão um exemplo implícito: Se quiser harmonia social doméstica e hegemonia mundial promissora, segura e duradoura, é melhor não fazer inimigos fora de casa, e dentro, investir em educação, saúde e emprego, em vez de fabricar armas que terão de ser vendidas e cedo ou tarde, usadas.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Encouraçado Líbia

Encontro de ditadores. Na primeira fila, Saleh (Yêmen), Gaddafi (Líbia), Mubarak (Egito)
“Bombardeiem o palácio, ele e seus soldados! Matem-no, se precisar. Mas não o deixem mais no poder. Basta. Eu pagarei a reconstrução.”
Esta mensagem foi enviada à ONU por Muammar Gaddafi.
Falava do presidente da Costa do Marfim Laurent Gbaggo, na semana em que os estudantes egípcios ocuparam a Praça Tahrir exigindo Liberdade. O homem que se considera Zaim – um líder guru – e realmente acredita ser o Rei dos Reis da África tinha confiança absoluta no regime de terror que praticava. Tanta, que jogou esta chuva de pedras em telhado alheio pensando que o seu fosse indestrutível e sua fortaleza inexpugnável.
Comecei o mês traçando um paralelo entre o Egito, Hosni Mubarak e três obras máximas do grande Gabriel Garcia Márquez. Por isto vou terminá-lo na mesma linha, mas com a Líbia e Muammar Gaddafi no bunker-Palácio que lembra o livro Das Schloss do tcheco germanófono Franz Kafka.
Das Schloss, traduzido como O Castelo significa também Tranca, trava. O Castelo governa uma cidade e o Palácio governa uma nação tribal da qual é alienado. O Castelo representa uma burocracia, o Palácio uma tirania que também faz incursões esporádicas às ruas mas sem interagir com vivalma, a não ser para explorá-la, na ficção literária, e na realidade Tripolitana, para subjugá-la. Os labirintos do Castelo representam a confusão mental dos homens; as tramas do Palácio, de um só homem desvairado. A verdade do Castelo é impenetrável e fora dele o povoado calcula e especula sobre o que não sabe. A verdade do Palácio é fabricada e fora dele o país teme em massa, pai desconfia de filho e todos servem o déspota do ignorantismo, até há pouco, calados.
Gaddafi, confinado em seu bunker-Palácio, acabou de perder o contato com a realidade.
Trípoli por sua vez lembra Броненосец Потёмкин, O Encouraçado Potemkin. A obra prima cinematográfica do mestre dos mestres Serguei Eisenstein. Neste filme precursor da Revolução de 1917, o cineasta russo reproduz na tripulação do encouraçado os seguimentos da sociedade que se rebela com determinação e coragem. A sequência marcante é a do massacre nos degraus da escada monumental de Odessa, que os soldados descem de maneira ritmada (pela composição de Dimitri Chostakovitch) empurrando a multidão em um frenesi que culmina com a célebre cena do carrinho de bebê que escapa escada abaixo em uma dramaticidade rara.
Gaddafi transformou Trípoli na Odessa do século passado com violência dobrada, pois além de soldados, a região está cheia de mercenários sem nenhuma consideração pela vida humana, apenas por quem os paga. E quem paga é um homem que sabe que está no fim da linha e antes do trem despejá-lo quer esmagar o máximo de pessoas que ousaram desafiá-lo.
Em janeiro esta cena era inimaginável. Não a da matança, mas a da insurreição contra o tirano máximo.
Até janeiro era difícil imaginar que o terror em que os líbios viviam como uma fatalidade à qual tinham se acomodado, desaparecesse da noite para o dia. Pois a brutalidade do Coronel, quase palpável quando estava na mesma sala, fragmentou sua família e a população durante quatro décadas e toda oposição foi, literalmente, esmagada ou exilada.
Os líbios só podiam participar de estruturas organizadas e controladas por Gaddafi, incluindo um comitê que reunia as trinta e duas tribos principais, usado para aplicar a “justiça revolucionária”. Kadhafi conquistou o poder com três tribos (Qadhadhfa, Maghraha, Warfalla) cujos membros dirigiam os comitês e os serviços de segurança que ainda não o abandonaram. Seus inimigos velados eram os Sa’adi, tribos de Cyrenaica, resistentes ferrenhos contra a ocupação italiana entre 1911 e 1927.
Vale lembrar que a Líbia, como o Yêmen, é uma sociedade tribal, diferente do Egito, mas semelhantes a outros países árabes.
O colapso do regime foi acelerado porque grande parte do milhão 759 mil km² das terras que compõem a Líbia é desértica – há regiões em que não chove desde 1998 – e o desenvolvimento econômico proporcionado pelo petróleo somado à aridez do país, fez com que os seis milhões de habitantes se concentrassem na planície de Jefara, ao redor de Trípoli, na região chamada Tripolitana e em Jabal al-Akhdar, atrás de Benghazi na Cyrenaica.
Portanto, a queda de Benghazi, por o Ministro da Justiça, Mustafá Mohamed Abdel Jalil, e o Ministro do Interior, general Abdel Fattah Younes al-Abidi, terem mudado de lado, foi mais do que a queda de uma cidade. Foi a perda concreta de seus dois “funcionários” mais preciosos e da metade do país, a Cyrenaica.
Younes al-Abidi já aconselhou Kadhafi a não usar os aviões de combate e Abdel Jalil já formou um governo provisório.
A deserção é fiável, pois todos sabem que para reinar sem rival, Gaddafi chegou ao ponto de dividir os filhos para que nenhum tivesse força suficiente para substituí-lo sem seu aval. Como os “súditos” e os “amigos”, até sua família vivia em um ambiente de desconfiança, suspeita constante, e de medo do progenitor que os tiranizou até os últimos instantes.
Apesar de tudo que disse acima, para a Líbia e para o mundo, a queda de Gaddafi será um desastre.
Não conseguindo liderar a Liga Árabe, em 1997 Gaddafi resolveu assumir a liderança dos países mais frágeis. Foi aí que se autodenominou Rei dos Reis da África se distanciando dos antigos aliados para rodear-se de novos manipuláveis. E para adquirir poder de barganha com a Europa, abriu as portas às populações subsaarianas provocando graves tensões domésticas, mas atingindo o objetivo principal de pressionar a União Européia com o perigo da imigração clandestina africana a partir de suas águas, para a Itália. Foi no mesmo período que constituiu a 32ª Brigada, a milícia usada na repressão e com a qual conta para terminar seu “reinado” em um banho de sangue memorável que puna os líbios por “não entenderem sua visão política”.
O Palácio é protegido por esta Brigada, apesar da região Tripolitana já acusar vários focos de resistência e de algumas cidades já terem sido liberadas. No exterior, muitas embaixadas já mudaram de lado e a dissensão nas Forças Armadas não se resume mais à região de Benghazi – soldados e oficiais ainda ressentem os insultos de Gaddafi quando foram forçados a se retirar do Tchad em 1987 de cabeça baixa.
E o pós-Gaddafi?
Gaddafi vivo, é uma salva-guarda contra o terrorismo em toda essa região da África.   
A defecção da eminência civil e da eminência militar: Younes al-Abidi e Abdel Jalil em uma hora crucial, prometendo assegurar um processo transitório de três meses antes de eleições presidenciais, dá esperanças - apenas aos incautos - de calma após a tempestade. Fora do círculo de Gaddafi, não há quadros, pelo menos visíveis em Trípoli e Benghazi. Há exilados políticos, mas sem nenhuma influência aparente sobre o processo revolucionário. Dentro do país tem a Fraternidade Islâmica e alguns grupos extremistas, mas estes até agora não manifestaram religiosidade no movimento de libertação nacional. E primeiro teriam de se entender antes de pleitearem uma liderança respeitada. Mas a Líbia tem vários executivos laicos preparados para governar. Trabalharam para Gaddafi..., mas atire a primeira pedra quem não tiver sido cúmplice compulsório de seu “reinado”.
Se tivesse de prever o futuro de Gaddafi nestas páginas, se ele for coerente com a personagem que representava, vai seguir os passos de Hitler e suicidar-se.
Se não, será executado sumariamente pelos "rebeldes" com a bênção dos EUA.

Curtas. Na segunda-feira a Inglaterra cancelou um carregamento de armas para a Líbia para não ser acusada de cumplicidade no massacre. Só nos últimos meses de 2010 vendeu para Muammuar Kadhafi seis milhões de dólares de equipamento, inclusive fuzis de precisão para os “caçadores” e a munição de controle de multidão que está sendo usada. A Inglaterra não é o único camelô nesta área. Quem vende este tipo de munição a alguém como Kadhafi sabe para quê será usada. Quem comercializa a morte pode dar lição de moral a um tirano deste naipe?
. O crescimento do interesse econômico estrangeiro pela Líbia a partir de 1999 foi concomitante ao da corrupção dos sete filhos de Gaddafi e da filha, excluindo o povo da receita petroleira. O povo quer substituir seu regime pela charia, disse Gaddafi apelando sem vergonha parao medo ocidental da Lei islâmica. Se deixarem os cofres vazios – os bilhões do petróleo estão em Dubai, na Itália (Berlusconi e Gaddafi são íntimos), e em outros países – pode ser mesmo que os sobreviventes da chacina procurem Allah. Em que forma? Como disse, na Líbia há várias. Tantas quantas tribos adversárias.
. Quando perdeu Benghazi, justamente Benghazi onde começou sua ascensão meteórica, Gaddafi recebeu um tapa na cara e um aviso que Trípoli estava a dois passos. Em alguns prédios da capital, grafites o retratam como O Macaco dos Macacos da África. O aeroporto é o espelho do caos da cidade paralisada - fome e insalubridade.
Os funcionários estrangeiros abandonaram o navio dos negócios milionários, o Egito e a Tunísia começaram a ser inundados de refugiados, e Beirute e Malta já negaram várias autorizações de pouso a jatos privados com passageiros não identificados.
Nesta altura do campeonato, talvez nem Berlusconi acolha seus amigos da “família real” em desgraça.
. Com a recusa dos policiais a aumentar o número de mortos a milhares, o coronel Gaddafi só está protegido pelos “comitês populares” que são de fato as milícias dirigidas por membros de suas tribos. Um dos encargos da milícia era vigiar os oficiais militares... Com exceção do bunker-Palácio, Trípoli está cada vez mais próxima de Benghazi.
As horas de Gaddafi estão contadas.

No Egito, Amr Moussa, atual presidente da Liga Árabe e ex-ministro do Exterior de Mubarak, anunciou sua candidatura às próximas eleições presidenciais. Passeou com dois parlamentares estadunidenses, John McCain e Joseph Lieberman, na praça Tahrir e enquanto isto, dezenas de manifestantes exigiam, diante do palácio, a demissão de Ahmad Shafiq, o primeiro ministro recentemente nomeado por Mubarak, e algumas greves eclodiram em cidades industriais.
A cúpula do Exército está em linha direta com o Pentágono que formou seus oficiais e quer assegurar a “paz fria” do país com Israel. Além disso, se o processo revolucionário prosseguir em uma linha democrática, os EUA querem conservar a regalia de aceder às reservas petrolíferas do Golfo a baixo custo, continuar a “cooperação” militar e incrementar o neoliberalismo que levou o país à revolta. Longe do que as passeatas reivindicavam.
Com o futuro político incerto e a economia em situação crítica, será que não é hora de dar uma mãozinha em vez de espremer o povo esgotado?

Na Jordânia as passeatas não visam à mudança do regime. A lealdade ao rei Abdullah e a estima pela rainha Rania são incontestáveis e não são contestadas. Mas os jordanianos querem mais do que a cabeça de um primeiro ministro. Abdullah vai ter de lhes dar algo mais; mas o quê? Onde buscar recursos que o país não dá? A repressão policial foi condenada em palácio e o novo primeiro ministro Marouf Makhit ordenou um inquérito. Abdullah sabe que não pode dar nem um passo em falso.

No Bahrein, o sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa liberou os cassetetes antes de se retratar e em seguida libertar vários presos políticos. Os militares foram (temporariamente?) retirados da rua e os manifestantes prometem continuar até que suas reivindicações sejam atendidas: nova constituição, verdadeira democracia e retorno dos “desaparecidos”. Os Khalifa prometeram mudanças concretas rápidas, mas não deram data.

No Yêmen, na terceira semana de protestos que começaram no dia 17, a trégua da repressão foi efêmera. A Anistia Internacional já anuncia 27 mortos, os chefes de Hashid e Baqil, as duas principais tribos, aderiram à revolta e mais cidades contestam a decisão de Alih Abdallah Saleh de continuar na presidência até 2013. Na Universidade de Sanaa os estudantes rebatizaram a praça em que acampam al-Huriya, a Liberdade. Perderam dois colegas e o protesto dobrou de intensidade.

Na Síria, o rei Bashar aumentou o salário do funcionalismo púbico, e "está mantendo" a calma. Será mantida, se os Estados Unidos e Israel não armarem a oposição.

No Sudão, o rei Bashir declarou que não vai se recandidatar à presidência.

Na Argélia, o rei Bouteflika acabou com o Estado de emergência em que o país vivia.

Na Arábia Saudita, o rei Abdullah prometeu U$36 bilhões para os súditos ficarem quietos.

Em Oman, no sábado, jovens manifestantes saíram às ruas de Sohar fazendo reivindicações econômicas, sociais e políticas. Nenhuma repressão foi armada e o sultão Qabos bin Said deu as caras anunciando a demissão de seis ministros, aumento de verba para as universidades e reformas socio-econômicas imediatas. A partir de fevereiro, o salário mínimo já ganha mais 43%, passando a U$520 mensais. Atos institucionais que nem a Tunísia, nem o Egito, nem o Yêmen, nem o Bahein fizeram, até agora. Mas no domingo a polícia atacou os manifestantes que se aproximavam da central de polícia da cidade. Qabos governa Oman desde que tomou o poder do pai em 1970, "para acabar com o isolamento do país e usar a renda do petróleo para modernisá-lo."
Esta revolta em Oman, país relativamente calmo e com um padrão de vida razoável, mostra que as reivindicações socio-econômicas nas passeatas são uma fachada. Os árabes estão com fome mesmo é de Tahrir, Liberdade.

Neste ínterim, no Paquistão, após a condenação à morte em novembro de uma cristã por “insulto ao Islã”, apesar das pressões, o governo continua decidido a manter a Lei da Blasfêmia. O assassinato recente do governador do Punjab Salman Taseer (o “heroísmo” do assassino foi aclamado) por criticar a lei em público, mostra que ela é um instrumento perigoso de Caça às Bruxas das minorias religiosas, mas também dos políticos liberais.

Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925)