Mostrando postagens com marcador mar vermelho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mar vermelho. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de janeiro de 2011

Alexandria! Alexandria!



Alexandria é uma pérola rara. Daquelas pérolas verdadeiras, irresistíveis, imperfeitas, modernas e ao mesmo tempo clássicas. A cidade é o retrato da vida que ela foi acumulando e virando uma madrepérola iridescente que envolve os organismos vivos, humanos, que entram nela e a quem há séculos ela vem acolhendo com brilho renovado.
Como se sabe, Alexandria foi criada pelo macedônio Alexandre, o Grande, em 331 AC para logo virar capital do Egito sob a dinastia dos Ptolomeus, terminada em 30 AC com Ptolomeu XVI, o « rei dos reis » filho de Júlio César e Cleópatra.
Ficou na história primeiro pela Grande Biblioteca construída nessa dinastia em 288 AC com um acervo de 400 mil pergaminhos de valor inestimável – todas as obras de Homero (20 exemplares da Odisséia caligrafada!), Sófocles, Eurípedes, as estantes completas de Aristóteles e de outros filósofos e poetas da antiguidade. Foi incendiada em 48 durante a luta entre Cleópatra e um rival, reconstruída por Marco Antônio com duzentos mil volumes levados de Pergamum, pilhada em 389 DC por fanáticos no reinado de Teodosius e finalmente reconstruída em 2003 para ficar.
Alexandria era a cidade culta regional e a cultura está impregnada em seus prédios, ruelas e ruas largas.
Nasceu cosmopolita e sendo a segunda metrópole do império romano, foi muito importante no desenvolvimento do cristianismo. O evangelista Marcos foi o primeiro patriarca da cidade – sua relíquia foi roubada por mercadores venezianos em 828, transportada a Veneza e sobre ela foi construída a Basílica situada na Praça principal da cidade. Até ser restituída ao Egito onde repousa na Catedral de São Marcos no Cairo.
São Marcos repousa no Cairo, mas o berço do Cristianismo egípcio foi Alexandria. Ela abriga o Patriarca da Igreja Copta e é o cartão postal da tolerância que é sua imagem de marca desde os primórdios. Nela convivem pessoas de todas as origens geográficas e religiosas. É uma cidade civilizada, cujas dimensões acanhadas não lhe tiram as características próprias de uma metrópole.
A bomba que explodiu no dia 31 de dezembro na Igreja dos Santos é portanto um ato terrorista covarde, selvagem e tristemente simbólico. Seu objetivo é semear discórdia inter-comunitária, inter-religiosa, atingir os países ocidentais atacando a menina de seus olhos para minar a tolerância em sua base árabe mais sólida.
Os intelectuais e os representantes políticos e religiosos muçulmanos esclarecidos entenderam a mensagem odiosa e reagiram em seguida condenando o atentado e se distanciando de seu propósito. No Egito, bandeiras com a cruz e a lua crescente, símbolo do islamismo, foram ostentadas em vários lugares para buscar a unidade.

Mas infelizmente o espírito unitário é frágil, pois os problemas dos cristãos locais não se resume a este atentado sanguinário. Os cristãos, 10% da população de 80 milhões de habitantes, vêm se sentindo marginalizados embora vivam no país desde antes de ele ser islamizado. Dispõem de 9 parlamentares - dois eleitos e sete nomeados pelo presidente Hosni Mubarak, no poder há 40 anos e que embora pregue uma sociedade láica, de pluralidade religiosa, deixa decisões importantes nas mãos de pessoas com objetivos menos unitários. Há pouco tempo os cristãos foram desautorizados a construir uma igreja no Cairo e nos últimos 25 anos basta andar nas ruas para sentir a islamização ostensiva das cidades.
Em janeiro do ano passado seis cristãos foram assassinados em Nagga Hamadi, onde os evangelhos apócrifos foram encontrados, e o Patriarca Copta Chenuda III não deixou de lembrar na missa natalina de sexta-feira (os Cristãos Ortodóxos celebram o Natal no dia 7 de janeiro) o julgamento próximo dos culpados. O veredito terá valor dobrado.
Mas como todos os males vêm para bem, embora lamente os mortos e os estropiados vítimas deste ato de terror injustificável, a explosão despertou atenção para algo que vem sendo banalisado ou ignorado pelo mundo ocidental. Enquanto o papa Bento XVI defende os direitos de culto dos judeus e dos muçulmanos que vivem em solo europeu e americano, os cristãos de alguns países do Oriente, da Ásia e até da África, vêm sendo cada vez mais discriminados e acuados.
A história realmente não serve para nada.
Entre abril de 1915 e julho de 1916, a Turquia procedeu ao maior genocídio do século provocando a morte de dois terços da população armeniana cristã local – 1.5 milhões de pessoas. A medida, que misturava deportação e massacre, foi planificada e executada nos mínimos detalhes. O «sucesso» foi tamanho que inspirou uma frase célebre de Hitler quando um de seus cúmplices conjeturou sobre o julgamento da história da limpeza étnica que organizava: Quem se lembra dos armenianos?
O terço que sobreviveu ao massacre e que não conseguiu emigrar, se viu obrigado a esconder tanto sua fé cristã que boa parte da geração atual ignora que seus bisavós, avós e a mãe ou o pai antes rezavam o Pai Nosso, fechados no quarto.
A história provou que Hitler estava errado. Levou seu plano a cabo, mas foi e é condenado nos livros de todas as escolas ocidentais. Mas ele acertou na análise: o genocídio armeniano continua fora de todas as páginas.
É por que os armenianos são cristãos e aprenderam a perdoar e dar a outra face?
Por que o mundo ocidental, quer queira quer não, é cristão, e cultiva um mea culpa interminável por causa da Inquisição apesar deste episódio horrível já ter sido reconhecido, reprovado em todas as gerações até a nossa. Já está passando da hora de ser ultrapassado e ficar apenas na História aprendida em casa e na escola.
No caso dos armenianos, até hoje a injustiça não foi corrigida e eles sonham com o Monte Ararat enquanto os turcos penam em reconhecer seus atos, embora a União Européia comece a cobrar que, pelo menos, peçam desculpas (como a França fez pela colaboração) e se dê o caso por encerrado.
A Turquia de hoje merece virar a página e fechar este livro de horrores de seus antepassados.
Quem sabe assim envia uma mensagem aos outros países que acham que cristão é um alvo fácil.
É claro que o Egito está longe de pensar em massacrar os oito milhões de cristãos nacionais. A situação é, por enquanto, incomparável. Os filhos de Mubarak (este ditador que suporta os coptas não por tolerância ou afinidade, mas pela consciência de que sem a elite financeiro-intelectual cristã seu país fica sem quadros) participaram da missa natalina em uma marca de solidariedade e em Alexandria, como no Cairo, as igrejas estão fortemente policiadas para evitar novos ataques.
E embora a cidade chore seus mortos como Bagdá chorou e chora suas vítimas de inúmeros atentados (oficiais e oficiosos, aleatórios ou programados), ela resiste e resistirá a ataques, segundo o que se ouve na praça.
Nas calçadas de alexandria também tem aumentado o número de mulheres em hijab - cobertura parcial ou integral do corpo e do rosto - mas ainda mostram a face enquanto os cabelos das cristãs esvoaçam sem arruaça, no calçadão da praia a brisa marítma mexe com saias, a vida continua, e judeus, muçulmanos e cristãos batem papo nos bares.
Qualquer que tenha sido o objetivo dos terroristas, eles não ganharam.
E se o governo mudar, e os ventos democráticos soprarem no Egito quando o povo decidir derrubar Mubarak, quem quer que ocupe seu lugar vai ter de tolerar os cristãos do mesmo jeito. Pois sem eles, além do Egito virar um país desprovido da cor da mistura que é sua imagem de marca, seria difícil dirigir o país para o desenvolvimento que precisa sem os coptas que são sua base.  
E você, quando for ao Egito mergulhar no Mar Vermelho ou visitar as pirâmides faraônicas, leve na bagagem O Quarteto de Alexandria, o clássico do escritor irlandês Laurence Durrel. A estória impregnada da cidade de Alexandre, Júlio César, Cleópatra, Marco Antônio e São Marcos, vai certamente atrai-lo ao norte. Aí, nos passos dessas personalidades que marcaram a história ocidental você passeará pela cidade que hoje atrai estrangeiros pelas mesmas razões que desagradaram Mark Twain em 1867 – «prédios comerciais imensos, ruas lindas e brilhantes que à noite lembram Paris» – mas em que a história está na particularidade arquitetural e sua preciosidade está no vento de liberdade que soprava e teima em soprar nos dias "santos" das três religiões monoteístas - domingo, sexta e sábado.
Respirando o ar aberto ao passear por aqui e acolá, você apreciará melhor ainda a cultura greco-romana e a riqueza da diversidade.
Além disso, demonstrará solidariedade e mostrará aos terroristas que o nosso ar tupiniquim tolerante e cordial pode soprar em todas as paragens.

Tesouros de Alexandria

Documentário da BBC: In the footsteps of Alexandre (trailer)

domingo, 19 de setembro de 2010

O Nilo espremido entre rivalidades


Vale do Nilo
Inspirada por uma amiga que está mergulhando no Mar Vermelho (cujas águas são mesmo é de um azul esverdeado só às vezes avermelhadas por defuntas algas), resolvi percorrer a história de outro rio místico, o Nilo. Seu delta em forma de leque triangulado lembra a letra grega que deu origem a esta designação hidrográfica, o que é quase um poema.
Ao contrário do Danúbio que desemboca no Mar Negro carregado de detritos, o Nilo chega ao Egito pouquíssimo poluído. Mas justamente por isto, ou seja, pela industrialização e urbanismo incipientes dos países da nascente, protagoniza uma cascada de desentendimentos.
Ele é uma dádiva na aridez da África Oriental. Em 460 AC, o historiador grego Heródoto já via o Neilos como Uma fonte profunda entre duas montanhas altas. Quatro séculos mais tarde, Nero, em suas conquistas para o império romano, pôs um grupo de centuriões atrás da nascente do Nilus, mas eles não passaram do impenetrável vale Sud no Egito. Mil e oitocentos anos depois, o inglês John H. Speke achou que o lago vitória fosse o fim da linha e o seu erro só foi corrigido em 1937, quando o explorador alemão Waldekker percorreu seus 6.693 quilômetros até encontrar a fonte no rio Luvironza.
Como aprendemos na escola, o Nilo é o curso de água mais longo do planeta (distância de Londres a Nova Iorque). Irriga Burundi, Etiópia, Quênia, Congo, Ruanda, Eritréia, Tanzânia, Uganda, Sudão e Egito. Este último é o que lhe tira maior proveito e que está disposto a tudo para proteger os direitos que os ingleses lhes conquistaram. Boutros Ghali, secretário geral da ONU de 1992 a 1996, quando ministro das relações exteriores do Egito, disse em 1987 uma frase que marcou época: A próxima guerra nesta região será pelo Nilo. Eco de outra frase célebre pronunciada pelo ex-presidente Anwar Al Sadat logo após assinar um tratado de paz com Israel em 1979: Meu país só voltará à guerra pela água.
Isto porque os alicerces da alimentação e da industrialização do Egito são fincados no Nilo. Nesse continente desértico, suas margens são oásis para os milhões de habitantes que aproveitam de suas águas, e para os demais, um rio místico da antiguidade até nossos dias.
Esta relação visceral entre o Egito e o Nilo data da antiguidade, quando ele e seu delta eram idolatrados como deuses, e diz a lenda que para acalmar seus transbordamentos, os sultãos mandavam oferendas para a nascente na Etiópia. Eram reconhecidos e sábios; 86% das águas que irrigam o solo árido do país procedem da fonte etíope. É uma troca em sentido único. A fonte morre de sede enquanto no recipiente a água transborda.
O Nilo é formado por três rios: o Nilo Branco, o Nilo Azul e o Atbara. O Branco nasce no Burundi passa pelo lago Vitória e corre pelo Sudão até encontrar o Azul que vem do lago Tana na Etiópia. Mais da metade de suas águas procedem do Azul, mas os dois fluem juntos até o norte de Khartum, no Sudão, onde recolhem o Atbara também etíope.
De lá ele desce subindo no mapa até o Egito e o lago artificial Nasser (5.400 km², o segundo maior do mundo depois do Volta, 8.500 km², no Gana) e a controvertida barragem de Assuam. Depois do Cairo ele se bifurca nos rios Rosetta e Daneita. Antigamente havia inúmeros tributários, mas o fluxo lento da água, interferência humana e alta acumulação de limo extinguiram os menores e provocaram a desertificação de uma área larga demais para ser ignorada.
A ambição egípcia de apropriar-se da nascente do Nilo é histórica e envolveu muitos reinados famosos e invasões pouco gloriosas – o Sudão foi invadido várias vezes, inclusive durante o reinado da rainha de Sabá e de Nero, porque os egípcios temiam que um dia a água não chegasse mais às suas casas.
Apesar da natureza ser a responsável, era a Etiópia que levava a fama de ter poderes de controlar o Nilo à vontade. Por causa deste poder imaginário, em 1080, quando o sutão fatimida perseguiu os cooptas por causa da destruição de uma mesquita etíope, a baixa brutal do rio foi atribuída a uma represália da Etiópia e quando esta exigiu que o Egito deixasse os cristãos tranquilos e restaurasse as igrejas destruídas, foi atendida logo. Aliás, os cooptas foram poupados muito tempo no Egito, assim como o cristianismo que praticam, graças ao mito de que a Etiópia os protegia e para isto se servia da água.
Várias vezes na história os etíopes foram responsabilizados por fenômenos climáticos, mas a única verdadeira ameaça registrada e não cumprida, foi no século XVIII quando um rei teria ameaçado bloquear o rio. Ameaça vã, já que não dispunha de meios para pô-la em prática. De fato, nenhum fato concreto justificava o temor egípcio que acabou sendo transmitido aos colonizadores europeus que o invadiram.
A colonização na África não apenas traçou fronteiras arbitrárias que dividiram etnias irmãs e juntaram inimigos irreconciliáveis, como também criou um grave problema com a bacia do Nilo http://waterwiki.net/index.php/Nile. Neste caso, foi a Grã-Bretanha, que ocupava entre outros países o Sudão, o Egito, o Quênia e a Palestina.
No Egito e no Sudão, os ingleses domaram a vegetação da margem do Nilo e ele ficou navegável para grandes barcos. Enquanto isto a Etiópia, libertada da Itália e governada pelo indomável Hailé Salassiê, dona da fonte, fazia caminho a parte.
Após várias discussões entre os colonizadores italianos, franceses e ingleses, estes últimos patrocinaram em 1929 o Acordo das águas do Nilo e trinta anos depois, o Egito e o Sudão assinaram outro Tratado para uma exploração solitária. Ambos os acordos foram bilaterais e excluíam os demais países.
O tratado de 1929 registrou o volume do fluxo anual do rio (84 bilhões de m3) dos quais presenteou o Egito e o Sudão com respectivamente 48 e 4 bilhões de metros cúbicos – os 32 bilhões restantes sobraram para os oito vizinhos da nascente do rio. Países que o Egito não precisaria consultar para realizar obras hidráulicas e cujos projetos poderia vetar, caso seus interesses fossem contrários. E para completar, no período da seca, do dia 29 de janeiro a 15 de julho, o Suldão foi proibido de utilizar as águas do Nilo. No final das contas o tratado de 1929 assegurou ao Egito 60% do fluxo do Nilo.
Veio a Segunda Guerra, a Europa precisou das colônias africanas para parar os alemães na África, e no final, foi pagando bem que mal as suas dívidas. Os britânicos deram aos judeus mais de dois terços da Palestina para que criassem Israel (fazendo dos palestinos cidadãos apátridas), e perderam uma atrás da outra as colônias africanas. Começando pelo Egito em 1952 e o Sudão em 1956.
Nessa época a guerra fria entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus aliados já tinha substituído a guerra de armas. Portanto, ao decidir construir a barragem de Assuam, o rei Nasser apoiou-se em Moscou para nacionalizar o Canal de Suez e assim financiar um pouco do custo com a cobrança de pedágio.
Em 1959 o general Abbud, ditador sudanês da época, negociou com Nasser outro tratado para garantir sua parte em Assuam e os dois países aumentaram seus recursos em 32 bilhões de metros cúbicos. O Egito ficou com mais 7.5 bilhões de m3 (passando a um total de 55.5 bilhões) e o Sudão com mais 18 (passando a 22 bilhões) – os dez bilhões restantes se perdem em evaporação. E juntos determinaram que as necessidades combinadas dos outros oito países não excederiam um a dois bilhões de metros cúbicos anuais e quaisquer reclamações seriam confrontadas a uma resposta egípcio-sudanesa unida, na forma de uma comissão técnica criada para defender seus interesses e negociar com os vizinhos a criação de uma Comissão sobre a bacia do Nilo.
E o Hidromed foi criado pela UNDP (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas http://www.undp.org/) só com a participação das ex-colônias britânicas – a Etiópia impôs como condição a revogação do Tratado de 1929. Burundi, Congo e Uganda se juntaram ao Quênia, à Tanzânia, ao Sudão, ao Egito e a Uganda em 1970, e em 1974, uma inundação no lago Vitória acelerou o processo para uma decisão comum. A Etiópia acabou aceitando participar como observadora e houve várias trocas de dados com a Comissão do rio Mekong.
Em 1994 emergiu um plano de ação para um programa de cooperação legal CFA (Cooperation Framework Agreement), e o Banco Mundial e outras instituições financeiras e governos investiram na criação de um fundo para a Iniciativa da Bacia do Nilo http://www.nilebasin.org/.
Desde então, a Etiópia vem construindo barragens em todos os rios possíveis. Obras que preocupam o Egito e deixam ecologistas e ONGs sociais na defensiva. Dentro de dez anos a energia deve ultrapassar o café e ser o primeiro produto de exportação do país. Os escândalos com as barragens – de licitação inexistente a danos humanos e ecológicos graves – não param. Vira e mexe o Banco Mundial é obrigado a afastar-se de um e outro projeto por desrespeitarem o ecossistema e as normas sociais às quais deveriam ser obrigados, mas não os veta. E com os préstimos do gigante italiano Santini e dos chineses, as obras se proliferam no rio Gibe e ameaçam populações inteiras de perder seus meios de subsistência, como os quenianos que vivem às margens do lago Turkana.
E a Etiópia, apesar de ter uma topografia montanhosa inadaptada à agricultura, está com projetos dispendiosos de irrigação intensiva, sendo que se os países da região se entendessem de maneira produtiva, ninguém precisaria prejudicar o outro e nem a biodiversidade. Bastaria que o Egito, que já explora toda sua área cultivável, aceitasse a partilha equilibrada da água; o Sudão, que possui terras virgens e férteis propícias à produção de cereais e a pastos, as utilizasse para uso próprio e para exportá-la; Quênia e Uganda produzissem trigo e cana de açúcar à vontade. Ninguém passaria fome e o Nilo serviria a todos de maneira pragmática.
Mas esta solução solidária ainda está longe de ser conjeturada. Em vez disso, a Tanzânia lançou um projeto de exploração do lago Vitória http://www.bujagali-energy.com/default.htm, Uganda também está construindo barragens e com o referendum pela autodeterminação do Sudão do Sul em 2011, a bacia pode passar de dez a onze, com um novo ator com idéias individuais.
No ponto de vista de cada um separado, os argumentos parecem válidos. Mas no cada um contra o outro, todos saem lesados. O Nilo é grande mas só tem um braço que não pode ser cortado. Para conservá-lo são e salvo, a hipótese plausível seria que todos assinassem o CFA para uma cooperação global e um uso responsável e solidário das águas. Porém, a hipótese provável é os sete países dos lagos equatoriais a assinarem deixando o Egito e o Sudão de lado. Como o Egito vai reagir, só ele sabe.

Viagem pelo Nilo


Barragem na Etiópia