domingo, 5 de agosto de 2012

Israel vs Palestina: História de um conflito XVI (01-02 2001)




No final do ano 2000, enquanto a Intifada corria solta nos Territórios
Ocupados com consequências drásticas. Yasser Arafat e Ehud Barak só pareciam querer ver o outro com cantando Bandeira Branca com uma hasteada na frente da cara. Porém, isto não impediu que seus representantes voltassem a encontrar-se em Washington a fim de negociar uma saída da onda de violência prejudicial a ambos os lados. Lá a equipe de Bill Clinton redesenhou o mapa da Palestina (à esquerda) como uma alternativa aos recortes ainda maiores propostos por Tel Aviv.
Enquanto uns continuavam tentando acalmar a tempestade, outros só pensavam em alimentá-la. O mais poderoso destes era Ariel Sharon. Em janeiro de 2001 o "general buldozer" declarou morto os Acordos de Oslo em um jornal israelense de extrema-direita causando rebuliço geral.
Mesmo assim Yasser Arafat, sabendo que o braço armado do Fatah, o Tanzim, andava fazendo estragos e tirando a confiança do gigante David - não tão certo de conseguir conter o anão Golias como esperava - propôs ao Primeiro Ministro de Israel uma reunião de dez dias em Taba, no Egito, a fim de salvar o que ainda pudesse ser salvo.
Barak ponderou os prós e os contras e ficou esperando que Washington interviesse a seu favor como sempre.
Os prós eram que confrontado à resistência militar inesperada - realmente danosa ao seu lado, ao contrário das pedras, coqueteis motolov e estilingadas com as quais lidavam facilmente de maneira drástica - não tinha como recusar a oportunidade de demonstrar aos eleitores potenciais que estava se esforçando para parar de prejudicá-los.
Os mortos de seu lado continuavam a virar manchetes assíduas que omitiam o estrago que a IDF causava e embora esta informação a mão única lhe valesse o aumento do apoio militar e da conivência diplomática dos Estados Unidos, assim como a simpatia da opinião pública internacional  - que via os escombros e as lágrimas das vítimas de todos os atentados, mas não via as ruínas que os ataques da IDF deixavam nos Territórios Ocupados, nem as pessoas espedaçadas, nem o sangue derramado e esparramado pelas casas, ruas e calçadas explodidas - a publicidade interna dos atentados facilitava a matança, porém, não era boa para a sua imagem. Barak queria e precisava inverter o processo a seu favor antes das urnas decidirem se saía ou ficava.
Os contras eram o orgulho ferido e outras coisas igualmente irrelevantes diante do sofrimento que desta vez seus compatriotas também estavam experimentando. 
No dia 04 de janeiro, em seus últimos dias de mandato, Bill Clinton continuou insistindo nas negociações entre os dois adversários.
Ligou para Yasser Arafat  que concordou mediante "minhas interpretações e princípios" esboçados para apresentação em um colóquio de última hora.
Ligou para Ehud Barak e este disse que ligaria de volta após consultar seus assessores, mas reiterou sua posição de o mais importante para Israel ser garantir sua segurança.
No fim considerou os prós e acabou concordando, mas para Clinton era tarde demais para colher quaisquer que fossem os louros ou migalhas de paz.
A delegação dos Estados Unidos que chegou à Península do Sinai tinha mais ou menos a mesma cara, apesar da Casa Branca estar mudando de dono temporário. Sua margem de manobra era restrita e sua autoridade curta demais para que o conflito chegasse a um final feliz hollywoodiano. O recém-empossado George W. Bush  - que vencera as eleições com poucos votos de diferença... levantando suspeitas de fraude como Vladimir Putin uns meses atrás - não queria pisar na bola logo na chegada, economizou palpites e sua distância só podia indicar que qualquer que fosse o resultado do Encontro, o seu goerno não se comprometia com nada que estava sendo negociado.
Foi pena, poi no diálogo direto entre as duas partes, o israelense Gilead Sher e o palestino Saeb Erekat (na foto acima), que já se conheciam de outros Acordos, demonstraram grande sinceridade na sala em que defendiam as ideias de seus respectivos líderes.
Quanto aos dois homens que assinavam os acordos, Yasser Arafat esperava continuar na via de Bill Clinton-George Mitchell, com uma análise baseada no Direito e na Justiça.
E Ehud Barak, desprovido da clarividência de seu ex-chefe Yitzhak Rabin, esperava um milagre para não perder o cargo.
No dia 21 os mediadores logo viram que o líder palestino não era o mesmo homem que chegara a Campo David em 1993 para assinar os Acordos de Oslo. O sorriso desaparecera, suas feições estavam crispadas e via-se que estava consciente de ter sido enganado, que o sofrimento de seu povo lhe pesava e que não estava disposto  a assinar nada sem garantia válida.
Muito sangue rolara debaixo da ponte de Oslo e era claro que só o pragmatismo responsável o levara a Taba para falar e escutar o parecer e os sentimentos do adversário.
Os quatro assuntos principais abordados foram o destino dos refugiados palestinos, as fronteiras, a segurança e o futuro de Jerusalém.
Ou seja, os mesmos de antes e de sempre.
Taba deixou a lembrança de uma reunião de cúpula em que todos lavaram a alma.
Pareciam estar tão fartos do grau de violência a que tinham chegado que deixaram o papo furado de lado e desabafaram as expectativas, as desconfianças e as mágoas acumuladas.
Foi a primeira vez que os negociadores pareciam se ver como homens e priorizar o que os unia em vez do que os separava.
Entretanto, apesar da declaração final conjunta de terem dado um grande passo adiante, nem os mais otimistas acreditavam que as diferenças tivessem diminuído tanto quanto precisavam.
Ehud Barak ouviu sem escutar e viu seus interesses iminentes sem enxergar que a fronteira de seu país só ia até a Linha Verde e que a ocupação jamais lhe proporcionaria a segurança que era o seu cavalho de batalha.
Terminou declarando que jamais permitiria o retorno dos refugiados palestinos ao que é hoje Estado de Israel, não assinaria a transferência da esplanada da mesquita al-Aqsa e que todas as colônias judias na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ficariam sob controle da IDF.
Quanto ao território para o eventual Estado da Palestina, propôs o mapa acima, com menos recortes do que o de Campo David (da direita), mas também sem soberania interna completa e com terras ainda cortadas.
Trocando em miúdos, os negociadores ganhavam terreno no que propunham e Barak os minava.

Abro parênteses para dizer que contudo, o Encontro de Taba demonstrou a possibilidade de diálogo se os participantes das discussões olharem uns aos outros como homens, como pessoas de humanidade e inteligência iguais e um lado parar de olhar o outro como animais ou débeis mentais.
Em Taba o diálogo foi retomadodo e os negociadores se olharam, se viram como os seres humanos que eram e esboçaram ideias sobre as quais possíveis acordos pudessem mais tarde ser negociados, deixando a esperança e a impressão de quererem resolver o problema de verdade, de maneira racional.
O caminho foi aberto, embora tenha sido desde então fechado.

Seguindo a história, no ano anterior em Campo David, Ehud Barak chamara de "oferta generosa" a proposta de "concessão territorial" que previa a anexação de mais 10% da Cisjordânia e o "aluguel" a longo prazo de uma zona de segurança ao longo do Jordão. O Estado palestino ficaria cortado em três partes sendo que estas seriam entrecortadas de estradas exclusivas ao uso dos judeus que ocupavam as colônias que estas vias contornavam e nas quais os checkpoints da IDF fatalmente continuariam.
Em Taba, a equipe de Barak distanciou-se menos da viabilidade do Estado de terras contínuas na Cisjordânia que a ONU havia estabelecido, sem chegar ao direito legítimo do território designado pela Resolução 242 como condição sine qua non para as duas Nações viverem lado a lado convivendo pacificamente.
No mapa à esquerda o Estado Palestino determinado pela ONU em 1947 incluindo a parte rosada e a verde que delineia as fronteiras chamadas de 1967 estipuladas na Resolução 242 e das quais os palestinos não querem abdicar.
Em Taba os israelenses propuseram o mapa abaixo. Sem comentário.
 Um dos  negociadores disse na época off the record que após apresentação do mapa "colcha de retalhos" e a discussão posterior de peito aberto, houvera um acordo tácito que pareceu relativamente justo a ambas as partes.
Israel conservaria o controle de quatro a seis por cento da Cisjordânia nas áreas das colônias de Ariel, Gush Etzion e nas imediações de Jerusalém Ocidental.
Em compensação da perda de terras nessas áreas, os palestinos obteriam uma parcela igual de área do seu lado da Linha Verde.
No fim conversaram sobre o desmantelamento de cem invasões na Cisjordânia.
Os palestinos teriam concordado com a permanência de 25, desde que obtivessem a mesma extensão territorial do outro lado para retorno dos refugiados e que tivessem soberania dentro das fronteiras de 1967.
Todas as colônias judias da Faixa de Gaza, do Vale do Jordão e de Jerusalém Oriental seriam incluídas na lista de desmantelamento. Jerusalém seria a capital dos dois Estados. A cidade antiga voltaria a ser território neutro, internacional, santuário das três religiões monoteístas e as capitais seriam estabelecidas a oriente e ocidente do miolo histórico cobiçado.
Esta foi a primeira negociação da história do conflito em que os israelenses pareceram entender intrínsecamente a frustração e os direitos do povo cujo território ocupavam.
Esta compreensão fez com que se aproximassem das determinações da ONU sem integrá-las inteiramente, mas satisfazendo a curto e médio prazo as expectativas da pátria soberana da qual os palestinos não abdicavam - onde pudessem circular sem risco e entrar e sair sem pedir licença e sem serem maltratados.
A negociação de troca de território parecia conforme à equidade, fácil de ser explicada aos cidadãos de ambos os lados e aplicável a curto e médio prazo.  
Contudo, examinando melhor o mapa os palestinos viram que a larga extensão de terra entre as invasões de Ma'aleh Adumin e Givat Ze'ev  - que faziam parte das que permaneceriam e que continha densa população palestina e as maiores reservas de terra de Jerusalém Oriental - ficaria sob controle militar de Israel conforme estipulado no mapa. Isto faria com que os palestinos se encontrassem "no exterior" às portas de suas cidades quando transitassem de uma para a outra para ir trabalhar, estudar ou visitar amigos e familiares.
O que implicaria também a permanência das barragens-checkpoints nas quais vigoraria a autorização aléatória de passagem, humilhações e tudo que conheciam de longa data, em vez das promessas feitas acima cujo cumprimento não estava garantido. O que lhes custaria tanto ou mais do que os Acordos de Oslo que só era mencionado em detrimento dos ocupados sem preocupar-se com as infrações do ocupante que haviam justamente levado à Intifada.
O que mais preocupou os palestinos foi a omissão de data de implementação do acordo que estava sendo negociado. "Se nos Acordos de Oslo que tinham agenda bem marcada nada foi respeitado, o que garantiria que desta vez obteríamos a autonomia desejada?", foi a preocupação de um dos responsáveis. "Só a ONU com suas tropas internacionais."
Mas Ehud Barak não queria nem ouvir falar na eventualidade de ter um árbitro imparcial no lugar dos EUA. Washington, nem se fala.
O primeiro ministro em fim de mandato fora claro com seu negociador Gilad Sher: A segurança de Israel é primordial - naquela estória de em vez de matar o mal pela raiz cortar ramos daninhos que voltariam a crescer loguinho e mais fortes ainda.
O general reciclado em político não conseguiu entender que a segurança em conflitos nunca é uma condição e sim uma consequência da paz adquirida de maneira equilibrada segundo os parâmetros de justiça das Nações Unidas. Que no final das contas, neste caso específico dos capacetes azuis, os protegeria sem precisarem do arsenal militar bilhonário que aprimoravam sem parar em detrimento dos melhoramentos sociais que seus cidadãos precisavam.
Mas uma das constantes deste conflito que data desde a Naqba em 1948 é a recusa de Israel, incessante e peremptória, de intervenção das Nações Unidas. Inclusive durante a Intifada. Já os palestinos sempre facilitaram tanto o trabalho dos jornalistas quanto de observadores internacionais. "O que em si é uma confissão israelense de má-conduta, pois quem não deve não teme. Quem tem razão não teme investigação, muito pelo contrário!" declarou um ativista inglês de Direitos Humanos e é o que se houve amiúde entre os estrangeiros no terreno.
Em primeiro plano,
Shlomo Ben-Ali e Ahmed Qurei
Na reunião de Taba, quando abordaram a questão recorrente do direito de retorno dos refugiados deportados na Naqba, Israel fez a comparação surpreendente com os judeus forçados a emigrar dos países árabes.
"Como se só os judeus tivessem problemas nos países islâmicos e os cristãos nestes prosperassem", disse então um ativista de outra ONG, completando, "e como se os palestinos tivessem a mesma responsabilidade com o que acontece em países estrangeiros que Israel tem com a Naqba que é sua obra e com a ocupação que impõe ao povo nativo da terra para a qual emigraram".
A semana de negociações foi intensa e no final Yasser Arafat recusou o conselho de Hosni Mubarak  que aceitasse o que Israel lhe estava "oferecendo".
O boato correu na mídia, talvez divulgado pelo próprio Bill Clinton (que hoje dá uma de humanista e cobra fortunas para falar do que as pessoas acham que ele sabe) que Arafat ter-lhe-ia dito que se aceitasse a "oferta generosa" de Barak seria assassinado por seus próprios concidadãos apátridas - que eu saiba, os próximos de Arafat não confirmam isto. 
A questão dos refugiados era fundamental e os palestinos suspeitavam que o primeiro-ministro só tivesse concordado com a reunião "porque os israelenses estavam sofrendo na carne uma parte ínfima dos efeitos da ocupação que sofríamos há décadas. Temíamos que o Acordo fosse mais circunstancial do que de fato. Que quando a Intifada parasse e as eleições passassem, nenhum tratado fosse respeitado e Yasser Arafat levasse a culpa de mais uma derrota evitável," lembra um palestino. 
Former Israeli Prime Minister Shimon Peres and Palestinian leader Yasser Arafat
Quanto à Tel Aviv pensante, via esta reunião como inócua e irrelevante, pois sabia que era o último recurso de Barak para continuar no comando do país e como as pesquisas eleitorais davam seu concorrente na dianteira, dentro de um mês os tempos mudariam e com eles as vontades do novo primeiro ministro.
Taba estava fadada à efemeridade, embora os negociadores estivessem satisfeitos com a concórdia instalada pelo menos entre eles - longe da discórdia patente entre os homens que representavam.
E foi neste clima que Yasser Arafat e Shimon Peres se dirigiram ao Fórum Econômico de Davos na Suiça, onde se esperava que renovassem o bom entendimento de 1994.
No dia 27 os dois participaram de entrevista conjunta até bem-humorada, com a palavra de ordem from Peacemaking to Peacebuilding,  e as esperanças de entendimento cresceram na comunidade internacional.
Ehud Barak suspendeu a reunião de cúpula no mesmo dia, à espera do resultado das eleições do dia 06 de fevereiro e recusou o convite para encontrar Yasser Arafat em Estocolmo nos próximos dias.
A questão que continua pouco clara é se Barak fez isso antes ou depois do discurso ferino de Arafat na tribuna de Davos - a única tribuna pública que o líder palestino tinha para desafogar-se e fazer os grandes deste mundo enxergarem o que estava na cara.
Sabia que era a última oportunidade que tinha antes da queda de Barak e da ascensão do "Bulldozer" aos plenos poderes de continuar sua limpeza étnica e atacou pugnazmente "a guerra selvagem e barbárica" de Israel contra a Palestina e o uso de armas e munições proibidas pela Convenção de Genebra.
Shimon Peres fechou a cara e no fim declarou ter ido a Davos preparado para um casamento e não para um divórcio, omitindo que Arafat tinha razão de aproveitar o único espaço que tinha para denunciar o que o então Ministro das Relações Exteriores de Israel sabia ser verdade.  
Três dias após o desabafo dos fatos no terreno Arafat  reiterou sua intenção de continuar as negociações, apesar dos pesares.
De fato seu "embaixadores" e os de Barak tinham se entendido tão bem que continuariam a encontrar-se informalmente para adiantar o expediente até seus chefes voltarem a encontrar-se.

Os cidadãos israelenses cortariam as asas dos pombos da paz no dia 06 de fevereiro quando escolheram outro general, ainda mais sanguinário, para o cargo de primeiro ministro.
Ariel Sharon foi eleito com 62,5% dos votos (participação de 62% do eleitorado em vez dos 80% habituais) e Ehud Barak anunciou em seguida que renunciaria ao mandato parlamentar e a suas responsabilidades no Partido Trabalhista - promessa tão vã quanto a de Binyamin Netanyahu ao ser derrotado.
A era do general "bulldozer" começava.
  
Mapa que indica as ambições sionistas na Palestina.
Em branco, a Palestina antes do Mandato Britânico;
em escuro, na sequência, os enclaves judeus no início do século XX,
a respartição da ONU em 1947,
as fronteiras de 1967,
as implantações judias e o projeto da extrema-direita israelense de ocupar tudo. E fazer o quê mesmo com os palestinos?   









"To those who wrongly accuse you of unfairness or harm done to them by this call for divestment, I suggest, with humility, that the harm suffered from being confronted with opinions that challenge one’s own pales in comparison to the harm done by living a life under occupation and daily denial of basic rights and dignity. It is not with rancor that we criticize the Israeli government, but with hope, a hope that a better future can be made for both Israelis and Palestinians, a future in which both the violence of the occupier and the resulting violent resistance of the occupied come to an end, and where one people need not rule over another, engendering suffering, humiliation, and retaliation. True peace must be anchored in justice and an unwavering commitment to universal rights for all humans, regardless of ethnicity, religion, gender, national origin or any other identity attribute. You, students, are helping to pave that path to a just peace".
Bispo Desmond Tutu em carta de apoio a universitários que aderiram ao BDS no boicote aos produtos das colônias israelenses na Cisjordânia.

Reservista da IDF, Forças israelenses de ocupação,
Shovrim Shtika - Breaking the Silence
 
 
 
Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/


domingo, 29 de julho de 2012

O "rei" da Síria ofega, a disputa pelo trono começa


Os dirigentes da Síria resolveram pegar pesado em Alepo e Damasco, que Bashar el-Assad não quer de jeito nenhum deixar escapar para indivíduos pouco recomendáveis. 
Há algumas semanas eu disse que Bashar el-Assad só "abdicaria" se Putin lavasse as mãos ou o enxotasse, que só cairia quando generais e próximos debandassem, e só seria derrotado quando Damasco e Alepo fossem tomadas, no sentido próprio e figurado.
Hoje volto à carga porque tenho recebido muitas perguntas sobre o assunto, devido às notícias que levam a pensar que Bashar el-Assad está encurralado, perdendo fôlego, dando os últimos suspiros, caindo no abismo dos ditadores.
É uma vontade internacional, inclusive dos repórteres que não querem ver Assad nem pintado.
Eu também tenho antipatia pelo regime autoritário da família Assad. Porém, este sentimento pessoal não me leva a vendar os olhos aos fatos.
Os rebeldes entraram em Alepo e Damasco? Entraram. Muitos deles drogados como as crianças-soldados dos warlords da África. E alguns, sem nada a ver com os rebeldes locais.
As famílias de classes média e alta encheram as estradas com o que conseguiam carregar para o Líbano, e Beirute ficou cheia de sírios.
Porém, Bashar recuperou o controle de Damasco e os "refugiados" já voltaram para casa. Pelo menos por enquanto. E é o que vai fazer em Alepo daqui a pouco, enquanto os habitantes debandarem e encherem as estradas. E se os EUA/OTAM/Israel/Arábia Saudita não intervierem de novo, ele talvez consiga salvar a esta linda cidade. Se continuarem a apoiar os "rebeldes", Aleppo está com os dias contados. 
Os soldados lutam menos pelo regime do que para salvar a pele e seu país. Sabem que a vingança vai ser bravíssima quando e se forem capturados, e que na pior das hipóteses, o país não existirá mais. 

O exército bombardeou "seus próprios concidadãos" em Damasco e Alepo?
Bombardeou, sim, mas não necessariamente seus concidadãos, e continua bombardeando.
Primeiro os aviões fizeram vôos dissuasivos e depois atiraram para proteger os soldados que estavam no solo.
Sem falso moralismo, qualquer general teria dado a mesma ordem. As forças da OTAN estão cansadas de fazer o mesmo nos países estrangeiros que ocupam.
É ingenuidade ou cinismo esperar que Assad ou qualquer outro em seu lugar assistisse de braços cruzados à tomada da segunda cidade do país por grupos carregados de artilharia pesada que Bashar considera como o mal encarnado.
Bashar sabe que grande parte destes batalhões "rebeldes" são terroristas estrangeiros. Os EUA abriram a porta para a banalização do termo, agora é difícil contestar o uso devido ou indevido do mesmo. Dito isto, alguns destes grupos são mesmo aterrorizantes e aterrorizadores. 

Os russos também acham que um dos grupos que o Qatar e a Arábia Saudita estão armando, consciente ou/e inconscientemente, é o Jabhat Al Nusrah, o braço armado do al-Qaida na Síria. O que é bem provável, pois as armas que são contrabandeadas para o território são entregues de maneira aleatória.
Aliás, o fotógrafo holandês Jeroen Oerlemans, detido no dia 19 de julho no norte da Síria com o britânico John Cantlie, afirmou que no campo de rebeldes em que foi capturado não tinha nenhum sírio. Eram todos africanos e tchetchenos cujo objetivo não é estabelecer a democracia e sim uma charia draconiana, contrária ao atual islamismo moderado que predomina na Síria.
É verdade que há "rebeldes" que nem falam árabe, e se falam, é de outras paragens.
O que prova que Assad não está assim tão paranóico. Está convencido que quando atira, é contra "forças do mal", e argumenta que se os rebeldes "não tivessem sido e não estivessem sendo abastecidos em artilharia, o exército nacional não teria de responder aos ataques com potência bélica máxima."
Ele jamais entregará Alepo e Damasco sem lutar até não poder mais.
E sem ele, quem teria de lidar com os "rebeldes" estrangeiros - terroristas ou mercenários - seria um novo governo fragilizado.

Personalidades importantes abandonaram o navio que está naufragando? Abandonaram. A última foi Lamia al-Hariri. Nada mais nada menos do que a sobrinha do vice-presidente Farouk el-Sharaa. Aproveitou uma viagem oficial a Cyprus na terça-feira para ficar por lá. Outros diplomatas já haviam pulado do barco - embaixadores na Alemanha, República Tcheca, Belarússia, Suécia, etc. - mas Lamia é peso pesado.
Antes dela a defecção mais significativa fora a do general de brigada Manaf Tlass.
O filho de Mustafá Tlass (Ministro da Defesa de 1973-2002) e amigo pessoal de Bashar (como o pai era de Hafez Assad) pôs-se há pouco a "denunciar" os crimes cometidos pelo regime como se jamais tivesse tomado parte de nada e que Bashar fosse um apavorante déspota solitário como Muammar el-Gaddafi.
Não é bem assim. Mas é verdade que Manaf andava ressabiado, insatisfeito com a repressão contra os seus. Exilou-se na Turquia no início do mês de julho e de lá tenta formar uma Junta Militar do estilo da que assumiu o poder no Egito pós-Mubarack.
É possível que Tlass, que há poucos meses era recebido em palácio como amigo para trocar ideias e lembranças da escola militar com o presidente, assim como os demais dissidentes, tenha abandonado o "navio Assad" ao naufrágio, a exemplo dos ex-ministros do déspota da Líbia, esperando colher os mesmos frutos que o famoso Comitê de Benghazi está colhendo após os rebeldes terem feito o grosso do trabalho.
Porém, já tem outro postulante ao "trono" que ainda está ocupado. É Riyad Seif. Este civil de 65 anos é dissidente de longa data. Na morte de Hafez el-Assad criou um comitê de reflexão sobre a democratização do país, mais tarde fundou um partido de oposição para quebrar a supremacia do Ba'ath, foi preso político de 2001 a 2006, depois brevemente em 2008 - após seu panfleto Declaração de Damasco - sob acusação de querer derrubar o regime. Voltou ao cárcere em 2011 pelo mesmo motivo. Seif é o candidato natural do Syrian National Council (SNC) a maior coalição anti-Assad, nos moldes do Conselho de transição de Benghazi.
O SNC deixa os partidos de esquerda meio inquietos por ser muito próximo de Qatar, Turquia e Arábia Saudita; por Robert Ford, ex-embaixador dos EUA na Síria ser membro chave do comitê estratégico deste;  e por causa da divisão interna entre liberais e islamitas, árabes e kurdos que o fragiliza.
Mas é com este Conselho que Kofi Annan negocia.
Os europeus privilegiam a alternativa da liderança conjunta ou única de Maflat Tlass por causa da lição aprendida no Iraque - para que a mudança seja feita sem danos irreversíveis, é preciso conservar membros do antigo regime no comando. Pois ninguém conhece o país melhor do que eles.
E neste caso, o melhor candidato à sucessão que já foi lançada pelos ocidentais é o general bonitão Manaf Tlass. Conhece o regime como a palma da mão, já que cresceu dentro do poder que o estabeleceu, o manteve, e além disso, foi confidente do "rei" cujo trono cobiça, "para o bem do país". Tem pinta dos célebres Comandantes Massoud e Che Guevara. Embora seja provável que lhe falte o idealismo desinteressado que animava ambos líderes revolucionários, talvez conseguisse arrumar a casa com seu punho forte.
Trocando em miúdos, a defecção de Maflat Tlass é importante, mas ele é sunita. O navio de Assad está naufragando, mas o naufrágio só acontecerá quando os líderes civis e militares alauitas o deixarem. Enquanto isto, muita água vai rolar, e o amigo da onça vai ter o tempo que precisa para mexer os pauzinhos e conseguir sentar no trono que ele sabe que vai vagar.
O tempo de Bashar el-Assad está contado?
Está, mas não em dias, em semanas ou meses. Dependerá de seu próprio estado de ânimo, dos russos, dos iranianos, dos chineses e da vontade real da população de tirá-lo. 
Damasco e Alepo lhe continuam fiéis. Mais por instinto de preservação do que por querê-lo no comando.
As minorias religiosas temem os salafistas mais do que a morte. Abandonaram suas casas em Homs - os dois bairros cristãos estão às traças - e estes 150 mil foram buscar refúgio em Damasco. O mesmo aconteceu nas demais cidadezinhas cujas minorias kurda, cristã, alauíta buscaram refúgio na capital e em Alepo.
Há 1 milhão e 500 mil cristãos na Síria - tem 47 igrejas e catedrais só na região de Alepo. E eles preferem ficar neutros. Embora como os palestinos - 500 mil refugiados no país - estão naquela do Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come; já estão desagradando todos os beligerantes.
Dezessete palestinos foram massacrados há poucos dias. Dizem que era um aviso de um dos dois lados para não apoiarem o outro. Estão em um beco sem saída.
Se apoiarem Bashar, cujo regime também deploram, são protegidos a curto prazo. Se apoiarem os rebeldes, perdem o apoio imediato de Bashar e ficarão totalmente à deriva.
Os palestinos sofrem pressão de todos os lados, pois embora Assad lhes tenha dado asilo político, eles são cristãos e sunitas moderados, próximos da Irmandade Muçulmana. Khaled Mechaal, o líder do Hamas já debandou no ano passado para outras paragens menos inóspitas, mas o problema continua o mesmo para seus milhares de compatriotas que continuam em solo sírio sem nenhuma possibilidade de irem para outro lugar.
Qualquer que seja o resultado desta peleja e acabe quando acabar, estas duas comunidades serão negativa e terrivelement afetadas. Talvez tenham inclusive de se refugiarem alhures.

Por enquanto, Bashar se mantém bem que mal com o apoio do exército liderado por oficiais alauítas que lutam mais por si mesmos do que por ele. Conhecem a história cíclica de vingança na Síria e quão pouco valerá sua vida quando forem derrotados. A selvageria da vingança no país a cada golpe de Estado é conhecida. O terror reina nas duas maiores cidades da Síria. 
Vale lembrar que Bashar não é auto-suficiente e nem o "líder máximo" que era Gaddafi. Foi atingido no círculo íntimo com a defecção de Tlass e com o recente assassinato de próximos, mas o governo não sofreu abalo. Pois não governa sozinho. Acima, ou ao lado dele, tem o tal comitê de oligarcas que herdou do pai. Um pouco como os aiatolás que são a eminência parda de Ahmadinejad - sem o fanatismo religioso destas autoridades, mas com ganância que não acaba.
A queda de Bashar será a deles, e esta é a principal razão de forçarem a barra.
Bashar é um tipo de testa de ferro da repressão e sobretudo da corrupção que permitiu que o regime se mantivesse. A família da mãe de Bashar lidera o tráfico de toda índole no norte do país. Aliás, a primeira desavença que o dissidente Riyad Seif teve com o regime foi econômica - dizem as más línguas que foi por isto que deixou o partido Ba'ath.
Em 2001 a família de Anissa Makhlouf, viúva de Hafez, obteve o monopólio da telefonia celular no país e Seif, que detinha a franquia da Adidas na Síria e talvez quisesse aproveitar do filão da telefonia, fez críticas acerbas à concessão "ilegal que custaria milhões e milhões de dólares aos cofres do Estado"; e sua rebeldia o levou ao cárcere. No final das contas, o problema foi o vil metal que os urubus não queriam largar.
Aliás, segundo os boatos, esta família está negociando "asilo" na França. Sem dúvida, pagando pedágio com os milhões desviados de seus concidadãos.
Como ao contrário de Gaddafi, Assad não é auto-suficiente - nem militar nem emocionalmente - continua na luta porque sabe que conta com o apoio de quem precisa. Sem estas pessoas que lhe são caras (em ambos sentidos) e necessárias (no sentido concreto e abstrato), já estaria pedindo asilo (se já não estiver...). Em Moscou ou São Petersburgo, pois o casal aprecia cultura - embora Serguei Lavrov, ministro das relações exteriores da Rússia, diga que seu país não cogita dar-lhes asilo.
Só que também ao contrário de Gaddafi, Assad não estava preocupado apenas em defender o poder conquistado pelo pai Hafez em 1971 em um Golpe de Estado.
Como já disse, governou rodeado de conselheiros, amigos e próximos do pai, dentre os quais, a maioria abusava da autoridade para enriquecer-se com tráficos diversos e variados - o norte do país é dedicado a esta prática. A ironia desta saga histórica síria é que Bashar el-Assad, que se facilitar é o menos mal desta "liga" venal e autoritária, no final das contas talvez seja o único a pagar o pato.
Não é que tenha as mãos limpas; longe disto. Mas na Síria há mãos muito mais sujas do que as de Bashar e é quase certo que os donos destas saiam ilesos e vão desfrutar de seus milhões em Paris, Nova Iorque, Londres, ou talvez até no que sobrar de Alepo e Damasco. 
Enquanto isto, embora só há pouco tenha começado a entender a proporção tomada pelo movimento de rebelião, Bashar conhece seu país melhor do que os estrangeiros que aplaudem os rebeldes sem interessar-se em saber de onde vêm e do que são capazes.
Ele vê o leão invisível e afirma que a rebelião é monitorada por potências e/ou organismos terroristas nocivos que querem destruir a Síria e sabe que os líderes do movimento que se encontram na frente de batalha não têm capacidade de governar nem o bairro em que nasceram, quem dirá Damasco e o país inteiro.
E é aí que a porca torce o rabo. Estava obcecado em assegurar a transição sem entender que já era tarde, a Inês é morta. Parece que a batalha de Alepo fez cair a ficha.
Entendeu que cometeu um pecado capital na defesa de Alepo e Damasco. Os helicópteros de combate chocaram os moradores que pensavam que suas cidades estivessem ao abrigo de ataques, que ele os protegeria da "desordem" das demais. Viram os tiros, a fumaça, e estão começando a questionar a capacidade de Assad de protegê-los, ou se têm de deixá-lo.
O terceiro fator que eu citara para a queda de Bashar el-Assad era o Adeus de Vladimir Putin.
Por enquanto ainda não é o caso.
Os colegas do Pravda, de Moscou, que normalmente veiculam a versão oficial, mantêm que Assad (e a Rússia) têm de salvar a Síria do batalhão (60.000, segundo seus cálculos) de "terroristas" que atravessaram as fronteiras da Jordânia e do Iraque para derrubar o regime e instalar o caos.
É também o que pensa Bashar el-Assad. É por isto que em vez de ir refugiar-se na Rússia, seguindo o exemplo de Ben Ali que foi parar em Ryad, continua em Damasco defendendo a "integridade do único país árabe que desafia os EUA e protege os refugiados palestinos, iraquianos e dos demais países vizinhos".
A Rússia e a China, visceralmente contrárias à ingerência estrangeira em conflitos domésticos, continuam vetando a intervenção da OTAN e criticando a "política irresponsável de armar rebeldes que ninguém conhece".
Não é que estes dois países prefiram que o presidente da Síria massacre seus compatriotas. É que acham que se a revolta fosse realmente popular como foi na Tunísia e no Egito, com armas ou sem armas Assad cairia, cedo ou tarde, sem jorrar tanto sangue nas ruas de Homs, Alepo e Damasco.
A situação evoluiu nas últimas semanas, os rebeldes estão cada vez mais bem armados, e além das armas, tem chegado muita droga pesada nos batalhões improvisados de jovens que estão consumindo heroína como se fosse um coquetel de proteína que os mantenha alertas com a mão no gatilho pronta para atirar no que move.
Em alguns lugares, a impressão que se tem é de estar em um conflito na África cheio de crianças-soldados alimentadas a anfetamina para que seu lado humano racional deixe lugar à animalidade que leva aos atos atrozes dos warlords.
Parece incrível que um país como a Síria, de tradição hospitaleira e culta, esteja mergulhado em tal caos material e humano.
Dói-me a alma ver Alepo e Damasco despedaçadas e tanta gente morta - de ambos os lados.
Hillary Clinton e Barack Obama queriam derrubar Assad para atingir o Irã que abominam ainda mais do que a Síria, e estão conseguindo destruir o país. E com ele, certamente a democracia religiosa que primava, a convivência pacífica entre as comunidades e a cultura da qual os sírios tanto se orgulham, ou orgulhavam.
O comando das forças rebeldes no terreno está esfacelado. A palavra de ordem das forças estrangeiras é destruição e o motor dominante é um ódio explicável apenas pelo fato da Síria não lhes abrirem as portas comerciais e querem os Golã de volta.
Os rebeldes sírios não estão e não são preparados para governar nem uma cidadezinha.
Os grupos estrangeiros infiltrados querem  poder ditatorial para instalar um regime obscurantista e o caos.
O que farão quando derrubarem Assad e se derem conta - se o efeito da droga passar e a dependência ainda não estiver arraigada - que as elites que dirigiam o país foram assassinadas ou fugiram de mala e cuia para longe de Alepo e Damasco?
Eu disse que não há comando dos rebeldes, mas não é exato. Comando há, mas é um comando extremista que os universitários que aderiram ao movimento renegam. Estes maus-elementos tomaram as rédeas e por incrível que pareça os EUA e seus aliados sauditas, que admitam ou não estarem armando estas pessoas incontroláveis, estão para entregar o país, de mãos beijadas, a esta ala radical do islamismo.
Se não ao Nusrah e companhia, aos salafistas, uma oposição à Irmandade Muçulmana. Embora esta tenha começado o movimento de revolta para vingar o massacre cometido por Hafez el-Assad em Hama, seus rivais os foram descartando e de repente começaram a cantar de galo e botá-los pra escanteio.
Eu havia dito também que os extremistas estavam dominando e que ao contrário do que se pensava, os rebeldes não tinham todos boas intenções.
A elite religiosa e militar que se opõe a Assad e tem a cabeça no lugar está exilada, e quando a coisa apertar, muita água vai rolar até que consigam chegar a Alepo e Damasco.
O plano é levar o SNC para dentro da Síria para que cheguem rapidamente em Damasco e Alepo quando Assad entregar os pontos. Antes dos rebeldes armados passarem à "caça às bruxas" e porem as cidades abaixo.
Tomara que consigam.   
As ONGs de Direitos Humanos já receberam cerca de duzentas queixas de estupro de mulheres nas imediações de Homs, e embora alguns estupradores sejam soldados de Assad, a maioria não usa farda.
Notícias contraditórias indicam de vez em quando que Bashar está ao ponto de fugir da capital, mas boatos não faltam. Espontâneos ou fabricados, eles correm por toda parte.
Inclusive que o quiet american pode aproveitar a confissão de Bashar da posse de armas químicas para soltar um das suas e deixá-lo levar a culpa. Assim como certos massacres anunciados aos jornalistas antes que aconteçam, como se fossem com o único objetivo de carregar ainda mais o processo contra Assad. Esta é uma teoria do jornal russo Pravda. 
Eu só tenho uma certeza. A Síria inteira está ferida com esta guerra civil que poderia ter sido evitada se os "rebeldes" não tivessem sido armados, se os interesses dos EUA imediatos não fossem de se livrarem da única voz de oposição e único governante árabe que contestava sua política no Oriente Médio, se a Síria não advogasse a causa palestina e não quisesse recuperar os Golan que Israel ocupou e não quer devolver nem a pau, se os EUA não quisessem atingir o Irã por tabela e se Assad tivesse peitado os oligarcas e democratizado o país após a morte do pai.
Mas a realpolítica não é de SIs e sim de fatos.
Os fatos são que Bashar anunciou no dia 26 a criação de uma Corte Anti-Terrorismo em Damasco. Segundo a mídia local, ela julgará casos relacionados com atos terroristas e a implementação de sentenças.
A arbitrariedade continua, legalizada. Mas aí também Assad não inventa nada. Inspira-se nos atos institucionais estabelecidos e praticados nos EUA nos últimos 11 anos na paranóia do terrorismo.
A crise na Síria já se estende por 17 meses e Washington parece ter se conformado a armar os rebeldes, prestar apoio logístico - assistência médica, comunicação, inteligência, em vez de intervir diretamente como na Líbia. Mas já causam muito estrago por tabela.
Talvez por acatar o diagnóstico do vizinho que conhece a Síria melhor do que ninguém. O ministro das relações exteriores do Líbano, Adnan Mansour, disse para quem quisesse ouvir que a intervenção militar estrangeira e a invasão da Síria seriam um desastre. Falou no vazio.
A Liga Árabe levantou a hipótese da criação de "áreas de segurança" no país que permitissem a instalação do SNC, mas Lavrov que conhece melhor o terreno disse logo que esta missão era impossível.
Enquanto isto a luta em Alepo continua. E Assad sua.
Para diminuir as perdas e não agravar o avanço estrangeiro, o ideal seria que Bashar peitasse a junta oligarca e entregasse ou dividisse as rédeas com Ryiad Seif e Maflat Tlass para que transição se fizesse com a limpeza necessária dos extremistas simpatizantes de um líder chamado el-Bagdadi e do al-Qaeda.
Alepo está sofrendo demais. A Síria inteira. Há mais de dezessete meses.
Mas Assad insiste que tem primeiro de limpar a casa. Limpeza cara. Mas concordo com ele porque o país está impregnado de para-militares vestidos de preto, de olhos injetados de ódio e de sabe-se lá o que mais. Que dão medo. Se Obama os visse, pararia de dizer lorotas e tentaria ver as coisas como são e não como deseja que sejam.

domingo, 22 de julho de 2012

Israel vs Palestina: História de um conflito XV (11/12 2000)



Enquanto o irlando-estadunidense Robert Mitchell investigava as causas e consequências da Intifada, no dia 1° de novembro de 2000 Yasser Arafat encontrou Shimon Peres para um diálogo construtivo. Acabaram assinando um cessar-fogo, curtíssimo.
O Jihad islâmico explodiu um carro em Jerusalém ocidental matando dois israelenses e a trégua terminou antes de começar.
Os helicópteros da IDF retaliaram com bombardeios aleatórios atingindo um caminhão lotado e procedeu a uma série de vandalismos domiciliares com detenções "em busca dos culpados".

Kofi Annan estimou a 230 o número de mortos até esta data. Incluindo os cidadãos israelenses árabes assassinados. Estes, mesmo sendo cidadãos de segunda classe, tiveram direito à comissão de inquérito que era negada aos palestinos dos territórios ocupados. A comissão em questão foi anunciada no dia 06 de novembro para investigar a morte dos 12 civis árabes que a IDF matara e talvez para contrabalançar a legitimidade, no dia 13 Barak reforçou o sítio das cidades devolvidas à Autoridade Palestina nos primórdios dos Acordos de Oslo.
Privou-as de víveres, além de liberdade de circulação, e provou uma vez mais quão frágil era a autonomia que os tais Acordos de paz haviam proporcionado aos palestinos.
E para atacar em todas as frentes, no dia 16, Barak estrangulou a AP economicamente. Congelou a transferência dos fundos que lhe eram devidos - direitos de alfândega e impostos sobre os produtos destinados a Cisjordânia e Faixa de Gaza que transitavam por Israel obrigatoriamente, em respeito aos ditos Acordos.
A IDF foi endurecendo cada vez mais os ataques, os mortos e feridos graves civis aumentaram, e ciente da disparidade de meios de combate - pedras contra tanques e helicópteros de combate - Marwan Barghuti o líder do Tanzim "Organização" - ala militar do Fatah que até então apoiara Yasser Arafat no processo de paz - passou a liderar a resistência armada da Intifada.

A proeminência de Marwan Barghuti na Palestina lhe vale uma digressãozinha. Ele não é da geração dos dois líderes mais antigos - Sheik Yassine do Hamas e Yasser Arafat do Fatah - que nasceram antes da ocupação e conheceram sua terra livre, desapropriada e em seguida a Naqba. Barghuti faz parte da geração que nasceu e cresceu sob a ocupação. Entrou na resistência por rejeição à subserviência à qual o ocupante o submetia e por desejo de ter uma pátria livre e soberana.
Marwan nasceu em 1959 em Kobar, perto de Ramallah e ingressou no Fatah com 15 anos de idade.
Foi preso pela primeira vez com 17 anos em uma passeata pacífica.
Conheceu as masmorras israelenses e quando foi solto entrou na Universidade Birzeit, em Ramallah.
É formado em História, mestre em Ciências Políticas e doutor em Relações Internacionais.
Emergiu na liderança do Fatah com 28 anos durante a primeira Intifada em 1987.
Foi um dos primeiros a serem presos devido às suas qualidades de orador e de liderança. Foi justamente por causa deste potencial socio-intelectual que os israelenses preferiram algum tempo mais tarde deportá-lo para a Jordânia, esperando que jamais voltasse.
Ficou exilado até 1994 quando os Acordos de Oslo o trouxeram de volta a Ramallah. Foi quando começou a carreira política meteórica.
Em 1996 foi eleito com facilidade para o Conselho Legislativo recém-constituído.
Ganhou destaque com a campanha contra o abuso dos Direitos Humanos na aplicação dos Acordos de Oslo, com a denúncia de corrupção de próximos de Arafat e sobretudo por apoiar o líder palestino na defesa do processo de paz ao qual dedicou-se inclusive tentando acalmar companheiros quando as coisas apertavam.
Realce e preparo o levaram à chefia do Fatah na Cisjordânia e lhe valeram o respeito dos outros grupos de resistência, inclusive do Hamas.
Marwan Barghuti não tinha nenhuma vocação para a guerrilha. Seu alto nível acadêmico e seu humanismo o destinavam a carreiras ligadas ao intelecto.
Foi o ceticismo quanto à intenção de Israel de devolver território e a impotência das palavras que o levaram de volta à guerrilha urbana. E à arquitetação de atentados, após a excursão de Ariel Sharon na esplanada da mesquida Al-Aqsa.
Hoje encontra-se atrás das grades (veremos mais tarde como e quando chegou lá) e é chamado de "Nelson Mandela" por estrangeiros e palestinos devido à sabedoria que adquiriu nos últimos anos, forjadas na dura realidade do cárcere.
E é o expoente político que faz unanimidade entre todas as facções palestinas.
É o herdeiro natural do capital de popularidade de Yasser Arafat sem o ônus que puxava o líder da OLP para baixo.
Arafat foi para Barghuti o que Mentor foi para Ulisses na Odisséia de Homero. E Barghuti na Segunda Intifada foi seu discreto braço armado.
Em recentes documentos divulgados pelo Shin Bet (serviço secreto isralense interno) Barghuti confessa ter usado dinheiro do Fatah para as operações militares, mas nega que Arafat tenha dado ordem direta para os atentados. A iniciativa era toda dos membros dos grupos de resistência que agiam conforme sentiam necessidade de sua parte, afirma.
 
Como a explosão no dia 20 de novembro de um ônibus, na qual morreram dois colonos no sul da Faixa de Gaza.
Operação militar do Tanzim ou do Hamas, para a IDF não importava. A retaliação foi como sempre, desmesurada - navios de guerra e helicópteros de combate bombardearam indiscriminadamente a Faixa em e entre os quatro pontos cardeais. Homens, mulheres e crianças tombavam nas ruas ou eram explodidas dentro de casa. Não é exagero nenhum voltar a comparar com Apocalipse Now - sem a música de Wagner e com um militar "pragmático" no comando do país e não um batalhão de helicópteros jogando Agente Laranja fabricado pela predadora mundial Monsanto.
A brutalidade foi tanta e tão próxima da fronteira que até Hosni Mubarak chamou seu embaixador em Tel Aviv de volta para o Egito em protesto à violência "exagerada".
O caos aumentava e os israelenses começavam a preocupar-se com as consequências internacionais.
Cientes da incapacidade de Ehud Barak de controlar o problema, decidiram dissolver o Knesset e antecipar as eleições.
Dois meses após o começo da Intifada, no terreno, de uma cidadezinha ou de uma cidade a outra da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, os dramas individuais e coletivos se repetiam e os meios usados pela IDF eram cada vez mais sofisticados.
A imprensa israelense não via nada e o Jerusalem Post publicava manchetes xingando os palestinos de todos os nomes imagináveis - pagãos, terroristas, serpentes, além do "animais" de sempre que saía e sai a boca de muitos israelenses.
As agências internacionais de notícia não deixavam por menos, dizendo que as pedras haviam parado as negociações, que os atentados militares palestinos eram chacinas e fornecendo justificações incríveis para os ataques da IDF.
Aí chegou o mês de dezembro com dois acontecimentos importantes no plano político.
Em Israel Ehud Barak anunciou sua demissão e ficou definido que as eleições aconteceriam no dia 06 de fevereiro de 2001. Boatos corriam sobre a perspectiva de um governo de união nacional e até sobre a oportunidade de revogar a lei de eleição direta para primeiro-ministro...
Enquanto isto, além do Mar Mediterrâneo, do outro lado do Atlântico, em Nova Iorque, a ONU aprovava seis Resoluções condenando Israel.
Que "para variar" só ficaram na palavra.
Arafat pediu ajuda - soldados da Força de Paz para garantir a segurança de seu povo e para proteger suas fronteiras - mas a ONU disse estar de mãos amarradas pelos Acordos assinados (como se Israel os respeitasse).
No dia 04 uma ONG internacional publicou um relatório indicando que desde os Acordos de Oslo em 1993, o número de alojamentos nas invasões judias na Cisjordânia aumentara 50%. A informação foi pública, mas o barulho das metralhadoras e das bombas abafaram a má-notícia sobre a proliferação dos assentamentos-colônias, que segundo os Acordos de Oslo deveriam ter sido extintas. Poucos deram ouvidos a estes dados que também explicavam o porquê da Intifada.
No dia 06 o Banco Mundial ofereceu ajuda financeira de emergência à Autoridade Palestina para que Arafat pudesse lutar contra a crise e os estragos, mas o dinheiro tinha de seguir a via israelense estipulada nos Acordos de Oslo, portanto...
Shimon Peres, um dos artífices deste negócio financeiramente vantajoso, movia as peças de seu xadrez político em Tel Aviv para voltar ao poder, mas o partido Meretz, de esquerda, bloqueou sua passagem.
Do outro lado da Linha Verde, Arafat, cada vez mais desesperado com a hecatombe do seu lado, apelou para o presidente da França e Jacques Chirac cutucou Londres para que propusessem juntos ao Comité de Segurança da ONU o envio de observadores militares à Palestina.
Esperavam que desta vez Bill Clinton pensasse bem, agisse como presidente da maior potência do mundo (então) em vez de fantoche, e não vetasse a iniciativa europeia de averiguar a verdade com imparcialidade.
Esperaram em vão até o fim de seu mandato. 
No dia 18, por oposição de Israel os Estados Unidos submergiram todas as medidas de ajuda no terreno, provocando a ira dos europeus com sua política de dois pesos e duas medidas cada vez mais prejudicial à paz e pelo menos a uma trégua que permitisse o diálogo.
Apesar de negar ajuda de uma Força da ONU para solucionar o problema, Bill Clinton continuou a divagar. Obstinado em deixar sua marca, propôs um novo planode paz  sem se preocupar com os motivos do conflito que pretendia solucionar no papel, mesmo sabendo quanto os documentos eram ineficazes e que só ele poderia conter o país que apadrinhava.
Como era de se esperar, esta última reunião de cúpula marcada para o dia 28 foi cancelada porque Arafat e Barak discordavam, por motivos diversos, do plano proposto pelos EUA.
O israelense recusava a soberania palestina na esplanada da mesquita al-Aqsa e o palestino não queria renunciar ao retorno dos refugiados.
Por outro lado, Barak continuava sua caça às bruxas.
No último dia do ano soldados da IDF executaram o médico Sabet Sabet, membro eminente do Fatah, amigo de Arafat e diretor geral do ministério palestino da Saúde. Sabet foi morto em Tulkarm, no norte da Cisjordânia, quando caminhava perto de casa.     O baque foi forte para Arafat, por causa da ousadia e do despropósito da execução sumária de um alto funcionário, embora no dia 15 os israelenses tivessem assassinado em um checkpoint Hasni Abu Bakr, membro eminente do Hamas, em uma sucessão de assassinatos de ativistas palestinos.     Até balearem Sabet Sabet, nenhuma autoridade pública e próxima de Arafat fora visada.     A revolta do líder palestino seria maior ainda quando se desse conta que este era apenas a primeira de uma série de execuções sumárias de dirigentes da OLP.     Campanha que provocaria também derramamento de sangue israelense nas respostas militares dos movimentos de resistência brutalmente amputados.

"Yesterday, the City of Nablus began the rehabilitation and renovation of the demolished parts of 'Josephe's Tomb'... It is important to note that heavy damage was caused to the tomb and to a large number of nearby structures during these disturbances, in the wake of the shootings by the occupation forces which are concentrated on Mounts Grizim and Eival, and because of their use of heavy machine guns."
Publicado no jornal Al Ayyam em outubro de 2000, após a destruição do Túmulo do profeta judeu Joseph por uma multidão palestina.   

Reservista da IDF, Forças israelenses de ocupação,
Shovrim Shtika - Breaking the Silence 2
Global BdS Movement: http://www.bdsmovement.net/


domingo, 15 de julho de 2012

Um passo pra frente na Líbia, um pulão pra trás no Paraguai


Depois do Egito, no dia 07 foi a vez dos líbios votarem no homem que vai estabelecer a democracia e governar o país...
Que país? A Cirenaica, a Tripolitana, Fezzan, as três regiões juntas ou nenhuma?
Governar o norte e o sul em uma democracia será (seria?) como governar espartanos e troianos na mitologia antiga contada nos versos de Homero e Virgílio, ou então governar a Grécia e a Turquia brandindo a mesma bandeira, hoje em dia.
O Conselho Nacional de Transição (CNT) que conduziu a Líbia a sucateando até e após a execução brutal de Gaddafi no dia 20 de outubro do ano passado, ao definir o futuro que o pleito daria aos compatriotas especificou que este ato simples de pôr tinta no dedão (para evitar fraude) e fazer uma cruz diante do nome de seu candidato na cédula eleitoral era o início do processo de criação de um sistema político novo e justo.
Para isto, estabeleceu uma representação proporcional com duzentos assentos na Assembleia em uma matemática que desagradou logo os cirenaicos - estes ficaram com 60 cadeiras, Fezzan com 40 e as outras 100 ficaram com a região Tripolitana, que para muitos cirenaicos foi derrotada junto com Gaddafi.
Talvez tivesse sido melhor dividir o país nesta oportunidade.

Vários intelectuais cirenaicos pediram o federalismo enquanto muitos das classes populares queriam mesmo era gritar basta de exclusão e de cidadania de segunda classe.
Durante os 42 anos de regime de Muammar Gaddafi a Cirenaica foi deixada para trás com a centralização do poder em Trípoli e as reservas petroleiras do leste foram sistematicamente exploradas em benefício da região tripolitana, da família e dos íntimos do "imperador da África".
Os cirenaicos se vangloriam de terem instigado a revolução anti-Gaddafi e estão frustrados por não terem colhido os louros que esperavam. Acham que os novos decretos beneficiam mais o oeste do país - com verbas para a educação e oportunidades de trabalho, como na época de Gaddafi.
Durante a "rebelião" eu disse e repeti que os líbios não são um povo uniforme e o Estado líbio - como a maioria dos países da África - é mais uma fabricação europeia decorrente das divisões aleatórias feitas no processo colonial nos séculos XIX até meados do século XX do que uma nação ligada por cultura e amor nacional.
O espaço territorial chamado Líbia reúne três povos  - desunidos e de culturas distintas - originários de três regiões que são Tripolitana, Cirenaica e Fezzan.
O bom senso deveria ter levado o CNT a aproveitar a "revolução" para dividir o país em três, com governos distintos, autônomos e soberanos para dar à população uma chance maior de conviver em paz como vizinhos, talvez até como amigos.
Viver em uma mesma nação unida e indivisível é pedir muito, talvez demais. Um pouco como a Iugoslávia pós-Tito quando em poucos anos a unidade que ele mantinha com autoridade e carisma desmoronou e virou um cada um por si em que bósnios, croatas, sérvios, kosovares pareceram acordar do sonho em que conviviam até como amigos para a realidade do que os separava ser mais forte do que o que os unia em Estado único.

No caso da Líbia, os três países potenciais que a compõem são separados por grandes espaços de terra e água. Sendo que a maior reserva subterrânea do "ouro azul" fica em Fezzan.
Embora os povos compartilhem a mesma religião - predominância muçulmana com 2% de cristãos e 1.3% de outras religiões - historicamente a Cirenaica tende a voltar-se para o Mashreq ou seja, o mundo islâmico oriental, enquanto que a Tripolitana tende a voltar-se para o Maghreb ou seja, o mundo islâmico ocidental.
Fezzan, que é maior do que as duas outras, mas se estende no deserto do Saara com sua areia indomável,  está mais voltada economicamente para os países da Africa ocidental do que para a Tripolitana ou Cirenaica.
O rei Idris Sanussi da Líbia, deposto no golpe militar de Gaddafi, governava apenas a Cirenaica. Foram os britânicos que lhe ofereceram de presente as duas outras regiões após a Segunda Guerra para que fosse Emir do conjunto pré-fabricado conhecido como a Líbia atual. Em reconhecimento ao seu apoio aos aliados.
Quando Gaddafi o destronou o povo inteiro seguiu o Coronel com menos ou mais boa vontade, porém nesses 42 anos a Cirenaica nunca esqueceu o rei deposto em 1969. Muitos lá acham que Gaddafi punia a região por causa do apoio desta a Sanussi. O que talvez não fosse tão errado. Além do ressentimento de Gadaffi pelos danos que o Emir também causara aos tripolitanos, naquela velha valsa de discórdias ancestrais.
O CNT e o presidente eleito que segue a mesma linha apostam em uma Líbia como a que Gaddafi mantinha. Continuam contra a ideia de Federalismo e com a a ilusão de uma grande Líbia. Muitos discordam e acham que só há duas saídas para a concórdia. Divisão pura e simples ou o Federalismo semi-autônomo. Menos como o Brasil e mais como os Estados Unidos em que os estados têm até leis próprias e razoável autonomia.
Em vez de escutar as ruas, o presidente do CNT Mustafá Abdel Jalil, ex-ministro da Justiça de Gaddafi, disse que usaria até a força para preservar a (sua ideia de) unidade.
A elite de Trípoli também rejeita a ideia de federalismo com o argumento que a partição da Líbia poderia ter consequências negativas, inclusive eventuais conflitos inter-regiões sérios - já que os "rebeldes" estão longe de deporem as armas que lhes foram dadas de mão beijada.
Mas as ruas parecem querer mesmo a separação ou no mínimo o federalismo.

Atual divisão distrital da Líbia
Contra a opinião contrária de líderes das regiões por temerem ser deixados de lado, outros por ignorarem o clamor das massas e a maioria por pavos dos trinta e três líderes tribais aproveitarem a deixa para impor leis unilaterias e ficarem com o poder real em detrimento dos partidos políticos.
Segundo o historiador Ronald Bruce St John, na antiguidade, o povo de Cartago na região tripolitana ocidental e o povo da Cirenaica do outro lado "concordaram em traçar uma fronteira entre suas esferas de influência onde corredores de ambos os lados se encontrariam" justamente no meio do caminho no Golfo de Sirte. Perto de onde as passeatas contra o CNT brotaram por ocasião do anúncio da divisão de cadeiras na Assembleia.
É onde os "separatistas" acham que a fronteira deveria ser estabelecida.  
Para evitar que tais ideias criem asas o CNT colocou barragens nas estradas litorâneas que conectam o leste e o oeste impedindo a passagem de veículos militares e tráfico comercial até o presidente eleito conseguir controlar todo o território.
O homem no poder agora é o doutor em Ciências Políticas (Universidades de Princeton e Pittsburgh nos EUA) Mahmud Jibril, membro do CNT e fundador do National Forces Alliance, NFA, o partido que o levou ao poder. Ele nasceu há 60 anos em El-Beida - terceira cidade líbia, segunda da Cirenaica e a com a maior reserva hídrica natural (400 a 600m pluviais de precipitações anuais - grande vantagem em um país em que o deserto ocupa mais de 90% da superfície).
Jibril foi o presidente do serviço de Desenvolvimento Nacional no governo de Muammar Gaddafi. Ele quer a Líbia una e indivisível. É ocidentalizado e pragmático, como toda a elite local que formou-se fora.
Tomara que consiga desenvolver uma Líbia majoritária à sua imagem.
Por enquanto a atividade das tribos e as armas espalhadas por todo lado em mãos de pessoas incontroláveis levam a pensar que sua tarefa será árdua.
"Fazemos um apelo honesto a um diálogo nacional para que juntos formemos uma coalição governamental com uma bandeira única... a fim de encontrar um compromisso, um consenso em que a Constituição seja escrita e um novo governo possa ser formado. Nestas eleições não houve nem perdedor nem vencedor.  A Líbia é a única vitoriosa," disse o presidente eleito.
Inch'Allah!


No nosso continente, logo que Fernando Lugo foi eleito para a presidência do Paraguai ouviu-se fortes rumores de insatisfação em Washington.
Porém, como estamos no século XXI e o Paraguai está na esfera de domínio latino-americano, e do Brasil, os contra-rumores de um eventual apoio ou incentivo a um golpe para derrubá-lo foram descartados de maneira até irônica: Foi-se o tempo em que os países latino-americanos eram repúblicas bananeiras à mercê dos gringos!
Ironia à parte, aconteceu o inacreditável.
Não há nenhuma prova que os Estados Unidos estejam por trás do golpe-disfarçado que derrubou o presidente paraguaio eleito democraticamente, mas os criminologistas repetem sem parar que para encontrar o culpado de um crime há de se procurar primeiro quem leva vantagem no delito.
No caso, um nome aflora a todos os lábios: os gringos são os únicos que têm algo a ganhar ou pelo menos, algo a não perder, além do amor próprio ferido.
As revelações do WikiLeaks que funcionários estadunidenses estavam contrafeitos com o distanciamento do presidente paraguaio do "comando sulista dos EUA" também bota a pulga atrás da orelha.
Primeiro foi o discurso "socialista" de Fernando Lugo que desagradou os Estados Unidos e ofendeu sua convicção do seu sistema ter de prevalescer no mundo.
Segundo porque antes do padre Lugo assumir o poder, Washington ofereceu "ajuda humanitária" ao "pobre Paraguai" em troca de apoio contra Hugo Chavez e uma ameaça velada de que se Assunção não aceitasse tropas dos EUA em solo paraguaio, perderia os milhões da ajuda "humanitária".
Quem diz humanitária, diz desinteressada. Ou a semântica anda errada?
Tais tratados pareciam desnecessários, já que por incrível que pareça o Senado paraguaio aprovou em maio de 2005 a entrada de tais tropas estrangeiras (com alguma "compensação" privada?) e quatrocentos marines foram transferidos para solo paraguaio em rodízio de semanas ou meses dos batalhões lá estacionados.
Este programa de "cooperação" chamado New Horizons consiste, no papel, de exercícios de treinamento médico. 
O ativista de Direitos Humanos Orlando Castillo diz que o treinamento médico é na verdade uma simples operação de observação dos líderes rurais considerados perigosos na ótica do Pentágono.
Aliás, "no State Department não parece haver nenhuma menção de fundos para trabalho médico no Paraguai. Há menção de fundos, dobrados, mas para contra-terrorismo."
Terroristas no Paraguai?!
Calminha... Em linguagem gringa, terrorista é todo aquele que não diz Amém ao seu Way of Life. Podemos dormir tranquilos. Não tem ninguém querendo explodir os nossos vizinhos.  
Enfim, podíamos dormir tranquilos até o golpe-impeachment de Fernando Lugo. Por que mesmo ele foi destituído? Nem vale a pena mencionar.
Agora temos os marines US à nossa porta. Em nosso quintal Paraguaio. De lá para o Mato Grosso e o Paraná é um pulo.  
Dilma, cuidado! Você sabe que a Operação Condor começou assim. Primeiro em um país e depois se alastrou pelo Cone Sul inteiro! (É brincadeira, sem graça; já estamos emancipados e os EUA nos devem dinheiro demais para nos atacarem com as armas que os nossos empréstimos certamente ajudam a financiar - a não ser que queiram livrar-se da dívida com um calote golpista ... Um a mais ou a menos, para eles tanto faz.)   
Barack Obama não se conforma com a decadência vertiginosa em que seu império se encontra e anda fazendo uma bobagem geopolítica atrás da outra. O Brasil está ao abrigo, pois a Casa Branca é míope mas não é destemida. Não ao ponto de cutucar onça com varetinha. O Paraguai é outra história, outro tamanho e outra medida.
Quando o teólogo e bispo católico Fernando Lugo foi eleito (em abril de 2008) deu fim à hegemonia do Partido Colorado que só não governou o Paraguai entre 1904 e 1946. O ditador Alfredo Stroessner (1954-89) reforçou ainda mais esta hegemonia.
Até perderem o governo para Fernando Lugo que prometeu realizar reforma agrária dentro dos marcos constitucionais, ampliar o sistema de seguridade social e lutar pela soberania energética do país.
Enfim, programa perigosíssimo para as elites dominantes e a corrupção reinante.
Ao ser eleito Lugo logo mostrou a que vinha respondendo mal a um possível Acordo de Forças Militares com os EUA e a outras investidas político-militares da Casa Branca via Embaixada.
Aí os EUA ficaram "extremamente desapontados" com a defecção paraguaia.
A estratégia EUA no Cone Sul não é segredo para ninguém que segue a Política Internacional, a paranóia de Washington (porque em vez de amigos só faz inimizades ou amizades pontuais interessadas) e sua obsessão em controlar tudo e todos em benefício próprio.
A decadência não os impede de continuar dando murro em ponta de faca. Aliás, é uma das razões da bancarrota, mas os gastos bélicos continuam aumentando como se desse para conseguirem comida e água pela força das armas.
Suas reservas naturais, sobretudo de água, foram tão mal exploradas na indústria selvagem que na região dos grandes lagos na fronteira com o Canadá já precisam fazer malabarismo para conseguir água potável. Daí a caça às reservas alheias que há anos assediam.
 
O nosso Brasil possui tudo o que eles gostariam de ter eternamente e estão desfalcados. Os olhos dos tecnocratas estadunidenses brilham quando falam nas doze bacias hidrográficas que constituem nosso patrimônio de 13% da reserva hídrica de água doce do planeta. Mas nisto ninguém tasca!
O crescimento do Brasil e a soberania demonstrada pela Dilma convenceram o Pentágono a nem tentar tocar diretamente na nossa bacia do Tietê-Paraná. Imagino que o Planalto ou o Itamaraty já tenham deixado claro que não tomaram o que é nosso de direito e de fato nem ocupando o Paraguai, nem com a cumplicidade do governo de Santiago.   
Digo Santiago porque o embaixador dos EUA no Chile sugeriu a Washington que estreitasse relações com líderes regionais que "compartilhassem suas preocupações em relação a Hugo Chavez."
Pois, como se sabe, os EUA morrem de medo de Hugo Chavez.
Com Fidel Castro com os anos contados, o novo bicho papão latino-americano é o venezuelano abusado que não perde a oportunidade de ridicularizar a Casa Branca e às vezes até de dizer em voz alta o que o mundo inteiro cochicha com sarcasmo.
O Pentágono quis por tudo instalar uma base militar na região do Chaco argentino, que faz parte do Grande Chaco que engloba terras argentinas, bolivianas, paraguaias e brasileiras - ao sul do Pantanal. A negativa peremptória de Cristina Kirchner fez com que Barack Obama procurasse outra saída e foi aí que o Paraguai foi cortejado com agressividade. Por ser o mais fraco do território e nosso vizinho íntimo em um trânsito fronteiriço carregado.
Washington queria esta base porque com a mudança de presidente do Equador, o novo, Raphael Correa, botou os militares gringos para fora de Manta, sua cidade costeira que os uniformes dos marines tingiam de cores estrangeiras.
O único cúmplice que os Estados Unidos tem no Cone Sul é o Chile, que abriu... os braços, e autorizou mais uma base estrangeira em casa. Aliás a amizade entre os dois países data da era negra de Pinochet e dos Chicago Boys. A democracia não inverteu o processo de submissão e dependência que marcava a ditadura militar que a Operação Condor instalara e apadrinhara até não poder mais.
Não sou especialista em Chile e só conheço este belo país como turista, mas dói-me a alma vê-lo prestar-se ao papel de vassalo dos Estados Unidos. É pena que suas elites não tenham mudado nem aprendido as lições do passado.

Falando em bases militares. Os Estados Unidos têm 800 espalhadas pelo planeta Terra em lugares estratégicos.
A América Latina abriga vinte e duas delas. Todas subordinadas a um departamento do Pentágono chamado Southern Comamnd - como se os nossos países fossem uma extensão do deles.
O Southern Command faz parte dos cinco comandos militares mais importantes dos Estados Unidos. É encarregado de nos vigiar, espionar e controlar noite e dia.
Seu Quartel General foi no Panamá de 1903 até 1999, depois foi transferido para Miami em 2000 com um plano militar de controle "sub-regional" que usa operações tecnológicas de ponta chamadas FOL (Forward Operation Location) - centros de "mobilidade estratégica" e "usos de força decisiva" com bases, rápido transporte aéreo e mobilização de tropas.   
Na América do Sul estamos cercados por todos os lados, mas os dois países mais EUAmilitarizados são a Colômbia e o Chile.
Aliás no dia 05 de abril deste ano os chilenos acolheram outro batalhão norte-americano em Concón, na base naval de Aguayo.
Os Estados Unidos forneceram U$460.000 para a construção e o treinamento consiste da doutrina dita Military Operations on Urbanized Terrain (MOUT). Uma daquelas doutrinas às quais Golbery do Couto e Silva era chegado.

Falando na eminência parda dos generais que nos governaram durante os 20 anos ditatoriais, a Escola das Américas (School of the Americas - SOA), criada no Panamá em 1946 e atuando hoje no Forte Benning, na Georgia, até 2004 formara 61.000 latino-americanos em técnicas de combate, tática militar, inteligência e técnica de tortura.
Muitos deles sujaram o Cone Sul de sangue durante as ditaduras orquestradas pela Operação Condor.
O agora chamado Institute of Hemispheric Cooperation continua formando cerca de mil para-militares latino-americanos por ano.

A base militar estadunidense mais famosa é a de Guantánamo, em Cuba, localizada só a 64 quilômetros de Santiago, segunda cidade do país e a 920 km de Havana. Como se sabe, foi apoderada pelos EUA em 1903 e há anos funciona como centro de tortura e prisão sem julgamento. Obama prometera fechá-la, mas ela continua. 
A base militar em Manta, que o Equador está fechando, abriga o centro eletrônico de espionagem de satélites do Pentágono. De lá saíam diariamente aviões espiões Orion C-130 armados em controle de rotina de terras e ares. É crucial na estratégia de missões de inteligência estadunidense.
Dizem que é esta que Washington quer transferir para o Paraguai, já que falhou Chaco.
A base de Comalapa em El Salvador é pequena. É usada para monitorar satélites e como apoio à Manta que está sendo desativada.
As demais bases da América Central - em Honduras e Costa Rica - são centros operacionais de radar e de apoio de missões aéreas.
É a partir da Colômbia que o sapato aperta. Nos últimos 12 anos recebeu cerca de U$5 bilhões de dólares em ajuda militar. Por isto autoriza sete bases militares estadunidenses pesadas (conhecidas) que operam em seu território colombiano e abrem as asas sobre nós e os venezuelanos. Além destas, compartilha com o Pentágono pelo menos as cinco ao lado.
A Arauca é oficialmente destinada ao combate do tráfico de drogas, mas é de fato um ponto estratégico para monitorar a região petrolífera na Colômbia, na Venezuela e a reserva amazônica.
A base de Larandia serve aos helicópteros. Suas pistas acolhem operações de bombardeiros B-52 com alcance além do território colombiano. Cobre o espaço aéreo de quase todo o nosso continente.     
A base Three Corners também na Colômbia serve para operações de terra, ar e água e virou um ponto estratégico contra as guerrilhas, base permanente de armas, logística de estratégia militar e tropas de combate.
Dizem as más línguas que na Colômbia tem até armas nucleares gringas. Apontadas para onde, os vizinhos?
Há poucos meses a Colômbia recebeu a visita do chefe da CIA David Petraeus, do secretário da defesa dos EUA Leon Panetta.
O ex-primeiro ministro e atual ministro da defesa de Israel Ehud Barak também esteve por lá para "estreitar a cooperação militar" com um interesse particular na base de Tolemaida, pertinho de Bogotá. Vira e mexe recebe a visita de ativistas que querem ver os marines e os israelenses pelas costas e longe de lá.
A relação militar entre a Colômbia e Israel começou a ser estreitada na década de 80. A Indumil colombiana produz inclusive uma versão do fusil Galil israelense - que é "inspirado" na famosa AK47, criada pelo engenheiro russo Mikhail Kalashnikov durante a Segunda Guerra Mundial e desde então copiada e traficada em todos pelos mascates da morte onde tiver conflito. 

O Peru (soldados ao lado armados do Galil) autorizou duas bases estrangeiras em Iquitos e em Nanay. Pertencem às Forças Armadas peruanas, mas foram construídas pelos Estados Unidos e são usadas pelos marines que operam na Amazônia peruana. Isto porque no final das contas, os Estados Unidos cobiçam mesmo são os nossos recursos naturais. Sobretudo o petróleo e a água.
Pois embora os brasileiros estejam fascinados com a China, suas práticas escravas e seus meios de enriquecimento ilícito mundo afora, só dois países dos BRICs têm futuro assegurado.
Apenas Rússia e Brasil têm fôlego para manter hegemonia a médio e longo prazo porque são os únicos em que os recursos naturais que a China (Tibete) e a Índia (Kashimir) têm de predar além de suas fronteiras legais abundam.
Nossos recursos naturais, os tesouros que o pulmão amazônico abriga, o petróleo que jorra e a ainda mais preciosa reserva hídrica (bacias à direita) são invejados e cobiçados pelo resto do mundo de maneira mais ou menos agressiva.
Mas a ABIM - Agência Brasileira de Inteligência, o serviço secreto tupiniquim que parece ser eficiente, sabe de tudo isto melhor do que eu e deve estar tomando as devidas providências para os marines, seus aviões espiões e seus piratas ficarem fora das nossas fronteiras.