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domingo, 18 de agosto de 2013

Iraque, Síria, Egito, a mesma sina?

O cartoon ao lado está bombando nas redes sociais do Egito. Que, diga-se de passagem, está vivendo o pior momento de sua história contemporânea.
O filósofo francês Henri Bergson dizia que O olho enxerga o que a mente está preparada para entender. Talvez daí venham os erros de projeção analítica da imprensa e da diplomacia estrangeira em relação ao Egito, e de forma geral, aos eventos mal-antecipados inclusive localmente.
Eu também erro porque sou humana. Mas, modéstia às favas, erro menos do que a maioria. Pois, além de ter estudado pra danar, sou picuinha, tento sempre entender o que não vejo. Procuro sempre o leão invisível na fotografia mas que está lá, sei, agachado no mato pronto para o ataque ao menor sinal de ameaça ou quando quer e precisa alimentar-se.
Assim é a natureza. Assim é a sociedade em que vivemos.
Acerto a maioria das minhas análises por causa disso. Desta teimosia que me marginaliza no meio dos que veem o que está na cara e negligenciam o que está escondido - ora por comodismo, ora por partidarismo, ora por ignorância histórica.
Ora também porque a tendência natural de um analista é "prever" o que lhe parece mais adequado e melhor para o lugar, para as pessoas envolvidas e as possibilidades do momento histórico.
O problema é que os protagonistas da história em curso nem sempre ou raramente têm o bom senso dos que estão de fora.
O sucesso do cartoon acima é porque, de repente, a população inteira que hoje detesta o primo-irmão-vizinho que pensa diferente - Irmandade Muçulmana e oponentes - só concorda em um ponto. Estão todos convencidos que as potências ocidentais, sobretudo EUA, Inglaterra e Israel, estão ajudando o adversário do momento.
A sociedade egípcia está dividida, famílias partidas, amizades rompidas.
A "diplomacia" desses países acima erraram tanto em suas declarações e ações, que conseguiram alienar gregos e troianos. Hoje, no Egito, os únicos amigos destes países são os militares que precisam deles.
Nunca se viu no Egito tanta xenofobia, tamanha raiva dos estrangeiros, ocidentais, e até dos refugiados palestinos que lá vivem há tempos.
Os jornalistas, como sempre, pagam o pato pelo mal-entendido. Talvez porque, no fundo, a culpa seja nossa de dar informações baseadas no que nossa mente está querendo aceitar e não no fato como ele (não) se apresenta.
Foi o que aconteceu em relação ao Iraque, Síria, e agora Egito.
Com o Iraque, a antipatia geral por Saddam Hussein era tanta que a imprensa preferiu engolir as mentiras das armas químicas oferecidas por Tony Blair e George W. Bush do que questioná-la e procurar a verdade em Bagdá, na fonte. Combati a invasão, disse que duvidava da existência de armas químicas, e que o Iraque não estava maduro o suficiente para "perder" Saddam Hussein. Os fatos provaram que eu  estava certa do começo ao fim. Inclusive na desordem sectária incontrolável que seguiria e persiste.
Com a Síria, a antipatia pelos Assad pai e filho também embaçou o julgamento da grande maioria e continua embaçando o de muitos. Quando disse há dois anos que a revolta não era popular, que havia extremistas estrangeiros demais infiltrados entre os "rebeldes", que a Síria estava caminhando para um desastre, os "humanistas" me olhavam ressabiados. Era como se eu tivesse virado a casaca das causas humanitárias e virado direitista. O tempo e o óbvio mostraram que eu estava certa. Ruim com Assad, pior em ele. Espero que os ocidentais caiam na real e incitem os "rebeldes" divididíssimos pela sede de poder a admitir o óbvio e deixá-lo fazer as reformas que promete.
Com o Egito foi um pouco o mesmo. A reticência de reconhecimento Ocidental (leia-se EUA) do fim de Hosni Mubarak facilitou a vitória da Irmandade Muçulmana nas eleições presidenciais.
Mas a culpa não é apenas dos Estados Unidos. Não diretamente, é claro.
No caso do Egito, todos os protagonistas oficiais se super-estimaram.
Durante os primeiros meses após a derrubada de Mubarak foram os militares.
Fizeram tudo para marginalizar os democratas, a juventude revolucionária que exigia mudanças imediatas. E colheram a radicalização que semearam.
Depois foi o presidente eleito Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana que ele representava. Ignorantes do processo democrático por jamais o terem experimentado, interpretaram uma vitória eleitoral apertada como um mandato para reinarem solitários. Deram murro em ponta de faca, Morsi achou que mantinha os generais no laço, e deu com os burros n'água.
Em seguida os militares voltaram a errar quando deram o golpe no dia 03 de julho e quando procederam ao massacre do dia 14 de agosto. Em vez de engajar um diálogo, apostaram e continuam apostando na eliminação permanente da Irmandade Muçulmana, como se ainda fossem capazes, e da oposição que não lhes for favorável.
Só para lembrar, a Irmandade Muçulmana foi dissolvida em 1954, mas registrou-se como ONG em março em resposta a contestação jurídica de sua legalidade. Foi fundada em 1928 e tem uma representação política registrada como Freedom and Justice Party, que elegeu Morsi.
A nova ideia do primeiro ministro "interino" Hazem el-Beblawi de dissolver a Irmandade Muçulmana como fizera Hosni Mubarak é, no mínimo, um tiro no escuro. E o que vão fazer com os milhares de simpatizantes cujas asas cresceram durante o governo Morsi e dos revoltados com os mortos?
Os governos ocidentais também querem livrar-se dela, da Irmandade Muçulmana, e por isso a mídia só ouviu e transmitiu de imediato a "queda" de Morsi em vez de "golpe" contra o Presidente eleito.
Eu fui um dos poucos jornalistas a dar nome aos bois de imediato. Por que os demais se calaram e repetiram a lenga lenga de Washington?
Voltando à Irmandade Muçulmana, o paradoxo de sua diabolização no Egito é que é o mesmo partido que os mesmos ocidentais apoiam na Síria contra Bashar el-Assad. Não por achá-la democrática e viável, é claro, mas por miopia. Pelo imdediatismo corrosivo que caracteriza a diplomacia e a "Inteligência" gringa.
Primeiro, tirar o inimigo de Israel de Damasco. Depois, lidar com os estragos causados pelos novos donos do poder que foram apoiados.
Não se há de esquecer que o pai de Bashar, Hafez el-Assad, expulsou a Irmandade do país há mais de três décadas e a "revolta" que começou há dois anos foi justamente desta organização que queria recuperar os direitos que o Partido Ba'ath lhes retirara. A derrubada de Assad era vontade polítco-democática de uma minoria de jovens. A vontade da maioria dos rebeldes é tomar o poder pura e simplesmente para fazer, certamente, o mesmo que Assad. E se forem/fossem os religiosos, de maneira ainda mais sectária.
Trocando em miúdos, a situação no Egito está como estava na semana do golpe. (Des)controlada pelo general Abdul-Fattah al-Sisi junto com sua cúpula de generais e policiais da era de Hosni Mubarak.
Quando Mohamed el-Baradei, Prêmio Nobel por sua atuação exemplar na International Atomic Energy Authority, aceitou o cargo no governo transitório recém-formado por Sissi, perguntei-me quanto tempo conseguiria ficar e como ele, tão lúcido, embarcara nessa história turva. Como era de se esperar, Baradei não durou muito. Demitiu-se logo que caiu na real. O General dos generais, Sisi, substituiu os governadores eleitos das principais, e até menos importantes, províncias para nomear para os cargos governadores "biônicos". Dez generais de reserva reativados e dois responsáveis pela polícia da era Mubarak. Diante disso, até cego enxerga o significado.
Se isto não for ditadura, alguém tem de me explicar quando a nomenclatura de autoritarismo foi mudada.
Quem conhece um pouquinho da história do Egito, sabe que o Exército só deixa correr águas em seu manancial, que caiam em sua represa e fiquem lá, bem guardadas. Sabe também que a ideologia que reina no meio dos oficiais do Cairo é a formatada nas escolas militares que eles frequentaram. Acho que não preciso dizer onde estão localizadas.
Nas intervenções armadas dos últimos dias, os soldados assistiam de camarote os policiais fazerem o trabalho sujo de atirar nos simpatizantes da Irmandade Muçulmana. Simpatizantes que, diga-se de passagem, embora estejam caindo aos montes sob as balas da polícia, também não estão com as mãos limpas. Vê-se alguns armados e atirando à vontade.
E para concluir, o general Sisi está cometendo um erro enorme reprimindo com tal violência. Não apenas pelas vidas que está tirando e o sofrimento que está causando, mas por uma razão política que não pode ser negligenciada. Cada homem que cai sob a bala da polícia vira um mártir a mais na lista da Irmandade Muçulmana.
Aliás, talvez um dia sem mortos até deixe os líderes da Irmandade Muçulmana decepcionados. Pois lhes faltaria munição para se vitimizarem.
Quanto mais cedo a repressão parar, menos gente engrossará as passeatas e mais depressa poder-se-á resolver a revolta com diálogo.
Com a restituição da democracia seria mais rápido.
Porém, com democracia ou ditadura, banir a Irmandade Muçulmana seria um erro. Não precisa ser grande agente secreto de um grande Serviço de Inteligência para saber que o inimigo clandestino é muito mais perigoso do que o visível.

"Poor Egypt.
HOW DID this come about? How did a glorious revolution turn into this disgusting spectacle?
How did the millions of happy people, who had liberated themselves from a brutal dictatorship, who had breathed the first heady whiffs of liberty, who had turned Liberation Square (that’s what Tahrir means) into a beacon of hope for all mankind, slide into this dismal situation?
In the beginning, it seemed that they did all the right things. It was easy to embrace the Arab Spring. They reached out to each other, secular and religious stood together and dared the forces of the aging dictator. The army seemed to support and protect them.
But the fatal faults were already obvious, as we pointed out at the time. Faults that were not particularly Egyptian. They were common to all the recent popular movements for democracy, liberty and social justice throughout the world, including Israel.
These are the faults of a generation brought up on the “social media”, the immediacy of the internet, the effortlessness of instant mass communication. These fostered a sense of empowerment without effort, of the ability to change things without the arduous process of mass-organization, political power-building, of ideology, of leadership, of parties. A happy and anarchistic attitude that, alas, cannot stand up against real power.
When democracy came for a glorious moment and fair elections were in the offing, this whole amorphous mass of young people were faced with a force that had all they themselves lacked: organization, discipline, ideology, leadership, experience, cohesion.
The Muslim Brotherhood."
Uri Avnery

Post Scriptum BRASIL/PALESTINA:
Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, envergonha o Brasil com seus negócios milionários com Israel. Contratos de armas e em outras áreas, como mostra o cartoon ao lado. O que será que ele ganha nessa jogada de apoio à limpeza étnica da Palestina?
Aliás, o Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros mais "próximos" de Israel. O que é uma surpresa, já que os gauchos primam pela consciência.
Dê uma lida no artigo abaixo e veja quão amoral é este político gaucho.
"Tarso Genro, governor of Rio Grande do Sol in Brazil, concluded a deal to develop a huge Israeli military technology center in Porto Alegre over the past few weeks. One day before signing the contract with the arms company Elbit, Genro was in the occupied West Bank, where he witnessed first-hand the oppression on which Israel’s weapons industry thrives.
Perhaps even more painful than the signing of the deal itself are the arguments he later gave to “defend” his action. It was very sad to see Genro stating — in an interview with the Brazilian publication Opera Mundi — that international law and human rights are not criteria for international commercial relations.
Confronted with Elbit’s track record of violations of human rights and international law, Genro argued that “It is not possible to decide on technological options, at [the] national or regional level, based on this criteria.” He added that “Ethics in global commercial relations is defined by national interests” (“Despite cricisim, Tarso Genro signs agreement with Israeli military,” 29 April 2013 [português]).
This argument flies in the face of the Brazilian constitution, which affirms the prevalence of human rights in international relations. It is also legally wrong. A vast body of legal analysis, UN guidelines and resolutions underscore that state and state institutions are obliged to respect and ensure respect for international law.
Elbit is profiting from the construction of Israel’s settlements and its wall in the West Bank, both of which are considered war crimes. Because of this involvement in violations of international law, Elbit is subject to a global campaign to stop contracts and investments in it.
In his interview with Opera Mundi, Genro defended the deal as an issue of national interest. The same argument was brought forward in the 1970s and early ’80s by the apartheid regime in South Africa and its allies in the UK and the US. Margaret Thatcher did not want to force UK companies to give up on the profits reaped from apartheid. Yet, by the 1990s, the global boycott movement had cost these companies a high economic price and US companies are still being sued for reparations in US courts."
Jamal Juna, coordenador da ONG palestina Stop the Wall.

domingo, 10 de março de 2013

De volta à Síria, em palavras e imagens



John Kerry, o novo ministro das relações exteriores dos Estados Unidos, lá chamado Secretary of State, passou a semana enrolado com a Síria.
Ele foi à Arábia Saudita visitar o príncipe Saud al-Feisal (ditador aliado, portanto, "bonzinho") a fim de "assegurar apoio saudita" para seu plano de armar os rebeldes "moderados" da Síria.
Rebeldes moderados... Bom, boa sorte para quem conseguir distinguir o joio do trigo no terreno e não armar o rebelde errado.
Como aplaudi a saida da madame Clinton e a nomeação de John Kerry( em vez da primeira escolha de Obama - a embaixadora EUA na ONU Susan Rice ) lamento muito ter de discordar dele tão cedo.
Lamento mesmo.
Primeiro, porque ele afirma estar determinado a impor a Israel a solução dos dois Estados no Oriente Médio - que a boa vontade e o bom senso perdurem!
Segundo, porque ao contrário da madame Clinton - que tinha agenda própria e ignorância internacional proporcional à ambição presidencial que a obceca - Kerry é mais preparado para o cargo e tem boas ideias.
Simplificando, ele é um "good american".
Um pouco menos bitolado do que o célebre Quiet american de Grahan Greene, parece.
Suas posições no Senado indicam pelo menos dinamismo e curiosidade.
Porém, como intenção e gesto raramente se traduzem em sucesso, neste caso sírio, tenho de discordar do plano de Kerry porque até arrepio quando ouço falar em "armar os rebeldes".
Não é que eu queira que Bashar el-Assad se sinta livre para esmagar gente e prédio desenfreadamente até que a Síria seja totalme arrasada. É que há duas coisas que não consigo entender.
A primeira é como esta seleção entre moderado - extremista é possível, hoje, na Síria.
É, na teoria. Mas na prática,é uma miragem.
Por exemplo, por desencargo de consciência, os Estados Unidos podem armar a Free Syrian Army, reforçar seus militantes e ajudá-los a destruir o país mais depressa.
Mas como a transferência militar vai passar, como sempre passa nessa região, pela Arábia Saudita e não dá para confiar de jeito nenhum nessa família real...
Os ditadores sauditas sempre detestaram os Assad - alauitas incontroláveis - e estão sempre prontos a ajudar os Estados Unidos de olhos fechados. Contanto que a Casa Branca não conteste a legitimidade de seu próprio regime autoritário.
Por este prisma, podem garantir sem perigo que as armas, cada vez mais pesadas, continuem a atravessar as fronteiras dos países vizinhos.
Mas quem garante que a família real saudita vai armar a Free Syrian Army e não os para-militares islamitas que se infiltraram para combater Assad? Ora, muitos destes são sunitas Wabbabis ou salafistas - como os responsáveis pelo atentado das Torres Gêmes em Nova Iorque e como os governantes sauditas.
O esporte preferido de grupos salafistas como al-Nusra é perseguir os xiitas.
E como acontece com todo fanático extremista, só suas próprias convicções são admissíveis. Portanto,  depois de acabar com Assad e os alauitas, vão certamente acabar com outros grupos xiitas. Em seguida, com os sunitas moderados da Irmandade Muçulmana. E depois..., bem, depois acabarão com todos os não salafistas. Até chegar à limpeza dentro do próprio clã.
O extremismo não tem nuança e nem limite. (A charge à esquerda critica o "wabbabismo" através das baratas que saem da Arábia Saudita para infestar os demais países árabes).
John Kerry, os EUA, a Grã-Bretanha, a França, enfim, os países ocidentais que estão privilegiando a luta armada - em vez da solução russa de forçar, literalmente, todos a uma reunião civilizada para conversar - estão brincando com fogo.
Aliás, embora não seja neófito em política internacional, Kerry pisou na bola em Ryad.
A uma pergunta se armar os rebeldes não era uma preocupação (a mais), falou sobre a ajuda militar que Assad estaria recebendo da Rússia, do Irã,... e do Hezbollah.
Peraí!
No mês passado os israelenses divulgaram com estardalhaço que haviam capturado um comboio de armas de Assad para o Hezbollah... Quem está armando quem mesmo?
O certo é que ninguém sabe de nada.
Só se sabe que tanto Assad quanto os "rebeldes" bombardeiam hospitais e o que querem.
Muitos grupos "rebeldes" sequestram, estupram e matam indiscriminadamente. Até mais do que as tropas oficiais.
Mas isso não se pode falar porque não é "policamente correto" revelar os tropeços dos "rebeldes".
Circular na Síria a salvo, só com o Exército de Assad e com seus oponentes da Free Syrian Army.
E olha lá!
Nesta guerra civil, se já teve, não tem mais bandido e mocinho.
Armar não é solução para nada. Talvez bloquear os radares de Assad, mas tem de ser em concertação com a Rússia, o Irã e a China.
Se não, aí a jurupoca vai piar.

Até quem não está no terreno e não segue os eventos vê que a situação na Síria está deteriorando sem parar.
Dizem as ONGs internacionais que mais de 70.000 pessoas já foram mortas nestes dois anos de combate.
É uma estimativa possível. Embora seja impossível contabilizar com certeza.
Quase dois milhões de habitantes foram obrigados a deslocar-se. Dentro e para fora das fronteiras. Os países vizinhos estão cheios de refugiados.
São eles que são entrevistados pelos jornalistas que não têm acesso à Síria ou têm medo de adentrar zonas inóspitas.
E é a versão deles que vai para os jornais e provoca revolta dos estrangeiros de alma sensível ou descendentes de sírios.
Aliás, na semana passada, conversando com uma executiva de uma das maiores ONGs internacionais de Direitos Humanos, a ingerência na Síria voltou à pauta. Por causa destes depoimentos horríveis.
Seu argumento foi uma variação sobre o mesmo tema que alimenta as reuniões mundanas de pessoas "politicamente corretas" nas capitais europeias.
A maioria absoluta destas boas almas sempre foi a favor da ingerência.
Há alguns meses, estas pessoas defendiam apoio, incondicional, aos rebeldes, e um bombardeio puro e simples.
Hoje em dia, argumentam que a OTAM deveria ter agido em 2011 e acabado com Bashar el-Assad no início. (E calam-se quanto aos atentados que a oposição a Assad tem levado a cabo matando muitos civis.)
Os que defendem a medida drástica de intervenção direta, citam como exemplo a Tunísia e o Egito.
Eu, refratária a mudar o mundo em jantares e bares, mantenho minha posição de pé firme.
A ingerência só se justifica e só dá frutos democráticos e pacíficos quando é exercida em um conflito internacional.
Ou seja, entre dois países que se confrontam e um deles corre o risco de ser riscado do mapa - como foi o caso do esfacelamento da ex-Iugoslávia; ou quando um país ocupa outro e procede a uma limpeza étnica - como o que Israel está fazendo há décadas na Palestina.
Aliás, as mesmas pessoas apressadas em intervir na guerra civil na Síria emudecem quando a questão é intervir na Palestina.
(É aquela velha história da "coragem" de opiniões consensuais. Só tomada quando não representa perigo na própria vida social.) 
Voltando à vaca já esquálida da Síria, onde o problema é doméstico, sou contrária à intervenção estrangeira para salvar qualquer que seja o lado.
Transpondo para a geopolítica, roupa suja tem realmente de ser lavada em casa.
Pois um estranho que interfere, intercede para o que parece mais fraco, toma partido sem conhecer o fundo da história que gerou a discórdia. Entra mesmo é de gaiato.
Ora, o visível é quase sempre claro.
O invisível, ninguém, mas ninguém mesmo que está de fora da família, da comunidade, da nação cujos cidadãos beligeram, tem condições de determinar quem é mesmo culpado, se a culpa não é compartilhada e como ajudar a vítima sem aumentar o trauma.
A experiência me levou à humildade.
O visível na Síria, no ano de 2010, que viu o surgimento do que foi chamado Primavera Árabe, era um regime autoritário dirigido por Bashar, herdeiro do golpista Afez el-Assad.
A simpatia dos democratas ocidentais e dos revolucionários de bar estava com o punhado de "rebeldes" da Irmandade Muçulmana que gritava "Abaixo Assad".  Sem entrarem nos meandros do porquê de a Irmandade Muçulmana querer derrubá-lo.
Por que queriam tirar Assad de Damasco?
Não porque Bashar era ditador e ponto final.
Era porque seu pai havia permitido o bombardeio de Hama trinta anos antes a fim de estancar o crescimento da Irmandade Muçulmana, calá-la na marra e empurrar para o exílio suas vozes religiosas exaltadas.
Errou, é claro.
Sua atitude e suas medidas de repressivas foram e são condenadas e condenáveis.
Mas o problema é da Síria e dos sírios.
Aí outros argumentam que não é normal que Assad, um alauíta, isto é, de confissão religiosa minoritária, controle o país onde os sunistas são majoritários.
Pois é, mas as mesmas pessoas que dizem isso calam-se quando o assunto passa para o Bahrein, que vive um caso inverso com consequências iguais ou piores do que na Síria - uma família sunita que governa com violência uma população xiita majoritária. (vídeo abaixo)
Na Síria, se os rebeldes não tivessem sido armados no começo o país não estaria no caos atual.
É certo que a Irmandade Muçulmana estaria em pior situação do que estava, pois Assad talvez não perdoasse a rebeldia (apesar de prometer anistia).
Porém, esta é a história da Síria.
Duvido que um governo novo mude o jeito do "olho por olho" de governar.
Se, se, se, enfim, se não muda nada.
São águas passadas.
O se final é que uma providência tem de ser tomada para que Damasco, Aleppo e todas as antiguidades maravilhosas que estão hoje em pedaços sejam protegidas dos assaltos de "rebeldes" com agenda própria. Eles acham que atacando as igrejas, os sítios arqueológicos romanos, enfim, a riqueza milenar síria, atacam Assad.
Rebeldia seletiva da qual não se pode falar porque cristão que defende sítio cristão é reacionário. Cristão "moderno" só pode condenar vandalismo contra mesquitas e sinagogas.
Na Síria, a população tem de ser protegida. Mas de todos os homens que carregam armas.
E qualquer quer seja o acordo, querendo ou não, tem de incluir Assad e o partido Bath.
Nem que seja para ele proceder a uma democratização à russa, a passos lentos, mas em direção a uma mudança de mentalidade.
Pois até Bashar sabe que tem de democratizar.
Porém, tem de ser à maneira que a Síria pode e conhece.
Enfim, o jeito que o país achar melhor. Não nós.
Continuo com a mesma opinião de 2010. A revolta na Síria não foi popular como na Tunísia e no Egito. Lugares em que a Irmandade Muçulmana acabou aproveitando a deixa para sequestrar o movimento dos estudantes e galgar ao poder nas costas dos revolucionários.
(E o problema foi só adiado).
Se a revolta na Síria tivesse sido popular mesmo, Assad não teria conseguido manter-se no poder nem a pau - literalmente. Os soldados teriam desertado para o lado dos familiares e o governo teria vindo abaixo. Isto é um fato.
Na Síria, nem o general amigo-irmão de Bashar el-Assad, ao desertar e emigrar para a Turquia  - a fim de pleitear o trono que dizia que Bashar vagaria em curto prazo - conseguiu induzir deserção em massa das tropas que comandava.
Nem ele, nem outros oficiais graduados, nem os ministros que abandonaram Damasco.

Portanto, a maioria da população não deu as costas a Assad.
E no final das contas, é sempre a maioria que decide.
Como disse em relação ao Irã, em ditadura, o processo de amadurecimento da população é gradual, progressivo. A emancipação de um povo tem seu próprio ritmo. Ritmo que não pode ser acelerado por vontades e forças alheias ao processo.
Os EUA intervieram no Iraque com resultados dramáticos. E na Líbia, que está caminhando para o caos social a passos largos.
Pensar o contrário, que os "coitados" dos sírios PRECISAM da ajuda ocidental, porque são fracos, é um paternalismo insuportável.
A Espanha e Portugal foram viveram regimes ditatoriais durante décadas. Em plena Europa. O general Francisco Franco e o econismta Antônio de Oliveira Salazar ficaram bem instalados em suas ditaduras represssivíssimas até a morte, natural, em ambos os casos. Sem que nenhum pas europeu pensasse em intervir para salvar os "coitados" dos espanhois e portugueses dos ditadores que se mantiveram tranquilos em seus tronos.
Por quê?
Por que intervir nos países árabes, dar lição aos iranianos, acelerar um processo para o qual o povo não está preparado?
Será que é por paternalismo, misturado de alta dose de imperialismo e cobiça dos 1% de bilionários que querem parasitar os recursos naturais alheios, custe o que custar?  
Repito. A intervenção militar é impraticável.
É por saber disto que Putin - único presidente do mundo dito civilizado que está realmente bem informado sobre o que acontece na Síria -  anda dizendo Basta. A todos os lados.
Ofereceu-se para resolver o problema à sua maneira. Como pode e como sabe.
Como?
Reunindo todos em volta da mesa de diálogo, a fim de concertarem um plano de reconciliação nacional.
Todos são, Assad e os chefes dos grupos rebeldes identificáveis + os países interessados na resolução do problema.
Tanto as potências ocidentais quanto os árabes.
Pois Putin sabe que não adianta nada os Estados Unidos se reunirem só com seus aliados árabes - Arábia Saudita e os vizinhos de regimes igualmente autoritários - para os quais Assad é uma pedrona no sapato.
O único jeito de acabar com esta guerra civil e sectária é reunindo todos os interessados. Inclusive o Irã e o Hezbollah.
Até os Estados Unidos sabem por onde a solução tem de passar.
Contudo, preferem ver a Síria reduzida a migalhas, todas as maravilhas antigas espedaçadas, a história cristã dos primeiros séculos pulverizada, dezenas de milhares de civis virarem efeitos colaterais de uma disputa absurda, caduca, do que concordar em sentar à mesma mesa com um iraniano para dialogar de igual para igual.
Questão de princípio, dizem.
Questão de soberba, dizem, off the record, até alguns aliados.
Os EUA gostam de brigar, mas conversar, acham difícil - sua diplomacia está longe de fazer parte da elite diplomática internacional.
Vitória com drones é fácil e segura. Mas ganhar batalha verbal, aí precisa de discernimento e sabedoria.
A Síria só vai conseguir resgatar-se se Barack Obama baixar a crista, ser magnânimo (é pedir demais?) e deixar Vladimir Putin tomar as rédeas com prumo.
Gostam de dizer que a culpa dos excessos na Síria são de Putin. Que o Kremlin protegeu Assad por interesse próprio, impedindo que a OTAM interviesse como fez na Líbia.
É inegável que a Rússia tem interesse próprio na Síria - o único país no Oriente Médio e países árabes em que tem base militar.
É também inegável que a preocupação dos russos é legítima.
Os Estados Unidos dispõem de 662 bases militares em 38 países estrangeiros. E tem militares baseados em 130 dos 193 países membros das Nações Unidas.
Nos países árabes, suas bases principais são no Bahrein - Bahrain International Airport, Sheikh Isa Air Base; em Oman - Masirah Air Base, Thumrait Air Base; no Qatar - Al Udeid Air Base; na Arábia Saudita - Eskan Village; na Turquia - Incirlik Air Base; nos Emirados Árabes - Dhafra Air Base.
A Rússia só tem uma. Em Tartus, uma bela cidade que é um dos dois maiores portos da Síria. No Mar Mediterrâneo. Uma ilha de tranquilidade no grande campo de batalha que virou a Síria.
Foi por causa de suas bases militares que os EUA protegeram como puderam os regimes autoritários da Arábia Saudita, do Bahrein e do Yêmen dos movimentos revolucionários ferozmente reprimidos pelos dirigentes pró-estadunidenses.
Portanto, seria ingenuidade e até hipocrisia acusar Putin de defender Assad em benefício próprio.
É aquela história dos dois pesos e duas medidas. É esta história antiga, que a ONU foi criada para remediar, que atrapalha o equilíbrio dentro e entre os países do mundo.

Documentário da Al Jazeera: Bahrain, shouting in the Dark 
Post Scriptum: uma lembrancinha de um pedacinho da maravilha arquitetural e histórica que era a Síria até 2010.
O país abriga (abrigava) sítios arqueológicos que datavam de antes e do início do cristianismo. 
ALEPPO
 
  








APAMEA

AL BARA

BOSRA






DAMASCO




HAMA


KRAK DES CHEVALIERS




MALULA




 



 MARQAB


 PALMIRA



 SERGILIA