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domingo, 25 de agosto de 2013

Israel vs Palestina: História de um conflito XXXVIII Bis Rachel, Tom, James (2003)


O escritor português nobelizado José Saramago foi crucificado anos atrás por causa das declarações indignadas que fez sobre a ocupação da Palestina ao retornar da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
É claro que as críticas vieram de pessoas que ainda não conseguem ver que grande parte dos judeus que emigraram para o Oriente Médio viraram algozes dos nativos. Ou/e de pessoas que nunca puseram os pés nos territórios ocupados e não querem enxergar o que está na cara.
Na época ouvia colegas brasileiros criticarem Saramago, engolia em seco, pensava que ignorância é mesmo cega e só limitável pelo conhecimento, pensava. Tentava explicar o porquê de concordar com Saramago e no final deixava a pessoa de lado porque, perdoe o clichê, o pior cego é o que não quer ver, mesmo. A vida me ensinou a calar a boca socialmente e fazer o meu trabalho em vez de polemicar. Tem mais utilidade.
Mas não baixo os braços.
Pois como dizia outro homem de letras, Vaclav Havel - escritor-poeta-dramaturgo tcheco perseguido, maltratado, resistente durante o período negro da ditadura stalinista na então Tchecoslováquia: "Até um ato puramente moral que não tenha nenhuma esperança de efeito político imediato e visível pode, gradual e indiretamente, com o tempo, ganhar em importância política." E servir a Justiça.
O tempo e a história provaram que Vaclac estava certo. O muro de Berlin caiu e ele foi eleito presidente da República Tcheca que é hoje uma democracia.
É claro que todos sofrem neste conflito entre Israel e a Palestina. Isto é indiscutível. Porém, a vítima é o que sofre a ocupação, o arbítrio, que é humilhado e despojado e não o ocupante que pode (e deve) ir embora pra casa do outro lado da Linha Verde.
O ocupante é fora-da-lei, contra a Organização das Nações Unidas que foi criada após a Segunda Guerra Mundial justamente para proteger o mundo de limpeza étnica e iniquidade de Estado sobre Estado.
Quer queira quer não, o infrator é o que infringe as leis que regem a justiça entre os povos. A razão está do lado do que o Direito Internacional apoia. Direito que tem de vigorar com imparcialidade em toda circunstância quaisquer que sejam os beligerantes.
Se não, tem de ser extinto de uma vez por todas e as Nações desunidas se submeterem ao jugo da força aterrorizante do país mais armado do planeta, sem piscar nem mexer um dedo. Aí ficaremos todos aos EUA dará.
Mas isto é roteiro de filme hollywoodiano de catástrofe máxima. Ainda não chegamos a este ponto. Enquanto tiver Justos na Terra ela tem chance de ser humana.
Justos como os que lutam por causas universais além das próprias.      
Na Cisjordânia e na Faixa de Gaza há vários estrangeiros assim, que fazem trabalho anônimo em prol dos Direitos Humanos e da justiça; um labor de formiga de conscientes cidadãos do mundo que querem fazer algo pela humanidade e por sua própria evolução humana.
Uns lá estão a trabalho engajado, outros de passagem, e muitos agregados ao ISM (International Solidarity Movement), ONG que defende a causa da Justiça na Palestina.
No capítulo anterior da história do conflito Israel vs Palestina, terminamos 2003 com Rachel. Como fico emocionada com estes jovens e menos jovens que se opõem aos soldados da IDF, aos bulldozers armados, à opressão quotidiana do muro e da violência dos colonos judeus contra os palestinos em seus territórios ocupados civil e militarmente pelos israelenses, resolvi homenagear todos eles acedendo aos pedidos de lembrar os que tombaram durante a Intifada no ano que concluí na semana passada.
Rachel Corrie, Tom Hurndal e James Miller faziam parte desse grupo de Justos e ficaram para a história do conflito porque, além de serem seres mais humanos do que o normal, suas vidas foram encurtadas por um caterpillar armado ou uma bala de sniper bem mirada.
São dignos de respeito e respeitados por quem teve o privilégio de conhecê-los e pelos que valorizam atos morais mais do que moralismo discursivo e militância de bar.
Durante a Segunda Intifada, o ISM perdeu dois ativistas e o mundo perdeu três seres que honram o gênero humano.
ISM reune pacifistas israelenses, palestinos e estrangeiros que trabalham pela libertação da Palestina. Utilizam métodos não-violentos de resistência e de ações diretas de afrontamento às forças ilegais de ocupação na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Apoiam o direito de resistência à ocupação - previsto no Direito Internacional; reivindicam o fim imediato da ocupação, o respeito e a aplicação das resoluções da ONU e intervenção internacional imediata a fim de proteger o povo palestino e exigir que Israel respeite as leis internacionais. http://palsolidarity.org/join/
O blog de hoje é em homenagem a James, Juliano, Rachel, Tom, Vittorio, a todos os ativistas e idealistas ativos dentro e fora da Palestina, e a José Saramago que foi injusta e malevolentemennte difamado.

"A man's moral conscience is the curse he has to accept from the gods in order to gain from them the right to dream."
William Faulkner

Aliás, já em 2002 a IDF matara um funcionário das Nações Unidas.
Iain Hook nasceu na Inglaterra em 1948, era casado, tinha dois filhos e trabalhava na UNRWA, Agência da ONU encarregada de refugiados.
Em outubro foi enviado a Jenin, na Cisjordânia,  como diretor do projeto de reconstrução de campo de refugiados para treze mil palestinos cujas casas foram destruídas na Operação Defensive Shield, de Ariel Sharon.
Iain foi assassinado por um atirador especial da IDF no dia 22 de novembro.
Após investigação, o veredito da justiça da Inglaterra foi de assassinato desleal. O país submeteu o caso à ONU que estabeleceu uma Resolução condenando Israel, esta foi vetada pelos Estados Unidos e o crime ficou impune.

"Perfection of moral virtue does not wholly take away the passions, but regulates them."
São Thomas de Aquino

Em 2003 a primeira vítima da IDF foi Rachel, a primeira ativista do ISM a ser friamente assassinada.
Rachel Corrie nasceu em Olympia, no estado de Washington, nos Estados Unidos, em uma família normal de classe média.
Entrou na Universidade, trabalhou em uma ONG de ajuda a crianças com problemas mentais, e de ato em ato desinteressado, acabou aderindo ao ISM para tentar fazer algo para mudar o status quo que Israel impusera nos terrirórios ocupados.
Primeiro, montou um projeto de intercâmbio solidário entre as crianças de Olympia e de Rafah e no ano de sua formatura propôs um programa de estudo independente que compreendia pesquisa de campo.
Viajou em janeiro de 2003 para a Palestina, seguiu um curso de dois dias no ISM na Cisjordânia, foi para Rafah e lá descobriu o quanto era privilegiada e quão aquém da imaginação era o horror da situação em que os palestinos se encontram.
Eis um extrato de email enviado aos pais. 
"Faz duas semanas e uma hora que estou na Palestina e continuo com poucas palavras para descrever o que vejo. É mais difícil ainda pensar no que está acontecendo aqui quando me sento para escrever para os Estados Unidos - algo como um portal virtual para o luxo.
Não sei se muitas das crianças aqui já viveram sem rombos de bombas nas paredes e torres de um exército ocupante os vigiando constantemente. Acho, sem certeza, que nem a criança menorzinha entende que a vida não é assim em todo lugar.
Dois dias antes da minha chegada um menininho de oito anos foi morto por um soldado israelense e muitos meninos murmuram o nome dele, "Ali", quando me vêem ou apontam os cartazes nas paredes.
Eles gostam de praticar o árabe comigo e me perguntam Kaif Sharon? Kaif Bush? e eu respondo Bush majnun Sharon majnun (Como vai Bush, Sharon? Bush Sharon são loucos) e alguns adultos me corrigem: Bush mish Majnun... (Bush é um homem de negócios). Hoje tentei dizer Bush é uma ferramenta.
Os meninos de oito anos aqui sabem mais da estrutura do poder mundial do que eu sabia até poucos anos atrás - no tocante a Israel.
De qualquer jeito, acho que nenhuma leitura, conferência, documentário e relatos poderiam ter me preparado para a realidade. Não dá para imaginar, sem ter visto, e mesmo assim ainda não é a realidade: o que aconteceria com a IDF se atirasse em um cidadão dos EUA desaramado, e o fato de eu ter dinheiro para comprar água quando os soldados destroem os poços, e, é claro, tenho a opção de ir embora. Ninguém na minha família foi bombardeado e ninguém é visado de uma guarita na rua principal da minha cidade.
Tenho casa. Tenho direito de ver o mar. É difícil me prenderem durante meses e anos sem julgamento, já que sou cidadã estadunidense. Quando saio para a escola tenho certeza de não encontrar soldados armados até os dentes em um checkpoint com o poder de decidir se posso ou não seguir em frente e se puder, se vou poder ou não voltar para casa depois.
É revoltante chegar e entrar breve e incompletamente no mundo destas crianças, e me pergunto como seria para eles, chegar no meu mundo. Eles sabem que não é comum nos Estados Unidos os pais serem baleados e sabem que de vez em quando vê-se o mar, sobretudo quando está do lado. Mas quando se vive em um lugar tranquilo em que nem se cogita no valor da água e ela não é roubada por bulldozers durante a noite, e quando se passa uma noite sem se preocupar se você não vai acordar com soldados invadindo sua casa ou as paredes sendo derrubadas, e quando se conhece pessoas que perderam tudo - quando se vive a realidade de um mundo rodeado de assassinos, tanques, colonos armados e um muro gigante de metal, pergunto-me se dá para perdoar o mundo pelos anos de infância gastos existindo - apenas existindo - resistindo ao constante estragulamento da quarta potência militar do planeta apoiada pela maior potência mundial - em sua tentativa de apagá-lo de sua casa.
Isto é algo que me pergunto sobre estas crianças.
Pergunto-me o que aconteceria se eles realmente soubessem.
Estou em Rafah, uma cidade de 140 mil pessoas, 60% das quais são refugiados - muitos pela segunda ou terceira vez de êxodo forçado.
Rafah já existia antes de 1948, mas a maioria dos habitantes atuais são descendentes de famílias relocalizadas aqui de suas casas na Palestina - hoje Israel. Rafah foi cortada na metade quando o Sinai foi devolvido ao Egito. O exército israelense está construindo um muro de 14 metros de altura entre Rafah e o Egito, construindo uma no-mans land no lugar de residências que se encontram na fronteira. Seiscentas casas já foram destruídas pelos bulldozers e o número de casas parcialmente destruídas é maior ainda.
Além da presença constante de tanques nas fronteiras, tem tantas guaritas que perdi a conta. Não existe enhum lugar aqui sem guaritas com soldados vigiando seus passos. E é claro que não tem nenhum lugar inacessível aos helicópteros apache ou às câmeras de zepelins invisíveis cujo barulho se escuta durante horas em cima da cidade.
Espero que vocês venham aqui. Meu grupo internacional é de seis pessoas. Nossa presença foi solicitada nos bairro Yibna, Tel El Sultan, Hi Salam, Block J, Zorob, Block O e Brasil. Eles precisam também de presença noturna constante em um poço perto de Rafah para que a IDF não o bombardeie, já que acabaram de destruir duas fontes de água em Rafah. Fiquei sabendo que a cisterna que a IDF destruiu na semana passada fornecia a metade da água que a população usava. Depois das dez horas da noite é muito difícil sair na rua porque os soldados israelenses atira em qualquer um. Muitas comunidades solicitram presença internacional para formar escudos que impeçam a demolição de mais casas. Somos pouco demais.
Os palestinos seguem a mídia internacional e me disseram que está tendo marchas de protest nos Estados Unidos e na Inglaterra. Então obrigada por não me fazer sentir uma completa Polyanna quando tento dizer às pessoas aqui que tenho muitos compatriotas que não concordam com a política governamental e que estamos aprendendo, com exemplos estrangeiros, a resistir."
Foi um dos bulldozers que Rachel condenava que a esmagou no dia 16 de março de 2003.
Foi seu caso que foi julgado após uma longa campanha feita pela família e o soldado foi absolvido "pelo acidente" que os ocidentais presentes garantiam ter sido proposital.  
"I feel like I'm witnessing the systematic destruction of a people's ability to survive ... Sometimes I sit down to dinner with people and I realize there is a massive military machine surrounding us, trying to kill the people I'm having dinner with," disse Rachel, dois dias antes de ser esmagada.

"It is curious that physical courage should be so common in the world and moral courage so rare."
Mark Twain

O assassinato de Rachel não foi dissuasivo, e sim um motivo para outros jovens estrangeiros abraçarem a causa palestina.
Em abril do mesmo ano 2003 a IDF fez outra vítima, o inglês Tom Hurndall, de 21 anos.
Tom era estudante de fotografia, daqueles jovens afoitos que abraçam o idealismo crítico de Kant e o idealismo absoluto de Hegel com sofreguidão e não discansam enquanto não tiverem posto ambos em prática e em profusão.
Os jornalistas cansados de guerra, céticos, empedernidos, costumam tratar com condescendência estes jovens quando cruzam caminho - os que ainda acreditam que dá para mudar o mundo costumam ajudá-los o quanto possível.
Seu primeiro ato militante foi em Bagdá, onde junto com dezenas de outros cidadãos ocidentais anônimos, transformou-se em escudo humano contra o bombardeio de Inglaterra e Estados Unidos. Em vão.
De lá para a Palestina foi um pulo compreensível em sua trajetória idealista.
Chegou como voluntário do ISM e o choque com a realidade quotidiana dos palestinos foi brutal.
Foi para Rafah e lá seguiu os passos de Rachel, tentando evitar demolição de casas e outras arbitrario-iniquidades da IDF e dos colonos.
Logo conquistou os adultos e a meninada gazauí com sua alegria e determinação de não ser cúmplice de Israel em nada.
No dia 11 de abril em que foi baleado, ele estava andando na rua com um grupo do ISM, em Rafah, vestido com o colete laranja fluorescente dos ativistas estrangeiros, facilmente identificável de longe, quando franco-atiradores da IDF abriram fogo contra os moradores.
Tom viu que três crianças de 4 a 7 anos ficaram paralisadas de medo e voltou para salvá-las. Pôs o menino a salvo e foi buscar as duas menininhas. Estava claramente desarmado e usando o colete de cor espalhafatosa inconfundível dos ativistas - facilmente identificável à distância até por miopíssimos. Quando estendeu os braços para pegá-las, levou um tiro na cabeça.
Seus companheiros prestaram socorro imediato, mas a ambulância teve de esperar duas horas na barragem antes que ele fosse levado para o hospital em Be'er Sheva, de onde foi transportado para a Inglaterra. Ficou em estado de coma até os aparelhos serem desligados nove meses mais tarde.
O Tribunal britânico declarou o assassinato ilegal, mas em Israel, após meses de finta e trâmites surreais, o tribunal militar condenou o soldado por obstrução à justiça, ou seja, por ter mentido sobre os fatos e por morte acidental. A sentença foi de onze anos e meio de prisão. O assassino foi solto em 2010 por "bom comportamento", sem servir nem metade da pena.
 Um dia, Tom escreveu em seu diário:
"Acordei por volta das oito horas em Jerusalém e saímos às dez horas. Desde então, já fui atacado com gás, bala, perseguido por soldados, granadas foram jogadas do meu lado e fui atingido por estilhaços... quando nos aproximamos da área foi estranho, com as balas voando, senti um frio na barriga, mas foi só. Tinha certeza que estávamos sendo vigiados, seguidos, e que minha vida dependia da decisão de um soldado ou de um colono puxar ou não o gatilho..."

"The darkest places in hell are reserved for those who maintain their neutrality in times of moral crisis".
Dante Alighieri

A terceira vítima estrangeira do ano 2003 fatídico foi o produtor-documentarista gaulês James Miller, várias vezes premiado inclusive com o Emy nos Estados Unidos.
James também foi vítima de tiro mortal de outro sniper da IDF, no dia 02 de maio, em Rafah.
A investigação britânica concluiu em assassinato ilegal.
O Tribunal israelense absolveu o assassino argumentando que não havia provas de quem tinha sido responsável pelo crime. Os advogados ingleses contra-argumentaram com provas, mas as autoridades israelenses ignoraram os apelos.
James tinha 34 anos e estava em Rafah trabalhando em um documentário (abaixo) que passou na HBO mesmo sem ter sido terminado.

"Moral excellence comes about as a result of habit. We become just by doing just acts; temperate by doing temperate acts, brave by doing brave acts."
Aristóteles

POST SCRIPTUM:
Por causa dos assassinatos citados acima, mais o de Vittorio Arrigoni e Juliano Mer-Khamis, os ativistas estrangeiros são menos visados e não correm nem um milésimo do perigo que corre um palestino no dia a dia. Atualmente os soldados andam correndo dos coletes laranja fluorescentes porque não querem problemas internacionais. Pois embora a justiça israelense só puxe as orelhas dos assassinos que viram herois para os extremistas sionistas, os assassinatos geram má publicidade que os persegue a vida inteira. Querendo ou não, matar não é assim tão fácil como se pensa; sobretudo quando o assassino é apontado com o dedo; como acontece quando um soldado mata um estrangeiro.
Vittorio: http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2011/04/vittorio-arrigoni-o-martir-que-faltava.html
Juiano: http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2012/12/teatro-da-liberdade-de-jenin-lava-alma.html

"The hope of a secure and livable world lies with disciplined nonconformists who are dedicated to justice, peace and brotherhood.
Injustice anywhere is a threat to justice everywhere."
Martin Luther King

Documentário: Rachel, an American Conscience

Documentário Journeyman: Dying for Palestine (Tom Hurndall)

Documentário de James Miller: Death in Gaza

Livro : The Only House Left Standing - The Middle East Journals of Tom Hurndall
De Tom Hurndall e Robert Fisk. Editora Trolley Books
          Filme do Channel 4 britânico (trailer): 
The Shooting of Thomas Hurndall 8)
Direção de Rowan Joffe, com Kerry Fox, Stephen Dillane, Bader Alami, Ziad Backry, Mark Bazeley.  


domingo, 9 de setembro de 2012

Nos EUA, farsa política; em Israel, farsa jurídica condena a Justiça

  
USA viciado em Poder


"Where is the justice of political power if it executes the murderes and jails the plunderer, and then itself marches upon neighboring land, killing thousand and pillaging the very hills?"
Gibran Khalil Gibran 

Esta citação acima do poeta libanês comparado a Victor Hugo no século passado e mago da minha adolescência, prologa uma passagem rápida pela campanha eleitoral nos Estados Unidos antes de abordar o ponto principal do artigo deste domingo.
É claro que Barack Obama é o meu candidato à presidência dos EUA.
Não por causa da política exterior que realizou, mas porque Mitt Romney é bem pior e causará danos bem maiores dentro e fora de suas fronteiras, em todas as situações possíveis e imagináveis.
Obama é fraco (ou o rabo-financiamento de campanha é grande demais e o puxa para baixo), contudo, tem uma consciência que o pune por seus maus atos.
Romney é obtuso e só presta contas ao capital.
Algum formador de opinião com coragem e bem informado deveria dizer aos compatriotas estadunidenses que estão no fim da abastança para que caiam na real, antes cedo do que tarde.  Seus problemas econômicos são crônicos, insolucionáveis a curto, médio e longo prazo.  Embora Romney grite o contrário nos palanques, não resta dúvida que Obama melhorou a situação crítica, porém, a conjuntura é irreversível.  É inerente ao declínio do país e qualquer que seja o presidente eleito, ele só vai ter de conseguir administrar os prejuízos sociais que sufocaram todas as potências que já estiveram no cimo do mundo e no fim do império estagnaram em uma areia movediça - que ao contrário do mito hollywoodiano, não engole ninguém de uma tragada mais ou menos rápida; para livrar-se, basta mover-se devagar ou deixar-se levar pelo fluxo ascendente de água sem gestos bruscos - administrável. Apenas segura o indivíduo onde está, em vez de deixá-lo recriar as asas que foram definitivamente cortadas. 
Pois no caso dos EUA, quanto mais a economia degringolar, a droga do poder a que estão acostumados - entorpecente, excitante, alucinógena - leva-los-á a manter a potência militar em detrimento de tudo o mais a fim de manterem o estado psíquico agradável a que Hollywood e a Casa Branca os acostumaram.

A crença dos EUA que todo e qualquer desentendimento pode e tem de ser resolvido com armas em vez de palavras é maior do que qualquer uma de suas crenças religiosas bitoladas.  Nisto, Republicanos e Democratas são farinhas do mesmo saco.
Para os demais países do planeta que assistem de camarote à disputa de golpes baixos entre os candidatos, no final das contas, tanto faz. Pois inclusive os presidentes democratas (Obama é a prova encarnada) têm compromissos financeiros internos que os levam a tomar decisões internacionais motivadas apenas pelo interesse nacional a curto prazo que prima sobre todos os demais e sobre a moral básica que aplicam em casa e violam em solo alheio.
Enfim, tanto faz, de maneira geral.
Desta vez uma ameaça grave paira sobre o mundo inteiro com a espada de Dâmocles que Israel pôs nas nossas cabeças. Romney acabou de receber mais U$10 milhões de dólares de Sheldon Adelson, a terceira fortuna dos Estados Unidos. O bilionário sionista que enriqueceu no ramo da jogatina desembolsou mais esta quantia - além da que o lobby israelense já garantia ao candidato republicano - contra um acordo tácito entre Romney e Netanyahu de arrepiar os cabelos. Em sua visita a Jerusalém, o candidato republicano declarou a cidade capital do "Estado Judeu" (contra a posição oficial dos EUA) e afirmou que os Estados Unidos têm “a solemn duty and a moral imperative to block Iran from achieving nuclear weapons capability. Make no mistake, the ayatollahs in Iran are testing our moral defences. They want to know who will object and who will look the other way. We will not look away nor will our country ever look away from our passion and commitment to Israel.
Prometeu ao Primeiro Ministro de Israel que caso seja vitorioso na corrida para a Casa Branca, não emitirá oposição à limpeza étnica da Cisjordânia. Nem através de ocupação militar nem das invasões civis através dos assentamentos/colônias que Obama critica de vez em quando, embora impeça seu embaixador na ONU de aprovar as sanções propostas pelos outros países.
E pior do que este fato exclusivo à Palestina, a vitória de Romney afetaria imediatamnete o mundo inteiro, pois dizem também que teria dado carta branca e apoio irrestrito a Binyamin Netanyahu e Ehud Barack para levarem a cabo o ataque que estão cavando contra o Irã - desconsiderando totalmente que tal agressão bélica teria proporções maiores do que pensa, talvez até planetárias.
O Irã não é o Iraque nem o Afeganistão. Tem parceiros internacionais de peso, do eixo Rússia-China ao Egito, que está do ladinho.
Barack Obama tem mantido distância do Primeiro Ministro israelense (de quem não gosta nem um pouquinho mais do que seus colegas europeus). Em Tel Aviv dizem que o Presidente dos Estados Unidos recusou (com desculpa de agenda) o pedido de reunião que Binyamin Netanyahu vem solicitando com insistência para antes do fim de setembro. Negando, porém, qualquer divergência da Casa Branca com o governo israelense.
Estas esquivadas de Obama não significam que negará a Netanyahu mais este delírio megalomano-psicótico de atacar o Irã.
Mas já indica uma certa relutância. Pois sabe que teria de convencer os Democratas a segui-lo nesta medida e na conjuntura atual do partido, não seria assim tão fácil como a dupla Ehud Barak/Binyamin Netanyahu gostariam.
Os judeus liberais noavaiorquinos - artistas e intelectuais - já acordaram para a injustiça da ocupação da Palestina e também estão ativos, pressionando seus representantes no Congresso que ajudaram a eleger com contribuições e/ou propaganda. 
Prova disto foi a dificuldade que o lobby israelense teve para impor sua vontade na Convenção Nacional Democrata.
Até quatro anos atrás, o lobby sionista conseguira aprovar a frase "Jerusalem is and will remain the capital of Israel" logo de cara.
Na quarta-feira passada, a frase foi reprovada uma vez, reapresentada e reprovada uma segunda vez, e a posição crítica em relação ao estatuto final de Jerusalém israelense só obteve "maioria" na terceira votação após pressões, conchavos e contagem por alto.
Quando Ted Strickland, ex-governador de Ohio, propôs a controvertida inclusão da frase fatídica, disse "faith and belief in God is central to the American story" e "President Obama recognises Jerusalem as the capital of Israel and our party's platform should as well".      (A charge do jornal Al-Quds, ao lado, diz acima "Learn about Israel... from behind the fence", e abaixo: "Obama's view".) 
Vale lembrar que o estatudo de Jerusalém é um espinho no sapato de todos os presidentes dos Estados Unidos desde que Israel começou a ocupação civil e militar da Palestina em 1967.
A maioria absoluta dos países membros da Oraganização das Nações Unidas resiste ao lobby sionista (inclusive os EUA, neste ponto) se recusando a reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Estes países esperam que a cidade "santa" ainda seja a capital dos dois Estados - Israel e Palestina - e que a paz reine dos dois lados livres e soberanos.
É por isto que as embaixadas estrangeiras em Israel, inclusive do Brasil, são em Tel Aviv.
E sob pressão de seus eleitores liberais, inclusive judeus esclarecidos, muitos políticos Democratas  acordaram para sua responsabilidade na Convenção do partido e os "nays" foram majoritários até os "ayes" predominarem sem realmente predominarem e a moção ser aprovada.
"In the opinion of that chair, two-thirds have voted in the affirmative. The motion is adopted, and the platform has been amended." A frase definitiva de Antonio Villaraigosa, prefeito de Los Angeles e presidente da Convenção, foi recebida com um coro de vaias da Assembleia.
A frase foi aprovada, mas a contragosto de muitas vozes democratas ativas. Isto renova as esperanças que Netanyahu não consiga fazer valer sua vontade com tanta facilidade no caso da reeleição de Obama, e que se os estadunidenses reelegerem Obama, os Democratas esclarecidos consigam que governe com bom senso, deixe o problema do Irã ser resolvido pelas Nações Unidas - que é quem tem autoridade para isto, e pare os caterpillars israelenses na Palestina. Mesmo que dona Hillary Clinton tenha outro ponto de vista.  
Embora saiba que Obama está e é propenso a beneficiar Israel em uma possível resolução da ocupação militar e civil da Palestina, entre os males, o menor para o mundo continua sendo ele.  

'ONCE UPON a time, President Richard Nixon wanted to appoint a certain lawyer to the US Supreme Court.
“But the man is a complete moron!” one senator exclaimed.
“So what,” answered another, “There are a great many morons in the US, and they have a right to be represented in the court as much as any other sector of society.”
Perhaps the United Morons of the United States have a right to elect Mitt Romney president.
But for the sake of the US and Israel, I hope that this will not happen.
Some people say that Israel is the 51st state of the Union.
Some say that it is the first among the 51.
Whatever, our lives – and perhaps our deaths – depend to a great extent on the man in the White House.
So, with all my misgivings (and I have a lot) about Barack Obama, I very much hope that he will be reelected.'
Uri Avnery, cronista do jornal israelense Haaretz

"No weapon has ever settled a moral problem.
It can impose a solution but it cannot guarantee it to be a just one."
Ernest Hemingway

 
As Relações Exteriores de Israel têm um ministério e um ministro de extrema-direita que é Avigdor Lieberman. Não baba como os cães raivosos, late, late, late e morde quando pode, mas na verdade (por enquanto) não decide nada.
Pois o Primeiro Ministro e o Ministro da Defesa se apossaram das verdadeiras Relações Exteriores, tais como a relação prioritária e privilegiada que Binyamin Netanyahu se reserva com a Casa Branca e a AIPAC (lobby israelense em Washington). O embaixador israelense nos EUA se comunica diretamente com Netanyahu - e com o bilionário Sheldon Adelson, a terceira maior fortuna dos Estados Unidos e um dos maiores financiadores da campanha do republicano Mitt Romney - U$10 milhões de dólares, para que este campo assegure que não haja nenhuma crítica às colônias, nem à limpeza étnica da Cisjordânia e que Netanyahu fique à vontade para lidar como quiser com o Irã.
As Relações com os palestinos são (mal)administradas por Ehud Barak que é oficialmente encarregado dos Territórios Ocupados, e das Forças Armadas - IDF (Israeli Defensive Forces). A espionagem e policiamento lá é da alçada do Shin Bet (serviço interno de inteligência), ligado diretamente ao Primeiro Ministro.
As relações com os países árabes são mantidas pelo Mossad, também sob autoridade de Netanyahu.
Na prática, são estes dois homens, Binyamin Netanyahu e Ehud Barack, que, direta ou indiretamente, detêm todo poder no Estado de Israel - inclusive de bombardear ou não o Irã - e consequentemente, de tudo o que diz respeito à Palestina.
Portanto, a responsabilidade da farsa jurídica encenada em Haifa no fim de agosto também pode ser considerada da responsabilidade deles.
"A impunidade prevalesceu de maneira sistemática nos casos de violações do Direito Humanitário Internacional pelas autoridades israelenses e em vários outros casos de Direito Penal israelense. A família Corrie estava à mercê de um sistema israelense em que as decisões "são uma paródia de justiça".
Foi Richard Falk - especialista independe nomeado pela ONU para investigar a situação dos Direitos Humanos na Palestina ocupada desde 1967 - que fez esta acusação ao governo de Israel. O julgamento ao qual se refere é o de Rachel Corrie, e por tabela, aos dos outros civis estrangeiros assassinados fria e impunemente por soldados da IDF nos últimos dez anos.
Richard Falk, um diplomata pausado, saiu do sério quando exprimiu "decepção" e "consternação"  com uma decisão judicial israelense de rejeitar a queixa da família Corrie contra os assassinos da filha, condenando a vítima e absolvendo mais uma vez os culpados.
O caso de Rachel não é isolado, mas é mais conhecido por ela ser estadunidense e por sua família ser perseverante e determinada.
Neste caso mediático, o culpado é um soldado da IDF ou IOF (Israeli Defensive/Occupation Forces) que nove anos atrás jogou seu caterpillar armado em cima da militante pacifista a atropelando de propósito e a deixando para trás esmagada.
Rachel foi esmagada por um Caterpillar em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, nove anos atrás.
Sua família, após mover céu e terra para punir os culpados, acabou formalizando uma queixa no Tribunal de Haifa em 2005. 
No fim de agosto de 2012 este tribunal, por intermédio do juiz Oded, absolveu o estado de Israel da responsabilidade do "acidente" e negou as acusações de falha na condução credível de investigação do assassinato. A isenção de responsabilidade dos militares foi uma bofetada nas caras sofridas de Cindy e Craig Corrie, pais de Rachel.
Desconsiderando as provas e os depoimentos dos estrangeiros presentes na cena do crime, o Tribunal manteve a versão oficial que os soldados que estavam no Caterpillar D9 não viram a jovem de 23 anos apesar do colete fluorescente laranjado que ela estava usando.
Quem estava em Rafah nesse dia (ou assistiu ao vídeo) viu bem que, como sempre, ela estava bem visível no seu colete fluorescente.
A negação das falhas na investigação é uma bofetada nos Estados Unidos inteiro, pois em 2004, um ano após o crime, o próprio embaixador dos EUA irritou-se com o então primeiro ministro Ariel Sharon por ter encarregado um jovem de 19 anos de investigar o "acidente".
Durante estes anos todos os "investigadores" mudaram, mas nenhum deles se preocupou em corrigir os erros do colega adolescente no recolher depoimentos das testemunhas, em esclarecer discrepâncias no depoimento dos soldados, em desenhar mapas do local e do desenrolar da cena, enfim, tudo o que teria de ser feito neste tipo de caso.
A impunidade prevalesceu mais uma vez na longa lista de "irregularidades" cometidas pela IDF na Palestina. 
Os Estados Unidos de George W. Bush afirmaram então que o governo de Israel não cumprira a promessa de conduzir investigações "minuciosas, credíveis e transparentes".
Barak Obama não podia, moralmente, deixar por menos do que isso. Mas ele continua mudo sobre o assunto. Precisa do dinheiro da AIPAC e é pouco provável que se manifeste.
Mas o ex-presidente Jimmy Carter declarou imediatamente: “The killing of an American peace activist is unacceptable. The court’s decision confirms a climate of impunity, which facilitates Israeli human rights violations against Palestinian civilians in the Occupied Territory.”
Vale lembrar que cerca de 94 por cento das investigações de soldados israelenses acusados de crimes violentos contra palestinos e suas propriedades terminam em absolução do culpado. 91 por cento das investigações de civis israelenses contra palestinos nos Territórios Ocupados também terminam em absolução do culpado.
Rachel morreu protegendo de demolição a casa de uma família palestina.
Até o dia em que foi "atropelada" os israelenses já haviam demolido, só onde ela estava, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, 1.700 moradias, no processo de punição coletiva durante a Segunda Intifada. Cerca de 400 crianças já tinham sido vítimas "colaterais" dos ataques da IDF. Sem nenhum direito de dar queixa,à Convenção de Genebra contra a violação dos tratados internacionais que Israel não respeita.
Os pais de Rachel batalham há anos para obter justiça para a filha e por tabela, para as centenas de palestinos a quem os mínimos direitos humanos são inacessíveis.
Os israelenses são tão espertinhos que após a queixa civil registrada por Cindy e Craig Corrie em Israel, o Knesset aprovou uma emenda na lei de compensação que impede outros processos do gênero.
Um passinho pra frente. Graças a Rachel.
  
Abusos são cometidos por soldados da IDF diariamente nos territórios ocupados.
Estes abaixo foram "documentados" nos domicílios palestinos que ocupam durante dias sem nenhum respeito pela família 
E quando desocupam a residência da família
I'll be right back, diz o grafite do soldado antes de "mudar" para outra casa 
Documentário sobre a visita do comediante inglês Jeremy Hardy à Palestina em 2002
Jeremy Hardy vs Israeli Army
  
A vídeo do assassinato de Tom Hurndall


Livro : The Only House Left Standing - The Middle East Journals of Tom Hurndall
De Tom Hurndall e Robert Fisk. Editora Trolley Books

Filme do Channel 4: The Shooting of Thomas Hurndall (TV 2008)
Direção de Rowan Joffe, com Kerry Fox, Stephen Dillane, Bader Alami, Ziad Backry, Mark Bazeley.  


Os caterpillars em operação de demolição em Dkaika
Demolição de cisterna em Kheshem Ad Darj 

Reservistas da IDF, Forças de ocupação israelense,
Breaking the Silence

Documentário: Occupation 101: Voice of the Silenced Majority
De Sufyan e Abdallah Omeishah, 2006
Concluído com as palavras de Rachel Corrie