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domingo, 1 de julho de 2012

UNESCO tomba a Natividade, o SCAF policia o Cairo e na Síria, diplomacia



Acho que já foi manchete de todos os jornais do mundo, mas mesmo assim, resolvi marcar a data histórica acrescentando, espero, mais informações do que as que foram dadas na imprensa nacional. 
No dia 29 de junho a UNESCO (Organização Educacional, Científica e Cultural da ONU) reforçou sua posição de árbitro independente do controle estadunidense das Nações Unidas garantindo à Basílica da Natividade e à rota de peregrinação em Belém, na Cisjordânia, o estatuto de Patrimônio Universal da Humanidade, palestino, em perigo.
Junto com o gesto simbólico, desbloqueou verba para a restauração dos estragos. Causados pela visita anual de cerca de dois milhões de peregrinos cristãos (cujos euros e dólares não contribuem à economia local e sim à de Israel, devido ao controle turístico), pelas "obras" do muro/barreira de separação e pelas investidas militares da IDF em 2002 durante a campanha "Defensive Shield", sob o comando do então primeiro ministro Ariel Sharon.
A reunião dos 21 membros do Comitê de Patrimônio Universal (África do Sul, Alemanha, Argélia, Camboja, Colômbia, Emirados Árabes, Estônia, Etiópia, França, India, Iraque, Japão, Malásia, Mali, México, Qatar, Rússia, Senegal, Sérvia, Suiça, Tailândia) foi na Rússia, em São Petersburgo, cidade simbólica do cristianismo. Treze votaram a favor, dois se abstiveram e seis votaram contra.
O lobby dos Estados Unidos e Israel foi onipresente durante a campanha palestina de emergência, mas a Unesco já provara no ano passado que este lobby, lá, não é onipotente e desta vez também não conseguiu impedir o voto favorável.

Diretora da UNESCO, a búlgara Irina Bokova,
com o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas,
durante o reconhecimento da Palestina na Organização no ano passado

http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2011/10/unesco-desafia-onu-afeganistao.html
 http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2011/11/unesco-diz-sim-palestina.html 
Vale lembrar que ao contrário da ONU em que as decisões da Assembleia dependem de ratificação unânime do Conselho de Segurança composto de cinco membros (China, Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia), o Comitê da Unesco funciona por maioria.
Foi assim que a Palestina foi reconhecida no ano passado apesar da rejeição dos Estados Unidos, de Israel e dos países a estes submissos.
O interessante do escândalo mundial causado pelo voto da Unesco é que no mesmo dia, da lista  de 35 candidatos (inclusive uma paisagem litorânea no Rio de Janeiro), a Basílica da Natividade não foi o único sítio escolhido no Oriente Médio.
Entre os cinco tombados, dois eram lá localizados.
O outro foi o Monte Carmelo, em Israel, chamado pelos israelenses de Sítio da Evolução Humana - as grutas de Nahal Me'arot/Wadi el-Mughara.
Esta inscrição passou em brancas nuvens e não foi contestada.
Só para refrescar a memória, a Lista de Patrimônio Universal foi criada em 1972 e contém 936 propriedades. 725 culturais, 183 naturais e 28 propriedades mistas, em 153 Estados, inclusive o Brasil, como se sabe - e a Catedral Notre Dame, em Paris, na França.  
O governo de Israel ficou tão preocupado em condenar e denegrir a vitória dos palestinos - e da humanidade - que nem celebrou sua vitória pessoal.
Soltou o veneno costumeiro junto com o padrinho estadunidense e apesar do voto duplo da Unesco ter demonstrado que não queria botar lenha na fogueira da discórdia, os dois inimigos mortais (literalmente) da Palestina foram de uma ingratidão que surpreendeu os ingênuos.
O comunicado de imprensa do ministro das relações exteriores de Israel - o colono fascista Avigdor Lieberman - dizia que "Isto prova que a UNESCO está agindo com considerações políticas e não culturais.... O mundo deve lembrar que a Igreja da Natividade, sagrada para os cristãos, foi dessacralizada no passado por terroristas palestinos".
Lieberman referia-se ao episódio que abordaremos dentro de domingos na História do conflito Israel vs Palestina, em que durante a operação Defensive Shield os padres deram santuário na Igreja a resistentes palestinos cristãos e muçulmanos que corriam risco de vida. Lieberman, que quase matou um menino palestino que sem água em casa tentou tomar um pouco da dele que abundava, não entende muito bem ou de jeito nenhum a noção cristã de santuário à qual nossas igrejas são engajadas. Coitado.
Quanto a seu porta-voz Yigal Palmor, declarou que Israel não se opunha à inclusão da Igreja da Natividade na lista de Patrimônios da Humanidade (como se sua opinião mudasse algo), mas considerou esta iniciativa um gesto político contra Israel.
Que eu saiba, nem Palmor nem Lieberman nem o primeiro ministro Netanyahu demonstraram satisfação pela inclusão do sítio israelense no Patrimônio da Humanidade. Reconhecimento pelo gesto de moderação diplomática da UNESCO, então, nem se fala, é claro. 
Nem Barack Obama, que em plena campanha eleitoral anda às catas dos dólares do lobby sionista da AIPAC e não quer deixar mais espaço nem dinheiro ao rival.
Através de seu embaixador David Killion, o presidente dos EUA declarou-se "profundamente desapontado com o Comitê. Este Corpo não deveria ser politizado". 
Cultura e política sempre andaram de mãos dadas. Ou Obama não sabe? 

Enquanto Israel e os EUA resmungavam engolindo a bilis do ódio, os palestinos nem pensavam em lamentar a inclusão do Monte Carmel na Lista. Só pensavam em celebrar o novo estatuto de proteção internacional da Basílica da Natividade e do caminho que os peregrinos seguem para chegar até ela.
O primeiro ministro palestino Salam Fayyad reconheceu a importância internacional para um futuro Estado Palestino, o fato de seu país ter sido colocado junto com nações e culturas mundiais, "e um triunfo da justiça". 
A parlamentar cristã Hanan Ashrawi, porta-voz da Autoridade Palestina, declarou por sua vez que "o voto foi uma afirmação da soberania palestina sobre o sítio que para os cristãos marca o nascimento de Jesus Cristo."  
Para quem ainda não esteve na Basílica da Natividade, uma rota de peregrinação leva até a portinha baixa que força o peregrino a abaixar-se em um gesto de humildade para adentrar o recinto sagrado.
A igreja em si é adornada de mosaicos e lâmpadas e uma escadinha leva o visitante à gruta da Natividade.
A basílica foi edificada no ano 339 DC pelo imperador romano Constantino I (que também construiu Constantinopla - atual Istambul e a igreja Hagia Sofia).
O sítio fica a 12 quilômetros de Jerusalém, na gruta que Justino identificou no Século II como a gruta em que Nossa Senhora dera a luz.
A basílica foi queimada no século VI e restaurada em seguida com a preservação dos mosaicos originais do assoalho.
O sítio inteiro comporta os conventos ortodoxo, armeniano, latino; a igreja de Santa Catarina; a torre com um sino da época; jardins e rota de peregrinação controlada pelos soldados israelenses. 
Tudo foi incluído na Lista e em princípio a IDF terá de deixar, pelo menos nestas imediações, os palestinos, os turistas conscientes e os ativistas internacionais em paz. 
Daí a procedência de emergência usada pela delegação palestina.
"O sítio tem claramente tremendo significado histórico", disse o embaixador dos EUA, "porém, o procedimento de emergência usado é reservado a casos extremos".
Que era este caso. Evitar a pressão do lobby antagonista sobre os membros do Comitê e conseguir que o voto sofresse o mínimo de influência possível.
Que esperneiem ou se conformem não mudarão o fato que desde o dia 29 de junho de 2012, a Igreja da Natividade está inscrita na UNESCO desta forma: propriedade da Palestina N31 42 15 67 E35 12 27 de 2.98 hectares em um zona de 23 hectares, referência 1433.
O processo é, em princípio, irreversível.
Esta vitória diplomática só será completa quando os turistas ocidentais em visita aos sítios cristãos da Terra Santa - Jerusalém, Jericó, Betânia, Monte das Oliveiras - começarem a exigir das agências de turismo que lá os levam que contratem guias palestinos (além do gesto  solidário, estes têm a vantagem de saber realmente do que falam, pois além de conhecerem os Evangelhos, conhecem suas cidades ancestrais de cor e decorado).
E quando você estiver lá, não entre e saia dos locais como uma ovelha alienada. Ande pelas ruas de Belém, Jericó, Betânia, Jerusalém Oriental e consuma algo nos "botecos" e restaurantes locais. O chá de menta palestino é delicioso e os doces são de comer ajoelhado!
Concluindo com duas perguntas de incentivo à caminhada de braços dados com um cristianismo real, realista, engajado: Quando a UNESCO vai tombar a Jerusalém antiga, Gaza, para proteger esta cidade de cinco mil anos dos bombardeios constantes que a desfiguram desde 1967;  e quando a ONU vai acabar com a ocupação civil e militar da Palestina mandando os capacetes azuis imporem as leis internacionais?
O reconhecimento da Igreja da Natividade é só o segundo passo.
Ainda faltam muitos para que justiça seja feita de maneira integral.


Enquanto isto no Cairo, dezessete meses depois dos estudantes ocuparem a praça Tahrir exigindo trabalho e liberdade, os egípcios exerceram o direito democrático, votaram e escolheram para a presidência Mohammed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana.
Alguns colegas jornalistas veem a vitória de Morsi como uma derrota para o movimento de liberdade que só integrou após a prisão de Mubarak.
Pensando a curto prazo, concordo quando a análise é baseada nos dois seguintes fatos.
O primeiro releva do papel nulo ou fraco que a Irmandade representou no processo revolucionário. Longe de valer-lhe a liderança máxima da nação que pouco fez para livrar de Hosni Mubarak.
O segundo releva dos conchavos feitos durante os meses de transição com o SCAF - Conselho Supremo das Forças Armadas - para aceder ao cargo máximo.
Aliás, a relação entre a Irmandade Muçulmana e o SCAF foi mais do que de conchavo. Foi um Amém às emendas legais feitas pelos militares antes das eleições.
Dentre elas, uma que submete o presidente ao comando militar e não o inverso - todas as decisões de segurança são da alçada do SCAF e não do presidente eleito. Inclusive declaração de guerra - "O presidente da República declara guerra após aprovação do SCAF", é a frase específica do estatuto atual.
Estas emendas foram publicadas no Jornal Oficial al-Jaridah Al-Rasmiyyah que detalhou as atribuições do SCAF antes das eleições esvaziando o poder de qualquer candidato que o povo elegesse. 
Falando em povo, outra emenda floreada com belas palavras - "princípios revolucionários", "interesses nacionais" -  atribui poder aos oficiais militares de policiar os civis e usar força considerada constitucional, além de autorizar o presidente a ordenar que as forças armadas o ajudem a manter a ordem pública e a proteger instalações vitais... Ordem esta também submetida à aprovação do Conselho.
O pior não é a restrição de poder do presidente ao lado.
O pior é a expansão dos poderes do SCAF até na Constituição que ainda vai ser escrita e aprovada.
Os generais do Conselho se outorgaram o direito de leitura do rascunho da constituição e de contestar sua substância antes de ser passada a limpo. Pode revisar qualquer cláusula que "contradiga os objetivos e os princípios básicos da revolução".
E uma das emendas autoriza o SCAF a assumir o controle da Assembleia Constituinte - se esta encontrar algum obstáculo - a formar outra Assembleia em uma semana e que esta redija a Constituição em três meses, submeta-a a referendum nas duas semanas seguintes e proceda a eleições parlamentares em seguida.
Além do controle político o SCAF preenche o vácuo do Poder Judiciário quando se nomeia "árbitro moral" da nação.
Tem um artigo em que concede o mesmo direito de vistoria da Constituição ao presidente, ao primeiro ministro, ao Conselho Supremo do Judiciário, ou a um quinto da Assembleia Constituinte. Sob aprovação do SCAF.
Apesar disso tudo - é aí que discordo dos colegas pessimistas - acho que o país do qual o SCAF tem as rédeas não é mais aquele de "Primeiro, Mubarak!" 
Este Egito em renovação tem partidos políticos de várias cores e os estudantes não vão submeter-se facilmente à "democradura" militar que os generais desejam.    
Com as passeatas experimentaram a liberdade.
Com Mubarak foi-se o medo de reivindicar seus direitos e viver plenamente os valores democráticos que reivindicaram.  
Sem contar que a integração dos religiosos ao processo político, com todas as imperfeições da Irmandade Muçulmana, divide os polos e pode não ser nociva, se for moderada.
Quem quer que esteja no poder, o que os jovens egípcios que ocuparam a Tahrir em janeiro de 2011 querem mesmo é um país em que cooptas e muçulmanos, religiosos e laicos, homens e mulheres convivam e contribuam para o desenvolvimento de um país que lhes dê perspectiva e trabalho.
E com o SCAF protegendo todos em vez de oprimir o povo de mãos dadas com os Estados Unidos.
Só para lembrar o que o SCAF representa, quem lidera o Conselho é o general Mohamed Hussein Tantawi Soliman. Pois é, aquele mesmo que comandava as Forças Armadas desde 1991 como ministro da defesa de Hosni Mubarak. Foi ele também que comandou as tropas egípcias na "Guerra do Golfo" liderada pelos Estados Unidos de George Bush pai.
Mohammed Morsi inaugurou seu mandato com um discurso de desafio, de independência, em suma, de rebelião contra o SCAF.
O futuro dirá se foi só para acalmar os universitários ou se está realmente determinado.
De qualquer jeito, no caos econômico em que se encontra o Egito (a Tunísia, ídem), a faixa presidencial devia estar com um abacaxi pregado.



Não canso de lembrar neste blog que a Palestina tem sido ocupada, pilhada, humilhada e "purgada" dos nativos desde 1948. 64 anos. Ocupação ilegal, segundo as Nações Unidas, mas mesmo assim tolerada bem que mal, apesar das inúmeras Resoluções abastratas infrutíferas.
A Síria, que vive um conflito interno, em um ano despertou a atenção das Nações Unidas e do secretário geral Ban Ki Moon cedeu lugar a seu predecessor no cargo Kofi Annan, menos identificado como porta-voz dos Estados Unidos, e Hillary Clinton fez da queda de Bashar el-Assad o cavalo de batalha internacional prioritário.
Primeiro queria uma intervenção militar, mas Vladimir Putin disse Нет (Niet, não) e os oponentes de Assad acabaram "só" com armas, primeiro leves, depois pesadas.
Vendo que a Rússia não abria mão e que Pequin seguia Moscou nesta decisão, acabou concordando com uma solução diplomática. Contudo, tirando Assad da jogada.
Na reunião da comissão internacional do dia 30 de junho, Putin repetiu sem Assad Нет e tiveram de procurar outra fórmula.
Aliás, resolver um problema sem os interessados é outra coisa comum que não entendo.
É aquela postura paternalista dos países ocidentais - não nós, mas os que dominam o mundo - acharem que sabem mais o que é melhor para uma nação do que os cidadãos locais.
Esta condescendência intelecto-cultural só causa danos. Vide o Afeganistão, o Iraque, enfim, onde quer que a OTAM intervenha e em vez de resolver agrave o problema.
Mas como defendo a cem por cento a diplomacia e o poder estável do diálogo contra a instabilidade da força bruta das armas, apoio a iniciativa de Kofi Annan e torço para que acordo se faça.
Mais cedo do que tarde.


Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Emancipação, repressão, e quem sabe, a gota d'água


Com todo aparato repressivo e figura autoritária emblemática, Muammar Kadhafi em seu Reino do Silêncio, como a Líbia é chamada, mesmo recorrendo à força máxima está penando para guardar sua seara na impunidade.
Tudo começou em Trípoli com o baixo-assinado em que 213 personalidades de meios profissionais variados exigiam o fim de seus 41 anos de “reinado” e denunciavam os males que vem infligindo à sociedade. Enquanto isto no norte do país, em Benghazi, começava a passeata anual em memória de um assassinato de presos que marcou a cidade. Virou uma manifestação reprimida com a violência própria a Kadhafi.
Benghazi é longe de Trípoli e demorou uma semana para as ruas da capital se encherem de jovens gritando Kefaya! sendo recebidos a fogo pelo forte aparato policial que tinha sido dobrado. Mas desta vez condenou-se a violência, mas ninguém ousou falar em derrubar Kadhafi. Todos sabem do que ele é capaz. Kadhafi não é o fraco Ben Ali, nem o venal Mubarak, nem um sheik bilionário. Kadhafi conquistou o poder aos 27 anos liderando uma revolta militar. Com ele não é questão só de ambição financeira desmesurada ou sede de poder insaciável. Sua divisa é a dos Romanos: ordine; a ordem à qual se sacrifica tudo, começando pela liberdade de palavra. Quem conhece Kadhafi sabe que governa a Líbia como se fosse a sua casa. Age como um padrasto impiedoso que não recua diante de nada para proteger seus filhos em detrimento dos enteados e impor suas leis e suas vontades. E ninguém "paga" seu salário. Ninguém "patrocina" suas forças armadas. Kadhafi é autônomo. Tem certeza de que não precisa de ninguém nem de nada. Acima dele, só Allah. É por isto que se deu ao direito de atacar os manifestantes com todas as sua forças armadas. E assim começou a história de um massacre anunciado. Quanto tempo vai durar, só Allah sabe. Se Kadhafi vai conseguir sair ileso desta guerra contra seu povo, é pouco provável.

No Bahein, país de 750m² compostos de trinta ilhas vizinhas do Qatar, em resposta à morte de dois afiliados, o principal partido xiita al-Wefaq suspendeu sua participação no governo e em seguida as ruas de Manama foram invadidas de homens e mulheres (estas, de hijab preto) exigindo a renúncia do Sheik Khalifa Bin Salman al-Khalifa (tio do rei e primeiro ministro desde 1971), a libertação dos prisioneiros religiosos e uma nova constituição.
A ironia é ser justamente no Bahein, que tem o maior índice de liberdade política e social do Golfo, que a revolta mude de cara. Aqui ela tem a cara religiosa que a imprensa sensacionalista pintava (pinta?) das outras capitais. Os xiitas são maioria no país em que o milhão e trezentos mil habitantes são governados pelos Khalifa, a família real sunita que ocupa o trono há dois séculos.
A relação entre os xiitas e os sunitas lembra a discórdia sangrenta entre os protestantes e os católicos nos séculos XVI e XVII na Europa. Lutero x Papa. Alih x Abu-Bakr ou Abu-Bakr x Alih; conforme for o seu lado.
Eu disse que a cara é religiosa, mas é só um lado e nem este lado tem a feição do al-Qaida. Pode tirar o peso da alma. Esta face é a dos velhos, arcaica. Os jovens gritam Não aos xiitas! Não aos sunitas! Somos todos bareinitas! e mostram a outra face. A da emancipação laica.

Em Ramallah, os jovens também continuam a reivindicar a união do Fatah e do Hamas, e a demissão do presidente Mahmoud Abbas e do primeiro ministro Salam Fayadd. Desacreditados pelas revelações dos Palestine Papers e fragilizados pela relação que tinham com Hosni Mubarak.

No Yêmen, embora as ruas de Sana'a estejam menos cheias do que nos dias passados, após os tiros trocados, teme-se que o os chefes tribais aproveitem para invadir a capital com todo seu arsenal. Eu continuo achando (ou esperando) que não passa de ameaça. A não ser que tenham planejado um suicídio coletivo diante do palácio de Ali Abdullah Saleh para sensibilizá-lo.

. Os “novos” dirigentes da Tunísia, do Egito e dos países que seguirão seus passos, terão de lidar com posições internacionais impopulares tomadas pelo antigo regime ditadas por interesses estrangeiros. A primeira é o bloqueio da Faixa de Gaza; a segunda é a situação do Iraque, a terceira é a hostilidade bélica dirigida ao Irã, e a última, ligada à primeira, à mediação desacreditada do conflito Israelo-palestino.
Estas quatro reclamações são ouvidas em todos os países árabes, já ou ainda não inflamados.

Onda de Liberdade x Rede de repressão armadaNão é por nada que na Tunísia as potências ocidentais repudiaram Ben Ali de imediato e muitos hesitaram a abandonar o fiel aliado Hosni Mubarak. É pela posição estratégica do Egito entre a África e a Ásia e por ser o farol sócio-político da Liga Árabe. Como o Brasil em nossas paragens.
No século XVIII exerceu profunda influência social, política e cultural na modernização da região e entre 1952 e 1970 se destacou dos vizinhos graças ao seu carismático presidente Gamal Abdel Nasser cuja personalidade forte e inteligência aguçada valeram ao país uma independência pragmática e liderança incontestável. Após a morte de Nasser o Egito perdeu a aura visionária, mas conservou bastante influência durante a gestão de Anuar Sadat e mais tarde, com Hosni Mubarak, apesar do enfraquecimento pessoal deste devido à subserviência aos EUA.
Até 2010 foi um exemplo de autoritarismo e de repressão disfarçada, como no Brasil dos militares. Sua transformação em democracia liberal como a da Turquia, teria (terá?) portanto graves consequências sócio-políticas, pois o quadro é mais ou menos o mesmo na região por todos os lados.
O crescimento econômico razoável nos estados não-petroleiros não gerou empregos e sim desempregados, a administração e a corrupção ficaram incontroláveis, as famílias estão menos sólidas do que no passado, o sistema educativo se encontra em processo de decomposição rápida, a realização profissional virou um sonho dificilmente realizável, e sobretudo, o despotismo, agravado por um nepotismo declarado, tem ficado cada vez mais claro e insuportável.
Com a abertura no Egito, o efeito dominó é inevitável.
A revolta na Líbia mostra que nem figuras emblemáticas como o terrível Kadhafi estão imunes à emancipação popular. Neste caso, até eu fiquei surpreendida de ver estes líbios amáveis mas acostumados a andar de cabeça baixa, levantá-la.
Se, se, se conseguirem derrubar Kadhafi, nenhum outro ditador estará imune ao levante popular. Mas o que realça nestes movimentos de emancipação, além do espírito secular que retrata, é a uniformidade do sistema repressivo vigente nos regimes árabes.
Como por exemplo, a repetida armação dos “contra” nas ruas de Sana’a, Alger, Amman, Ramallah, Bahein a fim de facilitar a ação militar e “desaparecer” com as figuras mais destacadas, como aconteceu no Cairo. Isto porque, como a Operação Condor da CIA formou a rede de repressão e cavou porões na América do Sul começando no Brasil em 1964, os países árabes também têm uma rede de “Informação” coesa e implacável.
Faz anos que os Serviços Secretos trocam figurinhas sobre técnicas de tortura sofisticadas aprendidas com os colonizadores ocidentais “civilizados”. Foi em Alger, ou melhor, na Delegacia de Chateauneuf, como o DOI CODI local é chamado, que os egípcios aprenderam a usar eletricidade nos órgãos genitais dos presos políticos. Aliás, quando falei de tortura semanas atrás, não mencionei a maneira dos argelinos desvirtuarem o ouro azul – são especialistas em uma tortura que consiste em encher o torturado de água até ele rebentar.
Em 1994, os argelinos foram à Síria saber como o então presidente Hafez El-Assad tinha lidado com o levante muçulmano de 1982 em Hama e aprenderam que bastou explodir a cidade e deixar os cadáveres de inocentes e culpados expostos na praça. Como os portugueses fizeram com Tiradentes durante a nossa Inconfidência de Minas Gerais.
Não há prescrição histórica para a barbárie?
Em dezembro foram os tunisianos que visitaram os argelinos para se atualizarem na arte de torturar. Ainda não se sabe se e quando serão praticadas no período “pós-revolucionário”.
Trocando em miúdos, o que está acontecendo nos países árabes foi o que aconteceu na América do Sul na década de 80 – aquela corrente de Basta! contra a Operação Condor e os milhares de desaparecidos e torturados nas masmorras dos nossos regimes militares.
Até ontem, até agora, nestes países em que os jovens estão dizendo Kefaya!, os dirigentes também recebiam ordens do Pentágono e os sádicos nacionais, também formados por “especialistas” ocidentais, se esqueciam dos princípios humanos básicos como no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai...
Como no nosso Cone Sul, o Oriente Médio cansou de apanhar, ser derrubado e ficar deitado. Deixou o medo de lado e resolveu se levantar.
Como no nosso Cone Sul, Washington está demorando a desencarnar. Sua reação de apoio imediato só foi dirigida ao Irã, aos jovens que saíram às ruas de Teheran e foram matracados... E repete os erros do passado intervindo justamente onde atrapalha.
Mudam-se os tempos, mas os EUA não mudam suas vontades imediatas.

Na ONU, o veto altamente inflamávelNa sequência de imobilidade geopolítica, os EUA vetaram na ONU a moção que condena a construção de novas colônias israelenses na Cisjordânia peitando os outros 14 membros do Conselho de Segurança. Nesta questão internacional também a Casa Branca continua isolada.
O argumento usado é em si um ultraje: Embora concordemos com os demais no tocante à ilegitimidade do prosseguimento das colônias, achamos desaconselhável que o Conselho tente resolver questões de fundo que dividem israelenses e palestinos.
(Vale lembrar que conforme as leis internacionais as colônias existentes já são ilegais. O que para Israel tanto faz. Assim como as 34 resoluções da ONU que desrespeita na impunidade. Se a Organização das Nações Unidas não tiver poder para fazer cumprir suas próprias leis, quem terá? Para que ela existe, de fato?)
Os delegados dos demais países membros permanentes ou transitórios do Conselho ficaram estupefatos. Alguns exprimiram sua incompreensão e raiva. Outros engoliram em seco e devem ter ido rezar para que esta servidão cega a Israel, criticada com veemência até pelas ONGs de Direitos Humanos de Tel Aviv, embora faça Benyamin Netanyahu e Avigdor Lieberman rirem e esfregarem as mãos, não termine em mais lágrimas amargas.
Pois esta nova “vitória” do lobby israelense (1) não deixa de ser uma derrota, já que terminou de converter Israel em um passivo perigoso para os EUA. Com o veto desta semana a uma posição mais moral e legal do que efetiva, Barak Obama deu as costas ao mundo, admitiu sua autonomia fictícia e arruinou grande parte do capital de simpatia internacional que ainda tinha.
Que Netanyahu e Lieberman não se iludam. Este novo sucesso lobístico é um golpe no processo de paz. Só conseguiram devolver os Estados Unidos ao isolamento em que a ocupação do Iraque os havia levado. W. Bush deve estar rolando de rir de seu sucessor que fez tantas promessas pacíficas antes de assumir o cargo carregado de compromissos intricados.
É claro que Barack Obama e Hillary Clinton estão cientes que dando carta branca a Israel para prosseguir sua ocupação ilegal da Cisjordânia provocam um desastre político e humanitário (2) que inviabiliza qualquer passo da Autoridade Palestina em direção à mesa de negociação.
É claro que Obama e Clinton sabem que sua relação com os países árabes desmoronou na hora que apoiaram Israel em um assunto inapoiável.
Mas por incrível que pareça o veto foi pensado, calculado, e Obama mais uma vez pesou errado os seus interesses político-partidários. E antes de votar, teve a ousadia de ligar para Ramallah na véspera para forçar Mahmoud Abbas a impedir que a Resolução fosse votada. A pressão telefônica durou 50 minutos. Surrealista ou amoral?
A ONG israelense de Direitos Humanos Gush Shalom já declarou que a AIPAC (3) não é um lobby israelense, mas sim um lobby anti-israelense “que acumula um poder desmesurado que impede que Israel corrija seus graves erros políticos e leva nosso país a uma política auto-destrutiva que compromete nosso futuro ao negar a Israel a menor chance de alcançar a paz com os vizinhos e ao empurrar o país em direção ao abismo da ocupação, colonização e do racismo.”
Gush Shalom e as outras ONGs de Direitos Humanos têm razão. A notícia pode inflamar as passeatas que se multiplicam nos países árabes e teme-se que daqui a pouco bandeiras estadunidenses voltem a ser queimadas.
O argumento usado pelos EUA de que o assunto da Palestina não é da alçada do Conselho de Segurança da ONU é o mesmo que usam sempre para bloquear sistematicamente qualquer ação internacional na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Vale lembrar que o Conselho de Segurança é composto de cinco membros permanentes – China, Inglaterra, França, EUA e Rússia – e dez com mandatos anuais. A ONU só pode agir quando a decisão é aprovada por unanimidade.
Faz anos que o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho, mas a porta é bloqueada. Em 2011, o Brasil faz parte dos dez membros não-permanentes que têm a oportunidade de tentar mudar algo.
Já que o nosso país teve a coragem política e a ética de reconhecer o Estado da Palestina com as fronteiras de 1967, por que não aproveitar 2011 para apresentar ao Conselho uma proposta de admissão da Palestina na ONU como Estado?
Pode até não dar em nada. Mas vai mostrar que ao contrário dos EUA e dos outros quatro membros do BRIC “candidatos” à hegemonia político-econômica mundial, o Brasil tem visão internacional a curto, médio e longo prazo. E de lambuja, sabe liderar.

The Israeli Lobby

Global BDS Movement

BDS Flash Mob
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E agora, Wael?


... E dezoito dias depois, Barack Obama resolve convencer Hosni Mubarak a deixar o cargo. Uma vez mais o presidente dos EUA seguiu, em vez de liderar. Agora tem de pressionar o Exército egípcio, que quase depende dele para o salário, a assegurar a transição democrática.
Como disse na semana passada, o Patriarca caiu em desgraça, foi para sua mansão à margem do Mar Vermelho, mas deixou a cabeça e os dois braços armados a postos no Cairo. Omar Suleiman e o general Tantawi continuam lá. Mas terão de escutar. O Egito não é mais o mesmo. Os egípcios acordaram e não estão dispostos a deixar a conquista resvalar. Prometem continuar a vigília de casa, do trabalho, da universidade, e através de uma imprensa livre para denunciar.
A festa na rua foi bonita, o otimismo e a alegria continuam, porém... hoje é difícil cantar vitória. No final das contas, vai depender de quão grande é a dissensão no Exército e de quão potentes são os oficiais democratas. Hoje os soldados são chamados de irmãos, mas soldado é peão. Peão não se desloca, é deslocado e só de casa em casa, para frente ou para trás, e neste tabuleiro de xadrez a rainha é Tantawi e o rei é Suleiman. Enquanto ambos não forem transformados em torres, bispos ou tirados do jogo, vai ser preciso vigilância constante para que as reformas vinguem e para que haja eleições livres, sem corrupção.
Dito isto sobre o Egito, um balanço provisório se impõe na região.
Desde que al-Qaeda protagonizou as explosões das torres gêmeas de Nova York, Ben Laden foi transformado NO Bicho Papão e o Islamismo foi estigmatizado como uma religião que fabrica terroristas em massa.
No século III o persa Mani inventou esta teoria do Universo ser dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis do oito ou oitenta, do Bem e do Mal absolutos, mas a vida e o mundo já provaram n vezes que o maniqueísmo é desumano e falho.
Nenhuma religião fabrica terrorista, nenhuma fabrica vítima e nenhuma fabrica tolerância e liberalismo. Se religião influenciasse alguém e algo, o capitalismo não teria tido nenhuma chance de triunfar entre os cristãos, o “nosso” mundo teria vivido dezessete séculos de paz e o Ocidente seria uma imensa Shangri-La.
O que diferencia as pessoas pode ser a visão.
Por exemplo, a pessoa cuja visão econômica se estende da Teoria de Sentimentos Morais do escocês Adam Smith ao Das Kapital de Karl Marx entende melhor o cerne da revolta nos países árabes do que os “Chicago boys” adeptos de Milton Friedman e sua teoria do choque (http://www.youtube.com/watch?v=aSF0e6oO_tw).
Ben Laden é uma ameaça, mas é uma ameaça ínfima comparada com a dos khobzistes (desempregados do Magreb). Os efeitos colaterais dos regimes autoritários que permitem as vidas de nababo dos clãs dos dirigentes dos países árabes – a concentração da riqueza atinge um grau inimaginável enquanto ao resto do país falta o básico – já eram claros, mas negligenciados.

Um exemplo. Na Tunísia, os Trabelsi, a família de Leila, esposa do presidente escorraçado – irmãos, primos, cunhados, parentes próximos e distantes – controlam todos os setores importantes da economia, segundo se ouve, de maneira insaciável. Aliás, uma das piadas que corria sobre Ben Ali é que, parado por um policial por excesso de velocidade, ele argumenta que é o presidente Ben Ali e o policial responde “Nunca ouvi falar” e o leva para a delegacia onde o delegado olha sua carteira de identidade e diz “Tudo bem. Ele é parente dos Trabelsis”. A anedota retrata o que, apesar da calma, não sai da cabeça dos tunisianos: comparado com a rede de poder, de força e de controle que os Trabelsi exercem sobre a Tunísia, Ben Ali não é nada. A rede continua armada.
No Yêmen, sociedade tradicionalmente tribal, os manifestantes que enchem as ruas da capital, Sana’a, pedem, além de comida e trabalho, que o presidente demita do serviço público todos os familiares. No país mais bonito dos mares Vermelho e da Arábia – embora seja um dos mais inaccessíveis ao turismo internacional por ter “herdado” as bases da fronteira do Paquistão/Afeganistão do al-Qa’ida (palavra que significa justamente Base), as passeatas populares nas ruas da capital cultural árabe – 2.500 anos e com muito da beleza arquitetural histórica intacta – mostra justamente a fragilidade do maniqueísmo e dos dogmas ocidentais. O governo de Ali Abdullah Saleh também completou 30 anos (quarto mandato de sete anos) e com al-Qaida ou não nas paragens, as manifestações também, por enquanto, têm sido laicas. Com a miséria atingindo cinquenta por cento da população, a reserva de petróleo (70% do PIB) esgotando sem que a população tenha se beneficiado, rebeliões no Norte e um movimento secessionista no Sul difícil de parar, Saleh está conseguindo acalmar o povo prometendo não se recandidatar em 2013, baixar os impostos, aumentar os salários do funcionalismo público, e dos militares que guardam suas costas. Aliás, em um país em que os homens saem à rua com kalashnikov debaixo do braço, um afrontamento acarretaria milhares de mortos de ambas as partes. A calma também prova que ao contrário do que alguns acham, todo mundo prefere viver em paz.
Na década de 60, no mundo árabe, os regimes subsidiavam gêneros de primeira necessidade para assegurar a passividade. Na década de 80, trocaram o pão pelo voto e na Argélia a troca ocasionou uma revolta religiosa de proporções enormes em 1988 e na Jordânia um processo de liberalização salutar.
São águas passadas. Em 2011, as marchas em Tunis, Amman, Sana’a, Argel, Ramallah, Alexandria, Suez, Cairo... são um reflexo de sobrevivência de quem está morrendo sufocado.
Apesar da falta de conhecimento e/ou de assunto levar uma certa mídia a apavorar o leitor incauto, o movimento popular árabe é de emancipação. Mas se o Ocidente se esforçar, pode até conseguir empurrá-los para o extremismo religioso e em vez de democracia tudo acabe em sharia.

PS1. Falando em Lei islâmica, no Irã, o Aiatolá supremo Khamenei tentou ligar o processo revolucionário do Egito ao movimento que destituiu o xá Rheza Pahlavi (governou de 1941-79) e acabou na revolução que instituiu a República Islâmica no país. Porém, em comum os dois países só têm o xá, a quem Anuar el-Sadat deu asilo no Cairo. Até o ex-presidente Aiatolá Rafsanjani contradiz o rival: “É provável que o Irã acabe importando a revolução egípcia... o povo quer que más elites sejam sentenciadas e más ideias política removidas... o povo quer democracia.” Sem contar que nas ruas de Teheran em 1979 viam-se tantas faixas com slogans islâmicos quanto políticos, as passeatas foram feitas durante um feriado religioso e eram as vozes do Aiatolá Khomeini e outros líderes religiosos que comandavam os participantes nas ruas à oração. Hoje, como já disse, os Imãs estão ausentes das capitais “revoltadas” e apesar do peso político da Fraternidade Islâmica, a organização não liderou nada, muito pelo contrário, ficou de fora até ser chamada à mesa para negociar. Enquanto isto, a voz que é ouvida e aclamada no Egito é a de Wael Ghonim http://www.youtube.com/watch?v=4OgnO3fILno. O jovem executivo da Google cujo Facebook foi um dos principais motores da revolta. “Desaparecido” no dia 27 de janeiro e interrogado de olhos tapados durante 11 dias, onde, não sabe, de volta às ruas na segunda-feira passada com toda força e vontade, sua entrevista levou o país inteiro às lágrimas, reanimou os jovens ativistas e animou seus pais e os operários. Toda revolução tem um mártir. A do Egito tem um herói que chegou na hora exata. Quando tudo parecia perdido e acabado Wael reenergizou os ânimos e lembrou o porquê de estarem lá, sujos, afônicos, cansados, mas redispostos a lutar.
Enquanto o Egito desperta vigorosamente de uma letargia que parecia interminável, do Irã chegam notícias que desmentem tanto o Aiatolá supremo quanto os enviados de Washington: os gritos das ruas de Alexandria e do Cairo chegaram até a دانشگاه مادر Universidade Mãe, em Teheran, e os dedos-duros que pululam nas salas de aula como pululavam nas nossas até 1984, estão pondo as forças armadas em alerta. آزادی Azadi, é como os persas clamam Liberdade.

PS2. O xá Rezah Pahlavi usou em 1979 o mesmo argumento que Mubarak usou até a semana passada para manter sua ditadura nepotista no Egito. O persa apelou para o pavor dos Estados Unidos de seu inimigo máximo na época – o comunismo – para justificar seu regime autoritário e para torturar ativistas democratas com a bênção dos mesmos aliados que protegeram Mubarak até não poderem mais. O árabe recorreu até o fim à ameaça do Islã fundamentalista como se o sonho dos muçulmanos fosse só deixar crescer a barba e hijab.
Não é. Querem mais. As mesmas coisas que querem os jovens ocidentais: estudo, respeito, trabalho e liberdade.

PS3. O Oriente Médio pegando fogo, o povo assumindo o controle, exigindo seus direitos cívicos, dignidade, respeito aos valores nacionais e nacionalistas, e o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, em vez de ficar quieto, cutuca Washington para só olhar o seu lado e provoca os palestinos com discursos belicosos.
Durante a semana Israel voltou a bombardear Gaza ferindo oito pessoas e destruindo um posto de saúde no norte da Faixa. Foi mais uma “retaliação” noturna aos foguetes arcaicos. Até hoje nós jornalistas ainda não conseguimos entender se os bombardeios são executados à noite por covardia ou pelo prazer mórbido de fazer as famílias viverem em sobressalto.
Comecei esta matéria no Egito e acabei na Palestina... O problema com o Oriente Médio é que, onde quer que seja o incêndio o vento o alimenta sempre com as cinzas que Israel mantém vivas nos Territórios Ocupados; e da Cisjordânia e de Gaza as flamas se alastram. Só quem ainda não entendeu isto foi Washington. Faz anos que os defensores da paz e de Israel aconselham os governos sucessivos a negociar enquanto podem e a resposta é sempre a mesma: Israel é forte e os árabes são fracos; paz só nos termos sionistas ideais. Hoje, estas vozes solidárias a Israel soam mais preocupadas. A elas juntam-se as dos que querem que justiça se faça sem que mais sangue seja derramado. Israel tem de sentar-se à mesa de negociação com o Fatah, e o Hamas, sem tardar. Agora não tem mais como se auto-congratularem que os israelenses são intrinsecamente potentes e os palestinos intrinsecamente frágeis. Uma quimera. Tem intelectuais palestinos por toda parte – apesar dos check points que visam dificultar o acesso às escolas, noventa por cento dos jovens palestinos cristãos e muçulmanos chegam à universidade. E agora está claro que com poder financeiro e/ou bélico externo guardando suas costas, são os dirigentes que são débeis e venais, e não os árabes.
Aliás, em Ramallah, os jovens também saíram às ruas para protestar. Na Cisjordânia exigiram, exigem, o fim da divisão que Israel alimentou para reinar. Os gritos chamam à união do Fatah e do Hamas em uma frente única e solidária para negociar seus direitos de existir e a paz.
Novos tempos, novas vontades.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O outono do patriarca



Em vez de desfiar o rosário de manifestantes de Alexandria, do Cairo, do punhal de cameleiros, de reviravolta nos palácios, de mortos e feridos cujas imagens indignaram, como as informações são múltiplas, variadas, estão todos cansados, e cultura geral e geopolítica são para mim indissociáveis, resolvi poupá-los de uma grande análise dominical apelando mais uma vez para um ás literário.
O grande Gabriel García Márquez, inspirado, entre outros, nos ditadores Francisco Franco da Espanha, Rafael Trujillo da República Dominicana, Anastazio Somoza da Nicarágua e no venezuelano então recém-deposto Juan Vicente Gómez, publicou em 1975 uma fábula despontuada memorável sobre os efeitos desastrosos da concentração do poder em um único homem e a solidão que este poder proporciona. Revoltado contra o assassinato do presidente chileno Salvador Allende no dia 09 de setembro de 1973 (o 11/9 que abalou a América Latina) o escritor colombiano mudou-se com a família de Bogotá para o México e disse que só voltaria a escrever depois que o Chile se libertasse da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet.
Ainda bem que não cumpriu a promessa e empunhou de novo a pena para atacar a ignorância com sua melhor arma. Em 1981, ano anterior ao seu Prêmio Nobel, publicou a Crônica de uma Morte Anunciada, em que relata o assassinato de um homem por dois outros, mas que só é possível por causa da cumplicidade da cidade que segue toda a armação calada.
Mas antes destas duas obras primas García Márquez escreveu A Má Hora (precursora de Cem anos de solidão) em que mostra a tensão política e a opressão em um povoado cujos habitantes aspiram à liberdade e à justiça, sem resultado.
O Egito viveu e vive uma mistura destas três obras.
Em um paralelo com a Crónica de una muerte anunciada, Hosni Mubárak fez o que faz todo ditador bem assessorado: imprensa censurada, eleições fraudadas, ministros desintelectualisados, promessas falsas. O povo infantilizado era deixado em paz e o que pensava ia para trás das grades sob indiferença geral.
Ninguém via nada. Nem ele? Quem quiser acredite quando Mubárak e os aliados ocidentais dizem que ele não sabia de nada.
Em um paralelo com El otoño del patriarca, Hosni Mubárak viu seu partido decompor-se como um castelo de cartas. O último a abandonar o barco foi o “príncipe herdeiro” Gamal Mubárak, a peça principal de seus sonhos dinásticos. Os Estados Unidos passaram o comando a Omar Suleiman, o Golbery do Couto e Silva de Mubárak, que até a semana passada era um dos homens mais poderosos e temidos do país, próximo dos EUA a ponto das celas Mukhabarat (uma Guantánamo árabe) ter sido um dos destinos preferidos da CIA para levar suspeitos de terrorismo capturados no que se chama “Rendition”. De novo, Suleiman só tem o cargo. As risadas da semana passada viraram risos amargos.
Em um paralelo com La mala hora, cujo título privado foi Este pueblo de mierda, na quarta-feira Mubárak usou do artifício dos “contra” (que a CIA usou na Nicarágua) para desacreditar o movimento democrático e pôr o Exército na rua para “estabelecer calma”. Para completar, seu fiel general Tantawi apareceu na praça Tahrir para dar uma impressão aos manifestantes que eles obteriam o que o nome da praça simbolizava: Liberdade. Enquanto isto, alguns dos jovens que se destacaram e que voltaram em casa para uma higiene básica desapareceram e fala-se que nos porões da ditadura, em vez de inaugurarem uma era de justiça, estão experimentando uma antiga barbárie.
Para não dizer que não falei das flores, como todo ser civilizado da Terra, gostaria que Mubárak se retirasse, mas não sozinho, com Suleiman e Tantawi na bagagem. Que os três deixassem o “comitê de sábios” (1) escolhido pelos Twitters assegurar a transição democrática, que os jovens egípcios conseguissem continuar uma vigília cada vez mais acesa até obterem a democracia almejada, e que se 90% do desejado dessem errado e Omar Suleiman dirigisse o Egito até setembro, alguém o tocasse com uma varinha mágica que o transformasse em nacionalista, democrata, justo, ou no mínimo, leal ao povo que diz representar... e em setembro proporcionasse eleições honestas, que Gamal Mubárak estivesse realmente se afastando do pai de quem fosse realmente diferente e “se” "fosse" “eleito” à presidência daqui a alguns meses, optasse pela auto-determinação e tomasse o lado do povo, do Egito, e não o do autoritarismo, da corrupção e das influências periféricas.
O fato é que em duas semanas a economia do país passou de mal a pior e quem pegar o governo agora vai ter de avisar que é inviável cumprir qualquer programa incompatível com uma política econômica de austeridade.
Após treze dias intensos, apesar de promessas de um lado, e do outro, entusiasmo, não se tem certeza de nada. Os manifestantes pro-democracia estão cansados, mas continuam na praça seguros de que venceram e achando que estão dando as cartas. Será?
O que parece nos palácios – da White House em Washington ao Kasr al-Ittihadiya em Heliópolis, no Cairo – é que apesar do “Comitê de sábios” e a recente agregação da Fraternidade Islâmica (2) ao diálogo, o máximo que se obterá a curto prazo é que Mubárak seja sacrificado para que só se mude as caras e a liberdade continue apenas no nome da praça em que os sonhos de centenas de milhares de jovens começaram.
Mas como disse no início, isto não é uma análise, é um tecido de palavras inspiradas no grande mestre da pena político-literária.
Mas para concluir com otimismo, se não houver mudanças reais, imediatas, após os jovens terem provado o sabor da liberdade democrática que criaram através das passeatas, é bem provável que a tahrir, de direito e de fato, só seja adiada. E quando votarem, elejam um presidente laico, democrata.

(1) A lista formulada na sexta-feira incluía Amr Moussa, secretário geral da Liga Árabe; o prêmio Nobel Ahmed Zuwail, conselheiro pontual de Obama; Mohamed Selim Al-Awa, professor de estudos islamitas próximo da Fraternidade Islâmica; o presidente do partido Wafd, Said AL-Badawi; o empresário Nagib Suez, ligado ao sistema de telefonia cortado na semana passada; Nabil AL-Arabi, um delegado na ONU, o cirurgião cardíaco Magdi Yacoub, e outras personalidades.
(2) A Fraternidade Islâmica é a associação islamita mais organizada no mundo. Presente em mais de quatorze países, foi fundada no Egito em 1928 por Hassan AL-Banna e tem influenciado movimentos muçulmanos, não extremistas em vários países. Mistura ativismo político com trabalho caritativo, é banida de atividades políticas públicas, rejeita violência, apóia princípios democráticos, mas almeja a criação de Estado governado pela lei Islamita. Seu slogan é: o islã é a solução. Seu líder atual é o professor de veterinária Mohamed Badi’e.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tunísia, Egito... o fogo da liberdade se alastra



Atentados mortíferos em Moscou, Bagdá, Kandahar, o chão que treme no Líbano, na Jordânia, no Yemen com as passeatas nas ruas de Beirute, de Amman e de Sanaa..., a semana foi carregada... Culminou com dois acontecimentos geopolíticos incontornáveis: os Palestine Papers divulgados pela TV Al Jazeera e o fogo de revolta que saiu da Tunísia, saltou a Líbia e se alastrou pelo Egito, em Suez, Alexandria, Cairo até queimar o país de Abu-Simbel ao Sinai.
Os Palestine Papers serão abordados em outra oportunidade.
Hoje vou falar sobre o Egito onde Hosni Mubarak luta contra uma revolução que poria fim à sua ditadura “democrática” de 30 anos e que tiraria dos EUA um de seus aliados mais úteis no Oriente Médio.
“Poria” "tiraria" porque como se sabe, tendo de escolher entre um governante árabe que garanta a seu povo democracia, melhores condições de vida e um ditador corrupto que defenda os interesses de Israel e dê uma pseudo-segurança contra o fundamentalismo islamita, os EUA tradicionalmente optam por este último. É aquela política do façam o que eu digo e não o que eu faço. Democracia é bom, mas em casa. Para mim, liberdade, e cabresto para os demais.
Só que o problema com os ditadores é que estão muito distantes do povo, embora sua polícia (esta vestida de preto de cima abaixo) esteja por toda parte. E cedo ou tarde o eco da insatisfação popular reprimida fica alto demais para ser abafado e explode em uma onda de energia que se alastra, atualmente, pela internet, através da qual os jovens se comunicam como a minha geração batia papo nos bares.
Quem conhece o Egito sabe de suas universidades caindo aos pedaços, favelas se alastrando como praga, redes de esgoto se aproximando cada vez mais da insalubridade...
Quem já esteve no Cairo sabe do caos urbano que atola a capital, apesar de seu charme.
Parece que não tem verba para nada, mas dinheiro não falta. A corrupção parece só perder para a tecnologia que permitiu a Hosni Mubarak, em um gesto de desespero político, tirar a internet do ar esperando assim evitar a comunicação e parar as passeatas.
E resolveu falar. Tudo errado. A tensão estava em sua cara e não inspirou respeito, só raiva. Achando que se safaria com um bode expiatório que fizesse esquecer que é ele que é visado, demitiu seu ministério e cometeu um erro crasso. Nomeou como primeiro ministro o chefe de seu Serviço Secreto, o septuagenário Omar Suleiman que já sofreu três ataques cardíacos e é o seu negociador com Israel que passou meses de sua vida, se não anos, entre Jerusalém e Tel Aviv. É inacreditável. Provocou risadas entre os egípcios, pois mostrou quão escassos são seus quadros e que está cada minuto mais acuado.
O Egito está em chamas e o Cairo parece um campo de batalha. Daqui a pouco vai lembrar Bagdá, se Mubarak conseguir se proteger em uma Zona Verde e declarar o resto da cidade Vermelha. Aliás, é quase isto, segundo alguns habitantes que já estão formando milícias em seus bairros para protegê-los da pilhagem de marginais, deixados à vontade pela polícia para semear a anarquia e o caos.
E tudo começou de maneira espontânea. A fórmula foi a da Tunísia. A organização das passeatas foi feita através de Facebook, Twitter e celulares. O Cairo começou a ferver, a tensão era palpável, em Suez as armas dos beduínos substituíram os slogans dos estudantes da capital e a passeata de sexta-feira seria a gota d’água que faria naufragar Mubarak... Mas na madrugada do dia chave a internet saiu do ar. Telas escuras e silêncio total. Era como se fosse a Faixa de Gaza bombardeada quando os Israelenses bloquearam a rede de contato ou na Birmânia quando o ditador de lá, enquanto massacrava os monges, “desligou” os celulares – aliás, o governo chinês cortou há pouco o Egito de todas as comunicações de Twitter e similares... A cara da ditadura muda, mas os métodos são os mesmos em toda parte.
Para jornalista, não poder se comunicar é um pesadelo do qual só pensa em acordar. Os mais antigos na praça correm atrás do velho Telex por onde antigamente a informação circulava, mas onde encontrar uma máquina dessas em bom estado? Para transmitir algo, neste caso, só atravessando a fronteira, mas para onde? Sudão ou Líbia? Foice ou punhal?
O jeito foi esperar testemunhando o que passava.
O “velho” Mubarak está bem preparado, bem armado e parece querer resistir até não poder mais. Trinta anos no poder, um simulacro de democracia com a qual até alguns dias controlava o campo e as cidades... Ele estava tão preocupado em agradar os aliados ocidentais que não viu o tempo passar, o país naufragar, a população mudar, os camponeses deixarem de ser majoritários e seus filhos começarem a reivindicar liberdade e maiores oportunidades.
Quase dois terços dos habitantes nasceram durante o governo Mubarak e destes 50 e poucos milhões, 24 têm menos de 20 anos. Saem da escola, da faculdade, sem perspectiva, sem trabalho e com tempo de sobra para surfar na internet, informar-se e sonhar.
Os tunisianos mostraram o caminho e os jovens egípcios os seguiram sem pestanejar.
E o Egito tem um líder potencial de peso que falta à Tunísia: Mohamed ElBaradei, ex-presidente da Comissão Nuclear das Nações Unidas, e desde o fim do seu mandato diplomático, o mais forte candidato democrático à sucessão de Hosni Mubarak.
Na quinta-feira ElBaradei saiu correndo de Viena, onde reside, para o Cairo. Alguns dizem que lhe faltou faro político, pegou o bonde andando, chegou tarde.
É verdade que se o Prêmio Nobel da Paz quisesse ser o presidente da vez deveria ter pego o avião no dia em que Ben Ali foi escorraçado de Tunis para capitalizar a revolta contra os 30 anos de “reinado” de Mubarak. Mas ElBaradei não foi para o Egito atrás de cargo, segundo fala. Foi para catalisar, mostrar a cara conhecida em todos os palácios do mundo civilizado e assegurar uma transição democrática até a organização de eleições honestas em que todas as facções do país estejam representadas.
Aos 68 anos e uma carreira internacional independente de pressões e até hoje sem falha, como diz o escritor Alaa Al-Aswany, sua figura simboliza tudo pelo que as ruas estão em batalha. E o ditador de 82 anos sabe desta ameaça. ElBraradei levou um jato d’água como qualquer manifestante e depois seguiu o conselho de ficar em casa até a hora de mostrar a voz e a cara ao povo que deu ouvidos às suas palavras.
A revolta está virando revolução de hora em hora. O processo parece irreversível. Da Casa Branca Barak Obama cobrou as mudanças prometidas por Mubarak. Agora é tarde. Teria de aconselhar Mubarak a retirar-se e entregar a chave a ElBaradei para que este arrume a casa enquanto a revolta é laica... Mais uma demonstração da perigosa miopia geopolítica de Washington. Hillary Clinton, por sua vez, fez o discurso errado, ameaçando cortar a ajuda de 1.5 bilhões de dólares... Seu despreparo geopolítico é deplorável... falar em dinheiro quando a questão é de autodeterminação, liberdade... está no limite da decência diplomática. Era melhor ter ficado calada. Mesmo porque este dinheiro não era do povo que está nas ruas. Estas estão lotadas de homens e mulheres que preferem batalhar no trabalho para se alimentar e decidir seu próprio destino do que bilhões de dólares que vão parar em mãos erradas que não contribuem com nada. Depois Hillary ouviu a voz da razão e entendeu que era melhor mudar de lado e apoiar uma transição pacífica.
Esta revolta no Egito é popular. E pelo menos por enquanto é laica. Na sexta-feira as ruas se encheram depois da oração do meio-dia nas mesquitas e no domingo é a vez dos Coptas se juntarem às passeatas após a missa. Pouco se ouve, fora nos enterros, a frase corrente nos países árabes: Allah AlAkbar! (Deus é grande), os jornalistas estrangeiros são bem-vindos, não se queima bandeira americana e a palavra de ordem de muçulmanos e cristãos em uníssono é Kefaya! Basta; é quase como se o país tivesse amadurecido, se olhasse por dentro e por fora, e assumisse sua responsabilidade pela situação em que se encontra sem procurar falsos culpados.
Um colega norte-americano conjeturou sobre o cansaço da massa daqui a alguns dias e Mubarak continuar como se tivesse sido apenas uma onda que passa como no Irã no ano atrasado. Parecia mais uma esperança, o que verbalizava. O Egito não é o Irã. E para que não vire, os EUA, a França, a Inglaterra e a Alemanha têm de ficar de fora, calados publicamente (e ao telefone com Mubarak para que este limite os estragos, no país e pessoais) e deixar a água rolar sem opinar como fizeram no Irã no ano atrasado minando a revolta nacionalista contra Ahmadinejad.
Por enquanto o Exército, que beneficia de farta verba dos EUA, está relativamente quieto. Mas seu comandante, general Tantawi, é amigo pessoal de Mubarak, e pelo que consta, estava em Washington enquanto a polícia atirava no Cairo. Para quê estava lá, só dá para imaginar. Se a ordem que recebeu foi de apoiar Mubarak custe o que custar, vai ser um massacre. Se a ordem foi de aconselhar o amigo a renunciar e assegurar uma transição calma, os soldados estão prontos para acatá-la e gritar Kefaya.
Pois o que se ouve por todos os lados é uma frase simples: Só queremos a demissão de Mubarak e eleições democráticas. E nas ruas, os gritos aconselham Mubarak a pegar o avião e escapar. Para a Arábia Saudita, quem sabe?
Liberdade era o que nós brasileiros queríamos em 1994. Sem luta, sem sangue, só com o povo na rua reivindicando seus direitos inalienáveis. Nossos militares entenderam que era o fim da linha, que estava na hora de deixar os brasileiros decidirem que rumo tomar.
Se os EUA deixarem, os egípcios estão prontos para seguir nossos passos.
A sensação é de que tudo é possível. Da guerra civil, caso Mubarak se agarre ao poder com mais armas, a uma revolução em que realmente as coisas mudam. Do nada ao tudo. Tudo ou nada.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Alexandria! Alexandria!



Alexandria é uma pérola rara. Daquelas pérolas verdadeiras, irresistíveis, imperfeitas, modernas e ao mesmo tempo clássicas. A cidade é o retrato da vida que ela foi acumulando e virando uma madrepérola iridescente que envolve os organismos vivos, humanos, que entram nela e a quem há séculos ela vem acolhendo com brilho renovado.
Como se sabe, Alexandria foi criada pelo macedônio Alexandre, o Grande, em 331 AC para logo virar capital do Egito sob a dinastia dos Ptolomeus, terminada em 30 AC com Ptolomeu XVI, o « rei dos reis » filho de Júlio César e Cleópatra.
Ficou na história primeiro pela Grande Biblioteca construída nessa dinastia em 288 AC com um acervo de 400 mil pergaminhos de valor inestimável – todas as obras de Homero (20 exemplares da Odisséia caligrafada!), Sófocles, Eurípedes, as estantes completas de Aristóteles e de outros filósofos e poetas da antiguidade. Foi incendiada em 48 durante a luta entre Cleópatra e um rival, reconstruída por Marco Antônio com duzentos mil volumes levados de Pergamum, pilhada em 389 DC por fanáticos no reinado de Teodosius e finalmente reconstruída em 2003 para ficar.
Alexandria era a cidade culta regional e a cultura está impregnada em seus prédios, ruelas e ruas largas.
Nasceu cosmopolita e sendo a segunda metrópole do império romano, foi muito importante no desenvolvimento do cristianismo. O evangelista Marcos foi o primeiro patriarca da cidade – sua relíquia foi roubada por mercadores venezianos em 828, transportada a Veneza e sobre ela foi construída a Basílica situada na Praça principal da cidade. Até ser restituída ao Egito onde repousa na Catedral de São Marcos no Cairo.
São Marcos repousa no Cairo, mas o berço do Cristianismo egípcio foi Alexandria. Ela abriga o Patriarca da Igreja Copta e é o cartão postal da tolerância que é sua imagem de marca desde os primórdios. Nela convivem pessoas de todas as origens geográficas e religiosas. É uma cidade civilizada, cujas dimensões acanhadas não lhe tiram as características próprias de uma metrópole.
A bomba que explodiu no dia 31 de dezembro na Igreja dos Santos é portanto um ato terrorista covarde, selvagem e tristemente simbólico. Seu objetivo é semear discórdia inter-comunitária, inter-religiosa, atingir os países ocidentais atacando a menina de seus olhos para minar a tolerância em sua base árabe mais sólida.
Os intelectuais e os representantes políticos e religiosos muçulmanos esclarecidos entenderam a mensagem odiosa e reagiram em seguida condenando o atentado e se distanciando de seu propósito. No Egito, bandeiras com a cruz e a lua crescente, símbolo do islamismo, foram ostentadas em vários lugares para buscar a unidade.

Mas infelizmente o espírito unitário é frágil, pois os problemas dos cristãos locais não se resume a este atentado sanguinário. Os cristãos, 10% da população de 80 milhões de habitantes, vêm se sentindo marginalizados embora vivam no país desde antes de ele ser islamizado. Dispõem de 9 parlamentares - dois eleitos e sete nomeados pelo presidente Hosni Mubarak, no poder há 40 anos e que embora pregue uma sociedade láica, de pluralidade religiosa, deixa decisões importantes nas mãos de pessoas com objetivos menos unitários. Há pouco tempo os cristãos foram desautorizados a construir uma igreja no Cairo e nos últimos 25 anos basta andar nas ruas para sentir a islamização ostensiva das cidades.
Em janeiro do ano passado seis cristãos foram assassinados em Nagga Hamadi, onde os evangelhos apócrifos foram encontrados, e o Patriarca Copta Chenuda III não deixou de lembrar na missa natalina de sexta-feira (os Cristãos Ortodóxos celebram o Natal no dia 7 de janeiro) o julgamento próximo dos culpados. O veredito terá valor dobrado.
Mas como todos os males vêm para bem, embora lamente os mortos e os estropiados vítimas deste ato de terror injustificável, a explosão despertou atenção para algo que vem sendo banalisado ou ignorado pelo mundo ocidental. Enquanto o papa Bento XVI defende os direitos de culto dos judeus e dos muçulmanos que vivem em solo europeu e americano, os cristãos de alguns países do Oriente, da Ásia e até da África, vêm sendo cada vez mais discriminados e acuados.
A história realmente não serve para nada.
Entre abril de 1915 e julho de 1916, a Turquia procedeu ao maior genocídio do século provocando a morte de dois terços da população armeniana cristã local – 1.5 milhões de pessoas. A medida, que misturava deportação e massacre, foi planificada e executada nos mínimos detalhes. O «sucesso» foi tamanho que inspirou uma frase célebre de Hitler quando um de seus cúmplices conjeturou sobre o julgamento da história da limpeza étnica que organizava: Quem se lembra dos armenianos?
O terço que sobreviveu ao massacre e que não conseguiu emigrar, se viu obrigado a esconder tanto sua fé cristã que boa parte da geração atual ignora que seus bisavós, avós e a mãe ou o pai antes rezavam o Pai Nosso, fechados no quarto.
A história provou que Hitler estava errado. Levou seu plano a cabo, mas foi e é condenado nos livros de todas as escolas ocidentais. Mas ele acertou na análise: o genocídio armeniano continua fora de todas as páginas.
É por que os armenianos são cristãos e aprenderam a perdoar e dar a outra face?
Por que o mundo ocidental, quer queira quer não, é cristão, e cultiva um mea culpa interminável por causa da Inquisição apesar deste episódio horrível já ter sido reconhecido, reprovado em todas as gerações até a nossa. Já está passando da hora de ser ultrapassado e ficar apenas na História aprendida em casa e na escola.
No caso dos armenianos, até hoje a injustiça não foi corrigida e eles sonham com o Monte Ararat enquanto os turcos penam em reconhecer seus atos, embora a União Européia comece a cobrar que, pelo menos, peçam desculpas (como a França fez pela colaboração) e se dê o caso por encerrado.
A Turquia de hoje merece virar a página e fechar este livro de horrores de seus antepassados.
Quem sabe assim envia uma mensagem aos outros países que acham que cristão é um alvo fácil.
É claro que o Egito está longe de pensar em massacrar os oito milhões de cristãos nacionais. A situação é, por enquanto, incomparável. Os filhos de Mubarak (este ditador que suporta os coptas não por tolerância ou afinidade, mas pela consciência de que sem a elite financeiro-intelectual cristã seu país fica sem quadros) participaram da missa natalina em uma marca de solidariedade e em Alexandria, como no Cairo, as igrejas estão fortemente policiadas para evitar novos ataques.
E embora a cidade chore seus mortos como Bagdá chorou e chora suas vítimas de inúmeros atentados (oficiais e oficiosos, aleatórios ou programados), ela resiste e resistirá a ataques, segundo o que se ouve na praça.
Nas calçadas de alexandria também tem aumentado o número de mulheres em hijab - cobertura parcial ou integral do corpo e do rosto - mas ainda mostram a face enquanto os cabelos das cristãs esvoaçam sem arruaça, no calçadão da praia a brisa marítma mexe com saias, a vida continua, e judeus, muçulmanos e cristãos batem papo nos bares.
Qualquer que tenha sido o objetivo dos terroristas, eles não ganharam.
E se o governo mudar, e os ventos democráticos soprarem no Egito quando o povo decidir derrubar Mubarak, quem quer que ocupe seu lugar vai ter de tolerar os cristãos do mesmo jeito. Pois sem eles, além do Egito virar um país desprovido da cor da mistura que é sua imagem de marca, seria difícil dirigir o país para o desenvolvimento que precisa sem os coptas que são sua base.  
E você, quando for ao Egito mergulhar no Mar Vermelho ou visitar as pirâmides faraônicas, leve na bagagem O Quarteto de Alexandria, o clássico do escritor irlandês Laurence Durrel. A estória impregnada da cidade de Alexandre, Júlio César, Cleópatra, Marco Antônio e São Marcos, vai certamente atrai-lo ao norte. Aí, nos passos dessas personalidades que marcaram a história ocidental você passeará pela cidade que hoje atrai estrangeiros pelas mesmas razões que desagradaram Mark Twain em 1867 – «prédios comerciais imensos, ruas lindas e brilhantes que à noite lembram Paris» – mas em que a história está na particularidade arquitetural e sua preciosidade está no vento de liberdade que soprava e teima em soprar nos dias "santos" das três religiões monoteístas - domingo, sexta e sábado.
Respirando o ar aberto ao passear por aqui e acolá, você apreciará melhor ainda a cultura greco-romana e a riqueza da diversidade.
Além disso, demonstrará solidariedade e mostrará aos terroristas que o nosso ar tupiniquim tolerante e cordial pode soprar em todas as paragens.

Tesouros de Alexandria

Documentário da BBC: In the footsteps of Alexandre (trailer)