Mostrando postagens com marcador muro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador muro. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de julho de 2013

Israel vs Palestina: História de um conflito XXXVII (11-2003)


No domingo, dia 02 de novembro de 2003, o presidente da Autoridade Palestina Yasser Arafat (Abu Ammar) apresentou a plataforma de governo do novo Primeiro Ministro Ahmed Qurei (Abu Ala), que estava para ser substituído no Conselho Legislativo da Palestina.
E aproveitou para declarar-se pronto para retormar o diálogo com o governo de Ariel Sharon.
Na semana anterior o Primeiro Ministro de Israel dissera mais ou menos o mesmo.
Palavras vazias, pois no dia 05 a IDF voltou a investir Tulkarm e Nablus, ao norte da Cisjordânia. Atiraram na meninada que se defendia jogando pedras nos soldados. Mais de 14 meninos sofreram ferimentos graves, mas mesmo assim a IDF "jurava" que só utilizara as balas de borracha como efeito dissuasivo.
No fim da investida três palestinos jaziam sem vida.
Três dias depois a família de Mohammed el-Qayed, de 10 anos, o enterraria junto com mais seis compatriotas adultos e crianças. Todos mortos na segunda semana de Ramadão (nono mês do calendário islâmico durante o qual os muçulmanos praticam seu jejum ritual).
No dia 07, a ONG francesa Médecins du Monde denunciou em relatório público que Israel entravava o socorro aos palestinos feridos. "As barragens impedem os doentes, baleados, parturientes, crianças, idosos, recém-nascidos, ambulâncias de acederem aos hospitais e centros de tratamento."
Enfim, a denúncia repetia o que era de conhecimento público. Ou melhor, dos jornalistas que cobriam o conflito e os observadores estrangeiros que observavam, observavam, e deixavam por isso.

Ariel Sharon, de costas quentes, deu de ombros.
A ONU não disse nada sobre estes assuntos específicos, mas condenou a demolição de residências e "ordenou" que esta prática, contrária à Convenção de Genebra, "parasse imediatamente".
Deu a ordem, porém, não tomou nenhuma medida preventiva nem punitiva  contra a infração que Israel cometia. Portanto, Ariel Sharon voltou a dar de ombros e continuou sua investida de usurpação de terra dos palestinos.
Como seus ataques eram em várias frentes, no dia 10 transgrediu de outrou jeito a Convenção de Genebra. Deportou o resistente palestino Kamal Idris de Hebron para Gaza, onde os caterpillars trabalharam bastante nesse dia violando a lei de não demolição de moradia. Demoliram mais de vinte. Passando em cima das casas de família como os lavradores passam em suas lavouras o arado.
Nessa onda, soldados da IDF mataram um senhor de 62 anos, um menino de 12, feriram gravemente um adolescente e prenderam mais um monte de gente. Dentre elas, importantes autoridades religiosas.

No dia seguinte a ONU retomou a palavra. Desta vez não foi para recriminar nada e sim para divulgar um relatório de seu Departamento Humanitário.
Este precisava que a cerca/muro que Israel estava construindo na Cisjordânia estava tirando 14,5% a mais do território palestino e afetando cerca de 680 mil habitantes. "Este muro vai isolar progressivamente 274 mil palestinos que vivem em 122 cidades e cidadezinhas.
Outros 400 mil palestinos que moram a leste da cerca de cimento armado terão de atravessá-la diariamente para ir à escola, ao trabalho e para aceder a suas roças.
Apenas 11% do traçado total de 680 km do muro respeitará a fronteira de 1967. Em alguns trechos ele invadirá até 22 km do território palestino."
O relatório foi lido, lavrado em ata, e foi para o arquivo.
Nada foi feito concretamente para bloquear o roubo de terra e as barragens que impediam/dem os palestinos de irem à escola e ao trabalho.

No dia seguinte, dia 11, foi a vez do suiço Jean Ziegler, investigador da ONU do Direito de alimentação, divulgar em Nova York suas descobertas.
Ziegler demonstrou com dados e fatos que Israel exercia uma estratégia política semelhante à do apartheid aplicado na África do Sul -  então internacionalmente condenado e combatido com boicotes de toda ordem.
"61 por cento dos palestinos são mantidos em sub-alimentação crônica e 85 por cento são totalmente dependentes de ajuda alimentar externa," mostrou Ziegler. "A situação nos territórios ocupados é semelhante à de alguns países da África como o Tchad. A necessidade de segurança que Israel exprime é compreensível. Mas a segurança não deve ser invocada para toda medida que o país toma. Israel tem de garantir o direito à alimentação nos territórios que ocupa."
Aí o governo de Ariel Sharon bombardeou Jean Ziegler de insultos mais ou menos fortes.
Quanto à ONU, deixou por isso.

No mesmo dia que Ziegler apresentava seu relatório em Nova York, em Ramallah, os deputados palestinos aprovaram por 48 votos a favor, 13 contra e 5 abstenções os novos ministros e secretários do governo de Ahmed Qurei (Abu Ala).
Aisha, viúva de Ismail Abu Shanab, que o Shin Bet  assassinara poucas semanas atrás, fazia parte do Ministério.
Abu Ala aproveitou a visibilidade midiática para dirigir-se publicamente a Ariel Sharon. "Estendo-lhe a mão com sinceridade a fim de chegarmos a um cessar-fogo e poupar civis de ambos os lados. E respeitar os palestinos e seu presidente."
Dirigiu-se também a seus compatriotas resistentes, "acabem com os atos de violência e com o caos que reina em nossos territórios."
A resposta de Sylvan Shalom, ministro das Relações Exteriores de Israel, foi que só reconheceria o governo de Ahmed Qurei como "parceiro real se ele agir contra os grupos armados." Não garantiu nenhuma folga na campanha israelense de assassinatos e nem uma possível trégua da IDF.
A única ação concreta foi um tapa na cara das Nações Unidas com o anúncio da construção de uma nova extensão do muro além da Linha Verde.
Uma manifestação na Cisjordânia seguiu o anúncio e a IDF a reprimiu com cassetada e bala.
As centenas de pessoas que manifestavam era uma miscelânia de pacifistas palestinos, israelenses e estrangeiros.

No dia em que celebramos a Proclamação da República, o jornal israelense Yedot Ahronot publicou uma entrevista explosiva com quatro ex-diretores do Shin Bet (Serviço de Inteligência interna de Israel).
Nela, Avraham Shalom (1981-86), Yaakov Peri (1988-94), Carmi Gilon (1995-96), Ami Ayalon (1996-2000) criticaram acerbamente a política de Ariel Sharon nos Territórios palestinos ocupados.
"A ocupação destrói o moral da nação e mina a economia do país. O prosseguimento da ocupação fecha todas as perspectivas de futuro para a populaço jovem," disseram em uníssono.
Para eles, "os colonos têm de preparar-se para o inevitável, o fim da ocupação e o desmantelamento das implantações".
Preconizaram então "começar o desmantelamento das colônias na Faixa de Gaza, onde residem 7.000 colonos em um território super-populado por 1.2 milhões de palestinos. Se Israel não chegar a um acordo com os palestinos, a retirada tem de ser unilateral."
No mesmo dia em que os israelenses mais bem informados sobre a situação real botavam a boca no trombone, a Corte Suprema de Tel Aviv, por unanimidade, condenou a censura da Comissão Israelense de Cinema do filme JENIN JENIN, de Mohamad Bacri, que narrava o bombardeio da cidade palestina em 2002.
O mesmo filme fora desprogramado na França no dia 1° de abril. Sucumbindo às pressões do lobby judeu, a TV franco-alemã ARTE o tirara do programa na última hora.
Foi passado no Brasil?

No domingo, dia 16, um grupo de parlamentares, o ex-ministro Yossi Beilin e dois deputados do Partido Trabalhista, Amram Mitzna e Avraham Burg, entregaram a Ariel Sharon uma cópia da Iniciativa de Genebra, plano de paz não oficial pronto para ser assinado no dia 1° de dezembro em Calvin, na Suiça.
Foram impressas e distribuídas pelo correio 1.9 milhões de cópias em hebraico, 200 mil em árabe e 100 mil em russo (para os "colonos importados", analfabetos em hebraico).
Na segunda, o Quarteto para o Oriente Médio pressionou Israel para desmantelar as colônias que obstaculavam a implementação do Road Map, e Abu Ala pediu para os grupos palestinos de resistência calarem as armas e darem um tempo para o poeira baixar.
Porém, dois de seus compatriotas haviam sido mortos na véspera em Rafah, na Faixa de Gaza, e os choros nos enterros abafaram suas palavras.

Na quarta-feira, dia 18 de novembro, o Ministro da Energia de Israel Joseph Paritzky concluiu um acordo com o Ministério de Energia palestino em relação ao aprovisionamento de eletricidade.
Desde 1967 que Israel tomou posse dos centros de abastecimento da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Tanto de água quanto de eletricidade.
Desde então, além de controlar ambas como bem lhe apraz, cortando e/ou regrando à vontade, cobra/va um preço exorbitante às empresas, às famílias e aos órgãos administrativos palestinos.
Já os "colonos" judeus instalados nas invasões sempre beneficiaram de tarifas "preferenciais" bem abaixo da que os palestinos pagam. E para eles, nem a água nem a eletricidade são regradas.
Uma das reclamações dos palestinos é/era que a IDF bombardeava sistematicamente as redes de eletricidade e os centros de abastecimento em energia e água. Onerando ainda mais a Autoridade Palestina e deteriorando ainda mais a qualidade de vida dos palestinos.

No dia 18, a FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina baseada na Síria) matou dois soldados da IDF em uma embuscada perto de Belém.
A IDF descontou no mesmo dia nos civis em Rafah.
Bombardearam o sul da Faixa de Gaza "para destruir túneis de contrabando", dinamitaram oito residências, e deixaram para trás seis feridos graves.
No dia 20 o Ministro das Relações Exteriores de Israel rejeitou publicamente o apelo do Quarteto para que maneirasse.
Foi pena, pois o Hamas e o Jihad Islâmico da Faixa de Gaza concordaram em participar de negociações de paz marcadas para o mês de dezembro no Cairo.
No mesmo dia, em visita a Roma, Ariel Sharon mostrou que estava se lixando até para o Vaticano. Fez uma desfeita ao Papa fazendo ouvidos moucos à vontade que João Paulo II manifestou de encontrá-lo, embora tivesse espaço de sobra em sua agenda.
Isto porque João Paulo II, no sermão da missa do Angelus no domingo, declarara que "A construção de um muro de separação entre o povo israelense e o povo palestino é visto por muitos como novo obstáculo ao caminho de uma convivência pacífica. Na verdade, a Terra Santa não precisa de muros e sim de pontes."
Mas contruir pontes não era o forte do Primeiro Ministro de Israel. Ariel Sharon não dialogava com quem discordava de seus meios e de seus atos.
Enquanto isso a ONU continuava sua maratona de resoluções infrutíferas. O Conselho de Segurança aprovou por unanimidade a proposta da França, Chile e Rússia de apoiar o Road Map, cujo objetivo era "resolver o conflito de uma vez por todas até 2005" por etapas bem determinadas.
Desta vez foi Ehud Olmert, então vice-Primeiro Ministro que fez pouco caso das Nações Unidas declarando: "Pode ser que retomemos as negociações com este novo governo palestino sobre o Road Map, mas não por causa da resolução do Conselho de Segurança, pois Israel não se sente comprometido com esta resolução."
Irrelevava esta e todas as decisões tomadas pelas Nações Unidas desde a auto-proclamação de seu Estado nas fronteiras que traçara, em vez das fronteiras legais traçadas pela ONU.
Nesse dia 21 de novembro, saiu a proibição antecipada para o dia do fim do Ramadão, que os muçulmanos concluem com uma oração na mesquita. Somente os homens de mais de 45 anos e as mulheres de mais de 35 foram autorizados a cumprir este ritual no dia 25.

No dia 22, milhares de manifestantes saíram às ruas do campo de refugiados de Jabalyia, na Faixa de Gaza, para protestar contra a renúncia palestina ao direito de retorno dos refugiados, um dos capítulos da Iniciativa de Genebra.
Três dias depois o Hamas rejeitaria oficialmente a Iniciativa de Genebra pelas mesmas razões.
No dia 27 três civis palestinos, inclusive uma mãe de família, foram assassinados na Faixa de Gaza perto de uma invasão judia.
Por coincidência, chegou de Washington uma das poucas notícias que podiam abalar Ariel Sharon.
Os Estados Unidos ameaçavam diminuir 10% do patrocínio do combate à Intifada - correspondentes a US$ 290 milhões - caso Ariel Sharon não concordasse com suas exigências de frear a colonização e o muro nos territórios palestinos ocupados.
Vale lembrar que em 2003, George W. Bush dera US$1 bilhão a mais aos israelenses para o combate à Intifada.
(Os EUA ajudam Israel anualmente com US$3 bilhões. Dentre os quais, US$2.1 bilhões em armamento. Contando as doações privadas, Israel recebe dos EUA uma média de US$10 bilhões anuais.)

No dia 28 a IDF admitiu o "erro" da morte dos três civis citados acima, mas justificou o engano com o argumento da necessidade de proteger os colonos.
Quanto a Ariel Sharon, na entrevista coletiva anual dedicada à imprensa israelense, repetiu que não pararia a construção do muro de separação de jeito nenhum.
"Nós estamos acelerando a construção e não pararemos porque é vital para a segurança do Estado."
Ele falou grosso em Tel Aviv. Em Nova York seu embaixador na ONU, após receber críticas abundantes, retirou um projeto de resolução apresentado no dia 29 de outubro à Comissão Social, Cultural e Humanitária em que pedia a "proteção das crianças israelenses vítimas da violência dos palestinos."
Tal projeto fora apresentado em oposição a uma resolução - aprovada na semana precedente - que criticava as consequências nefastas das operações militares israelenses para as crianças palestinas.
O observador palestino na ONU dissera então que a resolução que os israelenses tentavam esvaziar fora aprovada não apenas por causa das 500 crianças palestinas mortas e as milhares feridas durante a Intifada, "e sim porque são todas as crianças palestinas que são privadas de todos os direitos enumerados na Convenção da Infância."
Aliás, nesse ínterim, em mais um "erro" da IDF, seis palestinos estavam sendo enterrados. Inclusive um adolescente de 15 anos e um menino de nove.

Os conflitos do mês de novembro terminaram no dia 29 com a declaração de Ariel Sharon que desmantelaria as invasões-assentamentos judeus na Faixa de Gaza por impossibilidade de garantir a segurança dos colonos.
Anunciou também que abriria outras na Cisjordânia.
Esta parte do final do discurso foi divulgada como aquelas letrinhas de contrato de vendedor ou empresário mala.
A primeira parte do desmantelamento saiu em letras garrafais na imprensa como se fosse um presente de Sharon, e não parte da estratégia para um posterior bombardeamento.
A segunda parte da expansão na Cisjordânia perdeu-se em algum lugar entre a declaração, os repórteres e as matérias publicadas nos jornais. No mundo inteiro, conta-se nos dedos de uma mão quem "pensou" em divulgá-la.


Reservista da IDF, forças israelenses de ocupação,
Shovrim Shtika - Breaking the Silence 
Only now, when I talk to guys who were my soldiers as a deputy company commander, do I realize what really went on then. That people were taking stuff and we didn't know about it at all. It depends on the severity of cases. Whatever was known was severely punished. Really. What do I mean by punished? We did everything that should be done. The battalion commander referred them to Military Police Investigations, and they investigated and inquired.
Were their punishments severe or light?
I can't judge that. Let whoever judged decide. I think that punishments given soldier who did that were not severe enough.... A person took money out of a Palestinian's ID. The Palestinian had some money he'd earned. He has no wallet, sticks everything inside his ID. So the dumb soldiers…
The soldier took the ID?
For inspection, and inside there was money, so he took the money. You get it? He's not stupid, that Palestinian. He complained, he discovered it was missing and it was looked into. So this whole subject came up. We need to take their money? I don't even know how much was in there. I think it was 150-200 shekels. The soldiers got a 30-day jail sentence. Something like that. I don't even know if actually in jail or just a suspended sentence.
What else was looted?
Stuff from people's homes, photo-maps of Palestine, knives.
Guys took them as souvenirs? For their own use? Both?
Souvenirs. No one would do anything about those. People took blankets. What would you do with a woolen blanket from a Palestinian home, which sorry to say is all stinking and disgusting on top of everything else, but what do you need it for? They took those.
Money? Electrical appliances?
I don't think they had so many expensive complex gadgets, but I think there were all sorts of souvenirs taken.
Were there company lootings? Gear for the company, or stuff that the whole company would pick up?
Not in my own company. Perhaps in others. I don't know this personally so I can't tell you, but I think there were. People took all sorts of things - everyone knew about it – for their companies. Depoimento de um tenente da IDF
Reservista da IDF, forças israelenses de ocupação,
Shovrim Shtika - Breaking the Silence 


Documentário do Break the Silence Mural Project - 2005
Confronting the Wall - Part I




domingo, 26 de junho de 2011

Tem moral em toda história?

Como recebi reclamações por não ter feito nenhuma atualização sobre a Palestina na semana passada, hoje faço meu mea culpa tentando cobrir o atraso com algumas notícias rápidas.

Steve Jobs, o ícone da Apple, era, até há alguns dias, a imagem do sucesso sem mancha no currículo, o protótipo do empreendedor sem “rabo” e com certa moral. Até a semana atrasada. Até atender ao “pedido” de Israel de suprimir do iPhone uma aplicação (app ThirdIntifada) Palestina que anunciava as próximas passeatas de protesto contra a ocupação, acesso a artigos e editoriais e links a material informativo sobre o que está acontecendo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. O ministro israelense Yuli Edelstein argumentou que a app iPhone era “anti-Israel e anti-sionista” e que “poderia unir muitos em um objetivo que poderia ser desastroso”. Não precisou nem dizer para quem talvez fosse desastroso. A app ThirdIntifada foi banida em seguida.
Moral da estória, a Primavera Árabe é bem-vinda na web, contanto que não inclua a libertação da Palestina.

Facebook não fica atrás. Ou melhor, foi o primeiro a banir os palestinos do espaço cibernético se deixando convencer (com muita facilidade) a suprimir a página ThirdIntifada. Página que já tinha atraído 350 mil fãs em poucas horas, dentro e fora da Palestina. Neste caso, os executivos recusaram em toda a escada hierárquica e Israel teve de ir direto ao fundador para obter a decisão antidemocrática. Mark Zuckerberg deu a ordem de supressão sem saber bem do que se tratava.
Esta Moral da estória fica por conta de quem assistiu a The Social Network de David Fincher. Eu não conheço este indivíduo e não sei se a esperteza é o único atributo do qual é dotado.

É pena, pois os jovens palestinos realmente acreditam, ou acreditavam, que o fim dos 44 anos de ocupação israelense pudesse acabar com um movimento de protesto não-violento e democrático. Estavam apostando em um remake da primeira Intifada, de 1987, caracterizada por uma desobediência civil e passeatas massivas, reprimidas a gás e bala. A geração internacional de hoje só conhece a reputação violenta da segunda Intifada provocada por Ariel Sharon em 2000. O recurso marginal aos bomba-suicidas prejudicou bastante a imagem global dos palestinos, embora estes atentados só tenham durado dois anos, 2003 e 2004, e tenham ocorrido em retaliação aos assassinatos, menos divulgados, de membros do Hamas, inclusive dos dois filhos do líder do partido. Este ordenou o fim dos atentados em dezembro de 2004. Desde então, a única ação armada contra Israel tem sido foguetes artesanais esporádicos lançados de Gaza por um grupo inconformado.
Desde então, além da violência psicológica e física quotidiana, Israel bombardeou o Líbano e Gaza causando centenas de vítimas irrelevantes, na ótica da ideologia predominante.
Moral da estória, o conceito de violência é relativo. Depende do poder de controle da mídia de quem a aplica.

No dia 24 foi o aniversário de 5 anos de cativeiro do soldado israelense Gilad Shalit. Então várias ONGs de Direitos Humanos israelenses, palestinas e internacionais solicitaram, com pertinência, a libertação e bons-tratos do prisioneiro de guerra alegando que “seres humanos não são fichas de câmbio”. No dia seguinte, a Casa Branca apelou para que o Hamas soltasse “imediatamente” o prisioneiro, sem condições.
Zyiad al-Shaloudi, 15 anos, espancado
por tentar proteger sua cunhada dos soldados
Desde a captura em 2006 que o Hamas vem negociando a troca do soldado por umas dezenas das centenas de prisioneiros políticos palestinos que Israel detém atrás das grades. Inclusive 64 parlamentares. E até abril deste ano, só em “prisão administrativa”, termo usado para os detentos sem julgamento e sem acusação formal, havia 216 adultos, 180 menores de 18 anos e 37 menores de 16.
Moral da estória, dependendo da nacionalidade, a vida de um soldado capturado em serviço vale mais do que as de centenas de civis sequestrados.

Nesta semana, na iminência da chegada da Flotilha humanitária nas águas internacionais que avizinham Gaza, Israel “autorizou” a UNRWA (Agência da ONU para refugiados) a reconstruir dezoito escolas e mil e duzentas residências que alojariam algumas das centenas de famílias gazauís cujas casas foram bombardeadas em 2008/09. Por incrível que pareça, este anúncio não virou anedota na mídia e nem causou indignação na maior instância administrativa internacional. Esta saudou a “autorização” como se fosse uma dádiva e a informação foi veiculada nos jornais com naturalidade, como se Israel tivesse autoridade para negar ou autorizar acesso a um território estrangeiro que transformou em gueto nos anos de sítio inexpugnável.
A lista, longa e detalhada, dos produtos que podem passar pelo No man’s land que separa Israel da Faixa é religiosamente respeitada até pelos funcionários da ONU. Esta inclui material hospitalar e de construção. Gêneros perigosos como papel higiênico já podem ser encontrados nas prateleiras de alguns mercados.
Moral da estória, às vezes (muitas) a imprensa falha; e a ONU, tem moral?

Temendo não conseguir que seu lobby impeça o reconhecimento do Estado da Palestina em setembro pelas Nações Unidas (EUA à parte), e sob pressão dos habitantes da cidade de Bil’in e das ONGs humanitárias israelenses e internacionais que resistem à construção de um novo muro de apartheid, o governo israelense declarou a suspensão de um pedacinho que cerca uma cidade continuando a construção em outras paragens menos midiatizadas.
Vale lembrar que no dia 9 de julho de 2009, a Corte Internacional de Justiça declarou a ilegalidade de toda a extensão da barreira israelense e ordenou seu desmantelamento conforme a Assembléia Geral da ONU.
Vale lembrar também que a barreira, ou muro, ou cerca cimentada, além de encurralar os autótones, já engole 413 dos seis mil km² de terras que compõem a Cisjordânia.
Moral da estória, esta estória não tem nenhuma moral.

Resolução 181 da ONU
O governo de Israel argumenta que os palestinos não podem reivindicar um Estado porque esta reivindicação é unilateral e os EUA concordam.
Dizem também que os palestinos estão recorrendo a golpe baixo indo à ONU solicitar o reconhecimento de um estado sem consultá-los.
Enquanto isto, na Tel Aviv que pensa, reage e resiste ao pragmatismo irresponsável de seus dirigentes expansionistas, questiona-se por outro lado:
Mas o Estado de Israel não foi proclamado por David Ben-Gurion e seus colegas unilateralmente no dia 14 de maio de 1948?
Mas o Estado de Israel não foi proclamado em uma resolução adotada pela Assembléia Geral da ONU sem consultar quem já lá morava?
A resolução em questão é a 181 do dia 29 de novembro de 1947 que dividia a Palestina em dois estados.
Um foi formalizado e o outro foi deixado de lado.
A resolução 181 que serviu à declaração de Ben-Gurion no ano seguinte é a mesma na qual os palestinos se apóiam para oficializar seu Estado.
Trocando em miúdos, como diz o jornalista Uri Avnery, os palestinos têm de ser condenados pelo esforço impertinente de recorrer à ação “unilateral”.
É o que diz Binyamin Netanyahu. É o que diz Barack Obama. É o que diz Hillay Clinton. É o que diz Angela Merkel (por razões diversas).
Moral da estória, qualquer que seja a frase, encarreada, vira mantra. Que como se sabe, em sânscrito significa “arma ou utensílio do espírito” que deveria ser usado para o bem-estar físico e espiritual. O mantra é baseado no poder do som. Pela sua vibração e ressonância ele teria a capacidade de transformar o ambiente e quem o recita. O mantra é repetido a fim de produzir um efeito determinado.
Neste mantra acima, de “punamos os palestinos pela impertinência de recorrer à ONU para legalizar seu Estado”, o efeito desejado é influenciar a opinião pública internacional para quando os EUA vetarem a decisão dos demais Estados, poderem dizer: Tomou papudo! sem chocar demais.


Acabei de ser informada do "aviso" do governo de Israel que os jornalistas a bordo da Flotilha humanitária que está se dirigindo a Gaza terão todo material confiscado e serão banidos pessoal e profissionalmente do país por 10 anos.
Gato escaldado que cobre o Oriente Médio sabe do perigo que corre de não poder trabalhar e fica de fora, consternado.
Em solidariedade aos que estão nos navios, tanto os ativistas quanto os que vão fazer o trabalho vetado aos especialistas - que paradoxalmente são obrigados a entrar pelo aeroporto Ben-Gurion e esperar na praia - aí vão algumas palavras para lembrar do que se trata.
No ano passado nove ativistas turcos foram assassinados e as dez toneladas de mantimentos que os navios carregavam foram confiscadas, além dos pertences dos passageiros dos barcos.
Este ano a Freedom Flotilla - Stay Human está a caminho para a Faixa com nove navios de passageiros e dois cargueiros que levam ainda mais mantimentos e cerca de mil ativistas de vinte países.
Alguns membros das ONGs humanitárias levam
câmeras cujas imagens irão ao ar na chegada, se a
Internet não for bloqueada.

Bons ventos tragam todos a porto seguro,
sãos e salvos.

O jornalista italiano Vittorio Arrigoni (à direita),
na flotilha do ano passado.
A deste ano foi batizada Stay Human
em sua homenagem





Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;
;

domingo, 22 de maio de 2011

Obama teria coragem de promover a paz no Oriente Médio?


Palestina dos palestinos em verde: Mapa 1- até 1946; 2- Divisão da ONU em 1947; 3-Divisão Naqba em 1948; 4-Território ao qual muros e checkpoints progressivamente os confinaram.
O mapa 3 indica a Linha Verde, fonteira internacional, dita de 1967 
O único caminho para a paz é o de um compromisso histórico no qual Israel devolva os territórios ocupados em 1967 e que em contrapartida os palestinos renunciem aos territórios perdidos em 1948.
Foi Adam Keller, porta-voz da ONG Gush Shalom que pronunciou estas palavras, acrescentando que Quem não quiser pagar o preço necessário, não conseguirá chegar a um acordo essencial para o futuro de Israel. Netanyahu e seu governo estão tentando cortar vários pedaços dos territórios ocupados construindo colônias de maneira acelerada, não permitindo o gelo nem de três horas; instigando a ocupação do Vale do Jordão que representa um terço da Cisjordânia;... Assim o governo de Israel bloqueia todas as estradas para a paz, para o compromisso, e com os próprios atos aumenta seu isolamento no mundo e constrói uma pressão internacional em relação a setembro.
Re-União do Fatah (Abbas) e do Hamas (Meshaal)
Setembro é a data marcada para as eleições parlamentares que definirão as novas lideranças políticas palestinas e também para a reunião prevista na ONU na qual reconher-ce-á, ou não, o Estado da Palestina – quando a ONU criou o Estado de Israel esqueceu-se de legalizar a situação dos autóctones, os deixando sem direitos nacionais e apátridas.
Keller falou antes do esperado discurso de Barack Obama desta semana, no qual o presidente dos Estados Unidos demonstrou menos firmeza do que o (pós-eleição) feito no Cairo. Deu o sermão de sempre aos ditadores árabes hostis e reafirmou, diretamente ou nas entrelinhas, seu apoio aos ditadores aliados apelando até para a ignorância – o que, neste caso, é que protege o “presidente” do Bahein (que usa de meios violentíssimos contra os manifestantes democratas) por causa do perigo de infiltração iraniana no movimento pro-democracia. O que é uma acusação leviana, para não dizer errada, e não um fato.
O fato é que os ditadores do Bahein e da Arábia Saudita (o do Yêmen alega ameaça do Al-Qaida) sabem que seu poder econômico lhes dá carta bege que usam como carta branca para agir como se fossem intocáveis. O outro fato é que a Primavera Revolucionária nos países árabes pegou os EUA de surpresa e tirando a Líbia, que a OTAN concordou em atacar porque o ódio contra Kadhafi e o interesse no petróleo é mútuo, Washington (e nenhuma outra capital) não teve e não tem nenhuma influência sobre estas revoltas nacionais (embora haja rumores de que a Blackwater - empresa provedora de mercenários aos EUA que está sendo processada no Iraque por massacres - esteja recrutando colombianos e africanos para treiná-los; para quê e para onde, ainda não se sabe).      
Onde os EUA intervieram, ou seja, na Líbia, a situação mostra que os líbios vão ser mesmo derrotados. Não apenas Kadhafi. Este está de joelhos, é verdade, mas os “rebeldes” estão prostrados. Todos estão exauridos nesta guerra civil em que, como previsto, os vitoriosos ocidentais é que vão dar as cartas. Pelo menos até a resistência à ocupação estrangeira começar e com ela os atentados. Aí a Líbia vai virar mais um Iraque. Mais um Afeganistão. Mais uma fonte de renda para a indústria de armas e de mercenários. Mais um país instável propício ao Al-Qaida, e em uma zona em que este já está bastante implantado. É aquela política míope do curto prazo. A mesma que pôs os cidadãos do Paquistão à mercê de uma cadeia de atentados, dos taliban e simpatizantes recém-engajados, desencadeada pela execução sumária de Ben Laden.

Colônia israelense na Cisjordânia
Mas voltando ao discurso de Obama, no tocante à Terra Santa amaldiçoada, precaveu-se contra a ira reacionária criticando os palestinos por terem se retirado de uma discussão que ele sabia ser um monólogo de imposições unilaterais, mencionando a multiplicação das colônias israelenses na Cisjordânia sem condenar sua ilegalidade (coerente com seu voto recente no Conselho de Segurança da ONU). Porém, acabou pronunciando a frase que não podia mais deixar de lado; a frase que desde que assumiu o governo vem ouvindo de todos os que realmente entendem algo do Oriente Médio e do caminho que leva à paz. Não foi categórico como Adam Keller, mas reconheceu, para o mundo inteiro, que o respeito de Israel às fronteiras anteriores a 1967 é uma condição sine qua non para a paz. Uma guinada de 360 graus à qual foi quase obrigado pela lógica intelectual e pela moral. Um rompante passageiro, acho.
O aniversário da Naqba na semana passada mobilizou um número recorde de palestinos tanto na Cirjordânia e Gaza quanto dos que vivem em países vizinhos em campos de refugiado. A simpatia da opinião pública internacional à sua causa é inegável. A repressão israelense foi desmesurada e internacionalmente condenada.  

Uma terceira Intifada não parece iminente, mas em um futuro próximo ou remoto, não é descartável.
Se acontecer, será um banho de sangue maior do que o do Líbano (2006) e de Gaza (...2008-09-10...a semana passada) e esta pode ser a gota d'água para o despertar de uma solidariedade concreta dos países árabes recém-libertados.
 Os jovens palestinos também chegaram ao ponto do Basta (prova disto, a união nacional que forçaram), e os vizinhos egípcios que enxotaram Mubarak já deixaram claro que não aceitarão nenhuma cumplicidade na ocupação da Palestina e afirmaram qual é o seu lado.   
Encostado na parede, a voz e a postura de Obama indicaram a recalcitrância em liderar um mundo que não entende tanto quanto desejava, sobretudo sem a força de vontade (ou ideológica) que demonstrava para descompromissar-se dos contratos, dos pesos e dos afilhados inconvenientes que seus antecessores carregavam. As garras da AIPAC e dos demais lobbies sionistas nos EUA e particularmente em Washington, são potentes e tenazes. Duvido que Obama tenha coragem de libertar-se. Afinal de contas, é um político a mais e não um homem de caráter inabalável. A prova disso é manter sua Secretary of State Hillary Clinton, que bóia em uma lama mais pesada do que as águas do Mar Morto, e o impede de re-alinhar-se aos europeus neste caso espinhoso.
Obama está indo à Europa buscar apoio, primeiro em Londres com James Cameron, que, diga-se de passagem, precisa se redimir pelos erros do passado. Tony Blair é caso perdido, um sanguessuga sem escrúpulos que só pensa em lucrar. Apesar dos dois, a sociedade civil inglesa é uma das mais ativas no boicote econômico, intelectual e cultural a Israel e o Primeiro  
Um dos produtos boicotados
Ministro, mais cedo ou mais tarde, terá de acatar o que seus concidadãos proclamam por todos os lados (na televisão-documentários claros e vários seriados que enfocam a questão Palestina), inclusive, ou mais ainda, nas universidades - a União dos estudantes da Universidade de Londres (a maior organização estudantil da Europa) votou a favor do boicote de pessoa, empresa ou instituição que contribua direta e indiretamente na ocupação da Palestina.
Obama também tem de estar em fase com seus eleitores e ele não foi eleito pelos membros da APAIC (lobby sionista radical cortejado por Sarah Palin), mas por judeus liberais formadores de opinião, como o comediante Jon Stewart (Daily Show), o professor Noan Chomsky e tantos intelectuais e artistas estadunidenses contrários à política colonio-expansionista atual.
O contra-ataque do primeiro ministro Binyamin Netanyaun foi imediato, mas sucinto demais para convencer que tem a última palavra. O Conselho de Segurança da ONU só depende de um voto que sempre faltava para impor o Direito nos Territórios Ocupados: o dos EUA. Com este voto, as Nações Unidas estarão em fase na criação dos dois Estados respeitando a fronteira de 1967.
Contudo, não vejo Barack Obama com peito para dar o passo justo para a frente em vez de recuar como os outros presidentes estadunidenses. Só se Netanyahu humilhá-lo, humilhá-lo e humilhá-lo publicamente até ele não poder mais. Os EUA têm um orgulho desmesurado. É por isso que fazem tanta bobagem. Mas neste caso, não seria para causar dano e sim para fazer uma boa ação inquestionável.

checkpoint na Cisjordânia
Fala-se muito na pressão interna que Netanyahu sofre dos ortodoxos e dos sionistas radicais, mas fala-se pouco da pressão das forças democráticas internas, das ONGs de Direitos Humanos que proliferam, dos jovens que dizem Basta, como a própria filha do ex-chefe do Mossad. Exemplares do livro Breaking the Silence lançado no ano passado pelos reservistas que criaram a ONG homônima, têm passado de mão em mão nas escolas e os estrangeiros que o lêem ficam chocados com o relato das violências físicas, psicológicas e morais que os oficiais impõem aos palestinos através dos soldados. Resta esperar que a era obscurantista israelense que se eterniza com a influência crescente do fascista Avigdor Lieberman se reverta para uma tomada de consciência. Não precisa ser nem justa e humanista. Só pragmática.

O livro do Breaking the Silence tem 344 páginas com uma seleção de 183 depoimentos sobre a ocupação diurna e noturna da Cisjordânia. Depoimentos que embora não denunciem os atos mais escabrosos dos ocupantes militares e civis israelenses contra os palestinos ocupados, já dão uma ideia do clima de maudade e impunidade de Israel. Todos os relatos são indiscutíveis. Nenhuma das histórias escabrosas foi negada pelo exército, que nem podia, já que tanto os editores quanto os demais adultos que o serviram sabem discernir a verdade.

Como por exemplo, as incursões militares noturnas nas cidadezinhas tranquilas em que os soldados invadem casas aterrorizando famílias que acordam apavoradas com a investida; as humilhações nos checkpoints entre as cidades, em que os pais de família são maltratados diante dos filhos; as horas de espera injustificada; os entraves diários à ida dos meninos à escola, dos adultos ao trabalho, das visitas familiares.

Fronteira do Egito com Rafah, em Gaza
O Egito de Mubarak ia construir um muro de ferro na fronteira com Gaza. O Novo Egito já anunciou que enterrou estas obras e que vai abrir a fronteira com Rafah. (Mas quanto tempo os EUA deixarão no Egito um governo pró-palestino?)
Por outro lado, a Flotilha da Liberdade já está em marcha com um número crescente de navios hasteando bandeiras de muito mais países do que no ano passado. Em junho alcançarão Gaza - se os países vizinhos deixarem os navios passarem.
Obama já descobriu que matar é fácil. E já matou bastante gente desde que foi premiado com o Nobel precipitado. Mas para ocupar um lugar de destaque na História universal vai precisar de muito mais do que a cor da pele e a execução midiática de Bin Laden. Vai precisar fazer juz ao Nobel que virou jacota e que segundo as más línguas o constrange e pesa  na sua consciência pesada. Deve suspeitar que não é com promessas nem discurso e sim com medidas concretas, justas, que deixará uma marca válida.
Resta saber até que ponto a Paz a que o Prêmio Nobel o engaja lhe dará a coragem que precisa e que lhe falta. Eu acho que se fizer algo positivo, será em fim de um segundo mandato e olha lá.  

Muro/barreira israelense em Belém, na Cisjordânia

No Way through : E se a minha cidade fosse cortada por checkpoints? 

Manifestação semanal contra o Muro em Bil’in, na Cisjordânia: http://youtu.be/8_adfyJvcOw, http://youtu.be/NIdBsChSNRE;
Campanha Breaking the silence no Facebook: http://www.facebook.com/BreakingTheSilenceIsrael;
LIVRO on line: http://www.scribd.com/doc/45787174/Breaking-the-Silence-Full-Book-ENG-Dec22-10-Occupation-of-the-Territories-Israeli-Soldier-Testimonies-2000-2010;
Desapropriação em Jerusalém:http://youtu.be/LcjchhD3qBc;
Free Gaza Movement:http://www.freegaza.org/
Global BDS Movement:http://www.bdsmovement.net/;


Reservista da IDF (Exército Israelense) Breaking the Silence

Passeata anti-lobby israelense AIPAC em Washington

domingo, 21 de novembro de 2010

A arma da sede na ocupação da Palestina


Desde que comecei este blog não param de perguntar qual é o papel da água no conflito entre Israel e os Territórios palestinos Ocupados. A resposta é simples: a água tem tanta importância quanto a terra.
Já antes da criação de Israel, os sionistas (1) reivindicavam um Estado baseado em critérios religiosos e hídricos: o vale do Litani (no Líbano), o vale do Yarmuk (Jordânia, Síria, Palestina) e toda a margem direita do Jordão.
Em 1947 a ONU entregou ao Estado judeu dois terços da Palestina e recursos hídricos consideráveis, mas aquém do cobiçado. Inconformado, Israel, um ano mais tarde, começou a confiscar e estatizar terras e recursos naturais “liberados” pelos massacres (denunciados até por Einstein) que forçaram os palestinos à diáspora e às centenas de milhares de refugiados. Em seguida atacou o sul do Líbano e no final das disputas acabou ficando com a Galiléia e o Néguev, um deserto que viria a irrigar através de um aqueduto que leva a água de uma à outra área anexada.
Com o passar dos anos as tensões foram aumentando e culminaram na Guerra dos Seis Dias, resultante do bombardeio de instalações hidráulicas sírias no lago Hulé, de cujas águas Israel temia ser destituído. No sétimo dia o exército israelense tirou o Golan da Síria e realizou dois dos sonhos hídricos sionistas: apossou-se da maioria do vale do Yarmuk e de toda a margem direita do Jordão, privando a Cisjordânia da água que lhe cabia.
Assim, a partir de 1967 e da ocupação dos Territórios palestinos, a política de espoliação se estendeu à Cisjordânia e à faixa de Gaza. Em 1993, na assinatura dos acordos de Oslo, 82% das camadas freáticas da Cisjordânia foram parar nas mãos de Israel enquanto o mundo inteiro criticava a “má-vontade” de Yasser Arafat omitindo a armadilha em que havia sido colocado e o sapo com o qual ele engasgava.
A “guerra” hídrica israelense mais recente foi durante a Copa de 2006, quando para apoderar-se da bacia do rio Litani bombardeou o Líbano do sul a Beirute durante 34 dias. Acabou dando com os burros n’água, saindo de mãos vazias e fortalecendo o Hezbollah, cujas bases eram até então movediças.
O choque com o Líbano para em reticências... Passemos ao conflito do dia a dia na Palestina pela água, e mais ainda.
Em 2005, em uma operação mediatizada por Ariel Sharon como um gesto de boa vontade, Israel procedeu à evacuação das instalações militares e das 21 colônias judias em Gaza. Era uma estratégia de guerra (bombardeio e invasão três anos mais tarde) e por terem esgotado o potencial hídrico da Faixa. Na Cisjordânia as colônias israelenses não pararam de se multiplicar e visam, além da ocupação e expansão territorial, os recursos naturais palestinos. Sobretudo a água.
Há duas grandes camadas freáticas em Israel e na Cisjordânia. Esta detém a mais ampla e os dois compartilham três sistemas de água inter-relacionados.
O sistema de subsolo – o Aquífero da Montanha – atravessa a Linha Verde (delimitação da ONU da fronteira entre Israel e a Cisjordânia) e tem 130 quilômetros de comprimento, do monte Carmel ao Negev, e 35 km de largura, do vale do Jordão ao mar Mediterrâneo.
Ele é subdivido em três sub-aquíferos.
O Ocidental, de alta qualidade potável, está quase todo na Cisjordânia, embora Israel se reserve a estocagem completa e o uso de 95% desta água.
O segundo sistema, o Aquífero do Norte, é recarregado e estocado essencialmente na Cisjordânia, mas Israel extrai 70% para uso próprio.
E 37% da água do terceiro sistema, o Aquífero Oriental, inteiro na Cisjordânia, é consumida por Israel, majoritariamente pelos colonos instalados nos Territórios Ocupados.
A média de água que cabe aos palestinos na Cisjordânia é de 70 litros per capita, por dia. Cada colono das 121 colônias israelenses na Cisjordânia desfruta de 1.450 metros cúbicos.
Em apenas 16% das comunidades palestinas (100 de 708), o acesso à água excede 100 litros per capita diários – que é o mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde para evitar epidemias. O preço da água fornecida por tanques privados que vendem aos palestinos a água tirada das fontes desviadas são exorbitantes (2).
Apenas 69 comunidades palestinas possuem rede de água potável. As demais contam com chuva, fontes, poços, e para os que conseguem pagar, com esta água cara. O acesso ao Jordão é negado aos palestinos em toda a sua extensão. Até o Mar Morto.
Em Gaza o problema atinge proporções dramáticas por causa de escassez e insalubridade: a média é de 140 litros diários para 1,5 milhões de habitantes (3).
As camadas freáticas acessíveis estão esgotadas e a única água disponível a grandes profundidades é turva ou salgada (4). Apenas 7% da água em Gaza correspondem aos critérios potáveis da OMS e os casos de cólera, disenteria, hepatite, febre amarela e outras doenças correlacionadas são crescentes, sobretudo entre as crianças, mais vulneráveis. Estima-se que dentro de 15 anos, caso não se tome providências imediatas, Gaza não tenha uma gota de água potável (5).

A Anistia Internacional fez um relato minucioso da espoliação progressiva (6) e até o Banco Mundial já comprovou e denunciou a injustiça. Mas ficou por isso (7).
Se as leis internacionais fossem aplicadas, esta expropriação hídrica seria impedida, sancionada e Israel seria obrigado a compensar a Palestina pelo desvio passado e presente de seus recursos hídricos e de suas perdas agrícolas.
Em vez disto, Israel continua negando aos palestinos o direito de cavar cisternas e confiscou muitas destas para seu uso exclusivo. Para outras, estabeleceu quotas para seus proprietários legítimos.
No verão a companhia israelense Mekorot (que assinou um contrato milionário com o governo português no ano passado para entrar na Europa de fininho achando que assim escapa da campanha de boicote dos cidadãos dos outros países mais bem informados) costuma cortar o fornecimento às cidades palestinas para que a seca não afete seus compatriotas em nada. É comum ver na Cisjordânia casas de colonos com piscinas cheias e com jardins sendo irrigados enquanto do lado famílias nativas não dispõem de água potável para suprir necessidades básicas.
E tem o muro, que é da vergonha mas também da água. Ele devora a Linha Verde, divide lavouras, separa os habitantes de seus recursos hídricos e cerca fontes para extraviar a água palestina para Israel e seus colonos nos Territórios Ocupados.
Algumas das maiores colônias israelenses, como Ariel e Qedumin, foram erguidas no Aquífero das montanhas ocidentais, em plena região agrícola da Cisjordânia – é onde o muro invadiu mais terra para anexar fontes vitais aos nativos.
25 postos hídricos e 35 mil metros de encanamento foram destruídos em sua construção. E ele destruiu ou isolou de seus proprietários cerca de 50 fontes e mais de 200 cisternas e tanques, dos quais mais de 120 mil pessoas dependem para uso doméstico e agrícola.
Este é um caso típico da água como arma de guerra e instrumento de subjugação. Porém as leis internacionais parecem não se aplicar à Palestina, um Estado não reconhecido pela ONU cuja população é apátrida em sua própria terra.
A importância da água é tanta nessa região, que os Acordos de Oslo de 1993 (que terminaram com o célebre aperto de mão entre Yasser Arafat e Itzhak Rabin) nasceram em Zurique em 1990 de uma série de encontros privados entre intelectuais israelenses e executivos da OLP organizados por responsáveis locais, do quê? Da água.
Hoje a situação e o problema estão muito mais graves, as colônias em vez de diminuírem multiplicaram, os palestinos vivem encurralados e o próprio ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, ocupa uma bela casa na Cisjordânia e é um racista declarado, com forte odor de fascismo, segundo o jornalista e escritor israelense Uri Avnery (8).
Boa sorte aos intermediários.

1- Partidários da teoria confeccionada por Theodor Herzl em livro publicado em 1895 “O Estado Judeu”, no qual prega o Sionismo, que aplicado ao pé da letra exclui a presença dos palestinos, razão pela qual, em 1975, uma moção da ONU estatuou ‘sionismo = racismo’, revista em 1995 por pressões político-sionistas.

2- Drying up Palestine

3- Procurando água em Gaza


4. http://www.youtube.com/watch?v=ug48wn0yhCg;

5- Aquíferos bloqueados para Gaza

6- Anistia Internacional: Ocupação hídrica  http://bit.ly/1rNuiN