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domingo, 9 de outubro de 2011

UNESCO desafia os EUA; Afeganistão, aniversário de 10 anos



Insurgentes Talibã em campo de treinamento na fronteira do Paquistão

Dez anos atrás os Estados Unidos com o apoio da OTAN despejou as primeiras bombas no Afeganistão, em princípio, em cima dos Talibã que protegiam Ossama Bin Laden.
Tudo aconteceu com a cumplicidade do Paquistão, então em plena lua de mel com Washington. Tanto que foi de lá que cruzaram a fronteira quatro homens enturbantados, munidos de celulares fornecidos pela CIA. Um deles era o líder de uma tribo Pashtun (cujo líder máximo era o saudoso comandante Massoud), rival dos Talibã.
O homem que chefiava o grupo discreto era Hamid Karzai.
Dois meses mais tarde, Karzai, patrocinado por Washington e “abençoado” por líderes tribais exilados, recebeu uma delegação Talibã no monte Shah Wali Kot em Kandahar como chefe de Estado para negociar a rendição das forças de resistência nacionais.
O chefe dos Talibã, Mullah Muhammad Omar, enviou seu braço direito, Mullah Obaidullah, à reunião para dar-se por vencido mediante garantia que os líderes tribais Talibã pudessem retornar sãos e salvos aos lares.
Nessa noite, Obaidullah mandou pão para Karzai, em um gesto de conciliação.
Pronto. A paz estava garantida e o terreno estava livre para a criação de um novo Afeganistão democrático sem influência Talibã.
Infelizmente a sede de vingança estadunidense pós-ataque em casa estava insaciável e não se resignaram à paz com um tratado. Queriam lavar a honra e fazer o luto de seus mortos com sangue.
Então a máquina de guerra do Pentágono perseguiu os Talibã sem clemência em vez de deixá-los voltar para casa e eles se refugiaram no Paquistão, onde foram curar as feridas e cultivar mágoa, para em seguida se empenhar-se na reorganização da insurgência sem trégua contra os ocupantes que não os pouparam.
Dez anos depois, os EUA conseguiram a vingança que buscavam, mas ela custou cara: 17.000 civis mortos, 2.750 soldados estrangeiros mortos em combate, inúmeros bombas suicidas e nos últimos anos um organizado combate de guerrilha Talibã contra a qual os Aliados não sabem como lutar. A prova disto foi o ataque de 20 horas da própria Embaixada dos Estados Unidos em Kabul, mais vigiada, impossível; porém, frágil.
Barack Obama prometeu evacuar suas tropas até 2014. Os ingleses não querem mais nenhum soldado deles lá porque a opinião pública é em grande maioria contrária a esta ocupação interminável.
Fontes estadunidenses afirmam que o país vai deixar cerca de vinte mil soldados para apoiarem Karzai em sua reestruturação democrática.
Karzai deseja voltar a reunir-se com as lideranças Talibã como fez dez anos atrás para negociar.
Resta saber se ele hoje tem a autoridade que lhe faltava em 2001 e se Mullah Omar vai depositar nele a mesma confiança que depositou dez anos atrás e que lhe foi negada.





O veto da China e da Rússia no Comitê de Segurança da ONU à moção de sanção à Síria mostra o quanto o mundo está mudando de cara. Os líderes do emergente BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) eram contrários ao bombardeio da Líbia e não querem que aconteça o mesmo com a Síria. Roupa suja se lava em casa.
Se fizerem tanta questão de alimentar a indústria de armamento, intervenham na Palestina para protegê-la da invasão do poderoso vizinho que possui até bomba atômica! Esta frase é de um sírio que se opõe a Assad, mas não quer estrangeiros os bombardeando.





Os Estados Unidos deram tanta importância à execução de seu cidadão membro do al-Qaeda Anwar al-Awlaki, no Yêmen, que a CBS chegou a interromper a programação para fazer o anúncio.
Já no Yêmen a morte de Awalaki teve pouquíssima relevância. Os yemenitas estão mesmo preocupados é com a liberdade que vêm reivindicando em praça pública ao ditador Saleh.
O perigo estava no fato de Al-Awlaki fazer proselitismo terrorista em inglês e ter assim recrutado vários anglófonos com sua lábia nociva bem articulada.





Enquanto o Conselho de Segurança da ONU examina o pedido de Estado solicitado pela Palestina, no dia 5, esta ganhou sua primeira vitória diplomática mundial quando o comitê executivo da UNESCO (Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas) reconheceu seus direitos em seu seio como 194° membro.
Os quatro votos contrários (Alemanha, Estados Unidos, Letônia, România) aos quarenta países favoráveis e aos quatorze indecisos que querem agradar, ou desagradar, gregos e troianos (Bélgica, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, França, Grécia – por razões financeiras óbvias, Itália, Polônia, etc.) mostraram que pode ser possível conseguir a maioria de dois terços para a aprovação da Assembléia que reunirá os 193 membros, na sede em Paris, no dia 10 de novembro.
Hillary Clinton levou susto, esperneou, deu grito, mas... ficou por isto.
A UNESCO não sofre jugo de nenhuma superpotência (real ou exangue), pois não dá direito de veto, como no Conselho de Segurança da ONU. Todas as decisões são democraticamente tomadas por maioria em plenário. Todos os votos valem o mesmo tanto.
Na véspera, os Estados Unidos, através do embaixador David Killion, pressionaram todas as delegações para que votassem Não à recomendação. Em vão.
Após o voto contrário ao seu desejo, a deputada Kay Granger, encarregada da comissão parlamentar que aprova os financiamentos internacionais, avisou que os EUA vão cortar sua participação financeira à UNESCO.
Vale lembrar que os Estados Unidos passaram anos sem pagar o que devia à ONU. Só acertaram as contas quando precisaram do voto da Assembléia para começar sua campanha bélica mundo afora.
Portanto a UNESCO sobreviverria sem eles.
Como cultura não suplanta a prioridade de armamento, eles também sobreviveriam sem a UNESCO de 194 membros.
E a Palestina poderá então solicitar a inclusão de vários sítios históricos, ocupados militarmente por Israel, no Patrimônio Mundial da Humanidade.
Para começar, sítios cristãos como Belém, Jericó, Betânia, o Monte das Oliveiras, etc.
Lugares cuja manutenção é cara para os palestinos, que não têm nenhum lucro turístico.
As agências de turismo, inclusive brasileiras, só trabalham com agências israelenses cujos guias levam os peregrinos de igreja em igreja (declamando a ladainha que decoraram) sem deixá-los consumir nada nas cidades, com o falso argumento do perigo.
Embora a maioria dos sítios cristãos esteja na Cisjordânia e serem os palestinos os responsáveis por sua manutenção, sempre impecável, são os israelenses que lucram enquanto eles trabalham.
Faz parte das coisas incompreensíveis.
Como a ameaça de corte de fundos, de ajuda internacional, se os palestinos levarem sua reivindicação de Estado adiante.
O Congresso estadunidense já está bloqueando os U$200 milhões anuais (a Israel dão U$3 bilhões de ajuda militar) atribuídos à polícia civil para a que a Autoridade Palestina possa manter a ordem e para reconstruir parte do que Israel destrói.
Até Binyamin Netanyahu lembrou o Congresso que talvez não seja uma boa ideia cortar a ajuda, pois esta faz parte dos Acordos de Oslo...
Parece mesmo que os assessores de quem decide nos EUA não têm memória e nem se informam sobre a própria história imediata patrocinada por Washington.
Sem falar que nem falam em cortar a ajuda militar que Israel recebe infalivelmente. Corte que talvez ajudasse Binyamin Netanyahu a decidir gelar a expansão das invasões na Cisjordânia.
Só dizem: Não faz isso não! com voz de quem quer em retorno mais humilhação. Como mulher de malandro.




Quanto mais se lê o discurso de Barack Obama do dia 21 na ONU, mais se encontra incongruências incompatíveis com o nível internacional de seu país.
Parece até que quem escreveu o discurso nem se deu ao trabalho de conferir a veracidade de suas informações antes de dar lição pública.
Para começar, comparou o incomparável. Ou seja, o Sudão, que era um país único que foi separado em dois Estados, com dois países, Israel e Palestina, já divididos pela ONU, sendo que um vem se expandindo impunemente em território alheio.
E mesmo que o argumento fosse válido, o redator do discurso esqueceu o precedente do Kosovo que anula seu argumento inteiro de negociações e acordos bilaterais serem condições sine qua non para o reconhecimento de um Estado.
Os EUA, apesar da oposição irredutível da Sérvia, votaram e incitaram a ONU a reconhecer o Estado do Kosovo em 1998. Embora apenas 83 membros da ONU o tenham reconhecido formalmente. Ou seja, número bem inferior aos 127 que reconheceram a Palestina.
Insatisfeita, a Sérvia acionou a Corte Internacional de Justiça para que revogasse a decisão do Conselho de Segurança e o veredito foi claro: O Direito Internacional não proíbe declarações unilaterais de independência.
Embora neste caso houvesse uma verdadeira ambiguidade histórica.
Só para lembrar, o Império Otomano derrotou os sérvios em 1389 e instalou um enclave islâmico no Kosovo, que mesmo assim continuou com maioria étnica e religiosa sérvia por séculos.
Antes dos kosovars destruírem, esta região tinha igrejas, monumentos e monastérios construídos há séculos. Eram maravilhosos legados culturais dos quais os sérvios se recusavam a abrir mão, pois os consideram como o berço de sua civilização e de sua identidade religiosa cristã.
Yasser Arafat declarou a soberania da Palestina em 1988.
Ibrahim Rugova, albano-kosovar líder do KLA (Exército de Libertação do Kosovo), declarou a independência do estado em 1990.
Durante a guerra civil de 1998 morreram mais de duas mil pessoas.
Os militantes do KLA executaram a sangue frio civis sérvios e kosovars moderados e os soldados sérvios executaram também sem piedade civis kosovars-albaneses.
Em 1999, o presidente Bill Clinton liderou um ataque da OTAN em defesa dos kosovars contra a Sérvia, acusada de estar promovendo limpeza étnica.
Guerra ganha, pois contra a OTAN todo Exército é fraco, o KLA assumiu o poder e começou a sua limpeza étnica expulsando milhares de sérvios, ciganos-Roma, turcos e judeus de seu território. Sob acusação de estes grupos terem “colaborado” com os sérvios.
Estes grupos étnicos viviam na região há séculos, ao contrário dos colonos judeus que foram transplantados para as invasões na Cisjordânia nestas duas últimas décadas.
O caso da Sérvia é, em Direito, muito mais embasado do que o de Israel, porém, foi descartado pela Corte Internacional.
Primeiro, Israel é um país. A Palestina é outro. E as fronteiras divisórias foram definidas pela ONU em 1947.
Portanto a decisão não é assim tão unilateral, já que foi da Organização que aceitou a determinação unilateral das fronteiras retificadas por Israel em 1948.
Segundo, os colonos judeus foram transplantados para as colônias/assentamentos/invasões na Cisjordânia nas três últimas décadas. A maioria há poucos anos.
Portanto, não têm nenhum apego-amor à terra, como têm os autótones palestinos que a cultivam há vários séculos e um, dois, quantos mil anos.
Terceiro, tinha 21 invasões judias na Faixa de Gaza. Foram desmontadas em 2004 com esperneio dos colonos diante dos soldados, mas sem nenhum transtorno incontornável.
É verdade que esta evacuação fazia parte de um plano de agressão dois anos mais tarde, que Ariel Sharon promoveu a retirada dos colonos da Faixa para depois bombardeá-la à vontade.., mas deixando isto de lado, com vontade política e militar, desmontar os assentamentos/colônias da Cisjordânia não é um ínfimo da tragédia humana que vivem os ocupados.


Hoje o estado da Palestina já é reconhecido individualmente por países que representam 80% da população do planeta. Ou seja, 5.5 bilhões de indivíduos, contra os 1.6 bilhões que detêm 75% do PIB mundial.




A ex-primeira ministra de Israel Tzipi Livni é célebre por ter dito uma frase inusitada para uma advogada: Detestava leis, ainda mais as internacionais. Frase gravada e reproduzida para a posteridade nos Palestine Papers.
Na semana passada Livni, a dvogada que acha que Direito e Justiça não são indissociáveis, quase parou atrás das grades durante sua visita a Londres.
Livrou-se do mandado de prisão porque gozava de estatuto diplomático.
A acusação de criminosa porém continuará a pesar sobre sua cabeça.
Era Livni que estava em comando quando em 2008 Israel bombardeou Gaza, causando a morte de mais de 3.500 adultos e crianças, deixando centenas de feridos e danos materiais que nunca foram compensados. As casas e os prédios públicos continuam derrubados, já que o bloqueio impede a entrada de material de construção, além de objetos perigosos como papel higiênico e outras coisas do gênero.




Dimitri Medved quer deixar a casa limpa para devolvê-la ao amigo Vladimir Putin.
Deu um ultimatum a Bashar al-Assad (cuja polícia está atirando até em acompanhantes de funeral) que faça reformas imediatas ou se demita e parece ter permitido a execução em Istambul de três chechenos, considerados terroristas, com a mesma displicência do Mossad (serviço secreto israelense).
Os turcos reclamaram e a diplomacia internacional, de mãos amarradas, condenou mais por uma questão de forma.
Além da questão Tchechena ser complicada, sabem que não há como recriminar a Rússia após os precedentes abertos pelos Estados Unidos e Israel.
O primeiro no processo de rendition, sequestros de civis em países alheios à luz do dia e o segundo, mandante do assassinato do palestino Mahmmoud al-Mabhoul em Dubai, em janeiro do ano passado. Os assassinos foram filmados, as provas eram concretas e múltiplas, e no final não deu em nada.
Putin sabe que crime internacionais só são castigados quando o mandante é fraco.
Como os nacionais.




Enquanto Muammar Gaddafi vive sua nova vida, sua milícia continua defendendo Sirte, sua cidade natal, com todos os meios disponíveis. Os rebeldes, que agora são as Forças Armadas líbias legitimadas, dizem que estão na reta final. Enquanto isto, a debandada das famílias não para.




Ellen Johson Sirleaf, Lymah Gbawee, Tawkkul Karman
Como nem todas as mulheres são impiedosas, muito pelo contrário, o Prêmio Nobel da Paz, que desde a derrapagem de 2009 tem tentado reabilitar-se evitando eleições precipitadas, recompensou o trabalho de três mulheres de ações valiosas.
O favoritismo de Ellen era merecido, apesar das reclamações de seus oponentes políticos. Em 2006 ela assumiu as rédeas de um país estraçalhado pelo ditador sanguinário "Lord of War" Charles Taylor que tinha transformado a Libéria em um campo de batalha cheio de crianças-soldados movidos a alucinógenos. Inspirada no projeto do bispo Desmond Tutu da África do Sul pós-apartheid, estabeleceu com sucesso uma comissão de Verdade e Reconciliação com a ajuda de ativistas como Lymah Gbawee. Foi uma luta pacífica ininterrupta junto às famílias que exigiu muita dedicação e coragem.
A jornalista que é também ativista de Direitos Humanos Tawkkul Karman tem mais caminho para a frente do que para trás, mas o que percorreu já fez avançar bastante a causa feminina e democrática no Yêmen.
Estas três humanistas sabem bem que são as mulheres que educam os homens de amanhã e depende delas a perpetuação de comportamentos violentos e preconceituosos ou mudança de mentalidade.

Enquanto isto, o Quênia enterra sua ilustre cidadã Wangari Maathai, recompensada pelo Nobel da Paz em 2004 por seu trabalho de reflorestamento.
Wangari deixou traços indeléveis na história da humanidade: milhares de árvores. 





"The world sees a great and ongoing injustice. They want a just Israel. They see an Israel that occupies and is clearly unjust, and they believe they should do something. We should thank them for this from the bottom of our hearts."
- Gideon Levy, 2006, em With a Little Help from Outside





Artistas contra o Apartheid: http://youtu.be/V28HnPTYz-I;
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;
Lowkey:http://youtu.be/ET6U54OYxGw;http://youtu.be/kmBnvajSfWU; http://youtu.be/GO5Cay6GUkM;
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/

domingo, 6 de março de 2011

Ingerência não é assistência

A semana foi marcada por uma ameaça de intervenção da OTAN na Líbia, condenada por Muammar Kadhafi a uma guerra civil de duração imprevisível.
Na semana passada Trípoli parecia perdida, hoje Benghazi retomou a vida normal e a cidade está à deriva administrativa. A população foi pega de surpresa pelo movimento revolucionário e não estava preparada para assumir a gestão e por enquanto nem o trânsito está sendo regulado.
Navios de guerra estadunidenses estão a postos no mar Mediterrâneo, batalhões ingleses idem, e o coronel Kadhafi, que nunca chegou e jamais chegará a general, conseguiu aliados graças à ameaça de intervenção ocidental.
Aviso aos invasores potenciais, tem uma coisa que os líbios detestam mais do que Kadhafi: estrangeiros em suas fronteiras cantando de galo.
A ONU intervir com funcionários para mediar conflito entre duas nações ou com soldados para fazer respeitar as leis internacionais, é perfeitamente justificável, já que um de seus propósitos é manter o equilíbrio mundial entre os Estados.
Porém, ingerência externa em um país para resolver conflito doméstico é um disparate. Por melhor que seja a intenção, a história mostra que o resultado é sempre um desastre. Vide a Indochina, o Vietnam e o Iraque.
Na primeira guerra do golfo em 1991, para “salvar” o Kweite da invasão do Iraque para recuperar terras que o invadido havia ocupado (uma questão de água), George Bush que odiava Saddam Hussein por querelas pessoais, fez sua “Tempestade do deserto” e condenou o Iraque a um boicote draconiano – em teoria, para alienar a população de Saddam Hussein para que ele caísse sem maiores trabalhos... Na prática o tiro saiu pela culatra. O povo se sentiu visado e a carência de gêneros de primeira necessidade o levou a apoiar o presidente em desgraça, em vez de rejeitá-lo.
O resultado foi o bombardeio do Iraque dez anos mais tarde, com a aquiescência até de alguns democratas liberais que acreditaram na mentira das armas de destruição em massa e acharam que embora tivessem deixado Augusto Pinochet aterrorizar o Chile durante anos, Saddam Hussein tinha de ser aniquilado.
Na época insisti que era um erro não apenas por a invasão ser contrária ao parecer da ONU, mas também porque as divisões étnicas e religiosas no país eram ancestrais e só não pareciam graves porque Saddam Hussein mantinha a ordem (à sua maneira drástica). E por outro lado, o país não estava pronto para assumir a liberdade. A fome de liberdade é um processo que pode ser rápido, mas muitas vezes é lento e tem de ser vivido em todas as etapas, pois são elas que levam ao amadurecimento da sociedade.
A sociedade iraquiana não estava preparada para o pós-Saddam Hussein e deu no que tinha de dar. Esta é outra história que abordarei mais tarde.
De uma forma geral, os países árabes atingiram este grau de maturidade e estão lutando pela liberdade sem nenhum “patrocínio” desconfiável. Esta é sua autenticidade e é daí que vem o entusiasmo com um futuro que estão querendo construir com liberdade.
Sei que vou desagradar, mas na Líbia não se sente a mesma unanimidade da Tunísia e do Egito. Não que é que o povo esteja satisfeito com Kadhafi, longe disso! Mas o país é tribal, as tribos são diferentes e não vêm o país e a vida com os mesmos olhos, e o processo revolucionário aconteceu por acaso; por causa da repressão a uma passeata por razões diferentes, em Benghazi e não na capital. Na Tripolitana o movimento ainda não é de massa, embora a população esteja com vontade de avançar, sem o jugo do coronel Kadhafi.
Os rebeldes estão ganhando terreno, estão armados , mas o Coronel dispõe de artilharia pesada e disse que vai lutar até o último homem. Quem duvida? Mas por mais que a perda de vidas seja deplorável, o conflito é nacional. Se Kadhafi sair vitorioso será porque a vontade de derrubá-lo não era majoritária e a determinação não era suficiente para derrubar o palácio. E armar os rebeldes, como cogita Washington depois de Londres, só é uma boa solução para os negociantes de armas.
Estou sendo lúcida, e não advogada do diabo.
Gelar a fortuna dos Kadhafi nos bancos ocidentais? É legítimo. Mais ainda se este dinheiro fosse restituído aos cofres da Nação desfalcada. Mas na real-política isto é só vontade.
Gelar a venda de armas para Kadhafi e policiar o tráfico? É necessário. Que se saiba, seu arsenal não é inesgotável.
Mas atacar Trípoli para botar as mãos na maior reserva de petróleo da África? Aí a estória fica macabra.
Será que não aprenderam a lição do Iraque?
E esta estória de bombardeio “cirúrgico” é uma fábula. No Iraque, dezenas de famílias morreram “por acaso” e vilarejos inteiros foram tirados do mapa. Em Trípoli, não há como bombardear o palácio sem matar homens, mulheres e crianças inocentes. E dizem que o bunker de Kadhafi é à prova de morteiros; de bomba então, nem falar!
Sem contar que combater selvageria com selvageria é o pior recurso para alcançar a paz. A cicatriz ficaria aberta por décadas. E Kadhafi sabe disto. Tanto ele quanto seus compatriotas lembram de pai para filho o período colonial quando eram obrigados a caminhar na sarjeta para deixar a calçada para o italiano passar.
Nenhuma ocupação é desejada e nem justificável.
Líbios exilados pedem intervenção - os iraquianos na mesma situação também pediam - e algumas tribos rebeldes solicitam armas e o bombardeio ocidental de pontos estratégicos, mas eles não representam todas as tribos, e a vondade é pontual.
O certo na Líbia é que os jornalistas não têm acesso a toda informação porque a circulação é restrita. Há duas versões distintas dos acontecimentos e ninguém pode garantir certeza absoluta. A única coisa visível é que o país está dividido. Ninguém pode afirmar com certeza o que querem os líbios. E na dúvida, é melhor eles serem deixados tranquilos.
Uma revolução bem sucedida é a que é feita pelo povo, unido, que consegue a adesão de todos, inclusive das forças armadas.
O então candidato Barack Obama criticou seus adversários políticos por estes terem colocado os EUA do “lado errado da história”. Chegou a hora do presidente de agora ser coerente pelo menos nisso e se colocar do lado certo, sem estória.
O processo revolucionário é árabe ou não será. Neste processo, o resto do mundo só pode ser testemunha, nada mais.

Neste ínterim...
.
No Iraque, as ruas de Bagdá também encheram de gente reivindicando reformas. A passeata pacífica foi reprimida com violência e 29 pessoas foram mortas. Tem 50.000 soldados estadunidenses lá, em princípio, para velar pela instituição de um “regime democrático”. Onde estavam quando o presidente fiel aos EUA mandou bater e atirar em civis desarmados?
. Na noite de sábado, os aviões israelenses bombardearam a cidade de Gaza, o norte da Faixa e um túnel na fronteira com o Egito. Três bombas visavam as bases da brigada de Izzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas. Israel repetiu que o bombardeio, noturno, foi retaliativo, por causa de um foguete ter atingido o deserto de Negev de manhã. A chefia política do Hamas voltou a insistir no respeito à trégua.
Aliás, parece até que o lançamento destes foguetes inócuos visa mesmo é dar desculpa a Israel para usar sua artilharia pesada. São foguetinhos que raramente causam perdas humanos, às vezes, materiais, e a retaliação é sempre desproporcional. Além de tirar o sono dos habitantes da Faixa, provoca graves danos emocionais e materiais, quando não de ferimentos graves ou mortais. Está passando da hora do Hamas pôr as mãos nos culpados que servem mais Israel do que a paz.
. Nos EUA, o Congresso aprovou cortes no orçamento para programas vitais de utilidade pública no setor de emprego, educação e saúde, porém, os U$3 bilhões de dólares de ajuda militar a Israel nem entraram na pauta. Este é um dos assuntos em que democratas e republicanos, de uma forma geral, concordam sem pestanejar, graças à força de persuasão lobística da APAIC. É normal que o país ajude um aliado, mas poderia condicionar esta ajuda ao gelo das colônias e ao respeito dos tratados internacionais. Mas isto é uma miragem.

Vou aproveitar a "âncora" para responder uma das várias perguntas que me fazem e que pus de lado desde o início das revoltas árabes.
Como os Estados Unidos conseguem manter duas guerras – Iraque e Afeganistão – sem aumentar os impostos para financiá-las?Porque os EUA as estão financiando com débito. Ou seja, com grande parte dos cerca de U$14.19 trilhões de dinheiro estrangeiro emprestado, o que o coloca em 12° lugar entre os países mais endividados do planeta (o PIB é de U$14.66 trilhões).
Os dez maiores credores dos EUA em bilhões são, China (1160.1), Japão (882.3), Inglaterra (272.1), países da OPEP (211.9), Brasil (186.1), bancos caribenhos (168.6), Hong Kong (134.2), Suiça (107), Taiwan (155.1) e Rússia (151).
Os novos empréstimos previstos para os próximos anos levam a uma projeção de aumento do débito público a U$26 trilhões em 2021. Os especialistas prevêem que neste ritmo, entre 2030 e 2040 gastos obrigatórios, como seguridade social mínima e assistência médica básica, somados aos juros da dívida, vão suplantar o imposto de renda. O que significa que terão de endividar-se mais ainda para gastos com coisas essenciais como educação, defesa e polícia.
Como disse no início do milênio, os EUA estão em um tobogã que só tem um destino. O império está falindo mais depressa do que muitos pensavam. O que os segura na cabeça é o armamento pesado que, paradoxalmente, é um dos grandes responsáveis pelo gasto excessivo e o declínio inevitável. Neste ritmo, daqui a 50 anos o mundo terá um, dois ou quatro novos líderes de direito e de fato.
Este líder vai certamente sair do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) a quem os EUA dão um exemplo implícito: Se quiser harmonia social doméstica e hegemonia mundial promissora, segura e duradoura, é melhor não fazer inimigos fora de casa, e dentro, investir em educação, saúde e emprego, em vez de fabricar armas que terão de ser vendidas e cedo ou tarde, usadas.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Desenvolvimento é compatível com biodiversidade?

Faz alguns meses que não vou à África Negra, mas a distância física não me fez esquecer o Okavango, o rio que jamais encontra o mar e que paradoxalmente foi protegido por uma guerra civil interminável em Angola, onde nasce perto de Nova Lisboa e atravessa correndo centenas de quilômetros de terreno minado para regar uma faixa da Namíbia até chegar ao Botsuana e se jogar em um delta raro, cujo ecossistema foi pouquissimamente tocado.
Vistos do alto, os igarapés trançados com ilhotas entremeadas parecem uma figueira carregada de frutos de verde a maduro de tamanhos variados. Por baixo também a beleza é de tirar o fôlego até de um citadino inveterado para quem uma arrebatadora paisagem biodiversa não representa nada.
O Okavango desemboca no deserto de Kalahari, que antes de absorver-lhe a água o deixa irrigar quinze mil metros quadrados de seu solo árido. É espetacular. Mas como valorizo mais a vida que a natureza alimenta e cria em vez do espetáculo, embora dez por cento do PIB do Botsuana venha desta atração turística* , o maior valor dessas águas é o de ser sua única fonte hídrica, assim como da Namíbia.
Politicamente, estes dois países são relativamente estáveis, mas a miséria de ambos é altíssima, além de um nível quase pandêmico de AIDS. A Namíbia tem 15% da população infectada e no Botsuana a média de vida nos últimos anos baixou de 65 a 35 anos.
Faz tempo que o Botsuana vem se desertificando. As chuvas esparsas que caem durante o ano só conseguem regar 5% do território e 75% da população dependem de aquíferos subterrâneos acanhados. Mas graças à sua estabilidade política regional rara, beneficia de fundos internacionais assíduos, com a condição sine qua non de preservar o ecossistema da foz do Okavango.
Sem estes incentivos o Botsuana já teria danificado o sítio tão defendido como a Namíbia, que com 50% da população na miséria, trabalho infantil banalizado e recordista mundial de tráfico de crianças, só pensa em construir açudes que melhorem suas condições de vida.
Apesar disto, logo após a independência da África do Sul em 1990, a Namíbia criou a OKAKOM (1), uma comissão permanente conjunta para a água (com o Botsuana para tratar da administração bilateral do rio. Quatro anos mais tarde a Angola, mãe da nascente e que detém 80% da água, passou a integrá-la.
A comissão tripartite gerencia a crescente demanda dos benefícios da bacia e toca projetos sustentáveis. Ela funciona até bem apesar dos bate-bocas esporádicos, e entre os dois primeiros, da disputa da ilha Kasikili/Sedudu (que quer mesmo é autonomia).
É aí, no apaziguamento e na busca de soluções viáveis, que entra a Cruz Verde Internacional(2), uma ONG presidida por Mikhail Gorbatchev desde 1993. Pouco conhecida, mas ativa na busca de soluções humanistas para conflitos potenciais ou declarados que envolvem ecologia e no “tratamento” do ecossistema planetário.
Este rio quase prístino que corre por um terreno extremamente subdesenvolvido e árido é um exemplo típico da escolha difícil que os países africanos têm de fazer entre desenvolvimento e preservação de sua biodiversidade.
A Cruz Verde nasceu da urgência ocidental de salvar o que for solvável, já que o patrimônio ecológico “excedível” dos europeus e dos norte-americanos foi dilapidado no processo de desenvolvimento em uma época em que Ecologia era uma palavra que só existia no dicionário.
O BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), elite reduzida das potências emergentes da qual o nosso faz parte, abusa de água e vem mostrando as garras na corrida desenfreada para alcançá-los e ultrapassá-los. Com armas mais ou menos morais, conforme a letra e o caso.
Do outro lado os países atolados no subdesenvolvimento se encontram em um impasse complicado. Proteger a natureza ou explorá-la?

Alguns têm meios de não depredá-la, como é o caso de Angola com seus recursos naturais, suas minas de diamante e o petróleo que jorra e parece não acabar. Porém, na África a riqueza natural serve mais a senhores de guerra e a quem está nas rédeas do Estado e seus agregados do que ao crescimento nacional. (Talvez alguém saiba como sair deste círculo vicioso. Eu não sei de nada.)
Outros países têm clima desigual, recursos limitados, mas são banhados por rios que podem fornecer energia e irrigar culturas agrícolas, como é o caso dos membros da bacia do Nilo. Mas para isto precisam de barragens, hidrelétricas, irrigação, e na maioria das vezes o desenvolvimento que a população espera chega a um custo mais alto do que pode pagar.
No último vagão estão os desprovidos de riquezas naturais capitalizáveis, maltratados por uma seca interminável, com a população que morre jovem mas não para de aumentar, e que para sobreviver com fundos internacionais assinam tratados com órgãos como o Ramsar(3) – convenção que controla as terras úmidas do planeta desde 1971, com 160 países membros, 1899 sítios designados que cobrem uma área de 186 milhões 549 mil 794 hectares. Protege o planeta, mas de certa forma estagna nações como estas da África Austral.
Outro dia um amigo insistiu comigo que o patrimônio ecológico universal tem de ser protegido a qualquer preço. Eu também acho... quando estou em cidades em que abro a torneira e sai água potável e em países que beneficiam daquela chuvinha chata, mas que o agricultor agradece porque é a que realmente irriga o solo e garante uma colheita farta. Porém, quando vejo terras que o sol racha todos os dias de manhã e de tarde queimando a vida de homens, mulheres e crianças que definham por falta de água, perco minhas certezas ocidentais bem alimentadas e hidratadas à vontade, com água potável.
Parafraseando livremente o escultor Alberto Giacometti, entre salvar um homem e uma árvore, acho que salvaria o meu semelhante. Digo isto sem saber muito bem onde, em certos casos, está a moral. O que sei é que a Cruz Verde e os demais organismos internacionais têm de encontrar um equilíbrio entre o tudo ou nada que permita a estes países um desenvolvimento sustentável que os salve.
Por enquanto, por onde ando, só vejo um caminho imediato viável. O da cooperação em forma do sistema de troca que levou o Homo de Habilis, a Erectus a Sapiens. Eu não tenho frutas exóticas, matas, animais, acabei com a minha biodiversidade, mas tenho água ou a tecnologia de dessalinizá-la e saneá-la. Você me dá o que você tem e eu lhe dou água potável.
A equação é elementar.
O Brasil é privilegiado pela natureza e por sua maior riqueza – a herança tupiniquim da cordialidade e de outras qualidades humanas que valem à nação um capital de simpatia sem rival. O Pré-sal perto desta dádiva não é nada.
Sabe-se de projetos que o governo e ONGs nacionais vêm desenvolvendo no sertão há alguns anos. Esta tecnologia poderia ser exportada, a preço abordável, com a mensagem implícita que o Brasil quer chegar ao topo da escada sem esmagar ninguém na subida dos degraus.
Doze por cento da água do planeta circulam no nosso país. Além de protegê-la, podemos ajudar os que estão em falta sem perder nada e ainda obtendo algo. Assim tomaremos a frente do BRIC, para começar, no plano moral.
Os EUA já pagaram e vão pagar, até quando não se sabe, o preço de uma hegemonia adquirida com exploração e inimizade. A China, que sem o Tibete – dos “mil montes e dez mil fontes” – fica acuada, se exaure e para, está seguindo seus passos.
O Brasil tem outra história, uma índole solidária e recursos suficientes para manter a alma intacta. Com o reconhecimento do Estado Palestino já deu uma lição de lucidez e humanidade. Não há porquê manchá-la.
Ramsar
Biodiversidade
Okavango
2. Cruz Verde http://www.gci.ch/
3. Ramsar http://www.ramsar.org/cda/es/ramsar-ramsar-movie/main/ramsar
GCI Brasil: http://www.greencrossbrasil.org.br/