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domingo, 4 de novembro de 2012

Valsa petroleira de Netanyahu no Sudão e no Líbano


Como disse há algumas semanas no blog do visível e do invisível, notícias divulgadas sem análise ou a partir de comunicados de imprensa partidários, tendem quase sempre a julgamento errado. E este, infelizmente, é raramente corrigido com a mesma ênfase e o mesmo impacto.
Hoje tenho três casos que poderiam servir de base.
O primeiro é na África.
Em blog anterior http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2012/01/vox-populi-vox-dei.html, enquanto outros celebravam a liberdade dos sudaneses do Sul, eu levantava conjeturas sobre a velocidade em que Tel Aviv abordara Salva Kiir na capital do novo Estado.
Pois sabia-se que os Estados Unidos e Israel tinham sido os artífices maquiavélicos da divisão e, logo que a República do Sudão do Sul foi efetivada, na mesma rapidez em que a ONU a reconheceu, Binyamin Netanyahu "abraçou" o presidente "eleito" com USdólares em uma oferta suspeita "caridosa".
Salva Kiir foi logo pagar a dívida do Estado que lhe fora presenteado. Correu a Tel Aviv para estreitar os laços entre os dois países e lá foi recebido com honras de estadista de mãos limpas - como Binyamin Betanyahu foi recebido na França por um François Hollande simpatizante sionista - e voltou para casa convencido do papel que seu país "tinha de representar" na região em favor de Israel e dos Estados Unidos.
Embora o papel não fosse explícito, estava implícito que o Sudão do Sul - que nasceu com doenças corrupto- geopolítico-religiosas crônicas, e paralítico - seria o braço armado do compadre sionista. E este, em contrapartida, forneceria ao país recém-nascido potência bélica ilimitada contra o vizinho do Norte. Cuja ameaça era real, mas a se a ONU tivesse alguma potência própria e autoridade, teria resolvido a médio prazo sem guerra. Se não, para que serve?
Os meses passaram, Tel Aviv e Juba estreitaram ainda mais os laços, bases foram sendo criadas,mais tudo o que implica em uma relação de forças desiguais.
Enquanto isso, em Khartun, o presidente Omar al-Bashir (que também não é flor que se cheire nem de longe) foi ficando apreensivo e acabou tomando disposições que julgava necessárias. Foi bater à porta do inimigo que Israel queria combater por intermédio do vizinho de baixo. Ou seja, o Irã.
Pois o que se escondia atrás da caridade israelense era o combate, por vias africanas, do bicho-papão de Teerã.
Como se os próprios problemas dos africanos não bastassem, além dos conflitos intra e inter-nacionais que têm de administrar, a potência bélica do Oriente Médio incluiu mais este na agenda dsses primos inimigos.
Posso estar enganada, mas nem os sudaneses do norte nem do sul querem se meter na briga de Israel com o Irã e nem virar bucha de canhão.
Mas ninguém pediu a opinião das respectivas populações.
Atendendo ao pedido de socorro de Khartun, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, chegou ao Sudão com dois navios de guerra, um contratorpedeiro, um porta-helicóptero, e disposição de ferro.
Para que toda esta parafernália?
Porque poucos dias antes, Israel bombardeara uma fábrica de armamentos nas proximidades da capital sudanesa deixando Bashir muito irritado e preocupado.
Imagens estadunidenses mostravam cerca de 40 contêiners na fábrica bombardeada. Reduzidos a pedaços.
A "justificativa" de Israel para a operação militar em terra alheia, dada por um oficial da IDF, foi que seu serviço de inteligência havia detectado "ameaça iminente" em Yarmuk.
(Como se Tel Aviv gozasse de uma prerrogativa especial nas Nações Unidas de agir em solo alheio como e quando lhe aprouvesse. Como na Palestina.)
Não é que alguém tenha pedido contas a Binyamin Netanyahu ou a Ehud Barak, mas um general da reserva "explicou" que o ataque aéreo da IDF talvez tivesse visado destruir "uma nova categoria de armas" que seriam contrabandeadas para a Faixa de Gaza.
Aí dá para ficar boquiaberto.
Primeiro, "nova categoria de armas" inventada em um país do terceiro mundo... difícil de acreditar que o Sudão possua teconologia superior à de Israel e dos EUA que investem bilhões em segurança em detrimento de bens públicos necessários.
Segundo, de Khartun a Gaza, a rota é longa e complicada. A entrada então, nem se fala! com o bloqueio que não deixa passar nem gêneros de primeira necessidade.
Mas desculpas não faltam.
O fato é que com Muammar Ghadaffi aniquilado, essa região toda que ele controlava e cultivava com fundos de investimento, corrupção e punho de aço, ficou à mercê de quem pagar mais e falar mais grosso e alto.
O Hamas e o Hezbollah (o qual a União Europeia não quis rotular de Organização Terrorista, apesar das pressões gringas) parecem ser mesmo é desculpa esfarrapada na contenda de Israel com o Irã e na corrida israelense pela hegemonia na reião e além de lá.
O Hamas está mais preocupado em contrabandear água para os gazauís que arma. Questão de prioridade.
E o Hezbollah, bem, o Hezbollah, está entre a cruz e a espada. Sobreviver e/ou defender Bashar el-Assad.
Mas o que é que tem no Sudão que interessa tanto Israel e os EUA?
O ouro negro que provoca cobiça e guerras nos países fracos.
A "revolução" da Líbia foi fomentada de fora para a derrubada de Gaddaffi e o campo ficar livre para Israel, os EUA e os 1% de abastados que dominam o planeta se esbaldarem com o petróleo e com o campo virgem para aplicarem seu capitalismo selvagem.
A Líbia ficou como se esperava - uma hostil colcha de retalhos tribais sob um guarda-chuva de carteis internacionais que estão tirando dos líbios seu patrimônio natural.
No Sudão do Sul, tem muita coisa para explorar e pouca gente instruída para defender os interesses reais da nação recém-criada.
A geopolítica é complicada.
Sobretudo com uma Organização das Nações Unidas tão fraca.
Se a ONU tivesse voz ativa, interviria no Sudão antes que fosse tarde. E na Síria, implementaria o plano de paz de Kofi Annan, que era o mais sábio http://mariangelaberquo.blogspot.fr/2012/08/o-visivel-e-o-invisivel-no-oriente-medio.
Se Barack Obama tivesse sido derrotado (apesar da ajuda providencial do furacão "Sandy"), com Mitt Romney nas rédeas dos EUA, nem o futuro de Bashar el-Assad, nem dos sírios, nem dos sudaneses, nem de Israel (que o Republicano pensa ajudar dando carta branca à dupla Binyamin Netanyahu & Ehud Barak), nem do mundo, estaria assegurado. Dos estadunidenses então, nem se fala.
Com as leis anti-terroristas aprovadas nos EUA nos últimos dez anos, inclusive por Obama, o país virou o maior perigo do planeta, se cair nas mãos de um presidente inescrupuloso. Veremos isso outro dia.
Concluo esta nota com meu leitmotiv de sempre: guerra nunca resolveu e nunca resolverá nada.
  
O segundo leão invisível está no recente atentado em Beirute, que matou o chefe de segurança libanês Wissam al-Assan e mais duas pessoas.
Os oponentes a Bashar el-Assad logo o culparam pelo atentado.
Eu preferi ficar calada porque não encontrei nenhuma prova que isso fosse verdade.
A experiência me ensinou que 99% dos atentados não reivindicados (e às vezes até os 1% que são, mas por grupos marginais) são fabricados para prejudicar a parte acusada.
Os serviços de inteligência das potências hegemônicas passam mais tempo arquitetando e cometendo delitos para incriminar seus antagonistas do que protegendo seus compatriotas.
No caso do recente atentado do Líbano, embora a hipótese de Bashar el-Assad não poder ser totalmente descartada, é difícil acreditar que com todos os problemas que tem e com a decrepitude do aparelhamento de Estado, o presidente da Síria tivesse cabeça, energia e fundos para levar a cabo um projeto no exterior tão bem arquitetado.
O serviço de inteligência da Síria está tão esfacelado que nem conseguiu localizar e prender seu próprio primeiro-ministro dissidente que ficou por lá tranquilo após sua defecção do regime.
Como então Bashar teria conseguido organizar em sigilo e realizar um atentado que exigiu planejamento minucioso e segurança de informação sem falha?
Assad não ganha nada com a desestabilização do Líbano no contexto atual. Sem contar que está longe de ser o único interessado na desestabilização do sistema de segurança do Líbano - Aliás, o presidente da Síria tem mais a perder do que ganhar.
Outros grupos são igualmente ou mais questionáveis.
Sem querer bater na mesma tecla, a potência regional mais interessada na morte de Wassim al-Hassan é Israel. Pois ele presidia também o departamento libanês responsável pela detecção de espiões israelenses no Líbano.
Conhecendo o modus faciendi do Mossad - serviço secreto israelense- sua participação não pode nem deve ser descartada.
É bem possível que este atentado fatal tenha tido como principal motivo calar Wassin e criar caos e ativar conflitos sectários que dormiam sossegados.
E "por coincidência", o atentado aconteceu perto do escritório falangista.
A Falange libanesa é o partido que fez o trabalho sujo de Israel em Sabra e Shatila em 1982, quando centenas de palestinos foram exterminados em poucas horas enquanto os soldados da IDF montavam guarda do lado de fora dos campos de refugiados, impedindo que os moradores escapassem -
Foi o assassinato de Bashir Gemayel, então recém-eleito presidente do Libano, que foi usado como detonador do horrendo ato vingativo.
Na época, o assassinato de Gemayel foi conveniente e rapidamente posto nas costas da OLP (Organização de Libertação da Palestina) - então sediada em Beirute - e/ou nas de seus aliados.
Mil pretextos foram encontrados - como hoje contra Bashar el-Assad - para incriminar Yasser Arafat e induzir os jovens falangistas a aceitarem a hospitalidade israelense para formá-los para o futuro massacre. Que ficaria nos anais dos atos mais bárbaros do século XX.
Na época, pouquíssimos jornalistas ousaram contradizer a versão oficializada.
Um número menor ainda de analistas ousaram lembrar que pouco antes de ser assassinado, Gemayel não era mais protegido de israel. Já caíra em desgraça. Tel Aviv o apoiara esperando que quando eleito se comportasse como vassalo, o que não foi o caso. E como o primeiro ministro de então, o general Menahem Begin, não era de engolir sapo...
As batalhas armadas, incêndios, pilhagens, mortes e banditismo de um punhado de marginais que sucederam a morte de Wissam al-Hassan, embora tenham sido graves, felizmente não foram da proporção de Sabra e Shatila, é claro.
Mas não deixam de ser lamentáveis.
Desde que exerço o meu ofício jornalístico, ou seja, desde o início da década de 80, o Líbano tem sido palco de tentativas graves e repetidas de impedir sua existência em tanto que Estado pleno, uno e estável.
Desde antes, na verdade.
Mas nos últimos trinta anos o Líbano tem sido sido vítima de Tel Aviv em várias frentes. Invasões, ocupações, bombardeios, interferência em abastecimento de água, e outros projetos perversos que assegurem que a antiga Fenícia só consiga existir como um Estado aleijado.
Quer queira quer não, para ver o invisível no Oriente Médio, tem de olhar, ver e analisar os interesses de Israel em cada acontecimento mediático e em cada ato subreptício que o favorize a curto prazo e que prejudique seus adversários.
Se Tel Aviv levar alguma vantagem, ou achar que leva alguma vantagem imediata em algum desastre, infelizmente, antes de "jogar pedra na Geny", tem de perscrutar o que Israel ganha com o desenlace.
Isto não é paranóia. É fato.
É a geopolítica no que ela tem de mais execrável.
Concluindo, não se há de esquecer que dentro do ato terrorista reprovável, tem uma tragédia humana explícita lamentável. Em Beirute, ela estava presente no funeral que seguiu o crime. No sofrimento dos familiares das vítimas indiretas dos interesses inescrutáveis que os abalaram.
Ninguém merece isso.
 O Terceiro leão invisível de hoje é em resposta a uma pergunta que não param de me fazer por email (falando nisso, desculpem os que ainda não foram respondidos nestas páginas).
Andam querendo saber porquê o lobby israelense nos EUA está enchendo Mitt Romney de dinheiro sendo que Barack Obama sempre fez as vontades de Binyamin Netanyahu na Palestina.
A resposta é em dois atos.
Primeiro ato, embora Obama continue obstaculando o trabalho da ONU para que aja concretamente contra a ocupação da Cisjordânia e o bloqueio da Faixa de Gaza, não é segredo para ninguém que ele não quer ver o primeiro ministro de Israel nem pintado. E sua coalição de extrema-direita arrepia os cabelos de muitos Democratas.
Para completar esta aversão incurável, tanto o presidente quanto seu vice-presidente Joe Biden, são claramente contrários às invasões judias na Cisjordânia e à ocupação militar, apesar de não tomarem nenhuma medida concreta contrária.
No segundo ato, o ouro negro entra em pauta.
Em 2010, prospectores encontraram petróleo na região delimitada no mapa acima.
Sem entrar em detalhes técnicos, a bacia petrolífera descoberta é considerada tão rica quanto a do golfo e pertence geograficamente a Israel, à Palestina, a Ciprus e ao Líbano.
Entretanto, Israel logo batizou a bacia de Leviathan, o monstro marinho evocado no Antigo Testamento, e apossou-se dela em toda a sua extensão, como é de seu feitio.
O Líbano recorreu à ONU, com provas cabais de propriedade de parte da área traçada, mas Israel não abriu mão da piratagem marítima.
Avigdor Lieberman, seu ministro do exterior fascista, disse com seu sarcasmo habitual We won't 'give' an inch.  
Em 1982, a ONU estabeleceu uma convenção que legifera sobre os oceanos e os mares do planeta Terra, justamente para resolver questões litigiosas que possam gerar conflitos inúteis.   
Porém, Israel, como os Estados Unidos, nunca ratificou o Tratado e por isso se dá ao direito de infringir mais uma lei internacional como se a ONU e os Tribunais Internacionais fossem só para os demais, quando não legifera em seu benefício.
Só que dessa vez ele estava mexendo com gente tão forte quanto ele.
Tem libanês rico demais espalhado pelo planeta e com influência em Washington... e no final das contas, Barack Obama tomou o partido do Líbano contra Israel, nesta questão petroleira.
Daí a aversão súbita do governo israelense de extrema-direita ao atual presidente dos Estados Unidos e seu interesse exclusivo na eleição do candidato republicano. Mitt Romney prometeu a Israel apoiar tudo o que quisesse (quiser?) fazer no mundo. 
De prosseguir sua limpeza étnica na Palestina, a bombardear o Irã, a roubar o petróleo do Líbano, a sabe-se lá até onde vai a sede de poder e de expansão desses sionistas vorazes.
Se o governo israelense atual pensasse a médio e longo prazo, aproveitaria esta oportunidade providencial para compartilhar o petróleo com os vizinhos que têm direito ao ouro negro. Assim daria um primeiro passo para a colaboração inter-nacional em vez de atolar seus compatriotas em um conflito perpétuo com os países que os cercam e que só querem viver livres, bem e em paz.
  
Lembrando Sabra e Shatila: 30 anos
Al Jazeera: Sabra & Shatila massacre of Palestinians - 
Eyewitness Robert Fisk & Odd Karsten Tveit 
Trailer do filme israelense, de Ariel Folman: Waltz with Bashir
O filme de Folman relata a ocupação do Líbano e o massacre de Sabra e Shatila com uma perspectiva própria, pragmática. Não é preciso com a História. Como por exemplo, o massacre não durou apenas uma noite. Começou ao anoitecer do dia 16 de setembro e só terminou ao amanhecer do dia 18.
A psicóloga israelense Ronit Shpiner, analisou o filme da seguinte maneira.
"The Israeli soldiers are shown as being good, as being people who are tormented by what is going on. Ultimately, the moral responsibility is taken off of them even though those who saw the slaughter should have stopped it. The movie depicts the soldiers as the victims of the massacre because they were traumatised by it."
Concluindo, embora o Serviço Militar em Israel seja obrigatório, há muitos objetores de consciência. Muitos jovens se recusam a fazer o trabalho sujo da IDF nos territórios ocupados e fora.   A vítima real não é o opressor, que tem escolha, e sim o oprimido, que é presa fácil da engrenagem militar de quem o invade.    Ariel Sharon era o chefe da IDF na época e co-responsável pelo massacre, embora no filme o general só seja mostrado de passagem.            Tenho reservas quanto ao conteúdo, mas acho o filme de Ariel Folman forte e de boa qualidade. E é inegável que, à sua maneira, tentou "Break the silence" para redimir-se de atos obscuros que não consegue exorcizar nem nesta obra de arte.
Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/



domingo, 8 de janeiro de 2012

Vox populi, Vox Dei?



Antes de perguntarem, vou sim, continuar a História Israel vs Palestina, começada no dia 05 de dezembro passado, mas vai ser de 15 em 15 dias, para dar espaço a outros assuntos importantes na minha área.
Como por exemplo, agora que voltei à labuta após as férias curtas no nosso país tropical (banhado pela chuvarada, oriunda dos danos no ecosistema, que há alguns anos cobre o nosso sol de verão) quero atualizar a situação das revoltas e conquistas que abordei no ano passado tentando fugir da mesmice das retrospectivas que chovem no molhado.
Não sei se vou conseguir, mas vou tentar.
A expressão Vox populi, vox Dei deste título, foi lida pela primeira vez em uma correspondência do monge inglês Alcuin de York para o rei dos francos Carlos Magno, que dominou a Europa no século VIII até 814.
Desde então ela virou palavra de ordem dos democratas e de chacota para déspotas e aristocratas.
Na época, Alcuin a imortalizou, mas na negativa, pois a frase completa que escreveu em 798 foi ...Nec audiendi qui solent dicere, Vox populi, vox Dei, quum tumultuositas vulgi semper insaniae proxima sit, ou seja, ...E estas pessoas que continuam a dizer que a vox do povo é a voz de Deus não deveriam ser ouvidas, pois a natureza turbulenta da multidão está sempre muito próxima da loucura.
Eu sempre tento me situar no campo dos justos e dos democratas do mundo, mas às vezes concordo com Alcuin na íntegra. Quando isto acontece é por razões distintas; é quando um homem, um partido ou uma comunidade sectária manipula o povo em interesse próprio.
Porém, na maioria das vezes que pronuncio esta frase me restrinjo à célebre versão encurtada.
Hoje a escrevi acima em homenagem à emancipação de um povo dividido em várias nacionalidades, que começou a tomar as rédeas de seu destino no ano passado e quaisquer que fossem ou sejam nossos temores e vontades ocidentais, não vai parar no meio da estrada da liberdade que pegou em 2011 e que continua a percorrer em 2012 em uma dinâmica própria.
O Despertar Árabe foi o grande acontecimento internacional de 2011. Pois além de sua importância intrínsica, inspirou revoltas econômicas nacionais na maioria dos países ocidentais, de Occupy Wall Street dos Estados Unidos à Austrália, contra os 1% de nababos que beneficiam da desOrdem econômica mundial.

Os movimentos de rebeldia no Ocidente foram contra os bancos que são as versões locais de Mubarak, Ben Ali e Gaddafi. As Agências de câmbio e os bancos estadunidenses são intercambiáveis e envenenam o mercado com suas taxas e com seu vai e vem entre o governo e instituições bancárias, em uma promiscuidade de arrepiar.
Ao ponto que até a mídia especializada, que deveria informar o público incauto, pega leve quando trata destes casos. Bate e sopra; cutuca, mas não move uma palha.
Como a grande maioria dos repórteres estadunidenses que cobrem o Oriente Médio evitando sempre qualquer crítica possível a Tel Aviv. Os comunicados de imprensa dos lobistas da IDF (exército israelense) são divulgados como fatos incontestáveis para explicar aos compatriotas que podem confiar nos "negociadores da paz" de Washington, que os israelenses são os mocinhos e os palestinos os bandidos,  e quão moderados são os "mocinhos" e quão violentos são os "bandidos".
Os banqueiros ocidentais podem destruir as economias domésticas e de mercado, gritar, espernear, infringir a lei, e continuam sendo os "mocinhos" na farsa mediática.
Mas quando os protestadores de Wall Street botam a boca no trombone e exigem que os grandes banqueiros responsáveis pelo caos econômico sejam julgados como Mubarak, são chamados de anarquistas e de terroristas sociais.
Na visão da elite socio-econômico-mediática os ditadores árabes têm de ser derrubados, julgados e condenados por seus crimes políticos, porém, os ditadores da finança ocidental não podem responder por seus crimes econôcios e sociais. São intocáveis. Até quando, não se sabe. Pelo menos até quando nossos jornais também forem controlados por esta elite que transita livremente nos templos financeiros e nas instâncias máximas que governam nossos Estados.

Voltando à fonte da revolta, quem diria que a humilhação de um jovem em dezembro de 2010 em Sidi Bouzid, cidadezinha situada a duzentos quilômetros de Tunis, capital da Tunísia, fosse provocar uma cadeia regional de conscientização e rebeldia?
O dia 17 de dezembro nasceu em Sidi Bouzid como todos, mas naquele dia, a frustração frente à injustiça econômica e à repressão do autoritarismo levaram o jovem Mohamed Bouazizi, vendedor de frutas de 26 anos, reagir mal à afronta pública de uma policial que confiscou sua banca e à incapacidade de recuperá-la no órgão administrativo responsável. Despejou combustível no corpo e imolou-se, em um gesto desesperado. Morreu no dia 4 de janeiro de 2011.
A informação alastrou-se por twitter e facebook formando a corrente que todos sabem e dez dias mais tarde, o presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado do poder e o fogo da liberdade saltou as fronteiras para os vizinhos árabes.
Na praça Tahrir, no Cairo, apareceram bandeiras tunisianas e o movimento contra o presidente Hosni Mubarak começou incendiando o país inteiro até sua queda no dia 11 de fevereiro.
A palavra de ordem na região era Ash-shaab yurid isqat an-nizam, O povo deseja a queda do regime!
Os gritos reivindicativos ganharam as ruas de Arábia Saudita (onde a imprensa foi logo amordaçada, os primeiros manifestantes presos de cara, assim como Manal al-Sherif por ter iniciado campanha contra a proibição das mulheres ao volante, o rei Abdullah ganhou o apoio das autoridades religiosas na proibição de protestos públicos e petições por reformas no país e disponibilizou US$37bilhões para programas sociais);

Argélia, onde promessas de reforma e um cabresto firme em que o presidente Abdelaziz Bouteflika mantém a população bastaram para calar a insatisfação crescente; Iraque, onde os jovens se revoltaram em Bagdad, Basra, Kut, em cidades menores e em regiões kurdas, e a presença militar estadunidense impediu que as reivindicações de melhores condições de vida se generalizassem, até sua retirada em dezembro;

Jordânia, onde a ira do povo começou em janeiro, foi acalmada com promessas de reformas, até o povo voltar às ruas em setembro para protestar contra o Tratado de Paz assinado com Israel em plena mobilização de reconhecimento da Palestina - cerca da metade dos seis milhões de habitantes do país, inclusive a raínha Raina, são ligados à Palestina por raízes ou casamento.
Por outro lado, as reformas político-econômico-sociais do rei Abdullah ainda não foram cumpridas e o crescimento político da Irmandade Muçulmana nos países vizinhos os está tornando populares sobretudo junto à população mais carente; portanto, a poeira não vai baixar tão depressa quanto o rei gostaria;
Kuwait, cujo emir Sabah IV calou os súditos loguinho;
Mauritânia, país pobre africano cujo presidente fez o que pôde sem muita violência e em junho nomeou uma celebridade internacional para o Ministério da Cultura, o cineasta Abderrahmane Sissako, cujos filmes tratam de problemas sociais graves, como a difícil condição feminina;
Marrocos, dominado pelo rei Muhammed VI (aliado íntimo dos EUA) que foi rápido no gatilho da repressão e do amordaçamento da mídia, mas não conseguiu impedir um estertor reivindicativo em junho em Rabah onde os gritos de liberdade e dignidade voltaram a aflorar.
Enfim, nestes países acima, onde a repressão causou poucas vítimas fatais, o povo está mais ou menos conformado, mas a revolução parece ter sido apenas adiada para daqui a pouco ou mais tarde.

No Bahrein, Líbia, Síria e Yêmen o número de mortos, feridos e encarcerados deixaram marcas indeléveis nos vencedores e nos derrotados. As cicatrizes serão difíceis de curar.
No Bahrein, um reino ilhado no Golfo árabe em que a maioria chiita é governada por uma família sunita, os protestos ainda não acabaram, embora a violência da polícia tenha sido uma das mais criticadas e as centenas de presos venham sendo bastante maltratados. No domingo passado os estudantes que retornaram às ruas foram recebidos com bomba de gás lacrimogênio, à vontade.

No Yêmen, no finalzinho do ano, milhares de pessoas engrossaram as passeatas na bela capital Sanaa e em outras dezoito cidades. Exigem que o presidente Ali Abdullah Saleh (que no dia 23 de novembro acabou transferindo oficialmente seus poderes para o vice-presidente para livrar a cara) responda processo pelas centenas de mortes cometidas sob suas ordens.
O povo está preocupado porque oficiosamente Saleh parece não querer desencarnar e para salvaguardar-se, espera um visto de entrada nos EUA, para tratamento de saúde, e pode assim fugir à sua responsabilidade.

A Líbia pós-Gaddafi continua governada pelo Conselho Nacional de Transição de Benghazi que marcou eleições para junho ou julho deste ano. Mas sem um governo nacional, realmente centralizado, que governe de fato.
É falho em todos os níveis.
Por exemplo, Saif al-Islam, filho de Gaddafi, foi detido em novembro e continua preso em uma casa perto de Zintan, uma cidadezinha montanhosa no sudeste de Trípoli; sem direito a advogado, visita, rádio, internet, televisão e com a única companhia de guardas armados que o alimentam três vezes por dia.
A Corte Penal Internacional solicitou sua extradição à Háguia para ser julgado por crimes contra a humanidade, mas o Conselho de Benghazi está empurrando com a barriga uma decisão que talvez não possa tomar nem provar que pode julgar imparcialmente o filho de Gaddafi.
Saif denunciou para o representante de Human Rights Watch a incapacidade do Conselho de Benghazi de cumprir a palavra de estabelecer democracia e justiça.
De fato, mais de sete mil prisioneiros próximos de Gaddafi estão detidos em prisões espalhadas pelo país, no mesmo sistema "incomunicado" de Saif. Sem advogado e sem perspectiva de julgamento. E o CNT ainda nem começou a investigação da execução de Muammar Gaddafi.
É por isto que o novo governo da Tunísia recusou a extradição do ex-primeiro ministro Al-Baghdadi Ali al-Mahmoudi. Temem que seja torturado.
Mas Aisha, a filha de Gaddafi que encontrou refúgio na Argélia, resolveu acionar a Justiça por conta própria. Contratou o advogado israelense Nick Kaufman, especialista em crimes de guerra, para solicitar à CPI que investigue a morte do pai.
Donatella Rovera, uma representante da Anistia Internacional entende o porquê disto, "Atualmente, é difícil falar de um judiciário independente na Líbia, pois não existe nenhuma autoridade central da qual se possa falar".
Por pior que tenha sido Gaddafi e por mais inconsequente que tenha sido Saif, que surpreendeu todos os que o conheciam e o tinham por inteligente e ocidentalizado, todo crime tem de ser devidamente julgado. E a Háguia é o melhor lugar para isto.
Sobretudo no caso de Saif, que tem muita história para contar. Inclusive sua relação, bastante chegada, com Tony Blair e seu possível envolvimento na libertação, em 2009, de Abdelbaset al-Megrahi, o terrorista líbio responsável pela explosão do Boeing da Pan Nam em Lockerbie, em 1988. Atentado que causou a morte de 259 pessoas.
Ou será por isto que ele esteja sendo calado?
Enquanto estas questões básicas não se definem, os negócios vão de vento em popa em Benghazi, há pequenas escaramuchas tribais e a população respira, embora alguns ainda não se sintam à vontade para bater-papo nos bares - após 42 anos de boca fechada, falar livremente não é fácil. Minha geração brasileira, que "só" foi amordaçada durante 20 anos, sabe.  
O certo é que o país tem de ser construído do zero. Começando por um sistema jurídico e policial democráticos até escolas e hospitais.
A riqueza do petróleo, que nunca beneficiou o povo, tem de ser utilizada em bens-públicos e as feridas deixadas pela revolução, profundas como um precipício entre as tribos rebeldes e das forças pró-Gaddafi, têm de ser curadas e as divergências tribais resolvidas para que a paz possa reinar.
Contudo, a corrupção da nova elite e a "entrega" do país às multinacionais ocidentais estão longe de ser descartadas.
Apesar das incógnitas políticas e econômicas, para ajudar o povo a sair do buraco, que venham os turistas! A Líbia é muito bonita, as ruinas romanas estão entre as mais bem preservadas; o deserto, junto com o da Tunísia, é o mais impressionante do planeta, Trípoli tem sítios históricos que valem a viagem e os líbios, como todo árabe, tem aquele sentido brasileiro da hospitalidade.

No final das contas da Primavera Árabe, quatro ditadores foram derrubados. Os dois primeiros citados, da Tunísia e do Egito, foram depostos, o líbio Muammar Gaddafi foi executado no dia 20 de outubro, e Ali Abdullah Saleh, do Yêmen, demitiu-se no dia 23 de novembro.
O ano de 2012 começou com grandes desafios que exigem decisões importantes.
Na Tunísia, segundo a ONU, mais de duzentas pessoas morreram durante a revolução e centenas foram feridas pelas forças militares de Ben Ali.
No tocante à política, a mudança é patente. Em outubro o país votou em um líder e elegeu Ennahdha, do partido islamita moderado. O atual presidente é Moncef Marzouki, um ativista de longa data, que devolveu a seus compatriotas o sorriso.
Porém, os revolucionários e a classe média tunisiana dizem que só saborearão o sucesso de seu Movimento quando houver mudança, social e econômica, concreta.

No Egito, a promotoria exigiu pena de morte para Hosni Mubarak, cujo julgamento está sendo seguido em todas as cidades.
Enquanto isto, o partido dos ativistas jovens que puseram o país de cabeça para baixo e enxotaram Mubarak só obteve 2% nas urnas e os Liberais laicos, apenas 9%.
Sessenta e dois por cento dos quinze milhões de eleitores que foram às urnas, segundo resultados preliminares, votaram nos partidos islamitas perseguidos durante o antigo regime, com predominância da Irmandade Muçulmana que dominará o Parlamento.
O destino do país está nas mãos da Irmandade, mas Mohamed Mursi, líder do partido, prometeu que a Assembléia Constituinte contará com representantes de todos os egípcios.
A eleição é baseada em um sistema complexo de representações e turnos. Os resultados definitivos de todas as Assembleias Legislativas locais e nacionais só serão conhecidos após as eleições que começarão no dia 29 de janeiro para a Câmara Alta, que corresponderia ao nosso Senado.
Após a posse, escolher-se-á uma comissão responsável pela nova Constituição. É por isto que a eleição presidencial está prevista só para fim de junho.
Os cristãos coptas, que vêm sofrendo perseguições em algumas regiões, estão divididos entre preocupação e otimismo. Mas é difícil imaginar como o Egito, que quer resolver seus problemas econômico-sociais e modernizar-se, obteria sucesso sem a contribuição da elite intelectual, sobretudo dos coptas.
Para o país sair do buraco o pragmatismo vai ter de falar mais alto do que o sectarismo e uma aliança ampla instalar-se.

E no vizinho abaixo, o Sudão, após quase cinquenta anos de uma guerra civil mediatizada por celebridades, em janeiro de 2011, a secessão foi efetivada.
O Estado do Sul, constituído por uma grande maioria cristã e de religiões indígenas, foi reconhecido pela ONU em seguida.
A separação legal não impediu que a violência continuasse na fronteira, causando cerca de três mil mortes.
E o presidente Salva Kiir este ano tem de enfrentar problemas econômicos e sociais complicados. Primeiro, tirar o país dos 80% de inflação em que está atolado e lidar com o retorno de 350 mil compatriotas e de cerca de um milhão de refugiados cuja volta está prevista em 2012.
No estado em que o país se encontra, prevê-se que cerca de 2,7 milhões de sudaneses do sul passem fome este ano.
E no meio deste caos social, a quem Salva Kiir acabou de fazer uma visita surpreendente?
A Binyamin Netanyahu.
Aparentemente, nada liga israel ao Sudão. Nem fronteira, nem religião, nem cultura, nem etnia. Por outro lado, são distanciados por mais de três mil quilômetros de terra e água...
Na perspectiva de Israel, o Suldão do Sul está geopoliticamente bem localizado porque serviria para bloquear uma suposta rota do Irã (um de seus maiores pesadelos) nessa área.
Como Tel Aviv só pensa em segurança total e armas para garantir o que não quer garantir com bom senso, desocupação e diálogo, o que a liga a Juba só pode ser armamento leve e pesado.
No fundo do poço, Salva Kiir escolheu vender a alma para o diabo (e para o braço armado da nossa América, no norte?) e virar base africana de um Israel governado por uma extrema-direita cega e implacável.
As vantagens fornecidas por Israel (e os EUA por trás?) são tantas, que Kiir chegou a declarar que está pronto a abrir uma embaixada em Jerusalém. Em toda ilegalidade internacional.

E por último, vem a Síria, palco de uma disputa de território acirrada entre Bashar el Assad e uma grande população revoltada.
Nos dez meses de revolta, a ONU afirma que mais de 5.000 mil pessoas foram mortas e o governo contra-ataca com a cifra de que os "terroristas" mataram 2.000 mil policiais.
Na verdade, ninguém sabe de nada. A Síria está fechada e os poucos jornalistas que acedem ao território vêem fatos isolados e não dispõem de nenhuma informação fiável. Até os observadores da Liga Árabe estão confusos
É certo que o regime de Assad, como o do pai e dos demais governantes anteriores, é autoritário e persegue seus opositores. Mas isto não é novidade.
A novidade é que o povo se diz farto.
Neste caso específico, há um componente religioso claro: Bashar é de confissão religiosa alauita, uma minoria chiita, e as outras duas facções muçulmanas chiitas e sunitas querem que ceda o lugar.
Os observadores da Liga Árabe afirmam que sua investigação in loco pode durar bastante, assim como sua intermediação e negociação com os beligerantes.
Voltaremos a este assunto mais tarde.

O ex-primeiro ministro de Israel Ehud Olmert foi indiciado por corrupção nas investigações do Caso Holyland, sob acusação de ter recebido propina, junto com o ex-prefeito de Jerusalém Uri Lupolianski e mais 17 funcionários do governo, para autorizar a construção de novas residências na cidade.
O Projeto Holyland é um dos maiores casos de corrupção da história de Israel. O processo começou em 2010 após uma denúncia anônima de que a construtora responsável teria desembolsado dezenas de milhões de shekels (moeda local) em propina para obter diminuição de impostos, de prazo e retirada de obstáculos ao seu empreendimento imobiliário no bairro Bayit VeGan de maioria de judeus ultra-ortodoxos.
Além do mal gosto de deformar a paisagem do sudoeste de Jerusalém, um pinheiral foi arrancado para acomodar o luxuoso complexo imobiliário e estima-se que pelo menos 300 objeções oficiais tenham sido arquivadas para viabilizar a obra.

"No matter what's happening in the Middle East - the Arab Spring, et cetera, the economic challenges, high rates of unemployment - the emotional, critical issue is always the Israeli-Palestinian one."
King Abdullah II

Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/;
Lista de produtos das colônias a serem boicotados:
http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements.

domingo, 17 de julho de 2011

Pra não dizer que não falei das flores


Passeata de israelenses e palestinos anteontem em Jerusalém Oriental
em favor da criação do Estado da Palestina 
Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não...
Eu gosto muito de passeata. Desde a escola, quando a música que abre este blog era o hino da minha geração contra a ditadura que se impôs em nosso país por 20 anos. Caminhando... é a melodia que murmurro com meus botões quando vejo gente separada pelo meio em que gravita e por poucas horas unida pela vontade de melhorar o mundo em que vive. 
Geraldo Vandré (http://youtu.be/PDWuwh6edkY) faz parte daqueles compositores de carreira curta, em seu caso, podada drasticamente pelos torturadores que lhe extirparam a vontade e desonraram nossa pátria amada, salve, salve.
Vandré nunca foi Geraldo, mas foi íntimo de todos os brasileiros que têm mais de 40 anos. Como se fosse o irmão sacrificado em nosso nome. Compôs Disparada, Canção da Despedida e quantas mais maravilhas, mas imortalizou e foi imortalizado pela frase ao alto. O hino da liberdade entoado nas ruas e praças das capitais brasileiras contra o jugo do obscurantismo e pelas eleições diretas, até chegarmos, em 1984, à tahrir que buscávamos.
Passeata espontânea em Tel Aviv
contra a recente Lei Boicote
Até o ano passado, quando os reacionários engrossavam a voz e seus representantes no governo espoliavam e bombardeavam os vizinhos, os israelenses liberais, artistas, intelectuais, envergonhados, costumavam argumentar que apesar de tudo, tinham democracia e liberdade para rebelar-se e denunciar criminosos e crime. Hoje, com a aprovação do Knesset da Lei Boicote, nem isto têm para consolar-se.
Entre outras coisas, esta proíbe os cidadãos de boicotar os produtos oriundos da política de ocupação e do apartheid. O israelense que se recusar a consumir produto com etiqueta do Jordão (http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements
) será punido. E lá se vai a liberdade de ação e de expressão da qual tanto se orgulhavam. 
Gush Shalom foi a primeira organização a liderar o boicote na década de noventa e foi a primeira a contra-atacar com uma liminar junto à Corte Suprema. "Esta lei viola os princípios básicos democráticos. Com ela o Knesset procura silenciar críticas da política governamental em geral, de sua política nos Territórios Ocupados em particular e evitar um diálogo aberto e produtivo que constitui a base do funcionamento democrático. A política de silenciar só um lado é danosa para a Liberdade de Expressão e indica claramente a fragilização de um regime democrático. Além do mais, a nova lei (que também desobriga as empresas a etiquetar a origem do produto para evitar o boicote internacional, nda) prejudica empresas ao infringir sua Liberdade de Profissão, já que não permite que o consumidor diferencie os produtos de Israel e dos Territórios Ocupados." Concluindo, afirmou que o boicote é um instrumento de expressão pacífico e legítimo dos cidadãos. 
A Gush Shalom não está sozinha no desagravo. Está apoiada por outras 52 ONGs locais e por muitos compatriotas indignados.
Toda passeata por causas legítimas é bonita, mas bonita mesmo foi a da sexta-feira passada em Jerusalém. Oriental. Aqui, cidadãos de ambos os lados da Linha Verde e do muro que separa Israel e Cisjordânia se uniram e caminharam juntos pelo mesmo ideal.
Tinha mulheres, homens, crianças, judeus, cristãos, muçulmanos, unidos e provando mais uma vez ao Knesset, a Netanyahu e quem enxergasse, que têm a mesma crença na justiça que trará a paz.
O motivo da passeata era apoiar a criação do Estado da Palestina, que será decidida em setembro nas Nações Unidas.
Esta foi a primeira das passeatas que se se repetirão todas as sextas-feiras nas cidades abaixo. 
A colônia usurpadora. O SPA está longe dos olhares




As próximas cidades são Nabi Saleh, em que os colonos israelenses confiscaram a fonte que a alimentava em água para fazer um SPA;



Iraq Burin e ao fundo a colônia Har Bracha



Iraq Burin, cujas hortas são constantemente destruídas pelos colonos de Har Bracha;






Manifestação contra o muro em Budrus

 Budrus, à qual o muro havia tirado 300 hectares e 5.000 oliveiras;

O muro em Ni'lin





Ni’lin, da qual o muro cortou um terço do município para a expansão da colônia construída ao lado;





Em maio, protesto pacífico parou um buldozzer
 em Deir Qaddis




Deir Qaddis, confiscada por Israel em 1980;

Bi'lin



Protesto semanal reprimido com gás

Bi’lin, que o muro engoliu 60% da roça cultivada. Cidade precursora das passeatas semanais. Faz anos que isarelenses e palestinos manifestam e há algumas semanas um manifestante foi assassinado por um soldado;

Sheikh Jarrah, com Jerusalém ao fundo


Sheikh Jarrah, encostada em Jerusalém Oriental e que Israel quer ocupar alegando que era habitada por judeus antes de 1948 (embora não reconheça o direito dos refugiados palestinos de recuperarem suas casas cujas chaves são bem guardadas...);




Ma’sara, uma área a seis quilômetros de Belém que os israelenses querem confiscar para expandir a colônia Gush Etzion;



Beit Ummar, em que o muro separou as roças dos donos para uso dos colonos de Kamei Tsur.



Segundo ONGs israelenses, a passeata de anteontem contou com a presença de milhares de pessoas e a mobilização continua tanto do lado israelense quanto do palestino. Se a violência não esmagar a não-violência, a tendência é que o número de participantes aumente sem parar.
A obstrução de embarque de membros da Flytilha na França, por exemplo, ou da deportação expeditiva de vários participantes direto do aeroporto Ben Gurion – dos quais, 31 britânicos, “Israel ultrapassou outra linha vermelha”, disse o professor escocês de 64 anos Mick Napier, “fomos detidos e algemados no aeroporto sem nenhuma explicação e sem ter infringido nenhuma lei local ou internacional; não permitiram que telefonássemos durante todo o período de detenção. Foi uma situação fora-da-lei, ilegal.”
Depois deste depoimento, tenho de dizer em que pé está o processo para a sonhada justiça e liberdade para a qual estes ativistas e boicotadores cidadãos normais agem.
Salam Fayyad, o primeiro ministro encarregado do processo de reconhecimento do estado palestino, afirma que no dia 26 de agosto, prazo dado pela Autoridade Palestina dois anos atrás, estarão prontos para ser um Estado. Duas semanas mais tarde apresentarão a moção de reconhecimento na 66ª assembléia da ONU que decidirá seu destino. A AP já conta com 130 dos 193 países que votam. Precisam de maioria de dois terços para o reconhecimento do Estado.
Os Estados Unidos estão pressionando os outros 63 que votarão contra ou se absterão, e continuam na política do Deixa pra lá e do Deixa comigo que não faço nada, porque se vocês conseguirem algo sem meu apadrinhamento, vão acabar não conseguindo nada porque tudo que conseguirem será vetado.
Repreendem os palestinos de um lado e do outro os convocam para negociar. E a cada investida a AP repete que senta à mesa com Israel a convite dos EUA contanto que estes garantam a fronteira pré-1967 prometida por Barack Obama em discurso público, antes de recuar sob pressão da APAIC (lobby israelense), cujo dinheiro e voto o presidente-canditato cobiça para reeleger-se em 2012.
A esperança dos cidadãos que agitam Tel-Aviv e gritam “Não em meu nome!” contra o oportunismo de Obama e o sectarismo de Netanyahu, é que o movimento internacional de boicote e a mobilização das forças democráticas pacíficas israelenses e palestinas consigam derrubar o muro que os esmaga, conseguir que justiça e dormir sossegado.
Contam com os cidadãos do mundo que teriam combatido a política de limpeza étnica nazista, o massacre dos armenianos, outras atrocidades do mesmo calibre e que se levantaram, ou se tivessem idade ter-se-iam levantado, contra a África do Sul do apartheid.
Tem momentos na vida em que tomar partido não é partidarismo, é ser humano e responsável.
Vendo de um lado a diligência da ONU e dos Aliados em reconhecer o Sudão do Sul (que já obteve inclusive Forças de Paz da ONU para a proteção que Yasser Arafat pediu três décadas atrás) e outros combatentes nacionalistas, e do outro os 63 anos em que os palestinos vivem em suas terras sob ocupação e apátridas, as gerações futuras perguntarão onde estávamos, o que fizemos, e nos julgarão como julgamos os que colaboraram com injustiças passadas ou simplesmente ficaram calados.



Falando em Sudão do Sul, a independência chegou no dia 9, a festa durou, acabou e agora vem a realidade dos fatos.
O novo país está longe dos sonhos dos que lutaram nos últimos cinquenta anos para viabilizá-lo. A violência inter-tribal já começou durante as celebrações da qual o mundo participou através das imagens.
Nos bastidores visíveis, em nove das dez tribos, o vizinho virou o oponente atual (como será na Líbia?).
No início todos estavam unidos na busca da independência, mas agora chegou a hora da desunião e de cair na real, que o Norte não era responsável por todas as mazelas que viviam.
O Sudão do Sul é uma das regiões mais ricas da África (daí a presença dos EUA e muito maior da China). Porém durante o movimento independentista ninguém se preocupou com estratégica econômica nem administrativa. Agora a capital Juba está à mercê da enfermidade continental endêmica, a corrupção, e a luta pelo poder começou a fazer vítimas.
No Norte, o problema é o mesmo dos outros países da Liga Árabe. A miséria, a fome e o desemprego dos recém-diplomados. O povo está cansado de mudanças políticas infrutíferas. Omar al-Bashir já está sendo chamado de “o homem que perdeu o Sul” e está tão desesperado para conservar a presidência que dizem que está disposto até a estabelecer leis draconianas de adesão à Sharia, só para contar com o apoio das autoridades religiosas. Lá, a verdadeira campanha eleitoral está acontecendo nas mesquitas.
Sem dar uma de pessimista, sente-se no ar logo logo Norte e Sul estarão atolados em problemas maiores ainda do que os que ultrapassaram.
E o pior é que tanto no Norte quanto no Sul os políticos interesseiros sabem muito bem o que fazer para unir os cidadãos atrás de si. Um inimigo comum. E quando as coisas apertarem, é o que um e outro vai buscar o mais perto possível.
O inimigo poderá ser Abyei (uma área controvertida no meio dos dois países), o sul do Cordofão (província instável localizada no centro do Sudão), de novo o Darfur, ou qualquer outro oponente plausível.
Teme-se que cedo ou tarde os políticos politiqueiros de Cartum e Juba, interessados em si-mesmos e não no interesse público, arrumem um bode espiatório para não perderem o trono. Aí a arruaça vai recomeçar. Que a população de um e de outro aproveite a bonança precária, pois, a não ser que apareça nos dois lados um salvador da pátria com ideais incorruptíveis, pode não durar.

Para os jovens, imagens da nossa ditadura da qual foram poupados 



Lista de produtos das colônias a serem boicotados: http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements;
FLOTILHA DA LIBERDADE STAY HUMAN: http://www.freedomflotilla.eu/;
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;
Lowkey: http://youtu.be/ET6U54OYxGw;http://youtu.be/kmBnvajSfWU; http://youtu.be/GO5Cay6GUkM;
Global BDS Movement: http://www.bdsmovement.net/; http://www.bigcampaign.org/


domingo, 19 de setembro de 2010

O Nilo espremido entre rivalidades


Vale do Nilo
Inspirada por uma amiga que está mergulhando no Mar Vermelho (cujas águas são mesmo é de um azul esverdeado só às vezes avermelhadas por defuntas algas), resolvi percorrer a história de outro rio místico, o Nilo. Seu delta em forma de leque triangulado lembra a letra grega que deu origem a esta designação hidrográfica, o que é quase um poema.
Ao contrário do Danúbio que desemboca no Mar Negro carregado de detritos, o Nilo chega ao Egito pouquíssimo poluído. Mas justamente por isto, ou seja, pela industrialização e urbanismo incipientes dos países da nascente, protagoniza uma cascada de desentendimentos.
Ele é uma dádiva na aridez da África Oriental. Em 460 AC, o historiador grego Heródoto já via o Neilos como Uma fonte profunda entre duas montanhas altas. Quatro séculos mais tarde, Nero, em suas conquistas para o império romano, pôs um grupo de centuriões atrás da nascente do Nilus, mas eles não passaram do impenetrável vale Sud no Egito. Mil e oitocentos anos depois, o inglês John H. Speke achou que o lago vitória fosse o fim da linha e o seu erro só foi corrigido em 1937, quando o explorador alemão Waldekker percorreu seus 6.693 quilômetros até encontrar a fonte no rio Luvironza.
Como aprendemos na escola, o Nilo é o curso de água mais longo do planeta (distância de Londres a Nova Iorque). Irriga Burundi, Etiópia, Quênia, Congo, Ruanda, Eritréia, Tanzânia, Uganda, Sudão e Egito. Este último é o que lhe tira maior proveito e que está disposto a tudo para proteger os direitos que os ingleses lhes conquistaram. Boutros Ghali, secretário geral da ONU de 1992 a 1996, quando ministro das relações exteriores do Egito, disse em 1987 uma frase que marcou época: A próxima guerra nesta região será pelo Nilo. Eco de outra frase célebre pronunciada pelo ex-presidente Anwar Al Sadat logo após assinar um tratado de paz com Israel em 1979: Meu país só voltará à guerra pela água.
Isto porque os alicerces da alimentação e da industrialização do Egito são fincados no Nilo. Nesse continente desértico, suas margens são oásis para os milhões de habitantes que aproveitam de suas águas, e para os demais, um rio místico da antiguidade até nossos dias.
Esta relação visceral entre o Egito e o Nilo data da antiguidade, quando ele e seu delta eram idolatrados como deuses, e diz a lenda que para acalmar seus transbordamentos, os sultãos mandavam oferendas para a nascente na Etiópia. Eram reconhecidos e sábios; 86% das águas que irrigam o solo árido do país procedem da fonte etíope. É uma troca em sentido único. A fonte morre de sede enquanto no recipiente a água transborda.
O Nilo é formado por três rios: o Nilo Branco, o Nilo Azul e o Atbara. O Branco nasce no Burundi passa pelo lago Vitória e corre pelo Sudão até encontrar o Azul que vem do lago Tana na Etiópia. Mais da metade de suas águas procedem do Azul, mas os dois fluem juntos até o norte de Khartum, no Sudão, onde recolhem o Atbara também etíope.
De lá ele desce subindo no mapa até o Egito e o lago artificial Nasser (5.400 km², o segundo maior do mundo depois do Volta, 8.500 km², no Gana) e a controvertida barragem de Assuam. Depois do Cairo ele se bifurca nos rios Rosetta e Daneita. Antigamente havia inúmeros tributários, mas o fluxo lento da água, interferência humana e alta acumulação de limo extinguiram os menores e provocaram a desertificação de uma área larga demais para ser ignorada.
A ambição egípcia de apropriar-se da nascente do Nilo é histórica e envolveu muitos reinados famosos e invasões pouco gloriosas – o Sudão foi invadido várias vezes, inclusive durante o reinado da rainha de Sabá e de Nero, porque os egípcios temiam que um dia a água não chegasse mais às suas casas.
Apesar da natureza ser a responsável, era a Etiópia que levava a fama de ter poderes de controlar o Nilo à vontade. Por causa deste poder imaginário, em 1080, quando o sutão fatimida perseguiu os cooptas por causa da destruição de uma mesquita etíope, a baixa brutal do rio foi atribuída a uma represália da Etiópia e quando esta exigiu que o Egito deixasse os cristãos tranquilos e restaurasse as igrejas destruídas, foi atendida logo. Aliás, os cooptas foram poupados muito tempo no Egito, assim como o cristianismo que praticam, graças ao mito de que a Etiópia os protegia e para isto se servia da água.
Várias vezes na história os etíopes foram responsabilizados por fenômenos climáticos, mas a única verdadeira ameaça registrada e não cumprida, foi no século XVIII quando um rei teria ameaçado bloquear o rio. Ameaça vã, já que não dispunha de meios para pô-la em prática. De fato, nenhum fato concreto justificava o temor egípcio que acabou sendo transmitido aos colonizadores europeus que o invadiram.
A colonização na África não apenas traçou fronteiras arbitrárias que dividiram etnias irmãs e juntaram inimigos irreconciliáveis, como também criou um grave problema com a bacia do Nilo http://waterwiki.net/index.php/Nile. Neste caso, foi a Grã-Bretanha, que ocupava entre outros países o Sudão, o Egito, o Quênia e a Palestina.
No Egito e no Sudão, os ingleses domaram a vegetação da margem do Nilo e ele ficou navegável para grandes barcos. Enquanto isto a Etiópia, libertada da Itália e governada pelo indomável Hailé Salassiê, dona da fonte, fazia caminho a parte.
Após várias discussões entre os colonizadores italianos, franceses e ingleses, estes últimos patrocinaram em 1929 o Acordo das águas do Nilo e trinta anos depois, o Egito e o Sudão assinaram outro Tratado para uma exploração solitária. Ambos os acordos foram bilaterais e excluíam os demais países.
O tratado de 1929 registrou o volume do fluxo anual do rio (84 bilhões de m3) dos quais presenteou o Egito e o Sudão com respectivamente 48 e 4 bilhões de metros cúbicos – os 32 bilhões restantes sobraram para os oito vizinhos da nascente do rio. Países que o Egito não precisaria consultar para realizar obras hidráulicas e cujos projetos poderia vetar, caso seus interesses fossem contrários. E para completar, no período da seca, do dia 29 de janeiro a 15 de julho, o Suldão foi proibido de utilizar as águas do Nilo. No final das contas o tratado de 1929 assegurou ao Egito 60% do fluxo do Nilo.
Veio a Segunda Guerra, a Europa precisou das colônias africanas para parar os alemães na África, e no final, foi pagando bem que mal as suas dívidas. Os britânicos deram aos judeus mais de dois terços da Palestina para que criassem Israel (fazendo dos palestinos cidadãos apátridas), e perderam uma atrás da outra as colônias africanas. Começando pelo Egito em 1952 e o Sudão em 1956.
Nessa época a guerra fria entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus aliados já tinha substituído a guerra de armas. Portanto, ao decidir construir a barragem de Assuam, o rei Nasser apoiou-se em Moscou para nacionalizar o Canal de Suez e assim financiar um pouco do custo com a cobrança de pedágio.
Em 1959 o general Abbud, ditador sudanês da época, negociou com Nasser outro tratado para garantir sua parte em Assuam e os dois países aumentaram seus recursos em 32 bilhões de metros cúbicos. O Egito ficou com mais 7.5 bilhões de m3 (passando a um total de 55.5 bilhões) e o Sudão com mais 18 (passando a 22 bilhões) – os dez bilhões restantes se perdem em evaporação. E juntos determinaram que as necessidades combinadas dos outros oito países não excederiam um a dois bilhões de metros cúbicos anuais e quaisquer reclamações seriam confrontadas a uma resposta egípcio-sudanesa unida, na forma de uma comissão técnica criada para defender seus interesses e negociar com os vizinhos a criação de uma Comissão sobre a bacia do Nilo.
E o Hidromed foi criado pela UNDP (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas http://www.undp.org/) só com a participação das ex-colônias britânicas – a Etiópia impôs como condição a revogação do Tratado de 1929. Burundi, Congo e Uganda se juntaram ao Quênia, à Tanzânia, ao Sudão, ao Egito e a Uganda em 1970, e em 1974, uma inundação no lago Vitória acelerou o processo para uma decisão comum. A Etiópia acabou aceitando participar como observadora e houve várias trocas de dados com a Comissão do rio Mekong.
Em 1994 emergiu um plano de ação para um programa de cooperação legal CFA (Cooperation Framework Agreement), e o Banco Mundial e outras instituições financeiras e governos investiram na criação de um fundo para a Iniciativa da Bacia do Nilo http://www.nilebasin.org/.
Desde então, a Etiópia vem construindo barragens em todos os rios possíveis. Obras que preocupam o Egito e deixam ecologistas e ONGs sociais na defensiva. Dentro de dez anos a energia deve ultrapassar o café e ser o primeiro produto de exportação do país. Os escândalos com as barragens – de licitação inexistente a danos humanos e ecológicos graves – não param. Vira e mexe o Banco Mundial é obrigado a afastar-se de um e outro projeto por desrespeitarem o ecossistema e as normas sociais às quais deveriam ser obrigados, mas não os veta. E com os préstimos do gigante italiano Santini e dos chineses, as obras se proliferam no rio Gibe e ameaçam populações inteiras de perder seus meios de subsistência, como os quenianos que vivem às margens do lago Turkana.
E a Etiópia, apesar de ter uma topografia montanhosa inadaptada à agricultura, está com projetos dispendiosos de irrigação intensiva, sendo que se os países da região se entendessem de maneira produtiva, ninguém precisaria prejudicar o outro e nem a biodiversidade. Bastaria que o Egito, que já explora toda sua área cultivável, aceitasse a partilha equilibrada da água; o Sudão, que possui terras virgens e férteis propícias à produção de cereais e a pastos, as utilizasse para uso próprio e para exportá-la; Quênia e Uganda produzissem trigo e cana de açúcar à vontade. Ninguém passaria fome e o Nilo serviria a todos de maneira pragmática.
Mas esta solução solidária ainda está longe de ser conjeturada. Em vez disso, a Tanzânia lançou um projeto de exploração do lago Vitória http://www.bujagali-energy.com/default.htm, Uganda também está construindo barragens e com o referendum pela autodeterminação do Sudão do Sul em 2011, a bacia pode passar de dez a onze, com um novo ator com idéias individuais.
No ponto de vista de cada um separado, os argumentos parecem válidos. Mas no cada um contra o outro, todos saem lesados. O Nilo é grande mas só tem um braço que não pode ser cortado. Para conservá-lo são e salvo, a hipótese plausível seria que todos assinassem o CFA para uma cooperação global e um uso responsável e solidário das águas. Porém, a hipótese provável é os sete países dos lagos equatoriais a assinarem deixando o Egito e o Sudão de lado. Como o Egito vai reagir, só ele sabe.

Viagem pelo Nilo


Barragem na Etiópia