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domingo, 20 de janeiro de 2013

O Sahel refém da barbárie


Países do SAHEL, como é chamado o Saara nessa região:  do Oeste para o Leste - Cabo Verde, Senegal, Mauritânia, norte do Mali,  sul da Argélia, note do Burkina Faso, Niger, norte da Nigéria, centro do Tchad, centro do Sudão, Eritrea, Etiópia.

Faixa sensível do Sahel, a faixa marron.
Sul da Mauritânia, norte do Mali, extremo sul da Argélia, note do Burkina Faso, norte da Nigéria, centro do Tchad, centro do Sudão (sobretudo o Darfour e o Kordofan).

Antes de Ossama ben Laden ser o terrorista mais procurado do planeta, ele foi sucessivamente um simples milionário árabe bem relacionado, um jovem ideólogo de ideias radicais, um ex-combatente patrocinado pelos EUA contra a União Soviética no Afeganistão.
Nessa época, em 1993, para ser precisa, ele mandou um mensageiro à Argélia para oferecer seus préstimos ao Grupo Islamita Armado que semeava o terror na área e em atentados motíferos na França. Este grupo cometia atrocidades com a bandeira de rebeldia contra o governo socialo-laico-corrupto que reinava em Argel. O GIA queria derrubar o presidente Chadle Bendjedi para instalar um regime governado pela sharia (lei) islamita.
Ben Laden ofereceu dinheiro e assistência logística ao GIA e em contrapartida, engrossaria a coalição jihadista que ben Laden, então baseado no Sudão, estava construindo.
O GIA, selvagem mas ainda nacionalista, recusou a oferta generosa do estrangeiro e o mensageiro de ben Laden quase perdeu a vida entregando a mensagem.
Quatrorze anos mais tarde, no fim de uma guerra civil que deixou 150.000 mortos na Argélia e um GIA derrotado, os sobreviventes do grupo mandaram recado para bin Laden, já pós-graduado em terrorismo e celebricíssimo pelos ataques no solo dos Estados Unidos.
O GIA havia perdido todo e qualquer apoio da população local, estava moribundo, e, portanto, seus sobreviventes estavam prontos para captar fundos que os reabastessem. E em um gesto oportunista, integraram a rede internacional extremista em 2007.
Foi assim que o AQIM nasceu no sul da Argélia e norte do Mali.
O que não prova que o ataque à refinaria na Argélia tenha sido comandada pelo al-Qaeda - que atualmente está mais preocupado em infiltrar a Síria do que dominar a África.
Para começar, os laços entre as lideranças do AQIM e a do al-Qaeda sempre foram tênues. Os interesses são os mesmos, mas os africanos tentam manter uma certa independência. Facilitada pela dificuldade de comunicação e locomoção na região Sahel-Sahara.
E muita água rolou desde que ben Laden tirou o grupo extremista do buraco. As atividades ilegais e a cumplicidade do governo do Mali o levaram a reconstituísse rápido, a fortalecer-se e os papeis acabaram se invertendo. A fonte financeira do al-Qaeda não está tão opulenta quanto na época de ben Laden e atualmente o AQIM, com sua bandidagem, é milionário e tem dinheiro e meios à vontade para comprar o que quiser. Inclusive estrategistas do al-Qaeda.
Para concluir esta parte, o AQIM não é o único bandidão islamita do pedaço.
Mokhtar Belmokhtar, o "maestro" dos ataques lidera seu próprio grupo e não tem nenhuma submissão ao al-Qaeda. Seu ego, sua convicção de líder religioso brilhante, excluem, a meu ver, qualquer possibilidade de ele seguir ordens.
Dito isto, os serviços de inteligência ocidentais têm constatado que nos últimos 18 meses uma série de membros do al-Qaeda foram despachados para o Sahel e para a África em geral. Mas não se sabe com que papel. É mais provável que seja de apoio. Atualmente, o al-Qaeda tem mais a ganhar com a ligação com os grupos extremistas da África Ocidental do que o contrário.
Que se saiba, os líderes locais, sobretudo Mokhtar Belmokhtar, não fez juramento de fidelidade - bayat - a ninguém.
Acho que a demanda de liberdade do egípcio Omar Abdel-Rahman, ideólogo jihadi preso em 1993 nos EUA logo após o ataque de Nova York, não é um presente para o al-Qaeda nem um sinal de obediência. E sim uma vontade de impor-se no cenário internacional e de demonstrar ao próprio al-Qaeda que está querendo tomar as rédeas do extremismo islamita além do Sahel.

As televisões do mundo inteiro estão se encarregando de mostrar os bombardeios e a imprensa escrita de dar as notícias que lhe chegam. Como não gosto de chover no molhado nem de falar no óbvio, resolvi hoje descrever as forças belicosas principais que poluem o norte do Mali. Pelo menos as que conheço.
E depois falar um pouco nos tuaregues, os grandes prejudicados nesta relação de forças militares entre os extremistas islamitas e a França.
É o Mali centraliza todo o conflito nessa área.
Foi por isso que aviões franceses, com apoio dos Estados Unidos e assistência logística alemã e inglesa, vêm bombardeando alvos no Mali considerados ligados ao al-Qaeda.
Quem dera fosse tão simples!
Há anos a região é um caldeirão de instabilidade. Começou com a primeira rebelião tuaregue em 1962 e aumentou com a invasão do Afeganistão e o aumento de pressão sobre o Yêmen.
Não há unidade sectária nem militar entre todos os bandos.
São diversas facções armadas. Distintas tanto nas tendências religiosas quanto étnicas. Há inclusive seculares.
Pôr todos no saco do terrorismo radical do lobo mal al-Qaeda é um simplificação perigosa e fátua.
Só eu, tenho conhecimento de vários grupos dominantes que pouco têm em comum, com exceção da violência.
Como tudo está sendo posto nas costas do Al-Qaeda, vou começar a listar das Organizações militarizadas pela coalição extremista pseudo-religiosa que engloba três grupos.
Primeiro o "famoso" AQIM. Ou seja, o Al-Qaeda no Magreb islâmico.
Neste, predominam homens originários da Argélia e da Mauritânia.
Instalaram-se no Mali em 2003 e são especializados em sequestro de ocidentais. Nos últimos dez anos barganharam 50 reféns europeus e canadenses em troca de um total de R$100 milhões de dólares.
Segundo o ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Mohamed Bzoum, a presença do AQIM no Mali deve-se a um acordo entre o grupo e o presidente deposto Amadou Toumani Toure. O acordo teria sido feito através de outro Maliano. O parceiro político do ex-presidente, Iyad Ag Ghali.
Dinheiro dos resgates teria sido distribuído generosamente para servidores públicos malienses em troca de passe livre nas áreas tuaregues. Tudo isto sob as barbas do desmoralizado exército do Mali, cujos soldados fechavam os olhos seguindo ordens e por questão de sobrevivência.
O AQIM ainda detém pelo menos nove europeus no norte do Mali.
Com o passar dos anos, alguns membros da etnia Ifogha local, tuaregues e árabes, aderiram ao AQIM no Mali. Por causa de alianças de casamento e aliciamento de jovens. Vários membros do AQIM se casaram com mulheres das comunidades em que se instalaram.
Nos últimos anos este grupo tem desenvolvido suas atividades nas principais cidades do Mali, e graças à sua associação a grupos locais, como o Ansar al Din, foi se transformando em uma corrente para a qual convergiram jovens perdidos do sul do Mali, Senegal, Nigéria e outros países limítrofes. Estes recrutas aderiram à insígna da Polícia Islâmica, controlada pelo AQIM.
O líder do AQIM é o argelino Abdel Malek Droukdel. Conhecido como Abu Musab abdel Wadoud.
Além de Abu Musab, o grupo tem também um Emir para o Saara, chamado Yahia Abou Hammam. Mais um número de brigadas encabeçadas por indivíduos famosos no Sahel, tais como dois bandidos argelinos notórios. O traficante caolho Moktar Belmokhtar e Abou Zaid.
A estrutura de liderança não me é muito clara, portanto, paro nestas duas figuras famosas que mostram as caras.    
Mencionei o Ansar al Din acima.
Este é um grupo local de tuaregues Ifoghas, árabes berabiche e outros grupos étnicos locais que têm o mesmo objetivo religioso radical. Querem implantar a sharia, a lei muçulmana, no Mali inteiro e em todos os países muçulmanos.
O fundador e atual líder do Ansar al Din é Iyad Ag Ghali. Um ex-chefe tuaregue da década de 90.
Iyad começou a ajudar o ex-presidente do Mali a combater a revolta tuaregue no início do milênio. E a negociar com o AQIM resgates dos sequestrados.
O porta-voz do Ansar al Din, Sanda Ould Boumana, é um árabe de Timbuktu que foi preso na Mauritânia em 2005 sob acusação de pertencer ao al-Qaeda.
A maioria dos paramilitares do Ansar al Din são da área de Timbuktu.
Este grupo evita confrontação com o MNLA e FNLA para não derramar sangue de parentes, o que os desligitimaria aos olhos dos demais. Preferem deixar o derramamento de sangue nas mãos do AQIM e do MUJAO, que abordaremos em seguida.
O Ansar al Din se preocupa em manter um grupo essencialmente maliense e nega publicamente ligações com o al-Qaeda. Mas por baixo do pano, "hospeda" ações deste grupo terrorista internacional e do AQIM local - um pouco como a relação entre os Talibã e o al-Qaeda no Afeganistão antigamente. E asseguram, juntos, o policiamento religioso radical.
O Ansar al Din está presente nas três principais cidades do norte: Gao, Kidal e Timbuktu. 
O terceiro grupo extremista é o MUJAO (Movement for Unity and Jihad in West Africa - Movimento pela Unidade e Jihad na África Central). É o mais turvo, dos ligados ao Al-Qaeda no norte do Mali.
Apresenta-se como uma dissidência do AQIM, mas ao mesmo tempo, seus líderes trabalham com o AQIM em Gao no combate de inimigos mútuos.
O MUJAO também quer impor a Sharia, mas no mundo todo. E ao contrário do Ansar al Din, ele acolhe em suas fileiras tanto locais quanto estrangeiros da região do Sahel e da África do Norte.
Tem sido o grupo mais agressivo contra elementos do MNLA e de grupos árabes que lutam pela auto-determinação do norte do Mali. Cada vez que o MNLA conquista uma área, o MUJAO os ataca até que batam em retirada.
Dizem que quem fundou o MUJAO foram os drug lords árabes Tilemsi da área de Gao, com o recrutamento de jovens. 
AQIM, Ansar al Din e MUJAO são grupos radicais religiosos que poderiam ser considerados terroristas por causa das ideias extremistas islamitas. Entretanto, são meso é bandidos.
Tirando estes, há outros movimentos laicos de proeminência no Mali. Grupos movidos por um ideal e não pela bandidagem.   

Political Map of Mali
O MNLA (National Movement for the Liberation of Azawad - Movimento Nacional para a Libertação de Azawad), por exemplo, é uma organização secular separatista tuaregue.
Estes rebeldes querem a independência do norte do Mali, chamado Azawad.
Seus líderes dizem que desejam este Estado para todos os nortistas (tuaregues, songhai, árabes e fulani são os grupos étnicos preponderantes).
Alguns de seus participantes são Songhai, mas 99 por cento dos guerrilheiros são tuaregues motivados pela conquista de um Estado.
O líder do MNLA é Bilal Al Cherif, um tuaregue Ifogha. Seu "vice" é Mahmadou Djeri Maiga, um Songhai.
O grupo chegou a controlar as cidades de Gao e Kidal, mas foram forçados pelos MUJAO a recuar e misturar-se com a população à espera de uma oportunidade de re-emergir para conquistar espaço.
Sua força é subestimada por causa das recentes derrotas no terreno para os grupos contolados pelo al-Qaeda.
Mas acho que esta é apenas a parte visível da relação de forças, já que a gênesis da crise atual foi uma ação militar do MNLA no intuito de conquistar o norte do Mali. O invisível é uma reação em cadeia, pragmática.
A raiz das aspirações do MNLA são profundas. São fincadas na primeira rebelião tuaregue em 1963.
Não é um movimento emergente e oportunista como os três extremistas religiosos acima.
Suas pretenções não desaparecerão com bombas.
Querendo ou não, continuarão a ser a base da crise do Mali.
Assim como o FLNA (National Front for the Liberation of Azawad - Frente Nacional para a Libertação do Azawad). Um grupo árabe aliado do MNLA que luta pelo direito à autodeterminação do norte do Mali.
Pleiteiam o direito dos nortistas decidirem se querem ou não continuar ligados ao governo central. Através do mesmo tipo de referendum usado para separar o Sul do Norte do Sudão.
O FNLA também não reivindica nenhuma lei religiosa sectária.

Os Ganda Koy (Senhores da Terra) são um grupo étnico Songhai que data da segunda rebelião tuaregue.
Na década de noventa os Ganda Koy criaram uma milícia para auto-proteção e esta lutou com o exército maliense contra os rebeldes tuaregues.
Dizem na região que os Ganda Koy massacraram muitos civis tuaregues.
Segundo a ONG internacional de Direitos Humanos Human Rights Watch, este grupo tem executado muitos árabes e tuaregues. Assim como o grupo Ganda Izo.

O Ganda Izo é uma milícia da etnia Fulani. Foi formada em 2008 para o mesmo fim do Ganda Koy. Ou seja, fornecer auto-proteção para a população local Fulani e combater a rebelião tuaregue. Porém, acabou abrindo as portas de sua organização a outras etnias e abrindo campos de treinamento militar em Mopti.

Dito isto, qual é a dos tuaregues?
Nesta história, são os bonzinhos.
A tribo tuaregue maliense faz parte da comunidade nômade do Saara.
No Mali, vivem na área Azawad - que se refere à língua tuaregue que cobre o norte do país. Azawad consiste de três regiões: Timbuktu, Gao e Kidal.
Os tuaregues representam cerca de 7% da população do Mali. Há décadas que o MNLA reclama da negligência e da marginalidade à qual são submetidos pelo governo maliense, confortavelmente instalado em Balako, no sul do país.
E reivindicam a independência do norte para poderem dirigir o Azawad como quiserem, pois o consideram seu país legítimo povoado desde sempre por seus ancestrais.
Como o Sudão do Sul conquistou a liberdade com facilidade, não entendem como a comunidade internacional não apoia sua luta pela sepração do sul e pela soberania.
A história pós-colonial dos tuaregues no Mali tem se caracterizado por uma série de rebeliões iniciadas em 1962.
E por que não são ouvidos em vez de serem perseguidos e massacrados?
Porque a porção do Sahel que reivindicam pode estar cheia de petróleo e gás.
A Argélia, a França e o Qatar têm explorado o lado da Mauritânia na Bacia Taoudeni, e a Argélia tem a concessão do lado do Mali. Justamente na região tuaregue, na qual especialistas dizem conter urânio, ouro e outras riquezas naturais.
Os tuaregues são ricos em teoria. Pois o norte do Mali é uma das mais pobres do planeta e o governo do sul não fez quase nada para desenvolvê-la a fim de melhorar as condições precárias da população tuaregue.
Daí a rebelião tuaregue liderada pelo MNLA em janeiro de 2012. Ela conquistou dois terços da área reivindicada e declarou a independência do Azawad.
A alegria durou pouco. A rebeldia dos dois grupos separatistas foi logo esmagada pelos grupos de bandidos jihadistas milionários com a ajuda do governo central.
Agora os ocidentais estão pedindo ajuda aos tuaregues para combater o al-Qaeda no Sahel que conhecem como a palma da mão.
E foi aí que Bilal Al Cherif, chefe do MNLA e presidente do ex-futuro-Estado Azawad perguntou: "Temos de combater o al-Qaeda em troca de quê? Os governos ocidentais vão reconhecer o Azawad e ajudar-nos? Que eles nos deem assistência política, militar, econômica e segurança, aí lutaremos contra os terroristas".     
Enquanto os franceses bombardeiam e os diplomatas tentam seduzir os tuaregues com palavras,o AQIM, o Ansar Din e o MUJAO controlam o Timbuktu fazendo como os talibã fazem para ganhar adeptos. Os salafistas distribuem arroz e pão à população miserável e polícia religiosa impõe a ordem.
Exatamente o que pretendem fazer na Síria logo que tiverem a oportunidade.

Trocando em miúdos, faz dez anos que os simpatizantes do al-Qaeda  instalou-se no norte do Mali como parte de um acordo secreto com Amadou Toumani Touré (ATT), então presidente do país. ATT foi deposto em um golpe militar em março de 2012 devido à conquista tuaregue sucessiva das cidades do Norte.
Durante a presidência de ATT, o AQIM acumulou uma fortuna com resgastes. US$250 milhões. Mais de cinquenta europeus e canadenses foram sequestrados na última década. Geralmente na Nigéria.
Atualmente há sete sequestrados à espera de serem libertados contra US$132 milhões de dólares de resgaste.
As negociações de resgate eram feitas através da presidência do Mali e enriqueceram muitos VIPs do governo. Cada um recebia sua parte. Inclusive o presidente.
Um dos homens que mais se enriqueceram com o negócio de sequestros foi Iyad Ag Ghali, líder do Ansar Din, um equivalente local do Mullah Omar dos Talibã afegãos. Ghali intermediou quase todas as negociações. De 2003 a 2012.
Faz anos que os tuaregues malienses reclamam da cumplicidade entre o governo e o al-Qaeda, em vão.
Segundo os Nortistas, para-militares do AQIM circulam livremente em cidades tuaregues. Fazem compras, frequentam casamentos e desfilam armados pelas ruas na frente da polícia. Que não faz nada porque não pode e não consegue.
O coronel Habi ag al Salat, um oficial maliense que deixou o Exército para integrar-se no MNLA, foi um dos primeiros a denunciar a presença de argelinos do GSPC (Salafi Group for Preaching and Combat - Grupo Salafista para religião e combate) em cidades tuaregues.
Mas quando Habi avisou seus superiores hierárquicos, eles o mandaram calar a boca e deixar os para-militares em paz porque "não são inimigos do Mali".
E mesmo depois do GSPC mudar o nome para AQIM - al-Qaeda no Magrebe Islâmico - após um pacto anunciado por Ayman al Zawahiri, a polícia não mudou nada.  
O Mali facilitou a instalação do al-Qaeda lhe garantindo liberdade de movimento dentro das famílias para aliciar a juventude.

Essa cumplicidade do governo com bandidos radicais deve-se ao desejo tuaregue de emancipação.
Faz cinquenta anos que o Mali vem administrando a rebelião tuaregue, que começou depois da independência da França em 1960.
Nenhum dos países do Sahel ou Sahara apóia a noção de de um novo Estado. Sobretudo um que incite as aspirações Berber na Argélia, ou a mais séria dos tuaregues na parte rica em petróleo no sul da Argélia, ou do sudoeste da líbia também rica em petróleo, ou a parte rica em uranio no norte tuaregue da Nigéria.
A maior ameaça existencial para os Estados do Mali, Nigéria e Argélia são as rebeliões tuaregues/berberes .
Os governos dessa região morrem de medo e de inveja dos tuaregues, embora eles sejam um dos povos mais pobres e isolados do planeta. Porque vivem em alguns dos solos mais ricos em recursos naturais do mundo.
Nestes últimos anos, a União Europeia e os Estados Unidos encheram o governo do Mali de milhões de dólares e euros para combater o al-Qaeda. Só que a maioria absoluta deste dinheiro foi desviada para esmagar a insurgência tuaregue.
Em vez de combater o Mal internacional, o governo usou o dinheiro para combater rebeldes nacionais.
Segundo o UNODC - departamento de Droga e Crime das Nações Unidas - o norte do Mali é o maior corredor de tráfico de drogas do planeta. O movimento é de US$1.8 a US$2 bilhões anuais em cocaína transitando do Oeste da África para a Europa e Oriente Médio.
Ibrahim Ag al Saleh, deputado de Bourem, epicentro do tráfico de cocaína no norte do Mali, afirma que ATT e a esposa estavam envolvidos no negócio da droga até o pescoço.
"O presidente usava o lucro do tráfico e dos resgates para financiar as milícias no norte que protegiam o tráfico e a rebelião tuaregue. Hoje em dia são os mesmos traficantes que ostentam a bandeira de Allah em Gao e em Bourem. Agora que não têm mais a proteção de ATT, estão se escondendo atrás dos salafistas (islamitas radicais)."
Enquanto ATT investia nas milicias para-militares, o Exército maliense passava necessidade e estava desmoralizado. Os soldados vendiam armas para comprar comida e eram obrigados a assistir o AQIM desfilar na frente dos quarteis e aviões aterrizarem perto de suas bases. O sistema estava podre. Por isto foi derrubado.
O próprio emir do AQIM, o argelino Abdelmalek Droukdel, vulgo Abu Musab Abdel Wadoud, ousou apresentar-se na televisão para pedir para os malienses rejeitarem o MNLA e assim "preservarem a integridade territorial do Mali". Como se fosse isso que lhe interessasse.
O fato é que o ocidente fechou os olhos para o crescimento da coalição extremista no Sahel e agora a França bombardeia mais em desespero de causa.
Bombardear do alto é fácil. Limpar o terreno é muito mais complicado.
Vai ser difícil dizimar a coalição "al-Qaedista" no Sahel. Suas bases militares foram se solidificando com o tempo e com a fortuna que saiu do bolso das empresas e dos governos ocidentais em pagamentos de resgaste. E do tráfico.
Estes grupos se prepararam para expandir-se além do Sahel e do Saara. Daí sua presença na Síria, que o ocidente teima em minimizar. 
Boa sorte à França e seus aliados. Mas sobretudo boa sorte aos Tuaregues.
E a Bashar el-Assad no combate dos milhares de salafistas estrangeiros que estão tentando derrubá-lo para depois passar uma rasteira nos rebeldes nacionais e instalarem a Sharia.

Post-Scriptum
Com tudo o que está acontecendo no Mali e na Argélia, com o número de pessoas sendo mortas, e o único comentário que fazem comigo, fora do trabalho, é sobre a morte e o perigo que correm os reféns ocidentais.
É demais.
Eu nunca consegui entender porquê o "collateral demage" da responsabilidade dos países da Europa e dos EUA é diferente do "collateral damage" dos outros lados.
Para os argelinos, sua operação militar foi um sucesso. Os mortos europeus, estadunidenses, japoneses, que estavam lá com salários no mínimo três vezes mais altos do que o argelino mais bem pago, eram collateral damage.
Para a mídia e os governos ocidentais, estes funcionários-mercenários viraram mártires.
É claro que não mereciam morrer e nem serem maltratados. Aliás, ninguém merece.
Contudo, se fossem argelinos, o máximo que teria sido dito sobre a perda humana teria sido "consequência trágica".
Esta regra de dois pesos e duas medidas é, no mínimo, cansativa. No máximo, insuportável.
Lembro-me que durante a "guerra" do Iraque, um dia, George W. Bush ousou dizer que o collateral damage de civis iraquianos era de "Thirty thousand, mor or less". Ou seja, não se importam nem com a conta aproximativa do número de vidas de homens, mulheres e crianças que para eles não têm importância.
Mas todos sabem de cor quantos soldados estadunidenses morreram, no mesmo período: 4.486.
Bernard Kouchner, o francês oportunista disfarçado de humanitário, chegou a solicitar a ajuda da Inglaterra para combater o "terrorismo islamita" em sua ex-colônia Mali. (Que poucos ingleses, europeus, asiáticos, americanos, conheciam antes da semana passada. Menos ainda sabiam que Bamako era o nome da capital. Estou errada?)
O caolho Mokhtar Belmokhtar, o novo inimigo n°1 do Ocidente, não é nenhum Osama ben Laden. Que era perigoso porque era fanático religioso radical, mas acreditava em algo.
Belmokhtar é traficante, contrabandista, sequestrador, assassino, em suma, bandido. Não é um ideólogo islamita. É um malfeitor que quanto mais for tratado de "islamita", mais será aproximado de jovens muçulmanos carentes e incautos, que verão nele um herói; e se for morto, um mártir.
Ele não é nenhum herói idealista. É um bandoleiro da pior espécie. Dar-lhe um rótulo religioso, mesmo sendo para obter simpatia da opinião pública francesa e apoio dos aliados, é um erro.
Disto isto, e voltando ao início, que não me venham condenar os argelinos por tratarem os mortos dos países do Primeiro Mundo com o desdém que o Primeiro Mundo trata os mortos iraquianos, afegãos, palestinos, enfim todos os que atravessam no caminho de conquista de riquezas naturais e de hegemonia.
Daí o ódio contra Bashar el-Assad. O ditador que tem agenda própria, que não se dobra às vontades dos ocidentais. Assad é "inimigo de Israel", portanto, persona non grata. Isto, embora - como disse acima e venho dizendo desde o ano atrasado - muitos de seus oponentes sejam bandoleiros do mesmo naipe de Belmokhtar e de seus cupinchas salafistas radicais, que foram à Síria bagunçar para reinar.
Que pelo menos François Hollande entenda que não pode bombardear a turma de Belmokhtar no Mali, na Argélia e na Nigéria (onde os bombardeios tendem a propagar), e na Síria, defendê-los e apoiá-los como se fossem bons rapazes - naquela mesma lógica imediatista gringa do pragmatismo irresponsável.
Espera-se que a França, altamente intelectualizada e orgulhosa da lógica cartesiana que a caracteriza, tenha um mínimo de coerência. Enfim, o raciocínio básico que falta aos Estados Unidos.

Curiosidade jornalística.
Em dezembro do ano passado, o New York Times , que a imprensa brasileira adora louvar, publicou em seu site uma matéria cujo título admitia que Israel ocupava a Palestina. Algumas horas depois o título foi mudado como por milagre, certamente após as pressões e a censura mostrarem a cara.
Há uma cordo tácito na grande mídia gringa de usar o termo "disputed" em referência às terras tiradas dos palestinos para a construção de invasões judias. Ilegais, segundo as leis internacionais. Mas nesse dia o colega responsável estava com vontade de dizer a verdade. Sua sinceridade ficou seis horas no ar.
1. Editado às 13:09 “Palestinians Set Up Camp in Israeli-Occupied West Bank Territory.”
2. Reeditado às 19:10 “Palestinians Set Up Tents Where Israel Plans Homes.”
Confira abaixo.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Emancipação, repressão, e quem sabe, a gota d'água


Com todo aparato repressivo e figura autoritária emblemática, Muammar Kadhafi em seu Reino do Silêncio, como a Líbia é chamada, mesmo recorrendo à força máxima está penando para guardar sua seara na impunidade.
Tudo começou em Trípoli com o baixo-assinado em que 213 personalidades de meios profissionais variados exigiam o fim de seus 41 anos de “reinado” e denunciavam os males que vem infligindo à sociedade. Enquanto isto no norte do país, em Benghazi, começava a passeata anual em memória de um assassinato de presos que marcou a cidade. Virou uma manifestação reprimida com a violência própria a Kadhafi.
Benghazi é longe de Trípoli e demorou uma semana para as ruas da capital se encherem de jovens gritando Kefaya! sendo recebidos a fogo pelo forte aparato policial que tinha sido dobrado. Mas desta vez condenou-se a violência, mas ninguém ousou falar em derrubar Kadhafi. Todos sabem do que ele é capaz. Kadhafi não é o fraco Ben Ali, nem o venal Mubarak, nem um sheik bilionário. Kadhafi conquistou o poder aos 27 anos liderando uma revolta militar. Com ele não é questão só de ambição financeira desmesurada ou sede de poder insaciável. Sua divisa é a dos Romanos: ordine; a ordem à qual se sacrifica tudo, começando pela liberdade de palavra. Quem conhece Kadhafi sabe que governa a Líbia como se fosse a sua casa. Age como um padrasto impiedoso que não recua diante de nada para proteger seus filhos em detrimento dos enteados e impor suas leis e suas vontades. E ninguém "paga" seu salário. Ninguém "patrocina" suas forças armadas. Kadhafi é autônomo. Tem certeza de que não precisa de ninguém nem de nada. Acima dele, só Allah. É por isto que se deu ao direito de atacar os manifestantes com todas as sua forças armadas. E assim começou a história de um massacre anunciado. Quanto tempo vai durar, só Allah sabe. Se Kadhafi vai conseguir sair ileso desta guerra contra seu povo, é pouco provável.

No Bahein, país de 750m² compostos de trinta ilhas vizinhas do Qatar, em resposta à morte de dois afiliados, o principal partido xiita al-Wefaq suspendeu sua participação no governo e em seguida as ruas de Manama foram invadidas de homens e mulheres (estas, de hijab preto) exigindo a renúncia do Sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa (tio do rei e primeiro ministro desde 1971), a libertação dos prisioneiros religiosos e uma nova constituição.
A ironia é ser justamente no Bahein, que tem o maior índice de liberdade política e social do Golfo, que a revolta mude de cara. Aqui ela tem a cara religiosa que a imprensa sensacionalista pintava (pinta?) das outras capitais. Os xiitas são maioria no país em que o milhão e trezentos mil habitantes são governados pelos Khalifa, a família real sunita que ocupa o trono há dois séculos.
A relação entre os xiitas e os sunitas lembra a discórdia sangrenta entre os protestantes e os católicos nos séculos XVI e XVII na Europa. Lutero x Papa. Alih x Abu-Bakr ou Abu-Bakr x Alih; conforme for o seu lado.
Eu disse que a cara é religiosa, mas é só um lado e nem este lado tem a feição do al-Qaida. Pode tirar o peso da alma. Esta face é a dos velhos, arcaica. Os jovens gritam Não aos xiitas! Não aos sunitas! Somos todos bareinitas! e mostram a outra face. A da emancipação laica.

Em Ramallah, os jovens também continuam a reivindicar a união do Fatah e do Hamas, e a demissão do presidente Mahmoud Abbas e do primeiro ministro Salam Fayadd. Desacreditados pelas revelações dos Palestine Papers e fragilizados pela relação que tinham com Hosni Mubarak.

No Yêmen, embora as ruas de Sana'a estejam menos cheias do que nos dias passados, após os tiros trocados, teme-se que o os chefes tribais aproveitem para invadir a capital com todo seu arsenal. Eu continuo achando (ou esperando) que não passa de ameaça. A não ser que tenham planejado um suicídio coletivo diante do palácio de Ali Abdullah Saleh para sensibilizá-lo.

. Os “novos” dirigentes da Tunísia, do Egito e dos países que seguirão seus passos, terão de lidar com posições internacionais impopulares tomadas pelo antigo regime ditadas por interesses estrangeiros. A primeira é o bloqueio da Faixa de Gaza; a segunda é a situação do Iraque, a terceira é a hostilidade bélica dirigida ao Irã, e a última, ligada à primeira, à mediação desacreditada do conflito Israelo-palestino.
Estas quatro reclamações são ouvidas em todos os países árabes, já ou ainda não inflamados.

Onda de Liberdade x Rede de repressão armadaNão é por nada que na Tunísia as potências ocidentais repudiaram Ben Ali de imediato e muitos hesitaram a abandonar o fiel aliado Hosni Mubarak. É pela posição estratégica do Egito entre a África e a Ásia e por ser o farol sócio-político da Liga Árabe. Como o Brasil em nossas paragens.
No século XVIII exerceu profunda influência social, política e cultural na modernização da região e entre 1952 e 1970 se destacou dos vizinhos graças ao seu carismático presidente Gamal Abdel Nasser cuja personalidade forte e inteligência aguçada valeram ao país uma independência pragmática e liderança incontestável. Após a morte de Nasser o Egito perdeu a aura visionária, mas conservou bastante influência durante a gestão de Anuar Sadat e mais tarde, com Hosni Mubarak, apesar do enfraquecimento pessoal deste devido à subserviência aos EUA.
Até 2010 foi um exemplo de autoritarismo e de repressão disfarçada, como no Brasil dos militares. Sua transformação em democracia liberal como a da Turquia, teria (terá?) portanto graves consequências sócio-políticas, pois o quadro é mais ou menos o mesmo na região por todos os lados.
O crescimento econômico razoável nos estados não-petroleiros não gerou empregos e sim desempregados, a administração e a corrupção ficaram incontroláveis, as famílias estão menos sólidas do que no passado, o sistema educativo se encontra em processo de decomposição rápida, a realização profissional virou um sonho dificilmente realizável, e sobretudo, o despotismo, agravado por um nepotismo declarado, tem ficado cada vez mais claro e insuportável.
Com a abertura no Egito, o efeito dominó é inevitável.
A revolta na Líbia mostra que nem figuras emblemáticas como o terrível Kadhafi estão imunes à emancipação popular. Neste caso, até eu fiquei surpreendida de ver estes líbios amáveis mas acostumados a andar de cabeça baixa, levantá-la.
Se, se, se conseguirem derrubar Kadhafi, nenhum outro ditador estará imune ao levante popular. Mas o que realça nestes movimentos de emancipação, além do espírito secular que retrata, é a uniformidade do sistema repressivo vigente nos regimes árabes.
Como por exemplo, a repetida armação dos “contra” nas ruas de Sana’a, Alger, Amman, Ramallah, Bahein a fim de facilitar a ação militar e “desaparecer” com as figuras mais destacadas, como aconteceu no Cairo. Isto porque, como a Operação Condor da CIA formou a rede de repressão e cavou porões na América do Sul começando no Brasil em 1964, os países árabes também têm uma rede de “Informação” coesa e implacável.
Faz anos que os Serviços Secretos trocam figurinhas sobre técnicas de tortura sofisticadas aprendidas com os colonizadores ocidentais “civilizados”. Foi em Alger, ou melhor, na Delegacia de Chateauneuf, como o DOI CODI local é chamado, que os egípcios aprenderam a usar eletricidade nos órgãos genitais dos presos políticos. Aliás, quando falei de tortura semanas atrás, não mencionei a maneira dos argelinos desvirtuarem o ouro azul – são especialistas em uma tortura que consiste em encher o torturado de água até ele rebentar.
Em 1994, os argelinos foram à Síria saber como o então presidente Hafez El-Assad tinha lidado com o levante muçulmano de 1982 em Hama e aprenderam que bastou explodir a cidade e deixar os cadáveres de inocentes e culpados expostos na praça. Como os portugueses fizeram com Tiradentes durante a nossa Inconfidência de Minas Gerais.
Não há prescrição histórica para a barbárie?
Em dezembro foram os tunisianos que visitaram os argelinos para se atualizarem na arte de torturar. Ainda não se sabe se e quando serão praticadas no período “pós-revolucionário”.
Trocando em miúdos, o que está acontecendo nos países árabes foi o que aconteceu na América do Sul na década de 80 – aquela corrente de Basta! contra a Operação Condor e os milhares de desaparecidos e torturados nas masmorras dos nossos regimes militares.
Até ontem, até agora, nestes países em que os jovens estão dizendo Kefaya!, os dirigentes também recebiam ordens do Pentágono e os sádicos nacionais, também formados por “especialistas” ocidentais, se esqueciam dos princípios humanos básicos como no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai...
Como no nosso Cone Sul, o Oriente Médio cansou de apanhar, ser derrubado e ficar deitado. Deixou o medo de lado e resolveu se levantar.
Como no nosso Cone Sul, Washington está demorando a desencarnar. Sua reação de apoio imediato só foi dirigida ao Irã, aos jovens que saíram às ruas de Teheran e foram matracados... E repete os erros do passado intervindo justamente onde atrapalha.
Mudam-se os tempos, mas os EUA não mudam suas vontades imediatas.

Na ONU, o veto altamente inflamávelNa sequência de imobilidade geopolítica, os EUA vetaram na ONU a moção que condena a construção de novas colônias israelenses na Cisjordânia peitando os outros 14 membros do Conselho de Segurança. Nesta questão internacional também a Casa Branca continua isolada.
O argumento usado é em si um ultraje: Embora concordemos com os demais no tocante à ilegitimidade do prosseguimento das colônias, achamos desaconselhável que o Conselho tente resolver questões de fundo que dividem israelenses e palestinos.
(Vale lembrar que conforme as leis internacionais as colônias existentes já são ilegais. O que para Israel tanto faz. Assim como as 34 resoluções da ONU que desrespeita na impunidade. Se a Organização das Nações Unidas não tiver poder para fazer cumprir suas próprias leis, quem terá? Para que ela existe, de fato?)
Os delegados dos demais países membros permanentes ou transitórios do Conselho ficaram estupefatos. Alguns exprimiram sua incompreensão e raiva. Outros engoliram em seco e devem ter ido rezar para que esta servidão cega a Israel, criticada com veemência até pelas ONGs de Direitos Humanos de Tel Aviv, embora faça Benyamin Netanyahu e Avigdor Lieberman rirem e esfregarem as mãos, não termine em mais lágrimas amargas.
Pois esta nova “vitória” do lobby israelense (1) não deixa de ser uma derrota, já que terminou de converter Israel em um passivo perigoso para os EUA. Com o veto desta semana a uma posição mais moral e legal do que efetiva, Barak Obama deu as costas ao mundo, admitiu sua autonomia fictícia e arruinou grande parte do capital de simpatia internacional que ainda tinha.
Que Netanyahu e Lieberman não se iludam. Este novo sucesso lobístico é um golpe no processo de paz. Só conseguiram devolver os Estados Unidos ao isolamento em que a ocupação do Iraque os havia levado. W. Bush deve estar rolando de rir de seu sucessor que fez tantas promessas pacíficas antes de assumir o cargo carregado de compromissos intricados.
É claro que Barack Obama e Hillary Clinton estão cientes que dando carta branca a Israel para prosseguir sua ocupação ilegal da Cisjordânia provocam um desastre político e humanitário (2) que inviabiliza qualquer passo da Autoridade Palestina em direção à mesa de negociação.
É claro que Obama e Clinton sabem que sua relação com os países árabes desmoronou na hora que apoiaram Israel em um assunto inapoiável.
Mas por incrível que pareça o veto foi pensado, calculado, e Obama mais uma vez pesou errado os seus interesses político-partidários. E antes de votar, teve a ousadia de ligar para Ramallah na véspera para forçar Mahmoud Abbas a impedir que a Resolução fosse votada. A pressão telefônica durou 50 minutos. Surrealista ou amoral?
A ONG israelense de Direitos Humanos Gush Shalom já declarou que a AIPAC (3) não é um lobby israelense, mas sim um lobby anti-israelense “que acumula um poder desmesurado que impede que Israel corrija seus graves erros políticos e leva nosso país a uma política auto-destrutiva que compromete nosso futuro ao negar a Israel a menor chance de alcançar a paz com os vizinhos e ao empurrar o país em direção ao abismo da ocupação, colonização e do racismo.”
Gush Shalom e as outras ONGs de Direitos Humanos têm razão. A notícia pode inflamar as passeatas que se multiplicam nos países árabes e teme-se que daqui a pouco bandeiras estadunidenses voltem a ser queimadas.
O argumento usado pelos EUA de que o assunto da Palestina não é da alçada do Conselho de Segurança da ONU é o mesmo que usam sempre para bloquear sistematicamente qualquer ação internacional na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Vale lembrar que o Conselho de Segurança é composto de cinco membros permanentes – China, Inglaterra, França, EUA e Rússia – e dez com mandatos anuais. A ONU só pode agir quando a decisão é aprovada por unanimidade.
Faz anos que o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho, mas a porta é bloqueada. Em 2011, o Brasil faz parte dos dez membros não-permanentes que têm a oportunidade de tentar mudar algo.
Já que o nosso país teve a coragem política e a ética de reconhecer o Estado da Palestina com as fronteiras de 1967, por que não aproveitar 2011 para apresentar ao Conselho uma proposta de admissão da Palestina na ONU como Estado?
Pode até não dar em nada. Mas vai mostrar que ao contrário dos EUA e dos outros quatro membros do BRIC “candidatos” à hegemonia político-econômica mundial, o Brasil tem visão internacional a curto, médio e longo prazo. E de lambuja, sabe liderar.

The Israeli Lobby

Global BDS Movement

BDS Flash Mob
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E agora, Wael?


... E dezoito dias depois, Barack Obama resolve convencer Hosni Mubarak a deixar o cargo. Uma vez mais o presidente dos EUA seguiu, em vez de liderar. Agora tem de pressionar o Exército egípcio, que quase depende dele para o salário, a assegurar a transição democrática.
Como disse na semana passada, o Patriarca caiu em desgraça, foi para sua mansão à margem do Mar Vermelho, mas deixou a cabeça e os dois braços armados a postos no Cairo. Omar Suleiman e o general Tantawi continuam lá. Mas terão de escutar. O Egito não é mais o mesmo. Os egípcios acordaram e não estão dispostos a deixar a conquista resvalar. Prometem continuar a vigília de casa, do trabalho, da universidade, e através de uma imprensa livre para denunciar.
A festa na rua foi bonita, o otimismo e a alegria continuam, porém... hoje é difícil cantar vitória. No final das contas, vai depender de quão grande é a dissensão no Exército e de quão potentes são os oficiais democratas. Hoje os soldados são chamados de irmãos, mas soldado é peão. Peão não se desloca, é deslocado e só de casa em casa, para frente ou para trás, e neste tabuleiro de xadrez a rainha é Tantawi e o rei é Suleiman. Enquanto ambos não forem transformados em torres, bispos ou tirados do jogo, vai ser preciso vigilância constante para que as reformas vinguem e para que haja eleições livres, sem corrupção.
Dito isto sobre o Egito, um balanço provisório se impõe na região.
Desde que al-Qaeda protagonizou as explosões das torres gêmeas de Nova York, Ben Laden foi transformado NO Bicho Papão e o Islamismo foi estigmatizado como uma religião que fabrica terroristas em massa.
No século III o persa Mani inventou esta teoria do Universo ser dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis do oito ou oitenta, do Bem e do Mal absolutos, mas a vida e o mundo já provaram n vezes que o maniqueísmo é desumano e falho.
Nenhuma religião fabrica terrorista, nenhuma fabrica vítima e nenhuma fabrica tolerância e liberalismo. Se religião influenciasse alguém e algo, o capitalismo não teria tido nenhuma chance de triunfar entre os cristãos, o “nosso” mundo teria vivido dezessete séculos de paz e o Ocidente seria uma imensa Shangri-La.
O que diferencia as pessoas pode ser a visão.
Por exemplo, a pessoa cuja visão econômica se estende da Teoria de Sentimentos Morais do escocês Adam Smith ao Das Kapital de Karl Marx entende melhor o cerne da revolta nos países árabes do que os “Chicago boys” adeptos de Milton Friedman e sua teoria do choque (http://www.youtube.com/watch?v=aSF0e6oO_tw).
Ben Laden é uma ameaça, mas é uma ameaça ínfima comparada com a dos khobzistes (desempregados do Magreb). Os efeitos colaterais dos regimes autoritários que permitem as vidas de nababo dos clãs dos dirigentes dos países árabes – a concentração da riqueza atinge um grau inimaginável enquanto ao resto do país falta o básico – já eram claros, mas negligenciados.

Um exemplo. Na Tunísia, os Trabelsi, a família de Leila, esposa do presidente escorraçado – irmãos, primos, cunhados, parentes próximos e distantes – controlam todos os setores importantes da economia, segundo se ouve, de maneira insaciável. Aliás, uma das piadas que corria sobre Ben Ali é que, parado por um policial por excesso de velocidade, ele argumenta que é o presidente Ben Ali e o policial responde “Nunca ouvi falar” e o leva para a delegacia onde o delegado olha sua carteira de identidade e diz “Tudo bem. Ele é parente dos Trabelsis”. A anedota retrata o que, apesar da calma, não sai da cabeça dos tunisianos: comparado com a rede de poder, de força e de controle que os Trabelsi exercem sobre a Tunísia, Ben Ali não é nada. A rede continua armada.
No Yêmen, sociedade tradicionalmente tribal, os manifestantes que enchem as ruas da capital, Sana’a, pedem, além de comida e trabalho, que o presidente demita do serviço público todos os familiares. No país mais bonito dos mares Vermelho e da Arábia – embora seja um dos mais inaccessíveis ao turismo internacional por ter “herdado” as bases da fronteira do Paquistão/Afeganistão do al-Qa’ida (palavra que significa justamente Base), as passeatas populares nas ruas da capital cultural árabe – 2.500 anos e com muito da beleza arquitetural histórica intacta – mostra justamente a fragilidade do maniqueísmo e dos dogmas ocidentais. O governo de Ali Abdullah Saleh também completou 30 anos (quarto mandato de sete anos) e com al-Qaida ou não nas paragens, as manifestações também, por enquanto, têm sido laicas. Com a miséria atingindo cinquenta por cento da população, a reserva de petróleo (70% do PIB) esgotando sem que a população tenha se beneficiado, rebeliões no Norte e um movimento secessionista no Sul difícil de parar, Saleh está conseguindo acalmar o povo prometendo não se recandidatar em 2013, baixar os impostos, aumentar os salários do funcionalismo público, e dos militares que guardam suas costas. Aliás, em um país em que os homens saem à rua com kalashnikov debaixo do braço, um afrontamento acarretaria milhares de mortos de ambas as partes. A calma também prova que ao contrário do que alguns acham, todo mundo prefere viver em paz.
Na década de 60, no mundo árabe, os regimes subsidiavam gêneros de primeira necessidade para assegurar a passividade. Na década de 80, trocaram o pão pelo voto e na Argélia a troca ocasionou uma revolta religiosa de proporções enormes em 1988 e na Jordânia um processo de liberalização salutar.
São águas passadas. Em 2011, as marchas em Tunis, Amman, Sana’a, Argel, Ramallah, Alexandria, Suez, Cairo... são um reflexo de sobrevivência de quem está morrendo sufocado.
Apesar da falta de conhecimento e/ou de assunto levar uma certa mídia a apavorar o leitor incauto, o movimento popular árabe é de emancipação. Mas se o Ocidente se esforçar, pode até conseguir empurrá-los para o extremismo religioso e em vez de democracia tudo acabe em sharia.

PS1. Falando em Lei islâmica, no Irã, o Aiatolá supremo Khamenei tentou ligar o processo revolucionário do Egito ao movimento que destituiu o xá Rheza Pahlavi (governou de 1941-79) e acabou na revolução que instituiu a República Islâmica no país. Porém, em comum os dois países só têm o xá, a quem Anuar el-Sadat deu asilo no Cairo. Até o ex-presidente Aiatolá Rafsanjani contradiz o rival: “É provável que o Irã acabe importando a revolução egípcia... o povo quer que más elites sejam sentenciadas e más ideias política removidas... o povo quer democracia.” Sem contar que nas ruas de Teheran em 1979 viam-se tantas faixas com slogans islâmicos quanto políticos, as passeatas foram feitas durante um feriado religioso e eram as vozes do Aiatolá Khomeini e outros líderes religiosos que comandavam os participantes nas ruas à oração. Hoje, como já disse, os Imãs estão ausentes das capitais “revoltadas” e apesar do peso político da Fraternidade Islâmica, a organização não liderou nada, muito pelo contrário, ficou de fora até ser chamada à mesa para negociar. Enquanto isto, a voz que é ouvida e aclamada no Egito é a de Wael Ghonim http://www.youtube.com/watch?v=4OgnO3fILno. O jovem executivo da Google cujo Facebook foi um dos principais motores da revolta. “Desaparecido” no dia 27 de janeiro e interrogado de olhos tapados durante 11 dias, onde, não sabe, de volta às ruas na segunda-feira passada com toda força e vontade, sua entrevista levou o país inteiro às lágrimas, reanimou os jovens ativistas e animou seus pais e os operários. Toda revolução tem um mártir. A do Egito tem um herói que chegou na hora exata. Quando tudo parecia perdido e acabado Wael reenergizou os ânimos e lembrou o porquê de estarem lá, sujos, afônicos, cansados, mas redispostos a lutar.
Enquanto o Egito desperta vigorosamente de uma letargia que parecia interminável, do Irã chegam notícias que desmentem tanto o Aiatolá supremo quanto os enviados de Washington: os gritos das ruas de Alexandria e do Cairo chegaram até a دانشگاه مادر Universidade Mãe, em Teheran, e os dedos-duros que pululam nas salas de aula como pululavam nas nossas até 1984, estão pondo as forças armadas em alerta. آزادی Azadi, é como os persas clamam Liberdade.

PS2. O xá Rezah Pahlavi usou em 1979 o mesmo argumento que Mubarak usou até a semana passada para manter sua ditadura nepotista no Egito. O persa apelou para o pavor dos Estados Unidos de seu inimigo máximo na época – o comunismo – para justificar seu regime autoritário e para torturar ativistas democratas com a bênção dos mesmos aliados que protegeram Mubarak até não poderem mais. O árabe recorreu até o fim à ameaça do Islã fundamentalista como se o sonho dos muçulmanos fosse só deixar crescer a barba e hijab.
Não é. Querem mais. As mesmas coisas que querem os jovens ocidentais: estudo, respeito, trabalho e liberdade.

PS3. O Oriente Médio pegando fogo, o povo assumindo o controle, exigindo seus direitos cívicos, dignidade, respeito aos valores nacionais e nacionalistas, e o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, em vez de ficar quieto, cutuca Washington para só olhar o seu lado e provoca os palestinos com discursos belicosos.
Durante a semana Israel voltou a bombardear Gaza ferindo oito pessoas e destruindo um posto de saúde no norte da Faixa. Foi mais uma “retaliação” noturna aos foguetes arcaicos. Até hoje nós jornalistas ainda não conseguimos entender se os bombardeios são executados à noite por covardia ou pelo prazer mórbido de fazer as famílias viverem em sobressalto.
Comecei esta matéria no Egito e acabei na Palestina... O problema com o Oriente Médio é que, onde quer que seja o incêndio o vento o alimenta sempre com as cinzas que Israel mantém vivas nos Territórios Ocupados; e da Cisjordânia e de Gaza as flamas se alastram. Só quem ainda não entendeu isto foi Washington. Faz anos que os defensores da paz e de Israel aconselham os governos sucessivos a negociar enquanto podem e a resposta é sempre a mesma: Israel é forte e os árabes são fracos; paz só nos termos sionistas ideais. Hoje, estas vozes solidárias a Israel soam mais preocupadas. A elas juntam-se as dos que querem que justiça se faça sem que mais sangue seja derramado. Israel tem de sentar-se à mesa de negociação com o Fatah, e o Hamas, sem tardar. Agora não tem mais como se auto-congratularem que os israelenses são intrinsecamente potentes e os palestinos intrinsecamente frágeis. Uma quimera. Tem intelectuais palestinos por toda parte – apesar dos check points que visam dificultar o acesso às escolas, noventa por cento dos jovens palestinos cristãos e muçulmanos chegam à universidade. E agora está claro que com poder financeiro e/ou bélico externo guardando suas costas, são os dirigentes que são débeis e venais, e não os árabes.
Aliás, em Ramallah, os jovens também saíram às ruas para protestar. Na Cisjordânia exigiram, exigem, o fim da divisão que Israel alimentou para reinar. Os gritos chamam à união do Fatah e do Hamas em uma frente única e solidária para negociar seus direitos de existir e a paz.
Novos tempos, novas vontades.