domingo, 1 de setembro de 2013

Síria, EUA e a hipocrisia do "morally obscene"

Putin's wall, Obama's fall, manchete do jornal russo "Pravda" do dia 06/09 

O presidente dos Estados Unidos Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2009 por "extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between people." Na época foi surpresa generalizada e até Obama ficou com vergonha da honra extremamente precipitada, considerando seu governo espião e militarizado. 
Na semana passada o chefe da Comissão das Relações Exteriores da Duma (parlamento russo) Alexei Pushkov sugeriu no dia 30 de agosto que o Presidente dos Estados Unidos fosse destituído de seu Nobel se bombardeasse a Síria.
"If the United States strike Syria without a sanction from the UN, the world community must demand the Nobel committee should deprive Obama of the Peace Prize."
Pois é...

O recuo de Obama era previsível. Por causa da incerteza do responsável do ataque de arma química mas sobretudo por causa de Vladimir Putin. Vladivostok estava tão cheia de jornalistas quanto Washington. Pois o "Tzar" russo era quem realmente detinha a resposta, era ele cujas palavras determinariam se os Estados Unidos teriam ou não coragem de fazer mais uma besteira histórica.
Putin falou, água parou, Obama recuou.
Os damascenos e os sírios que se refugiaram na capital para serem protegidos dos estupros, atques e pilhagens dos "rebeldes" respiraram aliviados. Aliás, se diziam prontos a resistir em defesa da pátria.
Então quem mesmo era que Barack Obama e o Tony Blair da década de dez, presidente da França François Hollande, querem socorrer de Bashar el-Assad?
A resposta na Síria é clara: ninguém quer bombardeio; o problema é nosso e não dos estrangeiros.
Quem quer bombardeio são os que estão fora puxando as rédeas e dando corda.
Quem anda apoiando o bombardeio da Síria baseado em comunicados de imprensa dos Estados Unidos de arma química e ações "moral obscene", está, no mínimo, sendo ingênuo.
Vamos aos fatos. Por etapas.
Os investigadores da ONU não encontraram absolutamente nada que prove o uso do gás "sarin" ou outro do gênero. A análise vai demorar no mínimo duas semanas, com boa vontade e trabalhando sem parar. 
E como o subúrbio cujos casos clínicos foram detetados foi bombardeado concomitantemente, segundo os próprios moradores do local, pelo Exército e por oponentes para-militares, é impossível afimar com certeza quem foi autor do atentado.
(É bem provável que tenham sido os extremistas estrangeiros infiltrados entre os "rebeldes" sírios.)
Só poderiam ter prova cabal do autor se um satélite-espião estivesse passando naquela hora, naquela região, e tivesse fotografado o local exato de lançamento e aterrissagem do foguete que continha o gás. Não é o caso. Se fosse, e se houvesse prova contra Assad, já teriam sido mostradas. Com certeza.
Mas com a tecnologia moderna, até imagens podem ser fabricadas. Para estas, há de se esperar o próximo comunicado dos EUAM, se tiverem coragem de frabricá-las.

Falando em comunicado, entre os vários hiláricos, se a questão não fosse tão grave, houve a tal prova anunciada pelos Estados Unidos de intercepted phone call.
O mundo todo sabe que eles espionam toda gente. Mas daí a acreditar na mesma estória já usada e mentirosa, é subestimar demais a inteligência dos demais ocidentais.
Quem é bem-informado e tem memória deve se lembrar que este foi o mesmo coelho negro que o então Secretary of State Collin Powell tirou da cartola gringa na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em 2003, os EUA usaram esta "prova" infame para impor a invasão do Iraque.
"I cannot tell you everything that we know. But what I can share with you, when combined with what all of us have learned over the years, is deeply troubling." Foi a declaração vergonhosa de Powell na época.
O Conselho de Segurança negou, mas os Estados Unidos e a Grã-Bretanha - ou melhor, George W. Bush e Tony Blair - assim mesmo partiram ilegalmente em campanha.
Os dois homens são responsáveis pela morte de dezenas de milhares de iraquianos, de atos bárbaros, e de múltiplos danos e estragos; mas não foram parar na Háguia.
O Tribunal da Háguia julgou Slobodan Milosevic por atos similares - a defesa do ex-Presidente sérvio pelas ordens que deu durante a guerra era que estava defendendo sua pátria dos vizinhos rebeldes.
Os rebeldes que Bush e Blair atacaram nem vizinhos eram.
Os que Barack Obama quer atacar com a cumplicidade do presidente da França François Hollande - que lhe deve um favor com o apoio recebido ao seu recente ataque e invasão do Mali - está a milhares de quilômetros do nosso continente, mas embora não seja vizinho, está pertinho da França. Talvez seja por isso que a maioria dos franceses desaprovam esta ingerência cujas consequências temem.

E quem seriam os culpados por este crime de uso de arma química?
Não em Washington, mas em Damasco, rolam vários boatos sobre os responsáveis potenciais, caso o gás tenha realmente sido jogado.
Do meu lado, olho, ouço e aplico a investigação política que é como a da polícia em vários aspectos. Um deles é tentar responder à pergunta Quem lucra com o crime?

Bashar el-Assad?
Nada. Só perde.
Para desafiar os EUA, como leu-se ali e acolá? Que besteira. Quem tem os problemas internos do tamanho dos de Bashar não se ocupam  de megalomania alheia.
O que lhe tira o sono são os milhares de "rebeldes" extremistas estrangeiros que tem de combater se quiser manter-se e salvar seu país de um futuro negro.
Como disse Vladimir Putin, seria "utter nonsense" para um governo usar tal tática em uma guerra que está vencendo. Pois é um fato inegável: Bashar está para cantar vitória, a calma voltar e os refugiados retornarem os lares despojados dos bens que deixaram.
Além do mais, o gás em questão só atingiu civis e soldados do Exército regular. Nenhum "rebelde" foi afetado.... Por que será? A bom entendedor,...

Os grupos rebeldes oficiais?
Será que os EUA são tão míopes a ponto de fornecer gás a pessoas que poderiam em seguida usá-lo contra Israel? Pouco provável.
Mas não se exclui este ato ignóbil de agentes infiltrados para realizar os atentados e pôr culpa em Assad.
Entregar uma ou duas bombas cheias de gás em vez de munição regular é fácil e indetectável.
http://youtu.be/U10D0-wiJ8A

Os "rebeldes" estrangeiros extremistas?
Não é descartável. Podem contrabandear o gás e usá-lo para desacreditar ainda mais Assad. E como não são sírios, ou os que são estão convencidos de ter razão religiosa absoluta, não têm nenhuma preocupação com a população local.

Mas se o ataque tivesse sido obra das tropas oficiais, murmura-se off the record, que teria sido de iniciativa de Maher, irmão de Bashar e comandante da potente Quarta Brigada.
(A frase acima está no condicional porque estes rumores são fraquíssimos e sem fundamento. Sem confirmação física nem verbal de nenhum militar. Fala-se em Maher porque todos têm certeza que Bashar jamais minaria seu próprio terreno estando com a vitória assegurada.) 
Maher foi preterido pelo pai na hora da sucessão, apesar de Bashar não ter nem vontade nem vocação militar e Maher ter até demais. O caçula da família foi preterido porque tem péssimo gênio. É um temperamental notório. Seu "estopim curto" sempre deu pano pra manga. Ele e a família da viúva de Hafez e mãe de ambos. Mancomunado com a família da mãe Aniseh, sobretudo com seu primo Rami Maklouf, Maher montou um império de negócios legítimos e menos legítimos na Síria, no Líbano e em Dubai. Razão pela qual a mãe e a irmã, duas mulheres terríveis, abandonaram o navio e se mudaram para Dubai no início de 2013 onde vivem vida de nababas.
Voltando a Maher, é irmão e rival de Bashar. Sua ambição é incomensurável. Não me surpreenderia que estivesse, através da mãe e irmã em Dubai, mexendo os pauzinhos nas costas de Bashar para tomar seu lugar. Como os genros de Saddam Hussein fizeram em Amam com a CIA.
A ironia da História em casos desse tipo é que é Bashar que ficará com a fama de déspota sanguinário.
Com o dinheiro e o poder tentacular de Maher nos países árabes e até ocidentais, vai sair por cima qualquer que seja o desfecho deste capítulo sangrento sírio. Se sobreviver. No ano passado foi alvo de um atentado dos "rebeldes", a mídia o deu por morto, mas estava em Moscou sendo tratado. Voltou à ativa e continua sendo um dos alvos prioritários dos para-militares.

Passemos à hipocrisia do título, das grandes palavras que a Casa Branca gosta de usar - "morally obscene", "red line",  quando quer justificar o injustificável.
Primeiro, quem tem autoridade para traçar "red lines" além do Tribunal da Háguia?
Que eu saiba, ninguém, pois os promotores e os juízes estrangeiros desta guerra civil e do uso criminoso de arma química são os mesmos que são coniiventes com a invasão da Linha Verde que delimita Israel/Palestina e que pisotearam a tal "linha vermelha" em outras circunstâncias, em outros lugares, com estes e outros meios.
Sempre fora de suas fronteiras, é claro. Com vidas que, a seu ver, eram "expendable". Como chamam as vidas que tiram na defesa de suas próprias causas.
Continuo contra a intervenção militar unilateral na Síria porque as consequências serão catastróficas e infinitas.
Vide o Afeganistão, bombardeado por vingança contra Bin-Laden (que é saudita, lembre-se de passagem), para "liberar as mulheres do jugo dos taliban". Foi a desculpa "ética" dada mais tarde.
Resultado para o país "salvo": Guerra interminável e as mulheres em questão não estão nada gratas.
Resultado para os EUA e aliados: Pilhagem de recursos naturais afegãos já aqui citados e controle do conduto de petróleo. 
Vide também a intervenção no Iraque porque Saddam Hussein estava "prestes" a usar armas químicas (contra quem?) que nunca foram encontradas.
Resultado para o país: um povo rasgado e mergulhado no abismo de uma guerra civil sectária interminável.
Resultado para os EUA e os 1% de bilionários que elegem seu presidente, um elefante imóvel estadunidense onipresente - o complexo militaro-diplomático-empresarial de 440.000 km², à beira do rio Tigre (para controlar a água), e para proteger os "negociantes" estrangeiros que pilham o que tem valor no Iraque.

Quanto ao uso "morally obscene" de arma química... Peraí!
Não foram os Estados Unidos que forneceram esta arma terrívela Saddam Hussein para que ele combatesse o Irã do aiatolá Khomeini na década de Oitenta?
Não foram os Estados Unidos que usaram Napalm no Vietnã a torto e a direito impunemente?
Não foram os Estados Unidos que usaram Fósforo branco, arma química terrível, em novembro de 2004 em Fallujah, no Iraque para dominar a cidade?
Não foi Israel, afilhado dos Estados Unidos, que usou a mesma arma química várias vezes no Líbano e na Faixa de Gaza com horríveis resultados em centenas de crianças?
Não é Israel que anda pesquisando uma arma química mais "cosmética" para usar nos palestinos?
Ah! Arma química só é morally obscene quando é usada pelos Estados Unidos, seus aliados e seu afilhado.
Entendo, mas onde é mesmo que está a moral?
E quem usa tem moral para punir outro infrator pelo mesmo ato?
Falando nisso, não há base legal para a punição pela ONU porque a Síria não assinou o tratado de não-uso de arma química. Assinado pelos EUA e Israel que usam sem serem questionados.
O uso de arma química é sim amoral, qualquer que seja o utilizador.

Porém, para o bem da Terra e de nós terrestres, os Estados Unidos não podem mais ser os policiais, promotores e juízes do mundo.
Há de se refutar suas tentativas de justificar intervenções militares com encenações e expressões típicas dos EUA - "morally obscene", "crossed a red line". Que como disse seriam risíveis se não houvesse tantas vidas em jogo em Damasco hoje e sabe-se lá quantos anos ou décadas mais. Vide o estado atual da Líbia e do Iraque pós-intervenção "humanitária".
Humanitária que nada.
Há um ano Kofi Annan apresentou saída diplomática viável que os Estados Unidos recusaram por miopia, picuínha com a Rússia e razões obscuras.
Se Barack Obama estivesse interessado em resolver o problema em vez de agravá-lo como há meses anda fazendo, teria pressionado os grupos "rebeldes" oficiais, sírios, há meses para que se sentassem à mesa com Assad para negociar; como Vladimir Putin propusera após convencer Bashar.
O problema dos Estados Unidos é que quando olham para a Síria não a veem. Veem o Irã.
Quando falam em bombardear Damasco sonham em bombardear Teerã.
Quando se apresentam como defensores do povo sírio exposto ao regime de Bashar el-Assad visam sim a defesa do povo israelense, cujos governantes fazem horrores com os palestinos, do lado.
Quando se esforçam para enganar o mundo com teorias mirabolantes, o fazem por despeito e não por bons sentimentos.
O fato é que o Irã, através do Hezbollah, no Líbano, vem fornecendo apoio moral e militar ao governo de Damasco desde que os "rebeldes" começaram a receber armas pesadas de fornecedores "anônimos".
Hoje, derrotar Bashar el-Assad é, para Tel Aviv e Washington, uma questão distante do humanismo. Uma questão que extrapola a racionalidade. Derrotar o regime sírio é, em seu entender, derrotar a república islâmica iraniana.
Como digo, é totalmente irracional. E o que é irracional e sectário está a anos luz de qualquer moral.
Intervenção pacificadora de soldados da ONU, por que não?
Intervenção militar OTAN-EUA, jamais! É uma lose lose situation. Todos perderão no final porque os extremistas vão nadar de braçada em toda a região até a Europa.
Se o objetivo dos EUA fosse mesmo de ajudar o povo sírio, como poderia pensar na solução unilateral draconiana que vem propagando!?
Esta estória de "cross the red line" para convencer os incautos é bobagem.
A única solução na Síria continua sendo diplomática.
Uma decisão que não incluir a Rússia, a China e o Irã está fadada ao fracasso. Ou algo pior. Uma guerra maior do que qualquer guerra "cirúrgica" que os EUA estão prontos para bancar; a fim de escoar sua enorme produção de armas.
Os EUA são míopes, mas tem gente lá que enxerga o que está na cara e por isso Obama está menos afoito do que parece.
O perigo dos Estados Unidos é que são como os extremistas muçulmanos e sionistas. Acham que a razão está sempre de seu lado, que a fórmula certa é a deles, que seu bem-estar suplanta o alheio.
Mas as pessoas sensatas no mundo não são obrigadas a aderir à cegueira deles.
Até o New York Times pôs on line a vídeo de 2012 mostrando os rebeldes executando friamente sete prisioneiros, identificados como soldados do Exército sírio regular.
Os estadunidenses responsáveis também não querem mais guerras "cirúrgicas", sobretudo quando estas podem virar mundiais.

Finalizo este assunto com um suspiro de agradecimento pela existência de Vladimir Putin que assegura um equilíbrio que a ONU deveria.
E transcrevo o que ele disse em Vladivostok sobre o tema sírio, "...I am convinced that [o ataque químico] is nothing more than a provocation by those who want to drag other countries into the Syrian conflict, and who want to win the support of powerful members of the international arena, especially the United States."
Ele sim, desafiou os EUA. Pediu que apresentassem sua proposta para uma intervenção militar ao Conselho de Segurança da ONU (em vez de tomar atitudes hollywoodianas). E como seu colega da Duma (Câmara parlamentar russa), sugeriu que Barack Obama faça juz a seu Prêmio Nobel pensando nas vítimas de uma intervenção de forças estrangeiras na Síria.
"US threats to use military force against Syria are unacceptable and Washington would be violating international law if it acted without the approval of the UN security council."
E disse o óbvio, que a crise na Síria tem de ser discutida democraticamente no G20 em São Petersburgo na próxima semana. "This (a reunião de cúpula do G20) is a good platform to discuss the problem. Why not use it?"
O Presidente dos Estados Unidos recebeu a mensagem. Se há alguém que a Casa Branca e o Pentágono temem é Putin. Aliás, não só eles.
Porém, off the record, fala-se em Amman e em Washington que "The first Syrian rebels to be trained by a CIA programme in Jordan are sneaking into the warzone and ready to strike back at the Assad regime."
É a Operação Condor "CIA-USA" nos países árabes. Para os EUA, eles representam o perigo que nós latino-americanos representávamos há 50 anos.
Parafraseando livremente Camões, Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares, os EUA manteem o jugo de suas vontades imediatas para proteger o American Way of Life.

Documentário do jornalista John Pielger:
The War You Don't See (2010 - 1h36m)

"Poor Obama.
Right at the start of his meeting with history, he [Barack Obama] made The Speech in Cairo. A great speech. An uplifting speech. An edifying speech. 
He talked to the educated youth of the Egyptian capital. He spoke about the virtues of democracy, the bright future awaiting a liberal, moderate Muslim world.
Hosni Mubarak was not invited. The hint was that he was an obstacle to the bright new world.
Perhaps the hint was taken. Perhaps the speech sowed the seed of the Arab spring.
Probably Obama was not aware of the possibility that democracy, virtuous democracy, would lead to Islamist rule. He tried to reach out tentatively, tenderly, to the Muslim Brothers after they won the election. But probably at the same time, the CIA was already plotting the military takeover.
So now we are exactly where we were the day before The Speech: ruthless military dictatorship.
Poor Obama.
NOW WE have a similar problem in Syria.
The Arab Spring begat a civil war. More than a hundred thousand people have been killed already, and the number grows with every passing day.
The world stood by, looking on passively. For Jews, it was a reminder of the holocaust, when, according to the lesson every boy and girl learns at school here, “the world looked on and kept silent.”
Until a few days ago. Something has happened. A red line has been crossed. Poison gas has been used. Civilized mankind demands action. From whom? From the President of the United States, of course.
Poor Obama.
SOME TIME ago Obama made a speech, another one of Those Speeches, in which he drew a red line: no arms of mass destruction, no poison gas.
Now it seems that this red line has been crossed. Poison gas has been employed.
Who would do such a terrible thing? That bloody tyrant, of course. Bashar al-Assad. Who else?
American public opinion, indeed public opinion throughout the West, demandeds action. Obama has spoken, so Obama must act. Otherwise he would confirm the image he has in many places. The image of a wimp, a weakling, a coward, a talker who is not a doer.
This would hurt his ability to achieve anything even in matters far removed from Damascus – the economy, health care, the climate.
The man has indeed talked himself into a corner. The need to act has become paramount. A politician’s nightmare.
Poor Obama.
HOWEVER, SEVERAL questions raise their heads.
First of all, who says that Assad released the gas?
Pure logic seems to advise against this conclusion. When it happened, a group of UN experts, no nincompoops they, were about to investigate the suspicions of chemical warfare on the ground. Why would a dictator in his right mind provide them with proof of his malfeasance? Even if he thought that the evidence could be eradicated in time, he could not be sure. Sophisticated equipment could tell.
Secondly, what could chemical weapons achieve that ordinary weapons could not? What strategic or even tactical advantage do they offer, that could not be provided by other means?
The argument to disprove this logic is that Assad is not logical, not normal, just a crazy despot living in a world of his own. But is he? Until now, his behavior has shown him to be tyrannical, cruel, devoid of scuples. But not mad. Rather calculating, cold. And he is surrounded by a group of politicians and generals who have everything to lose, and who seem a singularly cold-blooded lot.
Also, lately the regime seems to winning. Why take a risk?
Yet Obama must decide to attack them on what seems to be very inconclusive evidence. The same Obama who saw through the mendacious evidence produced by George Bush jr. to justify the attack on Iraq, an attack which Obama, to his great credit, objected to right from the beginning. Now he is on the other side.
Poor Obama.
AND WHY poison gas? What’s so special, so red-lining about it?
If I am going to be killed, I don’t really care whether it is by bombs, shells, machine guns or gas.
True, there is something sinister about gas. The human mind recoils from something that poisons the air we breathe. Breathing is the most elementary human necessity.
But poison gas is no weapon of mass destruction. It kills like any other weapon. One cannot equate it to the atomic bombs used by America ion Hiroshima and Nagasaki.
Also, it is not a decisive weapon. It did not change the course of World War I, when it was extensively used. Even the Nazis did not see any use for it in World War II – and not only because Adolf Hitler was gassed (and temporarily blinded) by poison gas in World War I.
But, having drawn the line in the Syrian sand for poison gas, Obama could not ignore it.
Poor Obama.
BUT THE main reason for Obama’s long hesitation is of quite a different order: he is compelled to act against the real interests of the United States.
Assad may be a terrible son-of-a-bitch, but he serves the US, nevertheless.
For many years the Assad family has supported the status quo in the region. Israel’s Syrian border is the quietest border Israel has ever had, in spite of the fact that Israel has annexed territory that indisputably belongs to Syria. True, Assad used Hizbullah to provoke Israel from time to time, but that was not a real threat.
Unlike Mubarak, Assad belongs to a minority sect. Unlike Mubarak, he has behind him a strong and well-organized political party, with an authentic ideology. The nationalist pan-Arabist Ba’ath (“resurrection”) party was founded by the Christian Michel Aflaq and his colleagues mainly as a bulwark against the Islamist ideology.
Like the fall of Mubarak, the fall of Assad would most likely lead to an Islamist regime, more radical than the Egyptian Muslim Brotherhood. The Syrian sister-party of the brothers was always more radical and more violent than the Egyptian mother-movement, (perhaps because the Syrian people are by nature of a far more aggressive disposition.)
Moreover, it is in the nature of a civil war that the most extreme elements take over, because their fighters are more determined and more self-sacrificing. No amount of foreign aid will prop up the moderate, secular section of the Syrian rebels strongly enough to enable them to take over after Assad. If the Syrian state remains intact, it will be a radical Islamist state. Especially if there are free, democratic elections, as there were in Egypt.
As seen from Washington DC, this would be a disaster. So we have here the curious picture of Obama driven by his own rhetoric to attack Assad, while all his own intelligence agencies work overtime to prevent a victory of the rebels.
As somebody recently wrote: it is in the American interest that the civil war go on forever, without any side winning. To which practically all Israeli political and military leaders would say: Amen.
So, from the US strategic viewpoint, any attack on Assad must be minimal, a mere pinprick that would not endanger the Syrian regime.
As has been noted, love and politics create strange bedfellows. At the moment, a very strange assortment of powers are interested in the survival of the Assad regime: the US, Russia, Iran, Hizbullah and Israel. Yet Obama is being pushed to attack him.
Poor Obama.
TRYING TO understand the mindset of the CIA, I would say that from their point of view, the Egyptian solution is also the best for Syria: topple the dictator and put another dictator in his place. Military dictatorship for everybody in the Arab region.
Not the solution Barack Obama would have liked to be identified with in the history books.
Poor, poor Obama.
Uri Avnery, jornalista ativista israelense.
Israel using white phosphorus on Gaza
Israel usando fósforo branco
And the "great deceiver" Mark Regev denies the impossible 
Afterwards, the same Mark Regev denies his denial
Human Righst Watch: Rain of fire

Israel using whitephosphorus in Lebanese civilians (2006)
E no Líbano 

domingo, 25 de agosto de 2013

Israel vs Palestina: História de um conflito XXXVIII Bis Rachel, Tom, James (2003)


O escritor português nobelizado José Saramago foi crucificado anos atrás por causa das declarações indignadas que fez sobre a ocupação da Palestina ao retornar da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
É claro que as críticas vieram de pessoas que ainda não conseguem ver que grande parte dos judeus que emigraram para o Oriente Médio viraram algozes dos nativos. Ou/e de pessoas que nunca puseram os pés nos territórios ocupados e não querem enxergar o que está na cara.
Na época ouvia colegas brasileiros criticarem Saramago, engolia em seco, pensava que ignorância é mesmo cega e só limitável pelo conhecimento, pensava. Tentava explicar o porquê de concordar com Saramago e no final deixava a pessoa de lado porque, perdoe o clichê, o pior cego é o que não quer ver, mesmo. A vida me ensinou a calar a boca socialmente e fazer o meu trabalho em vez de polemicar. Tem mais utilidade.
Mas não baixo os braços.
Pois como dizia outro homem de letras, Vaclav Havel - escritor-poeta-dramaturgo tcheco perseguido, maltratado, resistente durante o período negro da ditadura stalinista na então Tchecoslováquia: "Até um ato puramente moral que não tenha nenhuma esperança de efeito político imediato e visível pode, gradual e indiretamente, com o tempo, ganhar em importância política." E servir a Justiça.
O tempo e a história provaram que Vaclac estava certo. O muro de Berlin caiu e ele foi eleito presidente da República Tcheca que é hoje uma democracia.
É claro que todos sofrem neste conflito entre Israel e a Palestina. Isto é indiscutível. Porém, a vítima é o que sofre a ocupação, o arbítrio, que é humilhado e despojado e não o ocupante que pode (e deve) ir embora pra casa do outro lado da Linha Verde.
O ocupante é fora-da-lei, contra a Organização das Nações Unidas que foi criada após a Segunda Guerra Mundial justamente para proteger o mundo de limpeza étnica e iniquidade de Estado sobre Estado.
Quer queira quer não, o infrator é o que infringe as leis que regem a justiça entre os povos. A razão está do lado do que o Direito Internacional apoia. Direito que tem de vigorar com imparcialidade em toda circunstância quaisquer que sejam os beligerantes.
Se não, tem de ser extinto de uma vez por todas e as Nações desunidas se submeterem ao jugo da força aterrorizante do país mais armado do planeta, sem piscar nem mexer um dedo. Aí ficaremos todos aos EUA dará.
Mas isto é roteiro de filme hollywoodiano de catástrofe máxima. Ainda não chegamos a este ponto. Enquanto tiver Justos na Terra ela tem chance de ser humana.
Justos como os que lutam por causas universais além das próprias.      
Na Cisjordânia e na Faixa de Gaza há vários estrangeiros assim, que fazem trabalho anônimo em prol dos Direitos Humanos e da justiça; um labor de formiga de conscientes cidadãos do mundo que querem fazer algo pela humanidade e por sua própria evolução humana.
Uns lá estão a trabalho engajado, outros de passagem, e muitos agregados ao ISM (International Solidarity Movement), ONG que defende a causa da Justiça na Palestina.
No capítulo anterior da história do conflito Israel vs Palestina, terminamos 2003 com Rachel. Como fico emocionada com estes jovens e menos jovens que se opõem aos soldados da IDF, aos bulldozers armados, à opressão quotidiana do muro e da violência dos colonos judeus contra os palestinos em seus territórios ocupados civil e militarmente pelos israelenses, resolvi homenagear todos eles acedendo aos pedidos de lembrar os que tombaram durante a Intifada no ano que concluí na semana passada.
Rachel Corrie, Tom Hurndal e James Miller faziam parte desse grupo de Justos e ficaram para a história do conflito porque, além de serem seres mais humanos do que o normal, suas vidas foram encurtadas por um caterpillar armado ou uma bala de sniper bem mirada.
São dignos de respeito e respeitados por quem teve o privilégio de conhecê-los e pelos que valorizam atos morais mais do que moralismo discursivo e militância de bar.
Durante a Segunda Intifada, o ISM perdeu dois ativistas e o mundo perdeu três seres que honram o gênero humano.
ISM reune pacifistas israelenses, palestinos e estrangeiros que trabalham pela libertação da Palestina. Utilizam métodos não-violentos de resistência e de ações diretas de afrontamento às forças ilegais de ocupação na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Apoiam o direito de resistência à ocupação - previsto no Direito Internacional; reivindicam o fim imediato da ocupação, o respeito e a aplicação das resoluções da ONU e intervenção internacional imediata a fim de proteger o povo palestino e exigir que Israel respeite as leis internacionais. http://palsolidarity.org/join/
O blog de hoje é em homenagem a James, Juliano, Rachel, Tom, Vittorio, a todos os ativistas e idealistas ativos dentro e fora da Palestina, e a José Saramago que foi injusta e malevolentemennte difamado.

"A man's moral conscience is the curse he has to accept from the gods in order to gain from them the right to dream."
William Faulkner

Aliás, já em 2002 a IDF matara um funcionário das Nações Unidas.
Iain Hook nasceu na Inglaterra em 1948, era casado, tinha dois filhos e trabalhava na UNRWA, Agência da ONU encarregada de refugiados.
Em outubro foi enviado a Jenin, na Cisjordânia,  como diretor do projeto de reconstrução de campo de refugiados para treze mil palestinos cujas casas foram destruídas na Operação Defensive Shield, de Ariel Sharon.
Iain foi assassinado por um atirador especial da IDF no dia 22 de novembro.
Após investigação, o veredito da justiça da Inglaterra foi de assassinato desleal. O país submeteu o caso à ONU que estabeleceu uma Resolução condenando Israel, esta foi vetada pelos Estados Unidos e o crime ficou impune.

"Perfection of moral virtue does not wholly take away the passions, but regulates them."
São Thomas de Aquino

Em 2003 a primeira vítima da IDF foi Rachel, a primeira ativista do ISM a ser friamente assassinada.
Rachel Corrie nasceu em Olympia, no estado de Washington, nos Estados Unidos, em uma família normal de classe média.
Entrou na Universidade, trabalhou em uma ONG de ajuda a crianças com problemas mentais, e de ato em ato desinteressado, acabou aderindo ao ISM para tentar fazer algo para mudar o status quo que Israel impusera nos terrirórios ocupados.
Primeiro, montou um projeto de intercâmbio solidário entre as crianças de Olympia e de Rafah e no ano de sua formatura propôs um programa de estudo independente que compreendia pesquisa de campo.
Viajou em janeiro de 2003 para a Palestina, seguiu um curso de dois dias no ISM na Cisjordânia, foi para Rafah e lá descobriu o quanto era privilegiada e quão aquém da imaginação era o horror da situação em que os palestinos se encontram.
Eis um extrato de email enviado aos pais. 
"Faz duas semanas e uma hora que estou na Palestina e continuo com poucas palavras para descrever o que vejo. É mais difícil ainda pensar no que está acontecendo aqui quando me sento para escrever para os Estados Unidos - algo como um portal virtual para o luxo.
Não sei se muitas das crianças aqui já viveram sem rombos de bombas nas paredes e torres de um exército ocupante os vigiando constantemente. Acho, sem certeza, que nem a criança menorzinha entende que a vida não é assim em todo lugar.
Dois dias antes da minha chegada um menininho de oito anos foi morto por um soldado israelense e muitos meninos murmuram o nome dele, "Ali", quando me vêem ou apontam os cartazes nas paredes.
Eles gostam de praticar o árabe comigo e me perguntam Kaif Sharon? Kaif Bush? e eu respondo Bush majnun Sharon majnun (Como vai Bush, Sharon? Bush Sharon são loucos) e alguns adultos me corrigem: Bush mish Majnun... (Bush é um homem de negócios). Hoje tentei dizer Bush é uma ferramenta.
Os meninos de oito anos aqui sabem mais da estrutura do poder mundial do que eu sabia até poucos anos atrás - no tocante a Israel.
De qualquer jeito, acho que nenhuma leitura, conferência, documentário e relatos poderiam ter me preparado para a realidade. Não dá para imaginar, sem ter visto, e mesmo assim ainda não é a realidade: o que aconteceria com a IDF se atirasse em um cidadão dos EUA desaramado, e o fato de eu ter dinheiro para comprar água quando os soldados destroem os poços, e, é claro, tenho a opção de ir embora. Ninguém na minha família foi bombardeado e ninguém é visado de uma guarita na rua principal da minha cidade.
Tenho casa. Tenho direito de ver o mar. É difícil me prenderem durante meses e anos sem julgamento, já que sou cidadã estadunidense. Quando saio para a escola tenho certeza de não encontrar soldados armados até os dentes em um checkpoint com o poder de decidir se posso ou não seguir em frente e se puder, se vou poder ou não voltar para casa depois.
É revoltante chegar e entrar breve e incompletamente no mundo destas crianças, e me pergunto como seria para eles, chegar no meu mundo. Eles sabem que não é comum nos Estados Unidos os pais serem baleados e sabem que de vez em quando vê-se o mar, sobretudo quando está do lado. Mas quando se vive em um lugar tranquilo em que nem se cogita no valor da água e ela não é roubada por bulldozers durante a noite, e quando se passa uma noite sem se preocupar se você não vai acordar com soldados invadindo sua casa ou as paredes sendo derrubadas, e quando se conhece pessoas que perderam tudo - quando se vive a realidade de um mundo rodeado de assassinos, tanques, colonos armados e um muro gigante de metal, pergunto-me se dá para perdoar o mundo pelos anos de infância gastos existindo - apenas existindo - resistindo ao constante estragulamento da quarta potência militar do planeta apoiada pela maior potência mundial - em sua tentativa de apagá-lo de sua casa.
Isto é algo que me pergunto sobre estas crianças.
Pergunto-me o que aconteceria se eles realmente soubessem.
Estou em Rafah, uma cidade de 140 mil pessoas, 60% das quais são refugiados - muitos pela segunda ou terceira vez de êxodo forçado.
Rafah já existia antes de 1948, mas a maioria dos habitantes atuais são descendentes de famílias relocalizadas aqui de suas casas na Palestina - hoje Israel. Rafah foi cortada na metade quando o Sinai foi devolvido ao Egito. O exército israelense está construindo um muro de 14 metros de altura entre Rafah e o Egito, construindo uma no-mans land no lugar de residências que se encontram na fronteira. Seiscentas casas já foram destruídas pelos bulldozers e o número de casas parcialmente destruídas é maior ainda.
Além da presença constante de tanques nas fronteiras, tem tantas guaritas que perdi a conta. Não existe enhum lugar aqui sem guaritas com soldados vigiando seus passos. E é claro que não tem nenhum lugar inacessível aos helicópteros apache ou às câmeras de zepelins invisíveis cujo barulho se escuta durante horas em cima da cidade.
Espero que vocês venham aqui. Meu grupo internacional é de seis pessoas. Nossa presença foi solicitada nos bairro Yibna, Tel El Sultan, Hi Salam, Block J, Zorob, Block O e Brasil. Eles precisam também de presença noturna constante em um poço perto de Rafah para que a IDF não o bombardeie, já que acabaram de destruir duas fontes de água em Rafah. Fiquei sabendo que a cisterna que a IDF destruiu na semana passada fornecia a metade da água que a população usava. Depois das dez horas da noite é muito difícil sair na rua porque os soldados israelenses atira em qualquer um. Muitas comunidades solicitram presença internacional para formar escudos que impeçam a demolição de mais casas. Somos pouco demais.
Os palestinos seguem a mídia internacional e me disseram que está tendo marchas de protest nos Estados Unidos e na Inglaterra. Então obrigada por não me fazer sentir uma completa Polyanna quando tento dizer às pessoas aqui que tenho muitos compatriotas que não concordam com a política governamental e que estamos aprendendo, com exemplos estrangeiros, a resistir."
Foi um dos bulldozers que Rachel condenava que a esmagou no dia 16 de março de 2003.
Foi seu caso que foi julgado após uma longa campanha feita pela família e o soldado foi absolvido "pelo acidente" que os ocidentais presentes garantiam ter sido proposital.  
"I feel like I'm witnessing the systematic destruction of a people's ability to survive ... Sometimes I sit down to dinner with people and I realize there is a massive military machine surrounding us, trying to kill the people I'm having dinner with," disse Rachel, dois dias antes de ser esmagada.

"It is curious that physical courage should be so common in the world and moral courage so rare."
Mark Twain

O assassinato de Rachel não foi dissuasivo, e sim um motivo para outros jovens estrangeiros abraçarem a causa palestina.
Em abril do mesmo ano 2003 a IDF fez outra vítima, o inglês Tom Hurndall, de 21 anos.
Tom era estudante de fotografia, daqueles jovens afoitos que abraçam o idealismo crítico de Kant e o idealismo absoluto de Hegel com sofreguidão e não discansam enquanto não tiverem posto ambos em prática e em profusão.
Os jornalistas cansados de guerra, céticos, empedernidos, costumam tratar com condescendência estes jovens quando cruzam caminho - os que ainda acreditam que dá para mudar o mundo costumam ajudá-los o quanto possível.
Seu primeiro ato militante foi em Bagdá, onde junto com dezenas de outros cidadãos ocidentais anônimos, transformou-se em escudo humano contra o bombardeio de Inglaterra e Estados Unidos. Em vão.
De lá para a Palestina foi um pulo compreensível em sua trajetória idealista.
Chegou como voluntário do ISM e o choque com a realidade quotidiana dos palestinos foi brutal.
Foi para Rafah e lá seguiu os passos de Rachel, tentando evitar demolição de casas e outras arbitrario-iniquidades da IDF e dos colonos.
Logo conquistou os adultos e a meninada gazauí com sua alegria e determinação de não ser cúmplice de Israel em nada.
No dia 11 de abril em que foi baleado, ele estava andando na rua com um grupo do ISM, em Rafah, vestido com o colete laranja fluorescente dos ativistas estrangeiros, facilmente identificável de longe, quando franco-atiradores da IDF abriram fogo contra os moradores.
Tom viu que três crianças de 4 a 7 anos ficaram paralisadas de medo e voltou para salvá-las. Pôs o menino a salvo e foi buscar as duas menininhas. Estava claramente desarmado e usando o colete de cor espalhafatosa inconfundível dos ativistas - facilmente identificável à distância até por miopíssimos. Quando estendeu os braços para pegá-las, levou um tiro na cabeça.
Seus companheiros prestaram socorro imediato, mas a ambulância teve de esperar duas horas na barragem antes que ele fosse levado para o hospital em Be'er Sheva, de onde foi transportado para a Inglaterra. Ficou em estado de coma até os aparelhos serem desligados nove meses mais tarde.
O Tribunal britânico declarou o assassinato ilegal, mas em Israel, após meses de finta e trâmites surreais, o tribunal militar condenou o soldado por obstrução à justiça, ou seja, por ter mentido sobre os fatos e por morte acidental. A sentença foi de onze anos e meio de prisão. O assassino foi solto em 2010 por "bom comportamento", sem servir nem metade da pena.
 Um dia, Tom escreveu em seu diário:
"Acordei por volta das oito horas em Jerusalém e saímos às dez horas. Desde então, já fui atacado com gás, bala, perseguido por soldados, granadas foram jogadas do meu lado e fui atingido por estilhaços... quando nos aproximamos da área foi estranho, com as balas voando, senti um frio na barriga, mas foi só. Tinha certeza que estávamos sendo vigiados, seguidos, e que minha vida dependia da decisão de um soldado ou de um colono puxar ou não o gatilho..."

"The darkest places in hell are reserved for those who maintain their neutrality in times of moral crisis".
Dante Alighieri

A terceira vítima estrangeira do ano 2003 fatídico foi o produtor-documentarista gaulês James Miller, várias vezes premiado inclusive com o Emy nos Estados Unidos.
James também foi vítima de tiro mortal de outro sniper da IDF, no dia 02 de maio, em Rafah.
A investigação britânica concluiu em assassinato ilegal.
O Tribunal israelense absolveu o assassino argumentando que não havia provas de quem tinha sido responsável pelo crime. Os advogados ingleses contra-argumentaram com provas, mas as autoridades israelenses ignoraram os apelos.
James tinha 34 anos e estava em Rafah trabalhando em um documentário (abaixo) que passou na HBO mesmo sem ter sido terminado.

"Moral excellence comes about as a result of habit. We become just by doing just acts; temperate by doing temperate acts, brave by doing brave acts."
Aristóteles

POST SCRIPTUM:
Por causa dos assassinatos citados acima, mais o de Vittorio Arrigoni e Juliano Mer-Khamis, os ativistas estrangeiros são menos visados e não correm nem um milésimo do perigo que corre um palestino no dia a dia. Atualmente os soldados andam correndo dos coletes laranja fluorescentes porque não querem problemas internacionais. Pois embora a justiça israelense só puxe as orelhas dos assassinos que viram herois para os extremistas sionistas, os assassinatos geram má publicidade que os persegue a vida inteira. Querendo ou não, matar não é assim tão fácil como se pensa; sobretudo quando o assassino é apontado com o dedo; como acontece quando um soldado mata um estrangeiro.
Vittorio: http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2011/04/vittorio-arrigoni-o-martir-que-faltava.html
Juiano: http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2012/12/teatro-da-liberdade-de-jenin-lava-alma.html

"The hope of a secure and livable world lies with disciplined nonconformists who are dedicated to justice, peace and brotherhood.
Injustice anywhere is a threat to justice everywhere."
Martin Luther King

Documentário: Rachel, an American Conscience

Documentário Journeyman: Dying for Palestine (Tom Hurndall)

Documentário de James Miller: Death in Gaza

Livro : The Only House Left Standing - The Middle East Journals of Tom Hurndall
De Tom Hurndall e Robert Fisk. Editora Trolley Books
          Filme do Channel 4 britânico (trailer): 
The Shooting of Thomas Hurndall 8)
Direção de Rowan Joffe, com Kerry Fox, Stephen Dillane, Bader Alami, Ziad Backry, Mark Bazeley.  


domingo, 18 de agosto de 2013

Iraque, Síria, Egito, a mesma sina?

O cartoon ao lado está bombando nas redes sociais do Egito. Que, diga-se de passagem, está vivendo o pior momento de sua história contemporânea.
O filósofo francês Henri Bergson dizia que O olho enxerga o que a mente está preparada para entender. Talvez daí venham os erros de projeção analítica da imprensa e da diplomacia estrangeira em relação ao Egito, e de forma geral, aos eventos mal-antecipados inclusive localmente.
Eu também erro porque sou humana. Mas, modéstia às favas, erro menos do que a maioria. Pois, além de ter estudado pra danar, sou picuinha, tento sempre entender o que não vejo. Procuro sempre o leão invisível na fotografia mas que está lá, sei, agachado no mato pronto para o ataque ao menor sinal de ameaça ou quando quer e precisa alimentar-se.
Assim é a natureza. Assim é a sociedade em que vivemos.
Acerto a maioria das minhas análises por causa disso. Desta teimosia que me marginaliza no meio dos que veem o que está na cara e negligenciam o que está escondido - ora por comodismo, ora por partidarismo, ora por ignorância histórica.
Ora também porque a tendência natural de um analista é "prever" o que lhe parece mais adequado e melhor para o lugar, para as pessoas envolvidas e as possibilidades do momento histórico.
O problema é que os protagonistas da história em curso nem sempre ou raramente têm o bom senso dos que estão de fora.
O sucesso do cartoon acima é porque, de repente, a população inteira que hoje detesta o primo-irmão-vizinho que pensa diferente - Irmandade Muçulmana e oponentes - só concorda em um ponto. Estão todos convencidos que as potências ocidentais, sobretudo EUA, Inglaterra e Israel, estão ajudando o adversário do momento.
A sociedade egípcia está dividida, famílias partidas, amizades rompidas.
A "diplomacia" desses países acima erraram tanto em suas declarações e ações, que conseguiram alienar gregos e troianos. Hoje, no Egito, os únicos amigos destes países são os militares que precisam deles.
Nunca se viu no Egito tanta xenofobia, tamanha raiva dos estrangeiros, ocidentais, e até dos refugiados palestinos que lá vivem há tempos.
Os jornalistas, como sempre, pagam o pato pelo mal-entendido. Talvez porque, no fundo, a culpa seja nossa de dar informações baseadas no que nossa mente está querendo aceitar e não no fato como ele (não) se apresenta.
Foi o que aconteceu em relação ao Iraque, Síria, e agora Egito.
Com o Iraque, a antipatia geral por Saddam Hussein era tanta que a imprensa preferiu engolir as mentiras das armas químicas oferecidas por Tony Blair e George W. Bush do que questioná-la e procurar a verdade em Bagdá, na fonte. Combati a invasão, disse que duvidava da existência de armas químicas, e que o Iraque não estava maduro o suficiente para "perder" Saddam Hussein. Os fatos provaram que eu  estava certa do começo ao fim. Inclusive na desordem sectária incontrolável que seguiria e persiste.
Com a Síria, a antipatia pelos Assad pai e filho também embaçou o julgamento da grande maioria e continua embaçando o de muitos. Quando disse há dois anos que a revolta não era popular, que havia extremistas estrangeiros demais infiltrados entre os "rebeldes", que a Síria estava caminhando para um desastre, os "humanistas" me olhavam ressabiados. Era como se eu tivesse virado a casaca das causas humanitárias e virado direitista. O tempo e o óbvio mostraram que eu estava certa. Ruim com Assad, pior em ele. Espero que os ocidentais caiam na real e incitem os "rebeldes" divididíssimos pela sede de poder a admitir o óbvio e deixá-lo fazer as reformas que promete.
Com o Egito foi um pouco o mesmo. A reticência de reconhecimento Ocidental (leia-se EUA) do fim de Hosni Mubarak facilitou a vitória da Irmandade Muçulmana nas eleições presidenciais.
Mas a culpa não é apenas dos Estados Unidos. Não diretamente, é claro.
No caso do Egito, todos os protagonistas oficiais se super-estimaram.
Durante os primeiros meses após a derrubada de Mubarak foram os militares.
Fizeram tudo para marginalizar os democratas, a juventude revolucionária que exigia mudanças imediatas. E colheram a radicalização que semearam.
Depois foi o presidente eleito Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana que ele representava. Ignorantes do processo democrático por jamais o terem experimentado, interpretaram uma vitória eleitoral apertada como um mandato para reinarem solitários. Deram murro em ponta de faca, Morsi achou que mantinha os generais no laço, e deu com os burros n'água.
Em seguida os militares voltaram a errar quando deram o golpe no dia 03 de julho e quando procederam ao massacre do dia 14 de agosto. Em vez de engajar um diálogo, apostaram e continuam apostando na eliminação permanente da Irmandade Muçulmana, como se ainda fossem capazes, e da oposição que não lhes for favorável.
Só para lembrar, a Irmandade Muçulmana foi dissolvida em 1954, mas registrou-se como ONG em março em resposta a contestação jurídica de sua legalidade. Foi fundada em 1928 e tem uma representação política registrada como Freedom and Justice Party, que elegeu Morsi.
A nova ideia do primeiro ministro "interino" Hazem el-Beblawi de dissolver a Irmandade Muçulmana como fizera Hosni Mubarak é, no mínimo, um tiro no escuro. E o que vão fazer com os milhares de simpatizantes cujas asas cresceram durante o governo Morsi e dos revoltados com os mortos?
Os governos ocidentais também querem livrar-se dela, da Irmandade Muçulmana, e por isso a mídia só ouviu e transmitiu de imediato a "queda" de Morsi em vez de "golpe" contra o Presidente eleito.
Eu fui um dos poucos jornalistas a dar nome aos bois de imediato. Por que os demais se calaram e repetiram a lenga lenga de Washington?
Voltando à Irmandade Muçulmana, o paradoxo de sua diabolização no Egito é que é o mesmo partido que os mesmos ocidentais apoiam na Síria contra Bashar el-Assad. Não por achá-la democrática e viável, é claro, mas por miopia. Pelo imdediatismo corrosivo que caracteriza a diplomacia e a "Inteligência" gringa.
Primeiro, tirar o inimigo de Israel de Damasco. Depois, lidar com os estragos causados pelos novos donos do poder que foram apoiados.
Não se há de esquecer que o pai de Bashar, Hafez el-Assad, expulsou a Irmandade do país há mais de três décadas e a "revolta" que começou há dois anos foi justamente desta organização que queria recuperar os direitos que o Partido Ba'ath lhes retirara. A derrubada de Assad era vontade polítco-democática de uma minoria de jovens. A vontade da maioria dos rebeldes é tomar o poder pura e simplesmente para fazer, certamente, o mesmo que Assad. E se forem/fossem os religiosos, de maneira ainda mais sectária.
Trocando em miúdos, a situação no Egito está como estava na semana do golpe. (Des)controlada pelo general Abdul-Fattah al-Sisi junto com sua cúpula de generais e policiais da era de Hosni Mubarak.
Quando Mohamed el-Baradei, Prêmio Nobel por sua atuação exemplar na International Atomic Energy Authority, aceitou o cargo no governo transitório recém-formado por Sissi, perguntei-me quanto tempo conseguiria ficar e como ele, tão lúcido, embarcara nessa história turva. Como era de se esperar, Baradei não durou muito. Demitiu-se logo que caiu na real. O General dos generais, Sisi, substituiu os governadores eleitos das principais, e até menos importantes, províncias para nomear para os cargos governadores "biônicos". Dez generais de reserva reativados e dois responsáveis pela polícia da era Mubarak. Diante disso, até cego enxerga o significado.
Se isto não for ditadura, alguém tem de me explicar quando a nomenclatura de autoritarismo foi mudada.
Quem conhece um pouquinho da história do Egito, sabe que o Exército só deixa correr águas em seu manancial, que caiam em sua represa e fiquem lá, bem guardadas. Sabe também que a ideologia que reina no meio dos oficiais do Cairo é a formatada nas escolas militares que eles frequentaram. Acho que não preciso dizer onde estão localizadas.
Nas intervenções armadas dos últimos dias, os soldados assistiam de camarote os policiais fazerem o trabalho sujo de atirar nos simpatizantes da Irmandade Muçulmana. Simpatizantes que, diga-se de passagem, embora estejam caindo aos montes sob as balas da polícia, também não estão com as mãos limpas. Vê-se alguns armados e atirando à vontade.
E para concluir, o general Sisi está cometendo um erro enorme reprimindo com tal violência. Não apenas pelas vidas que está tirando e o sofrimento que está causando, mas por uma razão política que não pode ser negligenciada. Cada homem que cai sob a bala da polícia vira um mártir a mais na lista da Irmandade Muçulmana.
Aliás, talvez um dia sem mortos até deixe os líderes da Irmandade Muçulmana decepcionados. Pois lhes faltaria munição para se vitimizarem.
Quanto mais cedo a repressão parar, menos gente engrossará as passeatas e mais depressa poder-se-á resolver a revolta com diálogo.
Com a restituição da democracia seria mais rápido.
Porém, com democracia ou ditadura, banir a Irmandade Muçulmana seria um erro. Não precisa ser grande agente secreto de um grande Serviço de Inteligência para saber que o inimigo clandestino é muito mais perigoso do que o visível.

"Poor Egypt.
HOW DID this come about? How did a glorious revolution turn into this disgusting spectacle?
How did the millions of happy people, who had liberated themselves from a brutal dictatorship, who had breathed the first heady whiffs of liberty, who had turned Liberation Square (that’s what Tahrir means) into a beacon of hope for all mankind, slide into this dismal situation?
In the beginning, it seemed that they did all the right things. It was easy to embrace the Arab Spring. They reached out to each other, secular and religious stood together and dared the forces of the aging dictator. The army seemed to support and protect them.
But the fatal faults were already obvious, as we pointed out at the time. Faults that were not particularly Egyptian. They were common to all the recent popular movements for democracy, liberty and social justice throughout the world, including Israel.
These are the faults of a generation brought up on the “social media”, the immediacy of the internet, the effortlessness of instant mass communication. These fostered a sense of empowerment without effort, of the ability to change things without the arduous process of mass-organization, political power-building, of ideology, of leadership, of parties. A happy and anarchistic attitude that, alas, cannot stand up against real power.
When democracy came for a glorious moment and fair elections were in the offing, this whole amorphous mass of young people were faced with a force that had all they themselves lacked: organization, discipline, ideology, leadership, experience, cohesion.
The Muslim Brotherhood."
Uri Avnery

Post Scriptum BRASIL/PALESTINA:
Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, envergonha o Brasil com seus negócios milionários com Israel. Contratos de armas e em outras áreas, como mostra o cartoon ao lado. O que será que ele ganha nessa jogada de apoio à limpeza étnica da Palestina?
Aliás, o Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros mais "próximos" de Israel. O que é uma surpresa, já que os gauchos primam pela consciência.
Dê uma lida no artigo abaixo e veja quão amoral é este político gaucho.
"Tarso Genro, governor of Rio Grande do Sol in Brazil, concluded a deal to develop a huge Israeli military technology center in Porto Alegre over the past few weeks. One day before signing the contract with the arms company Elbit, Genro was in the occupied West Bank, where he witnessed first-hand the oppression on which Israel’s weapons industry thrives.
Perhaps even more painful than the signing of the deal itself are the arguments he later gave to “defend” his action. It was very sad to see Genro stating — in an interview with the Brazilian publication Opera Mundi — that international law and human rights are not criteria for international commercial relations.
Confronted with Elbit’s track record of violations of human rights and international law, Genro argued that “It is not possible to decide on technological options, at [the] national or regional level, based on this criteria.” He added that “Ethics in global commercial relations is defined by national interests” (“Despite cricisim, Tarso Genro signs agreement with Israeli military,” 29 April 2013 [português]).
This argument flies in the face of the Brazilian constitution, which affirms the prevalence of human rights in international relations. It is also legally wrong. A vast body of legal analysis, UN guidelines and resolutions underscore that state and state institutions are obliged to respect and ensure respect for international law.
Elbit is profiting from the construction of Israel’s settlements and its wall in the West Bank, both of which are considered war crimes. Because of this involvement in violations of international law, Elbit is subject to a global campaign to stop contracts and investments in it.
In his interview with Opera Mundi, Genro defended the deal as an issue of national interest. The same argument was brought forward in the 1970s and early ’80s by the apartheid regime in South Africa and its allies in the UK and the US. Margaret Thatcher did not want to force UK companies to give up on the profits reaped from apartheid. Yet, by the 1990s, the global boycott movement had cost these companies a high economic price and US companies are still being sued for reparations in US courts."
Jamal Juna, coordenador da ONG palestina Stop the Wall.